Lettres de Paris #48


Une journée de merde

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pardon my french. O dia não começou mal. Levantei-me tarde, dormi bastante e acho que não muito mal. Mas acabou de uma forma muito desagradável e continua a ser desagradável. Até quando não sei, sendo certo que haverá coisas piores, mas há transtornos um bocado mauzinhos, sobretudo quando se paga uma pequena fortuna para se estar num sítio onde tudo parece estar caquético. Saí de casa por volta das 3 da tarde, deixei tudo impecável e bem. Entrei em casa quase às onze da noite e mal abri a porta ouvi água a correr. A casa de banho estava toda inundada, a sanita cheia de água de aspecto duvisdoso e eu fiquei perfeitamente azamboada com aquilo. Liguei para o o número ‘da noite’ aqui na Maison Suger. Nada. Desci outra vez ao átri de entrada e o homem lá apareceu. Contei-lhe. Veio ver. Fechou a água do autoclismo e preparava-se para ir à vida dele, quando eu lhe disse que nem pensar, que ligasse ao diretor ou a quem fosse.
 
Saiu. Passado um bocado regressou, que o não tinham atendido de um sítio, e que o colega que faz os arranjos na casa não podia vir, porque morava longe. Eu perguntei-lhe se ele achava que isto eram condições, que chamasse um canalizador. Que não estava autorizado. Bonito. Saiu outra vez e passado um bocado ouço alguém na porta ao lado. A vizinha – que descobri depois que é brasileira – exatamente com o mesmo problema. O faz tudo da Maison tinha ido de manhã arranjar-lhe a sanita e agora estava tudo inundado também. O senhor que fica aqui à noite saiu outra vez para ligar a não sei quem. Voltei a dizer que chamasse um canalizador. Que não. Regressou com uns tubos a casa da vizinha. Passou quase uma hora e eu sem saber de nada. Fui lá. Tudo na mesma. O problema é na casa ao lado e não aqui, mas a verdade é que isso me interessa pouco, visto que não posso usar a sanita. Digo-lhe isto. Ele diz que já vem cá. Passa mais um grande bocado e nada. Vou lá outra vez. Afinal parece que chamou alguém, um homem, que aparece dali a um bocado. Ficam os dois na casa ao lado e de vez em quando vêem ver o que se passa deste lado. A sanita acaba por se esvaziar e o chão por secar, mas cheira mal. Tenho vontade de ir à casa de banho e tenho de ir à cave, descer até ao átrio e depois descer umas escadas estreitas até lá. Rica solução.
 

Ao fim de mais de duas horas o senhor volta com baldes e lixivia e mais não sei o quê. Teoricamente eu já posso usar a sanita. Teoricamente, porque quando ele abre a torneira do autoclismo e o puxa, a água começa outra vez a subir. E agora? Que já chamou alguém (pelos vistos o outro homem não veio cá fazer nada) e que virá amanhã. E se eu precisar de ir à casa de banho? Vá a da cave. Que bon, penso eu, a imaginar-me em pijama a meio da noite a descer até ao átrio e depois até à cave. Portanto, uma maravilha isto. Na verdade, a Maison Suger é uma coisa que não tem explicação em muitas coisas. A roupa de cama e as toalhas pagam-se aparte, como se uma pessoa viesse do seu país carregada de lençois e toalhas. A limpeza que teoricamente é feita todos os dias, não é quase nenhuma, se não formos nós a fazê-la. As mobílias são velhotas e a louça é praticamente contada. Fora a antipatia natural das senhoras administrativas. Tudo bem, é temporário, aguenta-se bem, também não um buraco, vá. Agora não puder usar a sanita! Onde já se viu! Claro que isto pode acontecer em toda a parte. Mas o que me fez espécie foi o senhor não ter logo chamado um canalizador como deve ser. Mais de 3 horas para constatar que precisava de chamar um canalizador! Uma coisa que eu constatei no primeiro segundo que entrei em casa e ouvi a água a correr e vi aquele espectáculo.
 
Certo. Há coisas bastante piores. Para fazer um chichi só tenho de percorrer meia Maison Suger. O mesmo, suponho, se passará com a minha vizinha do lado. Portanto, adiante, amanhã será um novo dia e com ele, espera-se, virá um canalizador que me resolverá a questão. Ou não. A verdade é que eu entrei em casa de bom humor, vinha da rua satisfeita com o meu dia e satisfeita com o jantar no Le Saint-André. Essa satisfação deveu-se principalmente a duas exposições maravilhosas que vi no Centre Georges Pompidou. Uma restrospectiva do meu segundo pintor preferido – Cy Twombly, onde revi os 4 quadros das Quatro Estações que me fizeram apaixonar-me pela sua pintura, há bastantes anos, na Tate Modern em Londres. Revê-los aqui foi como rever velhos amigos. Fiquei deliciada a olhar para eles e, mesmo se não gosto de tirar nem de publicar fotografias de quadros, porque acho que os quadros, as esculturas, a fotografia, são sobretudo para se ver ao vivo, hoje vou mostrar-vos os quatro quadros – Primavera, Verão, Outono e Inverno – que me fizeram adorar Cy Twombly e querer saber mais. Curiosamente também descobri e me apaixonei pelo meu primeiro pintor favorito – Anselm Kiefer – em Londres, na Tate Britain há uns 30 anos. A sensção que é ver, pela primeira vez, um quadro que nos fascina e apaixona, é indescritível.
 
