Lettres de Paris #37


Au Portugal la vie est plus facile

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disse-me um senhor francês, ao jantar, no Le Saint-André. Apesar da gripe das aves que tem afetado milhares de patos no sul de França, comi ‘magret de canard’. Gosto de pato, que querem? Não são uns milhares de patos mortos que me vão afastar de um dos meus pratos preferidos da cozinha francesa. O outro são as vieiras que, lamentavelmente só comi ainda uma vez, no Le Centre du Monde, já há umas boas semanas. No Le Saint-André não há vieiras, infelizmente, de modo que quando lá vou como pato frequentemente. O empregado simpático que fala comigo em português do Brasil e parece que me quer arranjar amigos disse ao casal sentado na mesa em frente da minha, estava eu a levar uma batatinha assada à boca, que eu era portuguesa. A seguir anunciou-me que os senhores viviam ‘à Lisbonne’. Sorrimos uns para os outros. O homem era francês, a mulher irlandesa e vivem em Lisboa na maior parte do ano. Trocámos palavras de circunstância ao princípio. Confesso que estava mais interessada no pato e nas batatinhas assadas que na conversa dos habitantes de Lisboa, mas assim mesmo lá fui falando com os senhores, quase sempre em francês. Gostam muito de viver em Portugal, conhecem Aveiro, ‘trop petite’, e adoram – que surpresa – Lisboa, onde vivem há já bastantes anos.

