Mira Amaral é da classe média

Por Noémia Pinto

Encontrei estas pedras na praia. Primeiro, apanhei a branca. Achei-a tão linda, de uma brancura tão imaculada e tão redondinha, dava mesmo vontade de a agarrar.
Passado um bocado, encontrei a patela preta. Tão escura, ali, molhada pela água do mar, de uma beleza tão indescritível. A terceira apanhei-a porque… não sei por que motivo. Simplesmente porque olhei para ela e me senti cativada por esta pedra de forma e relevo irregulares. Com estas pedras na mão, senti-me como se segurasse na mão o nosso país, o mundo em que vivemos. As pedras pretas/ cinzento escuro, sombras negras que cada vez nos ameaçam mais, vindas de todo o lado, qual saga do Harry Potter. Ao mesmo tempo, fascinam-nos, como me fascinaram estas pedras que jaziam ali, inertes e molhadas. Todos queremos pertencer à equipa que ganha, mesmo que essa não seja a melhor equipa. Ninguém quer estar com as minorias sofredoras deste mundo. É muito mais confortável ajudá-las com tempo e hora marcados e prosseguirmos com as nossas vidinhas tão cheias de comodismos e coisas boas. E aqui lembro-me da inesquecível abertura do Trainspotting:

«Choose Life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television, choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol, and dental insurance. Choose fixed interest mortage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisurewear and matching luggage. Choose a three-piece suite on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who the fuck you are on a Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pishing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourself.
Choose your future.
Choose life.»

É que, apesar de tudo, estamos muito melhor do que muitas pessoas à nossa volta. Já nos vendemos também, um pouco, às forças do mal que nos sugam os valores e os amores, que nos tornam mais obscuros e negativos. Vendemo-nos porque queremos a televisão cada vez maior, o telemóvel cada vez mais pequeno, o carro mais seguro, os jogos com mais adrenalina. Escolhemos esta vida com tudo o que isso implica. E, levados pelas publicidades e pelos outrora fáceis empréstimos bancários fomos construindo as nossas próprias trevas.

Vejo nas notícias que não há dinheiro para comprar combustível para fazer andar os submarinos do nosso descontentamento de há uns anos atrás. Leio que a sô dona Angela Merkel com o seu casaquinho e a sua saia q lhe aperta abaixo dos sovacos (Bruno Nogueira) anda num périplo pelas colónias alemãs: Grécia já foi, segue-se Portugal em 12 de Novembro. Leio ainda que a «gorducha» agora quer mandar nos orçamentos dos estados-membro.

Muito mais assustador que tudo isto, leio e ouço que a Rede Europeia Anti-Pobreza prevê um aumento de pobres em Portugal, que passarão a ser 3 milhões. Três milhões de pobres num país que tem pouco mais de dez milhões de habitantes… Isto não vos choca???
Somos o 2º país europeu com mais crianças pobres. Temos a taxa de suicídios a aumentar. Um suicídio por semana só na Ponte D. Luís no Porto.

Ontem foi o Dia Internacional da Erradicação da Pobreza. Quem o praticou? Quem parou para pensar na sua vida e fez alguma coisa para mudar este rumo, como a formiga no carreiro?

Mas olhando bem para as minhas pedras pretas, vejo que são sulcadas por pequenos raios cinzentos e… brancos!!!

Amigos, sejamos, cada um de nós, o raio branco que sulca as pedras pretas.
Façamos algo para lutar pela nossa sociedade, pelo nossos semelhantes. Uma sociedade com três milhões de pobres envergonha-me, envergonha-nos a todos, e tudo farei para mitigar essa pobreza. Nem que seja, como vou fazer, dando aulas a sem-abrigo, como voluntária da CAIS. Eu serei um dos raiozinhos pequeninos e brancos na escuridão daquelas vidas.

Exorto todos a tentarem dar o seu pequeno contributo. Unamos forças e sejamos já um povo mais rico e solidário! E contem comigo. Tempos negros exigem muita claridade de pensamento e de acção. Exigem medidas extremas por parte da sociedade civil. Exigem que mandemos as forças obscuras de volta para o buraco a que pertencem.

Até porque, pensando bem, se Mira Amaral é da classe média, nós somos todos pobres. A classe média em Portugal resume-se aos Miras que saem por aí a disparatar. Acelerando os piores prognósticos, Mira já pulverizou a classe média Portuguesa.

May the force be with you.

Comments


  1. Se Mira Amaral é da classe média, ai quem me dá a listagem dos que são da “classe” acima da da dele ?? Para eu tentar perceber mais um bocadinho já que ando como repito tantas vezes, a emburrecer – Ai gostei do retrato (delicado) que deram daquela senhora gorduchinha de saia casaco sempre igual do mesmo feitio (tão criativo) e que nem pescoço tem, e que está sempre entalado nas ombreiras – De costas até parece um bicho em quem nem tudo se desenvolveu – parou “ali” e não subiu até ao cerebelo – e talvez nem tenha ou algo no seu lugar e não são com certeza estas belas pedras do mail a que respondo – Porque eu adoro PEDRAS que me fazem pensar na etrernidade “terrena” e que sem se dar por isso se separaram um dia, livres, das montanhas – pedra – petro – sobre o que tudo se edifica e contempla e, hoje, a Estrela mostra o seu 1º manto branco do ano cobrndo as pedras e as pastagens de “cervum” que só por aqui, no sul dos pigs, há no vale terciário de que somos herdeiros felizes, atestando mais uma vez que não somos apenas um povo velho(e sábio) que habita uma das zonas mais velhas do planeta e onde pela 1ª vez no Planeta foi descoberto até POLEN Fóssil – sim, na serra da estrla com milhares de anos – terra fértil agora tornada deserto pelos que não sabem nada de nada a não ser dizimar terra e homens

  2. Maquiavel says:

    Miga Amagal é da classe mégdia.

    Lindo texto.


  3. Miras, inanidades e outras aves de rapina…


  4. Pois sim, o mundo muda quando dá aos pobres porque invés de morrerem de fome esta semana morremos todos para a próxima.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.