Esquerda – destinada a perder?

No Público de hoje, Maria de Fátima Bonifácio assina um texto, a Impotência da Esquerda Radical, que longe de ser integralmente subscrito por mim, levanta uma questão essencial: se nós, eleitores de esquerda, defendemos uma sociedade que é mais justa, mais solidária, mais equilibrada, etc, etc, etc, como é que estamos sempre a perder? Porque é que os eleitores não votam à esquerda?

Serão, como diz MFB, as propostas de igualdade algo que o eleitor não quer? Será que cada um dos potenciais decisores, no momento do voto, prefere o seu IPAD ao sistema nacional de saúde para todos? Será que o LCD é, na urna, mais valioso que o sistema educativo para todos?

Será que podemos também ganhar?

Ou será que vamos perder sempre?

Comments


  1. Diz-se que quem é de esquerda é defensor dos mais fracos e oprimidos, se efectivamente se reconhece que a esquerda defende os trabalhadores e o Povo em geral, e a direita os interesses do capital, porque raio hão-de os militantes de esquerda a fazer partidozinhos para dividir essa mesma esquerda, a meu ver o objetivo não será tanto o de garantir uma politica verdadeiramente de esquerda, mas sim facultar à direita a sua perpectuação nas esferas do poder.

  2. jorge fliscorno says:

    O tema é interessante mas ir pelos iPad e pelos LCD não me parece o melhor caminho. Então e porque não as festas de Santo António e de S. João? Será que no momento do voto, o eleitor não as prefere a uma justiça que funcione? E uma bela estrada alcatroada não traz mais votos do que contas em dia? E subsídios, como na parábola de dar o peixe versus ensinar a pescar, não cativam mais do que suor? E a selecção da bola não gera mais popularidade do que qualquer livro? O caminho do luxo burguês é curto mas sinuoso.

    Eu, seguramente, não quero igualdade. Quero que o meu esforço se traduza em diferença. Eu quero poder trabalhar quanto queira para não ser igual. Igualdade é nivelar por uma mesma bitola e, já se sabe, se a fasquia é alta tem que se nivelar por baixo.

    Concordo com MFB quando ela justifica as escolhas materiais dos eleitores dizendo que «está na natureza dos homens, que a Esquerda encara erradamente como um produto transitório de um sistema social defeituoso». Acho que a esquerda defende uma sociedade utópica constituída por seres idealmente perfeitos que fazem o que têm que fazer e que aceitam receber apenas o que merecem. Mas a ambição é humana e real. Quando a esquerda condena o lucro, a propriedade privada e os luxos ditos burgueses, a esquerda está a condenar a ambição, assim negando a natureza humana.

    A génese da esquerda é a igualdade. Mas as pessoas são diferentes. Esta dicotomia é, no meu entender, a razão da esquerda não chegar ao poder.

    • joao says:

      O que aconteceu recentemente nas eleições na Grécia mostra-nos, para não se ir mais longe no tempo, que uma volta no sentido de uma esquerda mais radical é muito difícil.

      Para além das fortes barreiras da comunicação social, o facto de ter estado sempre longe do poder tem retirado a essa esquerda pessoas de referência nos vários níveis da sociedade.

      Complicada, esta situação.

  3. Maquiavel says:

    Fliscorno confunde “igualdade de oportunidades” com “igualdade de resultados”. Nisso é igualinho aos que tanto critica. E essa “confusäo” deliberada é propagada pela Direita, enquanto vai roubando o povo que lhes vota, enquanto engorda os ricos. Ah, porque e tal, no Bloco de Leste… sim, e por analogia o Cristianismo é Cruzadas+Inquisiçäo.
    http://esquerda-republicana.blogspot.fi/2006/10/capitalismo-e-capitalismo-selvagem.html

    A Esquerda a sério que existe no mundo é aquela nórdica, que prima pela “igualdade de oportunidades”. Por isso lá nos Nortes o Ensino é gratuito até ao Mestrado: quem quer estudar até lá tem possibilidade, quem quer tirar curso profissional ou bacharelato também o pode fazer. Estuda-se (só) até onde se quer. Näo é por coincidência que depois nos testes PISA têm as melhores notas!
    O mesmo com o SNS: lá nos Nortes ninguém morre por falta de dinheiro para pagar o médico.
    Esta é a mensagem que a Esquerda tem vindo a transmitir, mas que fazer quando os merdia säo controlados pela Direita, com “analistas” que säo a voz do dono e repetem as mentiras até serem verdade?

