O Ministério dos Juros


A ideia de encolher as pastas governamentais tinha uma explicação; temos dois ministérios sombra: o das privatizações e este, o dos juros da dívida, o verdadeiro pai da crise, gerido por essa entidade mítica chamada mercados e pela troika e o bom dinheiro de que nos vai espoliando.

É um ministério zoológico, abutre, e bíblico, usurário, a especulação financeira com toda a sua ganância desmesurada custando-nos mais do que a educação e pouco menos que a saúde.

Uns dirão, com fé e ideologia, que os tais mercados, coitadinhos, na sua pureza angélica só emprestam com juros assim porque havia um risco elevado de não pagarmos; a esses respondo que assim é que não pagamos.

fonte: Público

Comments

  1. jorge fliscorno says:

    Esta análise deve igualmente ter em conta que o que se paga em juros *também* é proporcional à quantidade de dinheiro emprestada. Óbvio. E a quantidade de dinheiro que o estado tem pedido emprestado tem crescido ano após ano:

    Claro que os juros dispararam em 2008 e essa despesa também aumentou mais nessa altura. Isto apesar da justificação da despesa em 2008-2010 ter disparado por causa dos juros não ser uma justificação completa (como pretendeu e ainda pretende o PS), pois a despesa corrente primária (sem juros) disparou e de que maneira no período 2008-2010 (http://aventar.eu/2012/10/17/impostos-receita-e-despesa-1977-2013).

    Mesmo assim, depois dos juros terem disparado em 2008, essa despesa tornou-se incomportável para o orçamento. Não há orçamento que aguente 9.2% de juros. A culpa é dos mercados? Acho que esta justificação é desculpabilizadora da governação que pediu dinheiro até um ponto em que se ficou completamente nas mãos de que emprestou o dinheiro.

    Naturalmente que a continuarmos assim entraremos em default mais cedo ou mais tarde. Tem que ser feita uma renegociação com os credores por forma a que os juros da dívida sejam razoáveis.

    • jorge fliscorno says:

      Olhando para o gráfico, de 2000 a 2008 (antes dos juros dispararem, portanto), o montante de dinheiro que se pediu emprestado passou de 60000 milhões de euros para 120000 mil milhões de euros. Duplicou em 8 anos, num período em que o dinheiro era, de facto, muito barato.

      • Maquiavel says:

        E à boa maneira tuga, estando o dinheiro barato, aproveita-se para amortizar a dívida (nem que fosse só pelo diferencial de juros entre o da “dívida velha” e o da “dívida nova”, mais baixo)?
        Näääääääääääääääääääääääääo! Toca é de pedir créditos novos para coisas novas! Alguém no futuro há-de pagar!


    • A “quantidade” sobe sempre, faz parte da história da moeda. Esse pico parece-me ser um “normal” pico eleitoral, o costume, se calhar acrescido do BPN. O que realmente variou, e se torna incomportável, foram os juros, até porque o resto seria fácil de cortar.
      Não se trata de desculpabilizar, trata-se de desmontar a responsabilização exclusiva de um governo que não governava a Irlanda, a Grécia ou a Itália.

      • jorge fliscorno says:

        Nos 9 anos entre 1991 e 2000 a “quantidade” pouco subiu. Já nos 8 anos seguintes duplicou. Não acho isto nada normal. A minha leitura é que nos mandatos Cavaco, o estado passou a gastar certo valor mas havia as resmas de dinheiro da CEE. Guterres já não teve estes fundos mas o estado continuou a gastar ao mesmo ritmo. Acontece que, com a entrada no Euro (Guterres de novo), o dinheiro ficou bem baratinho e o recurso a crédito permitiu continuar a alimentar a despesa.

        O fenómeno juros ocorreu de 2008 para cá. O pico deve-se a:
        – juros muito superiores
        – BPN
        – encargos PPP que começaram a ser pagos
        – encargos sociais


        • É isso, sendo mais claro: neste século, com a desregulação dos mercados financeiros, por acaso obra e graça de Clinton, o dinheiro ficou muito barato, em toda a parte, particularmente para que adoptou o euro.
          Não deixa de ser curioso que isso coincida com o explodir da crise, porque subiram os juros, na América latina.
          O jogo dos mercados é sempre o mesmo…

    • Maquiavel says:

      O PS näo pretendeu nem ainda pretende, o PS fingiu e ainda finge. Como finge que as coisas iriam ser resolvidas com PEC atrás de PEC (estaríamos agora para aí no PEC XXVI).

    • nightwishpt says:

      “A culpa é dos mercados? Acho que esta justificação é desculpabilizadora da governação que pediu dinheiro até um ponto em que se ficou completamente nas mãos de que emprestou o dinheiro. ”

      Pois, esse tal mercado que é o supra-sumo do desenvolvimento mas fica sempre espantado com a quem empresta o dinheiro. Balelas.
      Estamos num processo de falência em que se tenta pagar aos credores principais com dinheiro de cidadãos de outros países, para também aí fazer engenharia social e retroceder o calendário em dezenas de anos. Isto não vai acabar nada bem. Pelo menos, já quase não tenho desejo que acabe, olhando para o caminho.

