É preciso contratar mais cem mil professores

A afirmação que serve de título a este texto é tão leviana como as afirmações proferidas por José Manuel Fernandes, habitual produtor de leviandades, sobretudo quando escreve sobre funcionários públicos, essa subespécie do gorgulho.

Vamos por partes:

a) Não me lembro de ter ouvido alguém dizer que o Ministério deveria arranjar empregos a professores, mesmo que se verificasse que estes não são necessários.

b) Para a cabecinha simplória de JMF, o aumento do número de alunos por turma, a criação de mega-agrupamentos e a revisão curricular são “medidas destinadas a gerir melhor os recursos humanos”, quando deveriam ser medidas destinadas a beneficiar os alunos. É claro que um tudólogo básico como JMF tenderá a ignorar os múltiplos avisos feitos pelos professores e outros especialistas, porque estes limitar-se-ão a uma defesa corporativista da sua vidinha.

c) Mais uma vez, como muitos antes dele, JMF descobre a roda sob a forma da diminuição da natalidade, efeito de tal modo esmagador que seria suficiente para que, já, aqui e agora, se tornasse indispensável despedir professores. Já Passos Coelho tivera uma ideia semelhante, com a célebre natalidade negativa, quando defendeu a emigração dos professores excedentários. O problema é, como de costume, a realidade.

d) Logo a seguir, faz umas contas habituais, que confessa serem “grosseiras”, sobre o rácio professores-alunos. Santana Castilho, entre outros, já o tinha alertado para o simplismo em que incorria, mas JMF tem a capacidade de não (querer) aprender.

e) Termino com um tema lateral, também ele tratado com a ligeireza típica e consubstanciado num truísmo que só serve para esconder a realidade: a decisão de não se ter mais filhos não coube a nenhum governo. No entanto, é fácil perceber que a baixa de natalidade está, evidentemente, relacionada com a degradação da qualidade de vida causada pela incompetência de vários governos.

Opiniões como estas não seriam preocupantes se se limitassem a alguns ex-directores de jornais que prescindem da investigação e do pensamento. O problema reside no facto de que somos governados por quem toma decisões com base neste mesmo pensamento básico, limitando-se a partir de uma quantia que é preciso poupar, sem haver estudos e sem se ouvir os especialistas. Ao mesmo tempo, não se perde tempo a pensar no modo como, há anos, os mesmos e os outros que são os mesmos andam a tirar da caixa registadora para pagar almoços aos amigos. Para que o banquete continue, é preciso aumentar o número de alunos por turma: só assim poderão as PPP continuar a prosperar.

Entretanto, a Educação continuará a deteriorar-se, o que é inevitável quando se tomam decisões de modo intempestivo e flutuante.

Comments

  1. maria celeste ramos says:

    Metade para dar aulas de muita coisa a governantes e autarcas e deputados e daria muita dor de cabeça a cada professor

  2. nightwishpt says:

    A destruição do sistema de ensino é um excelente incentivo a não reconsiderar a minha vontade de ter descendência.

  3. chatice says:

    De facto, o melhor castigo que podemos dar aos corruptos é mesmo aturarem-se uns aos outros, estou certo que será divertido.

Trackbacks


  1. […] sobretudo, sobre tudo e, portanto, nada diz que se aproveite. Recentemente, tive oportunidade de comentar uma das suas pérolas, em que, usando doses gigantescas de marialvismo leviano, comentou o fenómeno do desemprego […]


  2. […] e o fascínio pelas médias, para insinuar que não serão necessários mais professores. A linhagem a que pertence o actual director do Público gosta de dizer que o Ministério da Educação não tem de ser uma agência de empregos que garanta […]

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