    Ai e tal, mas no Norte a cultura é diferente, há a responsabilidade social e tal… pois, mas é que essa responsabilidade social também é ensinada nos bancos da escola!

    Há gente maluca a disparar? Em Portugal também, e mais frequentemente. E em Portugal há Utoyas semanais nas estradas, já nem é notícia!

    A génese da Esquerda é a “igualdade de oportunidades”. E esta näo existe no capitalismo, onde só tem verdadeiramente oportunidades quem já é rico. Infelizmente, é assim.
    O ER esmiuçou bem a “coisa” na série «Falácias da Ética Neo-Liberal»
    http://esquerda-republicana.blogspot.fi/2012/04/corruptos-e-autoritarios.html

    • jorge fliscorno says:

      Eu sou a favor da igualdade de oportunidades. A esquerda defende uma igualdade bem para além disso.

      • Maquiavel says:

        Por “alguma Esquerda” o defender näo quer dizer que toda a Esquerda o faça. Volto a explicar-lhe: Cristianismo näo é “Cruzadas+Inquisiçäo”.
        Näo o sabia täo intelectualmente desonesto!

        Entäo vou entrar no seu cumprimento de onda e dizer:
        Já a Direita defende uma grande diferença… 99% miseravelmente iguais, com 1% da riqueza, e os 1% a mandar neles, com 99% da riqueza! Ah, mas isso é bom, é a tal diferença entre os seres humanos!!!

        • jorge fliscorno says:

          Ó Maquiavel, de nada me interessa a esquerda ou a direita. Há pessoas honestas e pessoas desonestas. Pretender que umas estão na esquerda e outras na direita é que é falsidade intelectual.

          • Maquiavel says:

            Pois essa pretensäo foi você que a fez, desde o início do artigo.

            Nota: é mesmo “pretender” (want) ou é “fingir” (pretend) que quer dizer?

          • jorge fliscorno says:

            Muitas acusações e pouca argumentação. Certamente que conseguem melhor.

  4. joao says:

    O que se passou recentemente nas eleições gregas, para não irmos mais longe no tempo, mostra que quem detém o poder e o tem mantido não o larga democraticamente, apesar das eleições.

    • jorge fliscorno says:

      Nem é novidade. Três exemplos: Fiel, Chavez e João Jardim.

      • joao says:

        Sim.

        O que me choca especialmente, Augusto Pinochet sobe ao poder no Chile através de um golpe militar, em 11 de setembro de 1973, que derruba Salvador Allende, o primeiro presidente socialista eleito democraticamente num país latino-americano.

      • Maquiavel says:

        Sim, sim, Chávez. Que se eterniza no Poder.
        É Presidente desde 1999, já lá väo 13 anos. “Sobreviveu” a 11 referendos (e um Golpe de Estado).
        Entretanto, o democrático Cavaco já tem, ora deixa cá ver… 1985-1995 mais 2006-2016… olha, é fácil, säo 20!

      • Tiro ao Alvo says:

        Não queria escrever Fidel?

        • jorge fliscorno says:

          Sim, Fidel.
          Já que aqui vim, para que é que serve, no anterior comentário, chamar Cavaco aqui ao barulho quando o AJJ, que enumerei, é bem mais exemplar? Se era para me aborrecer, ó santa presunção, disse da figura o que tinha a dizer há muito. Cá no burgo também podia ter evocado com justa causa nomes como Motal Amaral, Isaltino Morais, Fernando Ruas, Maria Emília, Narciso Miranda, … Uns saíram quando lhes apeteceu, outros continuam. Não era, nem é, para ser uma lista de lapas coladas ao poder mas se serviu para descarregar bílis já não é mau.

