Mohamed Bouazizi, prémio Sakharov

Toca-me, e muito, podem entender lendo a sua carta/poema de despedida:

Parti em viagem, mãe. Perdoa-me. Acusações e culpa
de nada servirão (…)

Mesmo que a direita já tenha começado a ganhar eleições, o simples facto de chegar ao poder por via eleitoral, e não através de golpes de estado como já lá estava na sua versão nacionalista, é muito bom. Foi assim que ao longo do século passado as coisas começaram a melhorar na Europa e noutras partes do mundo. A História faz-se devagar, mas existe.

Comments


  1. É realmente assombroso o efeito que o papel de héroi, seja em que circunstância for, seja em que país for, tem sobre o ser humano. Aquele que esbanja a vida, que de outra coisa não se trata, em nome de glórias vãs inventadas pelo homem – como sejam morrer pela pátria, morrer pela ideologia, morrer por um deus – é para mim um ser humano incompleto. Incompleto em compreensão, em sensibilidade, em conhecimento da verdadeira natureza humana. É um ser que não se apercebeu ainda de que não existe facto ou ideia ou crença à face da Terra que justifique o fim voluntário da vida. Demais a mais, é este tipo de fundamentalismo que gera o conflito, que incendeia o ódio, e principalmente que permite a existência da manipulação de massas. É este tipo de atitude que inequivocamente deixa transparecer o estado básico e ignorante em que se encontra a grande percentagem de seres humanos.


    • Desculpe Isabel, mas neste caso a morte não foi em nome de nada disso. Apenas um acto solitário de desespero como única forma de enfrentar a ignomínia. Por isso mesmo um acto de muito coragem.


      • Desculpe-me João José, mas para mim é o mesmo! E desculpe-me também as perguntas que se seguem: desde quando suicídio é coragem? Desde quando fugir às dificuldades é coragem?
        Coragem é enfrentar as vicissitudes da vida, é vencer as dificuldades que nos vão aparecendo, é persistir na sobrevivência “against all odds”! Isso sim, é ter coragem e é ter inteligência!


        • Deixando de lado o que penso sobre cobardia e suicídio em geral, tem a certeza que viu bem as circunstância em que Mohamed Bouazizi o praticou, e o que escreveu antes de o fazer?


          • Tenho a certeza sim. E, com o devido respeito, digo-lhe ainda mais: para mim esse acto continua a ser um fundamentalismo bárbaro baseado na ignorância mesmo que tivesse deixado escrita, como despedida, uma epopeia do calibre dos Lusíadas ou um qualquer romance de fazer chorar as pedras da calçada!

    • clara says:

      para mim, um ser humano incompleto é o que não consegue compreender o desespero ou a felicidade do outro, que não consegue atingir que a “vida” para uns´é vivida, para outros é sofrida; que não tem a humildade de pensar que aquele homem, se calhar só quis morrer, porque nunca vivera, sofrera. para mim, um ser humano incompleto, não consegue perceber que às tantas, aquele rapaz não via perspectiva, na humilhação permanente da sua existência, de um dia acontecer de VIVER.