A segunda exposição que vi no Pompidou foi ‘Gaston, au delá de Lagaffe’, evidentemente sobre este herói da BD franco-belga, nascido em 1957, dez anos menos um mês antes de mim, pelas mãos do seu criador Franquin. A exposição é pequenina mas bastante completa e sai-se de lá com um sorriso nos lábios. Pelo menos eu saí. Até chegar aqui a casa e ver o triste espectáculo que narrei acima. Antes do Centro Georges Pompidou, tinha resolvido ir ver a Promenade Dora Bruder. Quem é Dora Bruder? Perguntarão alguns. É o título de um romance de Patrick Modiano, escrito em 1997, e que é uma tentativa de reconstituição da vida de uma rapariga parisiense de origem judia, chamada exatamente Dora Bruder. Para o escritor, a motivação de empreender nesta reconstituição foi ter encontrado um jornal de 31 de dezembro de 1941 com um anúncio que dizia: ‘Paris. Procura-se uma jovem rapariga. Dora Bruder, 15 anos, 1 m 55, rosto oval, olhos cinzentos-acastanhados, casaco desportivo cinzento, pull-over cor de vinho, saia e chapéu azuis marinho, sapatos de desporto castanhos. Enviar todas as informações a M. e Mme Bruder, 41, Boulevard Ornano, Paris’. Isto mesmo está escrito na placa da Promenade Dora Bruder, no 18 éme arrondissement, inaugurada em 2015.
 
Chego à Promenade Dora Bruder, depois de ter apanhado o metro, linha 4, para a Porte de Clignancourt. Saio da estação e o cenário é um bocado agreste. Quase os subúrbios. Muito prédio alto, muitas lojas sem história, alguma confusão na saída do metro. O céu que estava azul quando eu saí de casa, está agora cinzento. Vou pela Rue Belliard a acompanhar a linha do comboio e a ver algumas hortas quando chego à Promenade Dora Bruder, entre aquela rua e a Rue Leibniz. A Promenade é muito simples, árvores, uns bancos. Prédios bastante altos de um lado e de outro. A meio há um pequeno mercado, com pouca clientela. Continuo a andar pelo passeio em homenagem à adolescente judia assassinada pelos nazis, sobre quem Modiano escreveu um livro, que li há muito pouco tempo, e chego à Villa Vauvenargues. Parece outra Paris isto aqui. Uma Paris muito diferente da do 6 éme ou do 5 éme ou do 1 ére ou dos bairros por onde tenho andado. Continuo a descer até à Avenue de Saint-Ouen.
 
Na Avenue de Saint-Ouen viro à esquerda e caminho um bocado até encontrar a Rue Guy Môquet, que percorro também até ao Boulevard de Clichy. Antes de chegar a este encontro a Cité des Fleurs, uma espécie de condomínio fechado, cheio de casas lindas, com jardim. Trata-se de uma rua privada. Trata-se provavelmente de casas de gente com bastante dinheiro. Estou já no 17 éme. Devo ter andado 2 km. Dali vou pela Rue Brochant, viro para a Rue Lemercier até ao Parc Martin Luther King, bonito e moderno, parece que o maior parque verde da zona Nord-Ouest de Paris. Está rodeado de prédios modernos e altos, mas com melhor ar que a maior parte dos que fui vendo na Rue Belliard. Do Parque, onde a noite chega de repente, vou pela Rue du Cardinet até à Place Batignolles. Agora devo ter já andado 3 km e doem-me os pés. Está muito escuro e não consigo ver grande coisa da praça. Vejo um autocarro – o 66 – que diz Ópera e entro nele. Hoje os transportes são gratuitos todo o dia, por causa de um novo pico de poluição. Novo, em termos, desconfio que é sempre o mesmo. Saio exatamente no fim da linha, na Ópera que ali está imponente e magnifica, como uma jóia que brilha na escuridão. Tenho fome. São umas seis da tarde. Está ali o Café de la Paix, com ar de ser caro, mas é muito bonito. Como e fumo um cigarro na esplanada que, apesar dos aquecedores e da vista, está gelada.
 
A seguir apanho a linha 3 do metro para a estação Arts et Métiers e daí a linha 11 para Rambuteau. Saio mesmo ao pé do Centre Georges Pompidou e vou às exposições de Twombly e Lagaffe. Ando mais uns quilómetros dentro do Pompidou. Quando saio já passa das nove da noite. Apanho em Rambuteau o metro, linha 11, para Chatêlet e daí a linha 4 para a Place Saint-André des Arts. Como no Saint-André, onde sou, como sempre, muito bem tratada e venho contente para casa. Até que abro a porta… e parece que o próprio Gaston Lagaffe, trapalhão, se tinha metido dentro da casa de banho… por causa dele agora, que são quatro da manhã, tenho de ir à casa de banho, na cave, antes de dormir.

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