  5. Konigvs says:

    A esquerda está destinada a perder porque a maioria dos eleitores revê-se nos chicos espertos, nos Relvas da vida e nos que sobem na vida a pulso, quem corrompe e paga luvas e arranja sempre forma de contornar a lei.
    Corria a campanha das presidenciais e eu já dizia que quanto mais atacassem a desonestidade do Cavaco mais ele iria subir nas intenções de voto. Afinal qual é o português comum que não quer investir dinheiro e ter um retorno de 140% num espaço de dois anos? Ao invés, Alegre (apoiado por PS e BE) dizia que devolveu os 1500€ que recebeu quando se apercebeu que o seu texto no Expresso serviu para uma campanha de publicidade. Quer dizer o que ficaram a pensar os portugueses? “Não vou votar neste gaijo burro, então pagam-lhe 1500€ e ele devolve o dinheiro?”
    Por que é que o PCP não vai longe? Então tem um líder que tem a cara mais honesta do mundo, e até é um senhor simpático, que qualquer neto gostaria de ter por avô, e que da assembleia da república ganha 700€/mês??? Os portugueses querem políticos a sério, não querem bons samaritanos!! Depois fodem-se é certo, mas isso já é outra discussão.

  6. edgar says:

    Por que é que o político mentiroso, demagogo ou mesmo vigarista tem normalmente mais sucesso que o político honesto?
    Porque esta sociedade, até nos pequenos pormenores, está organizada para que tal aconteça.

    «A manipulação e a utilização sectária da informação deformam a opinião pública e anulam a capacidade do cidadão para decidir livre e responsavelmente. Se a informação e a propaganda são armas de enorme eficácia nas mãos dos regimes totalitários, também não deixam de o ser nos sistemas democráticos; quem domina a informação, domina de certa forma a cultura, a ideologia e, portanto, também controla em grande medida a sociedade.»

    «Face à dificuldade de prever como será o consumidor do futuro, a solução é criá-lo nós mesmos desde já, com a ajuda de boas ideias e da publicidade. O consumidor vai estar onde nós queremos que esteja…»

    “…um sistema baseado no consumo compulsivo e no divertimento fútil, que levaria os indivíduos a gostar e apreciar muito mais a sua servidão do que a sua vida; um amor à servidão que, curiosamente, seria designado por «liberdade».”

    Excertos de “Estratégias de manipulação” retirado de http://pimentanegra.blogspot.pt/2005/08/estratgias-de-manipulao.html

  7. Eduardo Silva says:

    Vou correr o risco de ser mal interpretado, mas avanço. Existem novas correntes de filosofia, que chegam a considerar a esquerda em certos aspetos “anti-natural”, pois como todos sabemos o HOMEM é por natureza um animal preguiçoso, logo aqui começa a diferença, enquanto muita boa gente faz uma vida inteira de esforço a lutar numa atividade profissional, porque tem a “ambição” de possuir um pouco mais de bens, e lá estamos nós a falar do puro instinto de sobrevivência”, outros serve muito bem um ordenadozito, com o complemento de uns subsidiositos, e lá vamos andando, e agora como até está na moda a esmola ao pobresinho, até nos esquecemos que quanto mais esmola houver, mais pobres haverá, e depois admirem-se de ter acabado a classe média, com o culto da preguiça em que temos vivido desde há muitos anos para cá. Muito mais se pode ainda dizer sobre isto…

  8. omaudafita says:

    É tudo muito bonito mas os partidos de esquerda não se toleram e a prova é que o PCP E BE são bem mais interventivos e destruidores quando é o PS que governa. Não concordam? Comparem as intervenções do Mário Nogueira nos governos PS e agora, até o Crato concorda:”não é tão grande assim”; bons velhos tempos com a Lurdinhas!

    • joao says:

      Não concordo.

      • omaudafita says:

        Não se esqueçam que quem colocou o Passos e o Cavaco no poder foram o PCP e o BE.

        • Maquiavel says:

          Pois foi, 50% dos eleitores portugueses säo do PCP e do BE, mas divertem-se a votar, ora no PS ora no PSD. Deve ser para afundar o país mais depressa e fazer o povo tomar o poder pelas próprias mäos. Quão maquiavélicos!

