Ainda Hortênsia Bussi Soto de Allende

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4 de Novembro de 1970, assume o seu cargo o Presidente Salvador Allende, com Tencha, a Primeira-dama

dedico o texto ao meu irmão mais novo, o Engenheiro Florestal e Agrónomo, que hoje está de aniversário, amante de História como ciência, licenciatura que também cursara com proveito, Presidente das Juventudes comunistas do Chile, antes, hoje em dia Conselheiro do PCCH…

A primeira Parte deste texto foi enviada ao sítio que corresponde. Reescrevo este outro, sobre os mesmos factos, para demonstrar, comparando textos diferentes, sobre factos semelhantes, como a História se engana nos factos.

A imagem que escolhi é do dia 4 de Novembro de 1970, data da tomada de posse do cargo de Presidente da República do Chile, do médico socialista Salvador Allende, como a mulher que sempre o acompanhou ao longe da sua vida, nomeadamente durante as campanhas políticas da sua vida, desde Deputado a Senador e nas quatro corridas  para a presidência da República. Foi a Tencha, alcunha dada pelo povo a hoje Primeira-dama, que o fez triunfar e ser eleito para o cargo. Fez, como era habitual desde os seus vinte anos ela, com vinte e quatro anos ele, quem o ajudara a governar, uma compincha amante do seu marido até o delírio, e vice-versa. As adversidades de governar, eram saradas pela sua mulher, a sua eterna embaixatriz em todos os sítios necessários, dentro e fora do Chile, arrecadando popularidade e apoio humano e económico, que permitiram esses quase três anos de Presidência.  O acompanhou até no dia do seu forçado suicídio, sem poder estar com ele na morte, por que essa única ditadura chilena, de uma República libertada a sangue e fogo em 1810-1818, não o permitira.

Quando escrevi este texto, estávamos em campanha para renovar a Assembleia Legislativa de Portugal. A data, os desencontros entre governantes, fizeram pensar que há exemplos uma vida que devemos entender para nunca imitar, como o forçado suicídio do Presidente Allende, a elite da povoação que incentivou esta morte e a de muitos outros e o exílio eterno de um milhão de chilenos, entre esses, eu.

Quem era a Tencha para ser o pendor da liberdade, esse exemplo para o mundo e a minha nova segunda Pátria, Portugal, transferido para estas bandas pelo convite do, então, ISCTE, hoje ISCTE-IUL.

A Tencha foi a salvadora do povo. A companheira do seu marido. A sustentável leveza do ser. A campeã dos Direitos Humanos. A advogada dos pobres. A Presidenta do CERNAME (Centro de Recuperação Nacional da Mãe e da Criança). A exilada. A Primeira-Dama. A professora dos pobres. A pobre que foi Primeira-Dama. A mulher fiel ao seu marido traquina e infiel. A gata borralheira. A mais activa na luta contra a ditadura. A viúva de um Presidente martirizado. O monumento histórico do Chile. A mulher impossível de olvidar, de desaprender. A arqueóloga coleccionadora de antiguidades, mapas e excelente educadora da sua família na procura de esse quem somos nós, para onde é que vamos. A lutadora que, por causa de doença, falou em público, pela última vez, a 26 de Junho de 2003 para comemorar o aniversário do seu marido, que faria, nesse dia, 95 anos de idade. A escoliose mal lhe permitia andar. Tantos títulos possíveis para um pequeno comentário como este.

O funeral de Tencha, amigos ela e eu desde o nosso convívio em Cambridge, era para ser privado por ordem da Senadora, sua filha. O povo não o permitiu e foi levada desde o antigo Congresso Nacional, visitada por uma multidão que a levara a ombros ao pé do sítio em que descansava o seu marido. Mais tarde, foi organizado o Altar da Pátria, em donde os dois dormem o sono eterno, com as lembranças dos seus apoiantes vivos.

Algures, a 20 de Junho de 2009- Readaptado na Parede, 4 de Abril de 2011, e reescrito a 25 de Setembro do mesmo ano. O texto II é fundamentalmente diferente ao de Abril. Os historiadores podem-se enganar, mas há o que com simpatia corrigem, motivo da quase diferente narrativa dos anteriores e com mais factos e dados. Tencha vive, como Salvador, na alma do povo chileno, ou no estrangeiro ou dentro de Pátria amada.