Lettres de Paris #36


‘De ma naissance a ma mort, j’ai trouvé le temps beau’

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Na lápide da sepultura de Regina e Abel Taïbi, na divisão 18 do grande Cemitério de Montparnasse, está escrita esta frase. Não sei quem foram os ali sepultados, ao contrário de muitos que ali repousam o que se diz ser o sono eterno, Regina e Abel são totalmente desconhecidos. Mas ao passar, já de regresso à entrada principal do cemitério, pela sua sepultura, não pude deixar de sorrir ao ler a frase. Uma coisa tão simples, achar sempre o tempo belo, desde que se nasce até que se morre. E, no entanto, passamos a vida atormentados por mil coisas sem importância e mais algumas que terão importância, mas não apagarão jamais a beleza que há em toda a parte. A beleza que há em tudo o que há. O tempo belo que vivemos enquanto somos vivos.
A beleza do enorme Cemitério de Montparnasse, com 18,72 hectares, 42 mil sepulturas, 1244 árvores de 40 espécies diferentes é inegável. Mais ainda nesta tarde muito fria, com sol e um céu talvez demasiado azul para se fazerem visitas a cemitérios. Visitei pela primeira vez (e única, até hoje) o Cemitério de Montparnasse há mais ou menos 20 anos, num tempo seguramente belo, em que eramos novos, eu e o N. e ninguém que conhecessemos, incluindo nós mesmos, estava morto. Lembro-me de ter posado, sorridente, atrás da campa de Sartre e Beauvoir, que estão sepultados logo à entrada, na divisão 20. A lápide era diferente, entretanto alguém a terá mudado. Esta é mais alta e branca e hoje estava particularmente bonita com a luz e as sombras que havia. Prestei-lhes a minha homenagem em silêncio e voltei para trás um pouco comovida, não pela sepultura, mas pelas coisas de que me lembrei à sua frente. Passei de novo a entrada e continuei pela Avenue du Boulevard até à divisão 21, onde está sepultada Marguerite Duras. A campa de Duras é justamente o oposto da de Sartre e Beauvoir. Marguerite Duras está sepultada com o seu último amor, Yann Andrea e em cima da pedra rasa estão rosas vermelhas, cactos, conchinhas, um vaso enorme onde estão enterradas centenas de canetas e de lápis. Não me lembrava da campa de Duras, penso. Mas, claro, ela morreu em 1996, depois de eu ter visitado o cemitério, lembro-me logo a seguir. Deixo um pequeno lápis de madeira enterrado no vaso e volto outra vez para trás, pelo mesmo Boulevard, em busca da campa de Durkheim, na 5ª divisão.