  2. José Antunes says:

    O mais grave disto tudo é que apesar de se começar a constatar que a dívida é pesada e que os juros são incomportáveis, ainda não se ouviu da esquerda radical uma retracção da sua posição sistematicamente a favor da gestão deficitária do estado e da total oposição a tudo que seja proposta de corte nas despesas do estado. Ou seja, não gostam da dívida, mas continuam a pressionar para que ela continue a subir.


    • Não seja piegas: pesada não é a dívida, os juros é que são incomportáveis, este ministério não é da dívida, é dos juros.
      E é claro que só temos uma solução: não pagar este ministério, que custa tanto como a saúde e a educação. Ou prefere cortar na saúde e na educação? quer um país de ignorantes e um sistema de saúde à americana? tem duas soluções: ou muda a constituição, ou emigra.
      Desconfio que, felizmente, só lhe resta a segunda hipótese.

      • Maquiavel says:

        JJC, já se percebeu pela arenga que o Antunes prefere mesmo cortar na saúde e na educação (pois como é rico tem para pagar) e quer um país de ignorantes (para que ele pareça mais inteligente) e um sistema de saúde à americana (pois deve ser advogado)!!!
        Mas vê lá se ele emigra para os EUA! Ontem já ia tarde!

      • Luis f says:

        E quando se aperceber que se nao paga juros nao lhe emprestam mais, e que sem isso ainda tem que aumentar os cortes de despesa ? sim, surpresa, mesmo sem juros, as receitas do estado ainda nao são suficientes…


        • Emprestam, emprestam. Emprestar dá lucro.

          • João Braga says:

            Segundo aquilo que pretende, não dá!

          • Luis f says:

            Ok: oh espirito santo, eu sei que acabei de te pregar um calote, mas agora preciso de mais 2 mil milhões.

            É já a correr…

            (Ja agora, emprestar so da lucro a quem recebe o capital mais os juros. Nao tem que agradecer…)

      • Bruno says:

        Puro wishful thinking. Algumas questões:
        – De onde vêm esses juros? Nasceram sozinhos ou decorrem da dívida que contraímos?
        – A dívida não é pesada? Ora bem, a dívida pública é superior a 100% do PIB. Isto significa que mesmo que todos os recursos gerados na economia durante um ano fossem aplicados no pagamento da dívida isso não seria suficiente.
        – Partindo do pressuposto de que “pesados são os juros” e continuando com o fartote de acumulação de dívida, quando é que esta passaria a ser pesada?
        – Por fim, quem é que emprestaria dinheiro a juro zero (e onde é que neste caso “emprestar dá lucro”)? Neste caso, não só não existiria lucro como o credor teria prejuízo em valor actual da moeda.
        Como disse, achar que não pagar juros é a solução do problema é wishful thinking… isso ou demagogia barata.


        • Não faço ideia do que seja isso, de wishful coiso. Mas sei outras coisas:
          – os juros vêm de uma acção concertada da especulação financeira internacional. Prova? Portugal estava longe de ser o país com maior dívida pública em 2008. Porque escaparam os outros?
          – sim, a acumulação dos juros da dívida (e não da dívida tout court, até a Inglaterra teria mais não tivesse moeda própria e fosse um elo frágil) é insustentável. Por isso nunca serão pagos. Não há, e muito menos haverá. dinheiro.
          E por fim, a Alemaha está a “contrair” (suprema ironia) juros a custo de -01%. Sim, há quem pague para emprestar à Alemanha. E em breve perceberá que a Alemanha só precisa do efeito dominó para passar a ser o grande problema. Se calhar até já perceberam. E aí, emprestam sim, a juros correntes, normais, como os que tínhamos antes de 2008. Emprestam, até porque srá a única forma de reaverem o que têm emprestado.
          Ou você acha que um país com 300 emigrantes por dia algum, dia vai produzir para pagar seja o que for? ou pensa que eles vão mandar para cá o que ganham? mandam para sustento mínimo da família, emigraram à força, mas não são parvos.

          • Luis f says:

            “- os juros vêm de uma acção concertada da especulação financeira internacional. Prova? Portugal estava longe de ser o país com maior dívida pública em 2008. Porque escaparam os outros?”
            Em 2010, ano em que se descobriu de repente esta história da divida. E na verdade trata-se de um mix: divida elevada, défice elevado e crescimento nulo.


            E por fim, a Alemaha está a “contrair” (suprema ironia) juros a custo de -01%. Sim, há quem pague para emprestar à Alemanha. E em breve perceberá que a Alemanha só precisa do efeito dominó para passar a ser o grande problema. Se calhar até já perceberam. E aí, emprestam sim, a juros correntes, normais, como os que tínhamos antes de 2008. Emprestam, até porque srá a única forma de reaverem o que têm emprestado.”
            Sim, mas quem empresta até pode ganhar dinheiro, via cambio.

            Linha de fundo: nao pagar nao é uma escolha, e nao resolveria o défice.


          • Se você o diz, que não é uma escolha, quem sou eu para o contrariar. Diga à vontade. Mas pague do seu bolso sff.
            O meu bolso, o SNS, o ensino público e mais uns detalhes constitucionais, não estamos para aí virados.

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  3. […] do estado. Ideia interessante, sem dúvida. Vai um cidadão para cortar na despesa, atirando-se ao Ministério dos Juros da Dívida, e dá com […]

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