        • vitor monteiro says:

          quem trau o ps foi o amigo paços que depois de se aliar ao ps em 3 pecs aliou se ao pc e ao be de forma opurtunista para ir ao pote,mas o que voces queriam e´que nos fossemos cumplices do vosso genocidio

    • vitor monteiro says:

      nao sendo isso verdae queria oquê que aquilo que e´mau no psd ja passe a ser bom no ps?haja vegonha


  9. Não concordo tb
    MN tinha na altura toda uma classe disposta a tudo. Neste momento tem apenas uma minoria de professores fiéis e uma escola governada por diretores que inviabilizam qualquer forma de luta mais musculada. Os sindicatos só podem contar com a força que os seus membros lhe transmitirem.

  10. Tiro ao Alvo says:

    Para mim, a Bonifácio tem razão. Não vê como se comportam os professores?

    • Maquiavel says:

      Claro! Näo sigamos o exemplo de quem luta pelos seus direitos, como os toiros na arena (até podem morrer, mas sempre a lutar), temos é de seguir o exemplo das ovelhas, que mansamente rumam ao matadouro!
      O futuro näo é de quem faz como professores, maquinistas, estivadores! O futuro é que quem se sujeita a tudo, como os precários a recibo verde!

      Vós neoliberais enojam-me!

  11. Oliveira says:

    Se por professores se lê as gentes por detrás de organizações como a fenprof, que quando são confrontadas com movimentos como o Movimento Mobilização e Unidade dos Professores lá soltam o reaccionário que há neles e põe-se a lançar campanhas de desinformação, sabotagem, contra-manifestações e propaganda, claramente que o futuro não é dessa gente. Essa gente comporta-se sim como os capatazes da plantação, a fingir que é do povo enquanto controla, manipula e dá com o chicote em quem trabalha.

    • Maquiavel says:

      E porque é que esse “Movimento Mobilização e Unidade dos Professores” näo actua dentro da FENPROF?
      Faça uma lista e submeta-a a votos, que é o que se faz lá fora.

      “Lá fora” existem sindicatos nacionais unos, com as tendências políticas todas, mas que falam a uma só voz. Em Portugal cada um quer ser rei do seu quintalinho, o que só favorece a posiçäo do paträo. Quando esses movimentos e sindicatos alternativos näo säo criados pelo paträo (sindicatos amarelos)…

  12. Santos says:

    Ha nodoas que saiem facilmente com benzina, outras nodoas so saiem na tinturaria/lavandaria com produtos especiais. Finalmente ha nodoas que so o tempo se encarrega de as fazer desaparecer. Quer se queira aceitar ou concordar ou nao ( obstinadamente nao sou de esquerda nem de direita. Sou apenas portugues) o 25/4 pregou uma nodoa na esquerda que so o tempo fara desaparecer. Essa “nodoa” tem nome. Chama-se “exageros revolucionarios”.

    • MAGRIÇO says:

      Claro que há exageros revolucionários, mas há muito mais exageros reaccionários. O 25 de Abril acabou com a União Nacional mas, infelizmente, não saneou a sociedade dos arianos e dos salazaróides. Essa lacuna das sociedades actuais e o colapso do bloco soviético acabaram com o equilíbrio de forças, a favor do capital, e o resultado está à vista. O futuro será o regresso do trabalhador escravo, para felicidade e prosperidade de uma elite que viverá alegremente na ociosidade à custa do trabalho alheio. Aliás, este cenário até já nem é futurista, mas bem actual. Sinto muita curiosidade em saber o que farão os que agora tanto se empenham em cruzadas anti-greve, e que vivem do seu trabalho, quando quiserem dar de comer à família e não puderem.

      • jorge fliscorno says:

        «Sinto muita curiosidade em saber o que farão os que agora tanto se empenham em cruzadas anti-greve, e que vivem do seu trabalho, quando quiserem dar de comer à família e não puderem.»

        Este é um assunto que também me preocupa, ainda para mais porque ao longo da última década temos assistido ao aumento da probabilidade de, daqui a uns anos, os da minha geração, agora quarentões, não virem a ter um tostão de reforma. Isto apesar de pagar mensalmente o dízimo que me daria acesso à devolução desse capital antecipadamente depositado. Em termos de expectativas financeiras não cumpridas, Madoff recebeu a recompensa de 150 anos de prisão; cá, o estado caminha para o mesmo abismo mas não se passa nada. A culpa é dos neoliberais – é sempre mais fácil quando se pode apontar um dedo.

