A estética do desemprego

17,7%, número oficial. É um bonito número, dirá Gaspar convencido de que descobriu o teorema de Newton, a pólvora e  a roda, tendo apenas encontrado o caminho marítimo para a estupidez.

Entretanto a máquina ideológica de propaganda vai repetindo que os funcionários públicos têm o privilégio de não serem despedidos. É mentira, e mesmo o número de 1,9% que por aí circula levanta muitas duvidas, como o Miguel Madeira suspeita.

Mas o problema nem é de números. É óbvio que o desemprego aumenta porque as empresas vão à falência  ou despendem compulsivamente, fazendo contas ao que pouparão com o próximo contratado ao preço da uva mijona.  É claro que o fazem porque as leis foram flexibilizadas ao ponto de lhes ficar barato fazê-lo (e nem falemos aqui do trabalho precário). É elementar que a ideia é essa, a caminho de uma indústria têxtil num prédio à Bangladesh, que se lixem os humanos, o que é preciso é domesticá-los, proclamam os liberais da selva, no conforto do seu emprego garantido, normalmente por filiação de classe.

Numa situação destas havia que repor a  igualdade público/privado, então não era? Com uma imensa lata proclamam o despedimento de funcionários públicos tipo vingança (e que realmente combaterá o desemprego no privado: nas suas tarefas serão substituídos por empresas que pagarão tostões e lucrarão milhões, aumentando as despesas do estado).

Mentem com o TC, num mundo onde os swap são operações absolutamente naturais, embora custem muito mais ao estado. Ou vão mais longe e sonham com o trabalho a troco de um cantinho para dormir e uma sopa, desde sempre se soube que os escravos têm de ser alimentados.

Realmente a democracia cristã sempre foi coisa de esquerdalhos. E se lhes perguntarem nem são de direita, são liberais e pairam acima dessas coisas. Muito acima, ou muito abaixo, o território de Lúcifer dizem que é subterrâneo, tal como o dos ratos.

Comments

  1. Hugo says:

    Algumas dúvidas/comentários:

    – Esses 1,9% não corresponderão a contratos a termo certo que chegaram ao seu fim?

    – Os empresários (patrões ou porcos capitalistas, se preferir) não despedem porque são maus. Despedem, porque o objectivos da empresas é ganhar dinheiro, não é servir de sucedâneo das Santas Casas da Misericórdia. E muitas vezes despedem, porque não têm dinheiro para pagar a tantos funcionários (eles não são o Estado).

    – Ou bem que há igualdade para todos ou bem que não há para ninguém. Se um trabalhador do privado vai para o desemprego (muitas vezes sem indemnização ou apenas com uma percentagem daquilo a que tem direito e só após longas batalhas judiciais), porque a empresa vai à falência ou não tem dinheiro para lhe pagar, porque razão não há de o mesmo acontecer aos funcionários públicos? Não é vingança, é a aplicação do mesmo princípio que baseou a decisão do TC.

    – o post sobre o salário mínimo é capaz de ter sido o texto mais idiota que li nos últimos anos.


    • Esses 1,9% só devem corresponder aos professores. É ler o texto do Miguel Madeira.
      Já agora: os trabalhadores do privado têm direito a subsídio de desemprego. Um funcionário público nunca a terá, porque não desconta para a Segurança Social, mas sim para a Caixa Geral de Aposentações.

      • Hugo says:

        Terá então de futuro que se legislar no sentido de se eliminar (mais) essa desigualdade.

        Se os 1,9% são os professores não se pode falar em despedimentos, mas sim em não-colocação ou não-renovação do contrato.

    • José Feira says:

      Concordo, e vindo de quem vem é uma proeza. Com gente destas a cavar buracos tão fundos para enterrar-se é de estranhar como ainda não foi descoberto petróleo em Portugal.


  2. Também me ericei toda com a história do cantinho e da sopa. Mas o seu artigo foi muito mais meigo do que a resposta que eu compus mentalmente. É que já não há vergonha nenhuma mesmo!

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