Policarpo e a democracia

José Policarpo, ainda e sempre inebriado pelas essências da cerejeira que terá inalado em criança, explica como sonha a democracia.

Para Policarpo, a democracia deve ser uma senhora doce e recatada, debruçada sobre o seu bordado, enquanto ouve a hora do terço na Renascença, reservando uma atenção mansa para a voz olorosa de santidade que anuncia os sinais de que os sacrifícios serão positivos, até porque, felizes serão os mansos, porque deles será o reino dos céus, que os mansos, de tanta mansidão, vivem bovinamente satisfeitos com o pouco que a terra lhes dá, pois, ao serem dados à terra, verão a miséria terrestre ser transmutada em amanhãs cantantes, expressão tão estranhamente ecuménica.

A própria democracia deve ser, portanto, mansa e, segundo Policarpo, ficar-lhe-á mal sair à rua, se o seu lugar é em casa, amando o governo como uma senhora séria deve amar um marido, respeitando-o e obedecendo-lhe, não sendo lícito ao homem separar aquilo que o voto uniu. O marido tem defeitos? A democracia está insatisfeita? Que tudo se resolva no recato consagrado do lar e que a democracia se submeta à voz amável e firme do governo, que Policarpo chega a imaginar dotado da mesma infalibilidade do bispo de Roma, benzendo-se imediatamente e pedindo, por isso, perdão Àquele Pai amantíssimo que saberá premiar os que recebam no seu seio uma austeridade tranquila e justa.

Abominável é, então, essa democracia que anda pela rua, desrespeitando os votos matrimoniais, exibindo, impudica, as marcas deixadas no seu corpo pelo governo. Essa democracia perdida é menos que Madalena, e Policarpo, incapaz da perfeição crística, não só não impede a primeira pedra, como está disposto a incentivar à lapidação pública dessa filha da Babilónia, neta de Eva, demónio higienicamente afastado do Vaticano. Policarpo tem, ainda assim, a esperança de ver a democracia retomar o seu lugar, num canto modesto de São Bento, donde poderá sair num andor, de quatro em quatro anos, tempo suficiente para que a população possa admirá-la e guardar na memória a sua imagem.

Quero ora terminar à maneira de Santo Isidoro de Sevilha e desvendar a significativa etimologia do nome cardinalício, em que encontramos a abundância no elemento grego “poli” e a referência ao fruto (“carpos”, também em grego), essa metáfora da palavra. De Dom José nascem muitos frutos, sem dúvida. Confirmo, agora, que ao aroma de cerejeira junta-se um toque a flor de laranjeira. Bendito é o fruto do teu vento, Policarpo.

Comments


  1. Para os sacrificados,assassinados?,à sombra da cerejeira,também haverá virgens?

    mário

  2. Fernando says:

    Como “eles” gostam da mamocracia…

  3. Ainda penso says:

    Tudo dito. À “cerejeira” só falta mesmo ler a Bíblia e seguir as suas instruções.

  4. Dora says:

    É da senilidade. Acontece….


  5. Fiquei estupefacta com o que ouvi daquele senhor – é preciso “infectar” mais a televisão que é de facto algo mais que vai sendo destruído até não se poder mais – E há cada b«vez mais pessoas que como eu, pecisam da Cª da dita. Nem a TV já tenho – tiram tudo até entrando em casa depois de entrar na “bolsa” – Creio bem que as pessoas que ontem enchiam o terreiro de Fátima são o que de melhor há não por Fátima cujo lindo terreiro encheram de betuminoso como pavimento diabólico e feio e mal espalhado – quando era terreiro de terra era digno – até aquele lugar lixaram e por acaso escrevi um dia ao Bispo a falar nessa barbaridade e concordou comigo mas cagou betuminoso no espaço – mas como disse, e bem, Eanes, há dias, é preciso não tirar a esperança de viver tendo dito também que a Igreja devia fazer o seu papel – mas não este papel que ontem fez o cardeal – e ontem as pessoas lindas entregues à sua Fé de facto, como se os padres fossem apenas os palhaços no meio de gente tão linda – como é que as pessoas ultrapassam tudo e olham para “cima” e deslocam-se e não desistem e todas juntas a sua energia tem mais força – acredito nas pessoas mas os padres já nem os oiço há muito – de facto elogiar estes políticos-política é penoso de ver/ouvir – não há nada que não esteja contaminhado e tanto me faz o elogio do cardeal – é mais um que se vai separando dos homens – e de Deus também – estas “calábrias” que andam por aí mas não faz mal – as pessoas entregaram-se a si mesmas como mostram em todas as manifestações que vão fazendo como as aqui anunciadas e espero que não se cansem e acredito que não se cansem nem desistam – é cá em baixo que tudo começa e essa de chamar “o povo” até na TV aquela menina a falar como uma lebre a correr e vestida de negro, a srª Teresa não sei quê, que triste – o clero nobreza e povo xateiam-me – a puta que os pariu e o povo está farto e eu também – é como falar em alguém que morre e usam o termo cadável que não se usa em ligua europeia nenhuma – quento vai descendo no linguajar desta gente as PESSOAS e não o povo e agora é o cardeal – rais parta o cardeal – bem precisa ele, sim, de se confessar

  6. JotaB says:

    Estamos a precisar de um novo Joaquim António de Aguiar (“Mata-Frades”) e de uma Lei idêntica à sua de 30 de Maio de 1834, que declarou extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios, e quaisquer outras casas das ordens religiosas regulares, sendo os seus bens secularizados e incorporados na Fazenda Nacional.

  7. Migas says:

    IMI para as Igrejas e salões paroquias já!

  8. lNascimento says:

    Aparece a verdadeira face, sempre, aos assassinos,Podem-se esconder muitos anos,mas meus caros, na hora da verdade,a face de um canalha aparece en todo o seu esplendor.Já não é a primeira vez, que este nojento personagem,diz alarvidades, Lembram-se dos casamentos entre cristãos e arabes?Qual foi a opinião do canalha?Pois…

  9. lNascimento says:

    Não é por acaso que ele,ajuda e de que maneira, este governo.É que, na segurança social , o Mota Soares, está a DAR tudo ás IPSSES!!! Tudo vai parar do Estado, para a Igreja e a padralhada. Vejam as creches e infantários, aquilo parece armazens com 30 crianças de 3 anos,…”educação pedagogica”?ora, o que é preciso é “lavadinhos e comidinhos”….e muita caridadezinha!!!

  10. edgar says:

    Quem se junta para rezar por emprego, saúde, justiça e uma vida melhor, em Fátima, é Povo, mas quem se junta para reclamar o mesmo, por todo este país, é Rua?
    Será que o direito à manifestação depende do local ou de bênção patriarcal?

  11. Pisca says:

    Mais uns dias e vão canonizar o conego melo, o mesmo que promoveu o ELP e MDLP, as procissões que acabavam em assaltos a sedes de partidos de esquerda e sei lá que mais, e houve mortes no seguimento dessa “revolta popular”, aí a rua estava do lado que eles entendem por certo, é isso ?
    Já nem falo na rede bombista

  12. Luísa says:

    Se fosse só este… eu estou rodeada de mansos frutos da cererejeira (velhas ginjas, mesmo) que também condenam e castigam qualquer tentativa de revolta contra a autoridade. E mamam, mamam…

Trackbacks


  1. […] é, só por si, um abuso, tal como o protesto, no fundo. A democracia e produtos derivados, aliás, devem permanecer num recanto da consciência e não devem ser exibidos em público, a fim de evitar atentados ao […]

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