Não encontro a campa de Durkheim e isso entristece-me não sei porquê. Há 42 mil campas neste cemitério, não creio que seja fácil descobrir todas aquelas em que estão enterradas pessoas que me dizem alguma coisa, que acrescentaram beleza à minha vida, fosse de que forma fosse. Andei pelo meio das campas da 5ª divisão, para trás e para diante, no meio dos estreitos caminhos, cheios de musgo e folhas, e não encontrei a campa do ‘pai’ (de um dos pais, melhor dizendo) da sociologia. Encontrei Le Chat, uma escultura interessante que faz as vezes de lápide, logo ali em frente, já na 6ª divisão. Passei por ela e continuei para a direita, pela Avenue du Nord até à esquina com a Avenue de l’Ouest para encontrar a sepultura de Charles Baudelaire. Antes de a encontrar vi um corvo muito preto que pousava de campa em campa com um pedaço de pão na boca, muito entretido e alheio à morte, também ele a acrescentar beleza ao mundo e, neste instante, à minha vida. Alguém, com o mesmo propósito do corvo certamente, deixou girassóis na sepultura de Baudelaire.
Há muitos crisântemos no cemitério, quase todos amarelos, embora aqui e ali, espreitem alguns brancos. Lembro-me da canção de Jaques Brel, ‘J’arrive’*
‘De chrysanthèmes en chrysanthèmes
Nos amitiés sont en partance
De chrysanthèmes en chrysanthèmes
La mort potence nos dulcinées’.
Prefiro fotografar os crisântemos e as outras flores que, segundo Brel, ‘fazem o que podem’. Aquilo que as flores fazem é colorir as pedras quase todas cinzentas e negras, muito escuras todas, seja como for (excetuando o gato que encontrei há pouco a fazer de lápide). E eu prefiro fotografar essa cor, essas muitas cores, e as estátuas, como o Génie du Sommeil Éternel a meio da Avenue Transversal, onde já entrei, enquanto penso na canção de Brel. Logo à saída da pequena rotunda que existe em volta do Anjo do Sono Eterno, vejo uma escultura de duas mãos quase entrelaçadas, tão bonita e esperançosa. Depois, do outro lado, está a campa de Serge Gainsbourg, cheia de flores e recados. Procuro um pouco mais à frente, na esquina com a Allée Chauveau Lagarde coberta de folhas, a campa de Eric Rohmer. Mais outro que não fez mais que acrescentar beleza à minha vida. Morreu em 2010, aos 90 anos e desconfio que também pensava o mesmo que Abel e Regina.
Um pouco mais à frente, na 12ª divisão está enterrado Samuel Becket. Há apenas uma folha e uma pequeníssima flor lilás na sua campa. Sento-me num banco, apesar de estar cada vez mais frio. Estou a fungar e não tenho lenços. Considero limpar o nariz à manga, como nos tempos da minha infância que, apesar de tudo, também foram belos, quando uma senhora se aproxima e diz, muito educadamente se lhe empresto o mapa do cemitério. Reparou que eu tinha um, diz. Empresto-lho, claro. Imprimi-o ontem, ao mapa. Em troca, pergunto-lhe se por acaso não terá um ‘mouchoir’. Que sim e estende-me um pacote de lenços de papel. Poupo a manga da camisola, penso. Sinto-me aliviada depois de assoar o nariz. A senhora agradece e vai em busca da campa de Gainsbourg que, afinal, acabo eu por lhe explicar onde é, sem ser preciso o mapa. Entro na Avenue de l’Est, quando me levanto do banco, com o nariz assoado e as orelhas geladas e desço-a completamente, a reparar nas estátuas, nas sepulturas, nos crisântemos e nas outras flores, até alcançar a Avenue du Boulevard, de novo e entrar na divisão 21. Volto a passar na campa de Marguerite e Yann, paro mais um bocadinho a olhar para as canetas e lápis. O meu pequeno lápis ainda lá está, claro. Vejo ao fundo a Tour de Montparnasse, entre os ramos das árvores, quase sem folhas, e saio por onde entrei, para o Boulevard Edgar Quinet.
Está cada vez mais frio enquanto caminho pelo Boulevard até chegar à Rue du Départ. Está quase a escurecer quando chego (j’arrive) à Rue de l’Arrivée, mas não me sinto nem solitária, nem supranumerária*, embora tenha saudades, de vez em quando, de ‘remplir d’étoiles’* um certo corpo que está longe do meu, neste momento. Apesar disso, não me sinto solitária, nem supranumerária, nem atrasada para nada, muito menos para a morte. Por isso mesmo, resolvo entrar no Saint-Malo e beber um chocolat chaud e comer um bolo, ambos com um ar muito bonito e, mais importante, com um sabor bastante bom. Os empregados são muito simpáticos, o lugar está cheio de gente barulhenta e viva e recebo um telefonema do rapaz das estrelas que me aquece o coração, embora não a ponta das orelhas. Quando saio do Saint-Malo já escureceu completamente. Atravesso o Boulevard du Montparnasse e entro na Rue de Rennes. Está cada vez mais frio e um quarteirão à frente vejo uma Uniqlo, a loja de que me tinha falado a Fabienne para comprar uma ‘doudoune’. Perguntar-me-ão vocês (se forem como eu e não conhecerem esta expressão que só há muito pouco tempo entrou no meu vocabulário) o que é uma ‘doudoune’… Além de ter nome de nuvem, uma ‘doudoune’ é isso mesmo, uma espécie de nuvem que nos aquece e nos protege do frio. Um casaco de penas, pronto.
Entro na Uniqlo desconfiada. Todos os casacos de penas que experimentei na vida (e digo já que foi apenas um, em Arhem, Holanda, há uns 7 ou 8 anos) me faziam parecer uma botija de gaz ou, pior talvez, o boneco da Michelin. Sempre achei que, depois daquela experiência, não valia a pena experiementar mais nenhuma ‘doudoune’. Iria sempre parecer uma botija de gaz. Mas instigada pelo frio que fazia hoje às seis da tarde e pelo frio que se anuncia, lá experimentei duas ‘doudounes’, uma preta e outra cinzenta, leves como penas, pelo joelho. Deixei a cinzenta na loja e trouxe a preta comigo, dobradinha no seu saco minúsculo que se leva para todo o lado, sem ocupar espaço. As maravilhas da tecnologia, só vos digo!. A minha ‘doudoune’ é quente como um edredão, e leve como uma nuvem. Não pareço (acho eu, bem entendido) uma botija de gaz nem o boneco da Michelin, com ela vestida e amanhã já vou enfrentar o frio de Paris devidamente (espero) protegida.
Quando cheguei à Rue Suger, depois de ter apanhado o metro na estação de Saint-Placide, arrumei a ‘doudoune’ no armário, sentei-me um bocadinho na cadeira de baloiço, a pensar em nada. Depois jantei e saí de novo, ainda sem a nuvem vestida, para a rua. Atravessei a Place Saint-André des Arts onde existem, desde esta manhã, duas árvores de natal com fitas azuis, passei a Fontaine Saint-Michel, atravessei o Boulevard do mesmo nome e entrei, com as orelhas outra vez geladas, no Espace Saint-Michel. Vi um filme-documentário, que deveria já ter visto, como deveriam todos, de Silvia Munt. Afectados, assim se chama. É sobre a crise económica em Espanha e a incapacidade de centenas de milhares de pessoas de pagarem os seus empréstimos de habitação e, por isso mesmo, serem expulsas das suas casas, continuando, no entanto, a pagar a dívida. Atualmente já não é assim, pelo menos no que se refere, na maior parte dos casos e dos bancos, à dívida com que se fica mesmo que se fique sem casa. Para isso contribuiu a ação de grupos como o PAH, um coletivo cidadão de Barcelona que ajuda(va) as pessoas nestas condições a procurar uma solução.
O documentário é comovente e por várias vezes tive um nó na garganta e lágrimas nos olhos, diante das histórias daquelas pessoas e, apesar delas, da sua solidariedade sem limites e da sua força para seguir adiante. No fim, a relaizadora pergunta a Antonio, um dos intervenientes, o que é que ele aprendeu com todo o processo. Ele, tammbém de lágrimas nos olhos e certamente com um nó na garganta responde que aprendeu a ser mais solidário, menos egoísta e a amar mais as pessoas. É capaz de não ser preciso mais nada para se encontrar beleza bastante, no tempo que temos entre o nascimento e a morte.
* J’Arrive, de Jaques Brel aqui

