Carta do Canadá – O Albertino


Ilustração: Atlanta Sketch Group

Ilustração: Atlanta Sketch Group

Naquele tempo o Ti Xico Porto era o tesoureiro do Comando Geral da PSP, na Avenida António Augusto de Aguiar, e uma vez por semana eu ia almoçar com ele. Geralmente à sexta-feira e a seguir ao almoço íamos para Tomar gozar o fim-de-semana. Eram almoços reinadios, na messe, e tomávamos café um pouco acima, na mesma rua, mesmo em frente a um chalet arte nova, na esquina da Luís Bívar, se bem recordo, que exibia uma placa explicando que ali tinha vivido António José de Almeida, grande figura da 1ª República. Volta e meia aparecia o Albertino,   construtor civil feito a poder de baldes de cimento desde os 12 anos, porque o país era o que era e a vida é o que é. Gostava muito do Ti Xico e vinha quase sempre só para o ver  e se regalar no café com os amigos dele. Todos achavam piada ao Albertino e puxavam por ele, que era um meia leca magrote, esturricado, olhinhos matreiros de rato. E muito rico. Podre de rico. Abria a boca e dizia coisas espantosas. Inesquecíveis. Sentenciava, por exemplo, que os alquitetos mandam mais que os inginheiros.  Devia saber disso, porque era um gaioleiro desembaraçado que cirandava pela câmara e pelas ruas de Lisboa a impingir projectos, a fazer e vender casas. Tinha ideias claras. Os pretos, dizia, era para estarem em África e porrada neles que eram uma cambada de malandros. Uma ocasião, naquele café manhoso da Avenida Conde Valbom, que era o quartel-general dos empreiteiros, leu num jornal que a Inglaterra se propunha legalizar as uniões de homossexuais  e não esteve com modas: meteu-se num avião  para Londres,  onde o filho estudava, e obrigou-o a regressar a casa sob pena de o pôr fora de casa se não obedecesse.  Sobre mulheres, era definitivo: quando inquirido de qual discurso tinha gostado mais nas festas regionais, nem pestanejava ao declarar que “dos discursos o que eu gostei mais foi das pernas das gajas”, que ele observava palitando os dentes enquanto os oradores  palravam.

Aqui faço um parêntesis para citar uma anedota feita nesse tempo que sublinha em que conta ele tinha as mulheres e o estatuto de importância que dava o dinheiro. Ora aí vai. Um construtor ia a sair do cinema Império, na Alameda, aquele que foi abocanhado pela Igreja Universal do Reino de Deus, essa que está a comprar o Brasil ao metro quadrado e os seus políticos a preço de saldo. Ia acompanhado pela mulher. De súbito, passou devagarinho um descapotável, guiado por uma loira que, alegremente, gritou “olá Zé”. O Zé da construção correspondeu com um aceno vago, o que levou a mulher a pedir-lhe explicações. “É a minha amante”, esclareceu o homem secamente. A madame desatou num berreiro, a chamar-lhe desgraçado e a falar em divórcio. Muito calmo, o Zé aconselhou-a a não ser parva,  queria  lá ele saber da rapariga para alguma coisa, mas tinha-a por conta, era teúda e manteúda por ele porque todos os colegas faziam o mesmo e ele não queria fazer figura de urso. Madame foi esvaziando devagarinho, entendeu a jogada na perfeição e ficou tudo bem. Tempos depois, a saírem do mesmo cinema, repete-se a cena com outra menina, que gritava “olá Zé” ao volante dum Alfa Romeo. Madame quis saber quem era aquela. “É a amante do mê sócio”, disse o da arte. Madame, deleitada, encostou-se ao marido e bichanou: “Oh Zé, a nossa é mais gira”.

Adiante. O estado de alerta do Albertino diante da velha casa durou umas semanas, mas deu resultado: viu sair de lá um electricista que várias vezes tinha trabalhado nas suas construções, convidou-o para um copo e obteve as informações de que carecia. A mulher do electricista era a criada da senhora da casa, portanto eles praticamente viviam ali, a filha de António José de Almeida vivia ali sem pagar porque um português endinheirado do Brasil assim tinha determinado enquanto houvesse descendência directa, no que era respeitado pela sua herdeira residente no Rio de Janeiro, e quanto a conselheiro da senhora, já bastante idosa, era um juiz. Qual Napoleão do cimento armado, o Albertino tomou grandes medidas: contra moradas e nomes, ofereceu um apartamento do melhor às três partes colaborantes: a residente da casa, o juiz e o electricista.  Oferta aceite com grande êxito. E depois, foi ao Brasil. Explicou-nos assim a passeata: “Disse à inha mulher que ia ao Minho contratar estucadores e demorava uns dias. Não disse a verdade porque  mulheres, com licença da menina e sem ofensa, não são de fiar. E logo a minha, que tem uma irmã casada com um que tem o mesmo negócio que eu!”.  Quisemos saber se este negócio queria dizer que precisava de dinheiro e ele, que não, mas que lhe sabia bem ir para a reforma com mais.  O vício de todos nestas andanças.  Depois, foi o que se viu: casa alagada, memória histórica espezinhada, uma corrupção completa  e, claro, um alto prédio.  Anos depois, numa tarde de Verão, a um domingo, o Ti Xico e eu lembrámo-nos de ir saber do Albertino na aldeia dele. Fez-nos uma grande festa, mostrou a casa toda, mais a horta e o pomar. E um calor danado. Esbodegados, acabámos na adega do Albertino, naquela penumbra gostosa das adegas, temperada por um ligeiro aroma acidulado. Ficámos pregados ao chão quando vimos, pendurada entre barris, a famosa “pilaca” que garantia estatuto de monumento à velha casa de Lisboa.

O Albertino marimbava-se para tudo.
As voltas que a vida dá!  Se algum dia me podia passar pela cabeça que um qualquer Albertino americano se ia instalar na Casa Branca. Mas aconteceu e agora, assobiem-lhe às botas.

Comments

  1. Ainda hoje em Portugal somos governados por filhos ou sobrinhos de “patos bravos” !!!

  2. é difícil ser portuga.... says:

    E filhos de salazaristas empedernidos….

  3. Uma crónica engraçada mas escrita um bocado aos zig zags.

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