        Mas como chegámos aqui? A segurança social funciona no pressuposto de gerações novas pagarem as reformas daqueles que se aposentaram. O princípio é simples e lógico mas tem o pressuposto de, em termos médios, o dinheiro que entra ser igual ao que sai. Acontece que este pressuposto já não se verifica há muito tempo e por diversas razões:

        – De há uns 20 anos a esta parte, o estado decidiu instituir o conceito de reforma antecipada e, na última década, as reformas antecipadas passaram a ser regra para quem tinha cinquenta e picos anos. A consequência desta medida foi a despesa aumentar imenso sem que a receita também tenha aumentado (ver ponto seguinte). Esta decisão não foi eleitoralmente inocente, já que o que estava em causa era manter artificialmente baixo o nível de desemprego – um reformado, antecipado ou não, não é um desempregado. Esta possibilidade das reformas antecipadas foi o expediente usado para muitas empresas fecharem, indo para outras paragens. Normalmente, essas pessoas iriam para o desemprego mas assim foram para a reforma. Eis o milagre dos números.

        – Poderia pensar-se que as reformas antecipadas não são em si um grande mal, pois ao sair um trabalhador de 55 anos, entraria outro de vinte e poucos anos. No entanto, isso não aconteceu. Por um lado, os trabalhadores que foram para a reforma antecipada foram, em larga medida, os de baixas qualificações e os jovens que estavam aptos para entrar no mercado de trabalho eram de qualificações muito superiores. Não se tratava, portanto, de substituir uma pessoa por outra. Depois, cada empresa que fechou não viu nascer, ali ao lado, outra empresa do mesmo género. Não, as que fecharam levaram a que um determinado sector ficasse com menos capacidade produtiva, já que essa capacidade foi deslocalizada para as chinas e para as índias. Finalmente, os jovens viram, e bem, a sua escolaridade prolongada no tempo. Em termos laborais, significou que jovens que dantes começavam a trabalhar aos 16 anos (atenção, ó precipitados, não estou a defender o trabalho aos 16 anos), dizia, os que dantes se iniciavam no trabalho aos 16 anos, agora passaram a fazê-lo entre os 18 e os 25. A conjugação destes dois factores, a saída precoce do mercado de trabalho e a entrada tardia nesse mesmo mercado, fez com que as receitas da segurança social diminuíssem consideravelmente.

        – Ainda sobre as reformas antecipadas, quando a anterior governação socialista começou a mexer na idade de passagem à reforma e nos valores a que se teria direito, houve uma corrida desenfreada à reforma antecipada. Ao contrário do cenário do ponto anterior, mais típico dos anos 80 e 90, esta última passagem antecipada à reforma deu-se nas classes profissionais com melhor formação: professores, médicos, juízes, … Enfim, ocorreu naqueles que teriam direito a uma reforma “choruda” e que se podiam dar ao luxo de perder uma boa percentagem dessa reforma a que teriam direito se trabalhassem mais uns anos. Foi a sangria da função pública, com as entradas congeladas e as saídas precipitadas, assim contribuindo e de forma considerável para o desequilíbrio da segurança social (mais despesa e menos receita).

        – Apesar do cenário de diminuição de receitas, as reformas também aumentaram acima da inflação, acentuando o défice da segurança social. A questão não está, obviamente, na justiça, ou na falta dela, dos valores recebidos mas na estratégia eleitoral de se aumentar a despesa quando a receita está a diminuir: ganhar votos agora e deixar os problemas para os seguintes.

        – A somar a este quadro de aumento da despesa sem correspondente aumento da receita há a transferência de responsabilidades quanto aos fundos privados de pensões a troco de liquidez imediata. Para tapar os buracos das contas correntes, os governos socialistas e social-democratas recorreram repetidamente a este expediente, aceitando dinheiro para gastar no imediato e deixando para os que viessem a missão de encontrar o dinheiro que eles já gastaram.

        – Como se todo este cenário de gestão não fosse mau o suficiente, há ainda a fuga ao pagamento de impostos por parte das entidades patronais. Não sei quantificar este problema mas tenho sérias dúvidas que chegue para explicar a falência da segurança social. Suspeito que ir por aí seria tapar com a peneira os outros problemas.

