Canhota


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Como registo inicial de interesses, deixem-me dizer que não acredito na dicotomia entre esquerda e direita. Mas como até na ciência se trabalha com conceitos que se sabem ser falsos ou inexistentes para facilitar a investigação, vamos utilizar essa geometria política para adiar uma discussão que terá, forçosamente, de ser feita mais tarde e que determinará, felizmente, a alteração estrutural do sistema político atual.

Assim, o que é a esquerda de que tanto temos ouvido falar nos últimos dias e que dizem, dichosamente, vai ser governo em Portugal? Pois. Boa pergunta. Pelo que eu pude ler, ninguém sabe muito bem o que é. Melhor, num escrutínio ao que se tem escrito, a conclusão óbvia é que a tal “esquerda”, aquela que tem a maioria dos deputados, é uma realidade, puramente, virtual. É um ente etéreo que se solidificou nas mentes de alguns para justificar o injustificável. Obviamente que esses iluminados fabricam essa miragem sem qualquer interesse pessoal. Obviamente. Tal e qual o novo alfaiate do rei no conto de Hans Christian Andersen.

Mas, voltando ao caso concreto e específico da atual “maioria de esquerda”, qual é a trave mestra comum aos três partidos (ps, be e pc) para que possam ser aglutinados num conceito político que os una e que permita a existência da tão falada “maioria”? Quase nada. Perdão. Não estou a ser, inteiramente, correto. Há algo muito importante que é transversal aos 3 partidos: é, recorrente e acintosamente, falarem da direita (outra entidade virtual). Aliás, só uma pessoa maldosa como eu é que não consegue ver que há ali uma união indestrutível que os congrega porque tal é a fraternidade que só a uma pessoa de “esquerda” é permitido dizer “diraita” em vez de “direita”. E só a eles é e será permitido usar o argumento absoluto, final e letal do “combate às políticas de diraita” que não querendo dizer, rigorosamente, nada, fica sempre bem num discurso de “esquerda”. É motivador e agregador. Não quer dizer nada? Irrelevante.

E onde ficamos relativamente à existência ou não de uma estrutura ideológica comum que sustente a tal “maioria”? Pois. Estamos a trabalhar nisso. Ah! Somos todos contra a austeridade! Vistes? Vistes como temos coisas comuns? Mas os outros, também, já disseram que são contra a austeridade. Não interessa nada. Nós, “os de esquerda”, somos mais contra a austeridade. Somos mesmo, mesmo contra. Só um parêntesis para que fique registado que eu, pessoalmente, sou a favor da austeridade no Estado. Não concebo que as pessoas que em nosso nome, gerem o nosso dinheiro (sim, porque o dinheiro que o Estado tem é, sobretudo, o dinheiro que lhe entregámos) não sejam austeras nos gastos.

Prontos. Agora que já se descobriram vários pontos comuns, vamos lá arranjar um acordo que sustente “um governo de esquerda”. Por um lado, o principal contributo do pc e do be é não contribuírem. Estranho? Nada. O pc e o be desistem, suspendem, penduram, encostam, fazem de conta que não são assim tão importantes, as causas “vitais” que, sempre, defenderam. Mas perdem identidade? Um “chisquinho”. Quase nada. Só são aquelas razões que os definem e os determinam. Mais, oferecem, ainda, outro não contributo. Prometem que durante os meses, perdão, os 4 anos que durar o próximo governo, não vão haver greves nem manifestações de protesto nem capas mal-intencionadas do “Público” e de outros jornais. Mas eles podem prometer isso? Calado, Pá. Não te metas nisso que em Portugal os sindicatos só pensam nos trabalhadores e os jornalistas são, absolutamente, isentos.

Pelo outro lado, o ps oferece o que sempre ofereceu: dinheiro, montes de dinheiro. Vamos todos receber o que, antigamente, se recebia e gastar muito. Porque isto só lá vai com muito e muito consumo. Ah, e muita despesa pública. Mas há dinheiro para isto tudo? Há, então não há? Se o Centeno diz que sim, é porque há. Ele fez as “continhas” todas. Mas parece que não estão muito bem explicadas e que além de não baterem certo, implicam cortar numas coisas em que aqueles gajos do pc e do be se vão atirar ao ar. Chiu! Não arranjes problemas agora que isto está quase. Aqui o que interessa é tirar de lá os gajos da “diraita”. Ponto. Quanto ao resto, dizemos que fizemos umas reuniões técnicas e que estamos mesmo à “beirinha” de arranjar um acordo histórico. Mas os gajos das reuniões técnicas passaram o tempo a beber umas “bejecas”. Lá estás tu, outra vez. Não interessa nada. Há sempre coisas que podemos dizer. Olha, podemos falar da tsu. Essa é boa, Pá. As pessoas gostam de ouvir falar da tsu. E, então, se lhe juntares “patrões”, ainda é melhor. E ainda há as pensões e os salários. Vais ver que vamos fazer um sainete. Mas isso é tudo para gastar dinheiro que não temos. Vê se entendes. Primeiro, não vamos gastar tanto assim. Até porque aqueles gajos da europa, não deixam. E ainda bem que não deixam que é para podermos “endrominar“ os gajos do pc e do be a dizer que foram os “mauzões” da cee que proibiram. E depois, se gastarmos a mais (ah, e como vamos gastar a mais) daqui a uns meses, perdão, daqui a 4 anos, vêm os outros para comporem, outra vez, isto tudo.

Comments

  1. Ana A. says:

    E que tal, acalmar, e aguardar para ver o que acontece?! Afinal, é uma nova abordagem para governar Portugal! E depois, se não gostarmos, voltamos a votar em quem nos transmitir confiança! É a Democracia, pá!

  2. Nightwish says:

    Porreiro porreiro é mais umas negociatas com firmas de advogados à mistura pagos pelo estado. Isso é que era.
    Agora economia, quéssa merda? Interessa é empobrecer, que o Passos tem sempre razão.

    • Nightwish says:

      E essa coisa de dizer que não vê diferença entre esquerda e direita só mostra a mais completa ignorância.

  3. joaonao says:

    Austero é coisa que o estado nunca foi para os grandes interesses como a realidade bem nos mostra.

  4. joão lopes says:

    “é permitido dizer diraita” e tambem é permitido a direita falar da esquerdalhada,do mestiço,do gandhi de lisboa,do mulato ,do mularussa(jeronimo),da esquerda caviar,dos gulags,da coreia cuba e a venuzuela e da venualização de Portugal e já agora sai mais uma capa do CM com(voces sabem)…e diz lá,ó osorio(o O fica pequeno tal como no texto o ps,pcp e be)se queres ofender ainda mais a esquerdalhada?p.s.-podes me mandar para a …china.(ola,edp vendida por sua excelencia o dr.passos)

  5. O Max já deu corpo ao pensamento do autor.

  6. Rui Silva says:

    Mas era interessante ver o Bloco e o PC, tal qual o Tsipras que neste momento enfrenta greves contra a privatização do Porto completa do Porto do Pireu.

    cumps

    Rui Silva

    • joão lopes says:

      “privatização” imposta pelo shauble.olha,la,pa tu defendes o teu partido desta maneira? pois,não admira que os pafiosos(coligação) tenham perdido tantos votos.

Trackbacks

  1. […] “Como registo inicial de interesses, deixem-me dizer que não acredito na dicotomia entre esquerda e direita”, CGO, no Aventar […]

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