Comments

  1. Nascimento says:

    Espero eu que ande a selecionar os bonecos captados.No fim veremos.Há aí bons bonecos…é de ir prá frente. SEM MEDO. E mais uma vez OBRIGADO.

    • Obrigada. Eu gosto de fotografar, mas não percebo nada do assunto, com pena minha (também podia ir aprender, é bem verdade) e sobretudo não percebo grande coisa da máquina em modo manual. Até é uma máquina jeitosinha (de há pouco tempo para cá) mas eu não sei explorar as potencialidades todas dela e, sinceramente, também sou preguiçosa 😦

      • Nascimento says:

        É evidente que o problema está na preguiça. Mas tem “cura”. ACREDITE. Basta estar atenta. Ande com a mais simples máquina de registar os MOMENTOS ( SEMPRE) e…Pimba. Fácil. Faça um exercício que lhe dou: TODOS OS DIAS e se possível á mesma hora( e já vai em atrasado), FOTOGRAFE O SEU QUARTO, SALA, COZINHA, ETC. Quando se vier embora desse lugar exponha as imagens para SI e VEJA. ( LEIA)
        Foi ” assim”? Verdade? EU????e mais não digo…

  2. Obrigada! Eu só uso a minha máquina melhorzinha (a tal que ainda não aprendi a usar como deve ser) quando saio em passeio prolongado, No dia a dia tenho uma daquelas compactas pequeninas que trago sempre na mala (já escrevi isto para aí numa carta qualquer)… a máquina que usei aliás sempre nas viagens até comprar (há pouco tempo) esta. E sim, tiro-a muitas vezes da mala e tiro fotografias a momentos, a grafitti, a coisas que me chamam a atenção. Mas vou seguir a sua sugestão… e começar a tirar fotografias à mesma hora às mesmas coisas… 🙂 a ver no que dá.

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