O empregado – a quem ainda não perguntei o nome (uma vergonha) pergunta-lhes se se vive bem em Portugal. Dizem em coro que sim, ‘c’est magnifique’, muito melhor que em Paris. Eu balbucio que, bem, depende, que a vida em Portugal não é assim tão ‘magnifique’, que há a crise, que há os cortes, que há o desemprego… que sim, que sim, respondem, mas em França também há. Perguntam-me se já reparei na quantidade de pessoas sem-abrigo em Paris. Claro, digo eu, é difícil não reparar. Mas em Lisboa também há cada vez mais pessoas nas mesmas condições. Que não, que quase não há, dizem eles. Não vou insistir com os senhores, mesmo porque tenho o pato e as batatinhas a arrefecer, mas ainda lhes digo que em Paris vive a toda a população portuguesa. 10 milhões. Deve ser também por isso que aqui, eventualmente, se notará mais. Ele responde que os portugueses são mais solidários. Talvez sejam, digo eu, mas não tenho a certeza disso. Até ver os franceses também me parecem geralmente pessoas de bem. Diz o senhor que são mais desinteressados e que ‘au Portugal, il y a beaucoup de bonnes personnes’. E há o sol. E a comida. Eu acrescento o vinho. E ele diz ‘ah oui, le vin, et c’est moins cher’. A senhora diz que tudo é muito mais barato, em Portugal e que a vida é muito mais fácil. Ainda lhe digo, não se se for reformado com 200 euros por mês. Concordam comigo, mas não sei se farão ideia de quantos idosos vivem com essa quantia na bela Lisboa de que tanto gostam e no belo Portugal ‘oú la vie est plus facile’. A senhora lembra o marido que têm de se ir embora. Despedem-se efusivamente de mim e do empregado, para minha felicidade que, assim, já posso voltar a apreciar o pato e as batatinhas em paz e sossego.
Antes de saber que para o simpático casal a vida é mais fácil em Portugal, passeei bastante em Paris. Primeiro subi ao Arco do Triunfo, onde nunca tinha subido. Cheguei lá de metro, a linha 4 primeiro entre Saint-Michel e Chatêlet e a linha 1 depois, para Charles de Gaulle – Étoile. A praça tem realmente semelhanças com uma estrela, com o imponente arco no meio e com ruas largas que partem dele em várias direções. Saio do metro, subo as escadas, estou no princípio dos Champs-Elysées, onde também ainda não passeei. Há imensa gente que tira fotografias. Está um lindo dia de sol e céu azul. Parece que chove em Lisboa. Nada mal para Paris, este tempo que tenho tido. Tirando o frio, já se sabe. Mas hoje não sinto frio praticamente. Trago a minha ‘doudoune’ nova e é praticamente o mesmo que andar com um edredão vestido. Quentinha e muito leve, embora eu ainda não esteja absolutamente segura de que não pareço uma botija de gaz com ela vestida. Mas não me importa, estou quentinha. Só tive frio nas orelhas e na ponta do nariz. De resto, nada. Apesar de ser maravilhosa, a ‘doudoune’ deita penas. Não devem ser de pato, mas são penas de verdade. De pássaros chineses, provavelmente, já que apesar da Uniqlo ser uma marca japonesa, as roupas são ‘made in China’. Quando tiro o casaco, já em casa, descubro que a minha camisola está cheia de pequenas penas, ou partes de penas. O mais curioso é que na própria ‘doudoune’ não vejo qualquer vestígio delas.
Mas estava na place Charles de Gaulle ou de l’Étoile a contemplar o Arco do Triunfo em toda a sua imponência. Tiro umas fotografias mas não ficam muito bem porque há demasiada gente, demasiados carros, demasiados autocarros turísticos. Desço para a passagem subterrânea, e atravesso a praça por baixo do chão. Quando saio olho para a imensa fila de pessoas e tiro o meu cartão de estacionamento (que desta vez trouxe comigo, a ver se evitava a cena da ‘carte’, que já contei de outras vezes). Aproximo-me com o cartão de um vigilante e pergunto onde devo dirigir-me. Por aqui, por aqui, diz ela, passando-me à frente das dezenas de pessoas que ali estão. Passo a segurança e o senhor pergunta-me se quero ir de elevador. Pergunto-lhe quantos degraus são. Quase 300, responde. Então, sim, quero ir de elevador. Chama um colega que me leva até um elevador com uma forma estranha e em poucos segundos estamos lá em cima. Ele diz que para o terraço ainda são uns 60 degraus. Digo-lhe que tudo bem e lá vou eu pela escada muito estreita. Lá de cima a vista é soberba, claro. Vê-se tout Paris, ou presque tout Paris. Está um dia lindo, de verdade. Se não tivesse frio nas orelhas seria um dia glorioso.
Quando desço, também de elevador, dou uma volta ao Arco, a ver melhor as estátuas. Uma delas, de um homem, tem uma expressão fantástica. O sol bate-lhe em cheio e, juro, que a expressão dele – por estranho que possa parecer – é a de quem está a apreciar a luz e o calor genuinamente. Vejo também a chama sempre acesa e as muitas flores que alguém depositou no túmulo do soldado desconhecido. A seguir apanho o metro, a linha 6 para o Trocadéro. Outro sítio onde não me lembrava de ter ido. Há uma manifestação de romenos e moldavos que querem a reunificação. Há música e bandeiras e bebida. Há muitos vendedores de torres eiffel minúsculas. A vista sobre a torre é muito bonita, mas as pessoas são tantas, o lixo é também tanto, que acaba por não ser exatamente o sítio mais agradável do mundo.
Desço escadas e escadinhas e tiro fotografias. A mim e a outras pessoas que, em troca, me tiram também a mim. O sol começa a desmaiar um bocado antes das cinco da tarde. E antes das seis as luzes da torre acendem-se. Já estou cá em baixo, na Avenue des Nations Unies, quando a torre se ilumina. Há um quiosque e cheira bem. Bebo um café e como um crepe carregado de nutella. Nem gosto muito de nutella, mas o crepe quentinho sabe-me bem. Como-o sentada num banco em frente ao carrossel também todo iluminado e que roda ao som de músicas tipicamente parisiences. Tantos clichés numa tarde, penso. Mas não creio que haja qualquer problema nisso. Quando um bocado mais tarde começo a subir o Trocadéro, a torre começa a piscar cheia de estrelinhas. Está uma lua bonita que faz uma curva perfeita. Se não fosse ter as mãos congeladas, e o nariz e as orelhas, a vida seria perfeita neste instante em que milhares de estrelas falsas brilham na Torre Eiffel. Ponho o carapuço da ‘doudoune’, que me aquece um bocadinho as orelhas, e ponho também as mãos nos bolsos. Duvido que alguma vez tenha comprado uma coisa tão útil. Confirmo isso também quando me sento… basicamente é como se tivessemos uma almofada sempre agarrada a nós.
Regresso com a linha 6, de metro, até Montparnasse-Bienvenue. Tinha-me esquecido com a estação é enorme. Ando quilómetros dentro da estação, alguns dos quais num tapete rolante gigante, para apanhar a linha 4 para Saint-Michel. Tenho a vaga ideia de ir ao cinema quando entro em casa e me apercebo das penas na camisola. Sacudo-as pacientemente e sento-me na cadeira de baloiço. Alguns minutos, bastantes, mais tarde, decido que é melhor não ir ao cinema e, em vez disso, passar o montinho de roupa lavada a ferro. Vou jantar. Fico a saber que para o casal franco-irlandês a vida ‘au Portugal’ é mais fácil, como o pato e as batatinhas e volto para casa onde me ponho a engomar. Não há tarefa mais estúpida que esta e que eu desteste mais. Mas assim mesmo passo calças, camisolas, pijamas… e penso que sim, que em muitas coisas – como nesta que detesto, por exemplo, ‘au Portugal la (ma) vie est plus facile’.

Comments

  1. Paulo Só says:

    Já está com penas, pouco a pouco vai transformar-se em pata….

  2. 😀

  3. Que belo e delicioso naco de prosa. Obrigado!

  4. Nascimento says:

    Aquela lua, aquele jardim quase despovoado não?…e as esculturas???e o carrossel?Nada mau ,hem???

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