Professores: O Luto (parte 2)

O que suspeitava aconteceu e a pancada começou a cair.

Não tenho qualquer intenção de branquear nada, como poderás ver neste post. Procuro, antes, colocar alguns factos em cima da mesa que ajudam a fazer uma reflexão. Queria ir para lá do sentimento, queria ir para lá do lugares comuns. Posso falhar, o que provavelmente acontecerá, mas vamos lá continuar.

Numa coisa, MLR foi absolutamente incomparável. Na forma como se relacionou com os Professores.

Não me esqueço do que eu disse no Cinema Batalha, no Porto, onde foi proposta a Manifestação de 2008. Mas, também não me esqueço que estive na rua, uma primeira vez, a 5 de Outubro de 2006 onde 25 mil pessoas me pareciam a maior possível. Na altura, em que o ECD estava para cair, “poucos” quiseram saber – não acordei com a avaliação.

Invoco essa manifestação porque me lembro de que nesse dia, Walter Lemos, ter divulgado um “estudo” que falava em milhões de faltas. Confesso que, nessa altura, estava ainda muito longe de perceber o que estava para vir.

Se estive EM TODAS de alma e coração, tenho hoje a certeza, por testemunhos vários que houve partidos a convocar militantes para as manifestações –naqueles momentos desconhecia isso. Quem estava por dentro das máquinas partidárias sabia, mas eu, apenas ligado ao sindicalismo, desconhecia. Ter menos de 35 anos também ajudava…

E, só percebi isso, quando, já com Crato foi preciso fazer as lutas duras, aquelas que custam: Greve aos Exames, PACC…

Ora, nesses dias, a malta do PSD colocou-se de fora e só alguns se chegaram à frente. Percebi muita coisa nesses dias, até que somos uma classe estranha. Dentro do PS é um lugar comum dizer que os Professores foram paus mandados do PC, liderados pelo Mário Nogueira e que, quando o governo é do PSD, a rua é algo que não existe. Acho que é uma leitura muito pouco correcta, porque a verdade está longe, muito longe de ser essa.

Fomos capazes de ir para a rua TODOS e até conseguimos em alguns momentos andar à frente das estruturas sindicais, mas, em boa verdade, nas lutas que custam, em que cada um se arrisca, em que o dinheiro sai do bolso, aí só a liderança da FENPROF permitiu que coisas como a requalificação ou como a PACC tenham tido o destino que tiveram. E, com Nuno Crato, só a FENPROF – honra nos seja feita – se manteve na luta. Porque a FNE, simplesmente, desapareceu.
Mas voltemos a MLS. Acho que fizemos o que era possível para combater alguém que destruiu a classe. Uma geração inteira – a que começou ali por volta do 25 de abril – abandonou a escola e isso vai ter um custo para gerações.

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Lembro-me de como fomos felizes em Argoncilhe. Lembro-me como procuramos lutar com toda a força. Lembro-me do que foi discutido para conseguir aquela frase antes de todos os outros: “Deixem-nos ser professores”. Creio que a mãe da ideia foi a Isabel. Lembro-me do que chorei, quando no dia seguinte vi a nossa imagem a caminho do Terreiro do Paço na capa do Público, ali, em todos os quiosques do país. Lembro-me ainda que a “nossa frase” foi escolhida para lema da Manif seguinte e depois quase se tornou o sonho de todos – “Deixem-nos ser Professores”.

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E, para além do que dizia, MLR falhou redondamente no que fazia. Ao trazer para a escola a “contabilidade”, o Excel, a prestação burocrática de contas, ainda por cima suportada por uma desastrosa actuação com / e dos Directores, deu no que deu. Deixou de ser possível usufruir das horas de redução da componente lectiva e isso foi também um elemento mais para a catástrofe.

MLR levou desconfiança para a escola, para a relação entre docentes, destes com as Direcções e destas com a estrutura do Ministério da Educação.

A palavra confiança é para mim tudo e por isso, talvez concorde quando o Paulo diz que o ataque à alma da Escola foi feita por MLR. Eu diria que à Profissão, sem dúvida. Foi. A alma dos Professores foi destruída e não sei se algum dia regressará a boa parte das nossas salas de aula.

É claro que depois tudo se extremou – do nosso lado havia a convicção de que até o governo poderia cair – como caiu. Do lado do PS a necessidade de resistir. E, até a CGTP se fartou da nossa dinâmica e há quem fale de uma reunião entre algumas figuras que terão ajudado a acalmar a coisa, porque as outras lutas da INTER também precisavam de visibilidade – isto não posso confirmar, apenas ouvi dizer…

E, sim, nesta dimensão MLR, Valter Lemos e Pedreira foram absolutamente ímpares. NC não mudou nada de muito significativo, é verdade, mas como não era sincero, tinha intervenções públicas mais simpáticas…

Lendo os posts de forma simpática, diria que a coisa vai em 1-1. Mas, com tendência para MLR. Mas, vou continuar.

 

Comments


  1. Provavelmente não terias escrito este segundo texto, desta forma, se não tivesses levado “pancada”. Quanto ao que desconhecias sobre “mobilizações”, há mais coisas que desconhecerás e muitas outras que eu desconheço, fora de todos os aparelhos organizacionais.

    Quanto às mobilizações de 2014 com a greve às avaliações, estarás a reduzir muito as coisas ao culpar o PSD de não estar nelas. Não é verdade e o fim dessa greve é responsabilidade, em grande medida, da Fenprof que preferiu, de novo, fugir da trincheira quando apertou e mandar dizer que era porque os professores não iam aguentar muito mais. Nunca saberemos, cortesia dos nossos “representantes”.

    O que eu acho que não deve ser feito é reduzir os “males” de MLR à relação com os professores e achares que o “resto” esteve bem ou quase bem, mais ou menos um detalhe.

    Esse é o branqueamento que mais me impressiona, dizer que o “resto” foi em prol dos alunos e da Educação.

    Errado.


    • Pois, claro. Somos sempre nós e as nossas circunstâncias. Não sou um historiador imparcial e distante. Sou participante, mas repara que escrevi: “E, para além do que dizia, MLR falhou redondamente no que fazia. Ao trazer para a escola a “contabilidade”, o Excel, a prestação burocrática de contas, ainda por cima suportada por uma desastrosa actuação com / e dos Directores, deu no que deu. Deixou de ser possível usufruir das horas de redução da componente lectiva e isso foi também um elemento mais para a catástrofe.” FAZIA!!!!