        Voltando à questão inicial, eu posso andar distraído mas não vi uma única greve cujo objectivo principal fosse a anulação destas medidas que conduziram (o tempo verbal está correcto) à falência da segurança social. Também eu me preocupo quanto ao que fazer quando quiser dar de comer à família e não puder. Mas houve alguma greve que defendesse contenção no aumento das reformas, que pretendesse acabar com as reformas antecipadas e que lutasse para que os fundos de pensões privados não fossem transferidos para a segurança social?

        É por isto que nada importa a esquerda e a direita. A primeira procura melhorar as condições de vida de todos mas não se preocupa com a exequibilidade das suas medidas. A segunda, a direita, desculpando-se com o que é exequível, procura obter mais e mais de cada cidadão. No fundo, trata-se de morrer com a promessa do céu ou com a certeza do inferno. Mas morre-se em ambos os casos.

        Importa sim perceber que a globalização alterou o equilíbrio das forças. Neste momento, nem a esquerda nem a direita importam porque o estado já não é a unidade política e económica do nosso mundo. A esquerda e a direita que dantes comandavam os destinos dos países foram substituídas pelos conselhos de administração das grandes multinacionais. Os países lutam entre si pelas migalhas dessas organizações, as quais um dia estão ali para, quando quiserem, noutro dia estarem acolá. Nesta nova ordem mundial, o ocidente do estado social luta contra o oriente dos nenhuns direitos – e está a perder.

        É esta globalização que, em última análise, está a conduzir a menos postos de trabalho cá e que em breve fará com que não haja reformas para quem quer que seja.

        • vitor monteiro says:

          sabe quem inventou as prereformas para limpar empresas de valorosos activos que sao os trabalhadores,para a s entregar ao capitl privado:ps ,guterres,e´evidente que os impostos só por em parte nenhuma do mundo resolve,porque ate´a alemanha tem empresas lucrativas no estado para financiar saude,educaçao,reformas etc,aqui até os dedos vao vender,haja dó

    • vitor monteiro says:

      você chama exageros os beneficios para o povo?


