Hoje há rankings fresquinhos

Não, não gosto de rankings. Por formação acredito pouco em seriações quantitativas, atrás de um número haverá sempre palavras e essas não se ordenam, e a própria palavra tem lá um king disfarçado mas que desperta o republicano que vive em mim. A vida, e a escola, não são um campeonato.

Do mal o menos, este ano foram disponibilizados dados que permitem enquadrar, no ranking do Público, um bocadinho da realidade atrás das médias: a conclusão é tão óbvia que nem vale a pena referi-la.

Mesmo assim a falácia continua. No bocadinho de escolas que conheço bem constato a espantosa subida de uma, iniciada o ano passado, com o pequeno detalhe de nessa secundária ter deixado de existir o ramo das humanidades durante anos, cuja ausência como é óbvio distorcia as médias. Ou entendo o sucesso da escola onde trabalhei o ano passado, que ficou no topo dos exames do 9º ano muito por conta de uma turma excepcional que este ano não se voltará a repetir com turmas de 30 alunos.

Mas nem é esse o maior problema. Continuam a misturar escolas públicas com privadas, sendo que nas primeiras só nas grandes cidades algumas podem escolher alunos (precisamente as mais procuradas porque a pescadinha tem o rabo na boca) e nas segundas estão a mais as poucas que têm contratos de associação a sério, não podendo mesmo seleccionar quem as frequenta.

Há escolas melhores e escolas piores, outras assim e algumas assado. Pois há, porque são bem ou mal dirigidas (e com este tenebroso modelo unipessoal/partidarizado de gestão o chefe sem dúvida que conta), ou porque o corpo docente é desequilibrado (o que acontece cada vez mais desde que Maria de Lurdes Rodrigues arrasou a colocação de professores), ou por muito mais razões, que passam pelos próprios exames e sua correcção feitas por professores das privadas. Tenho alguma alternativa aos rankings?  nem tenho nem percebo a sua utilidade. Apenas constato que na  minha cidade (e Coimbra tem os melhores resultados) a sua existência só teve efeitos perversos: cada vez mais se procuram as públicas de topo, desnivelando com as restantes que ficam com o entulho enquanto a fina flor se acotovela. É que o factor mais importante nisto tudo ainda são os alunos, ficassem eles na sua área de residência e a qualidade do ensino claro que se nivelava. Assim se fabricam as desigualdades, e as oportunidades quando nascem deixam de ser para todos.

Mas se querem a melhor prova de como um bom resultado nos rankings pode corresponder ao pior ensino possível, numa casa de fanatismo religioso onde menino não entra, vejam esta reportagem. Suponho que estas desgraçadas para namorar só à janela ou na sala de visitas. Ironia da história: são estas raparigas as futuras mulheres que nunca foram crianças.

Comments


  1. O que é preciso é o mudar o nome das coisas e criar o caos e comprar mais topos de gama

  2. leopardo says:

    Este texto é um exemplo de uma espécie de analfabetismo na área da matemática. Infelizmente muito frequente, principalmente em pessoas com formação nas humanísticas. Olham para estes rankings, para as estatísticas e para os números em geral como umas ciências ocultas sem utilidade.


    • Há sempre um felino que geme quando vê um 2 e tem seu orgasmo matinal porque bateram as 7, horas. Normalmente, há dados estatísticos que o confirmam, como nunca tiveram os 3, também nunca os abandonaram, na virgindade da sua contada vida. Tristeza.

  3. Marília Costa says:

    Faço minhas as palavras do orador precedente. Além do seu conteúdo ser absolutaente correcto, tem um sentido de humor fantástico e admirável 😉

    “Há sempre um felino que geme quando vê um 2 e tem seu orgasmo matinal porque bateram as 7, horas. Normalmente, há dados estatísticos que o confirmam, como nunca tiveram os 3, também nunca os abandonaram, na virgindade da sua contada vida. Tristeza.”

  4. leopardo says:

    Por vezes não é apenas ignorância, é mesmo a falta de inteligência que impede alguns asnos de perceberem matemática. Mas que os burros têm medo de felino, qualquer cavalgadura o sabe.

  5. Maquiavel says:

    Nos sítios onde se pode escolher entre público e privado… os privados conseguem assim notas täo mais altas?
    Realmente, com o que se paga, com a selecçäo de alunos, com o pequeno tamanho das turmas, eu esperaria que tivessem médias perto dos 20 nos privados…

  6. Maquiavel says:

    Com as fortunas que se pagam, com a selecçäo de alunos, com o menos número de turmas, estava à espera de que nos privados as médias fossem próximas dos 20 valores. Afinal…

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.