  13. O século XX assistiu ao apogeu e declínio da esquerda. Esta, conquistou poder e falhou na sua execução, perdendo aí parte do referencial de humanismo progressista que lhe estava (e está) na base. Com a queda do modelo económico e de organização social caiu também a pujança ideológica mais radical, vermelha e comunista. As variantes social democratas não passam de subterfúgios menos ambiciosos duma sociedade baseada no “homem bom” capaz de se organizar em prol da comunidade. Esse “homem bom” revelou-se como é: individualista, interessado no melhor para si, e para os seus. A esquerda não o previu, não o incluiu nem criou formas de o “auditar”…
    Apesar desta “dura” realidade para as almas generosas (e talvez a mais bela matriz da esquerda esteja precisamente no sentido humanista de protecção dos fracos e tolerância à diferença), a verdade é que o mundo precisa da “esquerda” como nunca.
    Não obstante, a esquerda está ainda na ressaca dos seus próprios “falhanços” históricos e continua a ignorar as alterações profundas que o mundo experimentou nos últimos trinta anos.
    Em Portugal, a esquerda “parlamentarizou-se”, sentou-ne do conforto dos telejornais, na maciez amorfa do sistema e desistiu das lutas verdadeiras, optando em muitos casos pelas causas perdidas ou até levianas.
    Num País tão socialmente assimétrico, onde o discurso político dominante se dá ao luxo de afirmar que “que vivemos acima das nossas possiblidades” (quem? os reformados? os “mal pagos” do salário mínimo, a multidão de precários), as “esquerdas” ocupam-se nas lutas (não interessa aqui se são justas ou não…), dos sindicatos “corporatizados” da função pública e das empresas para-estatais de transportes, etc. ignorando onde está realmente a dor e a miséria mais gritante.
    A esquerda perdeu a força reivindicativa e progressista. Trocou estes atributos de alma pela ortodoxia frouxa e cristalizou-se em torno do poder em vez de sair para o seu terreno natural: a luta pujante e viril contra a opressão, a injustiça, as desigualdades (e acrescentaria mesmo; contra a “burrice”!).
    Um dos aspectos mais visíveis da natureza desta esquerda vive-se nas lutas sindicais. Hoje em dia qual é o valor dos sindicatos? Para que servem e a quem servem? Que respeito lhes dedica a sociedade? – A resposta cínica (talvez apressada) é que não servem para nada; ignoram o que é, ou deveria ser, a empresa moderna (feita de compromissos partilhados entre accionistas e empregados), estão ao serviço de ninguém e aparecem sempre publicamente a defender interesses corporativos indefensáveis perante qualquer lógica de racionalidade e desenvolvimento.
    Veiculam uma ideia de “Estado” distribuidor de postos de trabalho e regalias “automáticas” à margem de critérios de avaliação individual, responsabilidade e mérito. A sociedade devota-lhes o respeito nulo que atribui a forças inúteis que estão sempre a “puxar para trás”…
    O mal da esquerda é ter-se tornado conservadora em muitos dos seus mitos, não ter criado alternativas (credíveis) de governação (no mundo actual, o que existe de facto…). Perdeu o sentido da realidade e ignora tudo aquilo que outrora a motivou. Ainda que, por incrível paradoxo da História, a “injustiça” exista e o domínio capitalista esteja hoje mais agressivo do que antes.
    O desenvolvimento humano precisa da esquerda, mas é preciso que esta se levante para a realidade. Começam a definir-se no horizonte, desafios novos, pensamentos, e acção para uma nova esquerda. Veja-se a agenda reivindicativa e “estilo” de movimentos como o “Occupy”, denunciando o “novo capitalismo” das corporações, a tomada do mainstream da comunicação-intoxicação por parte desses mesmos poderes, a corrupção entre poder político e económico, etc.
    Em Portugal – atrasados como sempre – continuamos alheios a muitas dessas lutas, não entendemos a sociedade moderna, e não olhamos sequer com a atenção devida para as nossos próprios campos de luta. Num país com desemprego acima de 15% o que é que a esquerda tem feito? Quem é a voz dos que não tem voz? – Estaremos todos a dormir? Ou será que tudo o que afirmei é apenas um pequeno exercício de má interpretação da realidade?…

  14. Tiro ao Alvo says:

    LuisF,
    Leu o que a Fátima Bonifácio escreveu no PÚBLICO de ontem? Em parte, aquela historiadora responde às suas dúvidas.

  15. Santos says:

    Claro que há exageros revolucionários, mas há muito mais exageros reaccionários. Escreveu esta frase Magrico (as minhas desculpas mas o teclado do meu compt. nao esta configurado para sinais graficos). Mas pelo facto de haver exageros reaccionarios vamos passar uma esponja sobre os exageros revolucionarios. Com o mal dos outros passo eu bem. As ditaduras emergem quando as revolucoes ou democracias falham. E falham porque? Porque os homens ditos de esquerda teimam em nao admitir os seus erros. Acenam ou cunham logo com o espectro do salazaroide e quejandos. Parece-me que o Magrico nao digiriu bem ou compreendeu mal o meu posto. Lamento.


  16. Não é uma questão de esquerda ou direita, quero apenas que o Estado me deixe ficar com o que ganho sem se comportar como um proxeneta que me retira metade dos rendimentos. Mesmo que em troca me ofereça educação ou saúde gratuita, rejeito, prefiro ser livre e decidir como e onde gastar. (isto não implica obviamente rejeitar os meus direitos, já que não me libertaram dos deveres, enquanto contribuinte forçado, porque livremente não o seria…)
    Para mim é simples, na pré-história o homem agrupou-se em sociedade para se proteger, não para a servir, a sociedade deve servir o individuo e jamais o inverso. O papel do Estado deveria ser garantir segurança, administrar Justiça e pouco mais, algumas obras de interesse comum…

    • Maquiavel says:

      Entäo rejeita tudo e vai viver para os EUA, onde näo tens os “grilhöes” do SNS e Escola Pública. Sai-te tudo do bolso. E verás que nem terás a liberdade de escolher onde morres, se näo tiveres dinheiro para pagar. Boa viagem!

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