A todos os leitores deste blog, que espero que sejam muitos, neste meu primeiro post gostaria de saudar e agradecer o convite que me foi formulado
Falando de Democracia: A «República da Atlântida»
Desde que Platão em Timeu e a Natureza e em Crítias se referiu a um misterioso continente perdido, o mito da Atlântida tem dado lugar a narrativas de toda a espécie e a mil e uma teorias, uma ou outra com algum suporte científico. Uma dessas teorias, situa a Atlântida na chamada região da Macronésia, que abrange as Canárias, a Madeira, Cabo Verde e os Açores. Estes arquipélagos seriam os pontos mais elevados do continente tragado pelo oceano devido a uma catástrofe (e as hipóteses vão desde o Dilúvio, a uma bomba nuclear, talvez lançada por extra-terrestres…).
Em 1931, ia a Ditadura Militar instaurada em Maio de 1926, no quinto ano de vigência, quando em Abril, eclodiram na Madeira, nos Açores, na Guiné, uma série de levantamentos militares contra o Governo. Desde a Grande Depressão de 1929, Salazar então Ministro das Finanças, impusera medidas que, tentando restringir os efeitos dessa «crise global», como hoje diríamos, obrigava a população mais carenciada a complicadas ginásticas para resolver problemas básicos de subsistência. As liberdades democráticas que tinham ficado da I República, iam sendo, uma a uma, suprimidas. Daí as revoltas insulares desencadeadas por militares. Foram rapidamente juguladas, menos a da Madeira que, devido ao grande apoio popular que teve, resistiu durante alguns dias às tropas e aos navios de guerra que foram enviados do continente. Os revoltosos eram, mais ou menos coordenados pela chamada «Liga de Paris», directório de refugiados políticos portugueses na capital de França. Esperava-se que as unidades continentais aderissem, o que não aconteceu. Só em 26 de Agosto foi desencadeada em Lisboa uma outra revolta militar e civil, orientada no sentido de repor as liberdades fundamentais coarctadas pela Ditadura, que após a rendição dos revoltosos, se cifrou em cerca de quarenta mortos e duzentos feridos. Os revoltosos das ilhas chegaram a ponderar proclamar a independência daquilo a que chamaram a «República da Atlântida». Feita por militares na sua maioria continentais colocados nas unidades sediadas na Madeira, foi a primeira ameaça de secessão que dali nos chegou. Mas não seria a última, pois agora essas ameaças chegam-nos com muito maior frequência. Primeiro foi a FLAMA, Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira, que se terá extinguido em 1978. Daí para cá, ou são alguns dirigentes históricos do movimento separatista ou o próprio presidente da Região Autónoma que, de forma explícita ou implícita, agitam esse fantasma.
Tudo isto, vem a propósito das bandeiras separatistas que, em 25 de Abril de 2009 foram colocadas no Palácio de São Lourenço, sede da representação da República, e noutros locais do arquipélago. Um dos elementos do núcleo fundador da FLAMA, Costa Miranda, afirmou que a FLAMA nada teve a ver com a acção. Daniel Drummond, outro dos históricos, acrescentou que o hasteamento das bandeiras terá vindo de «pessoas com altos cargos na região, estejam na Quinta da Vigia (presidência do Governo Regional) ou na Quinta Magnólia», também propriedade do Governo regional. Num documento que acompanhou a colocação das bandeiras, afirma-se que os Madeirenses «não querem pertencer a um país governado por um corrupto que deveria estar preso». Costa Miranda nega que a FLAMA seja autora do comunicado – «Não tem qualquer semelhança com os nossos comunicados, nem no estilo nem na ortografia e gramática. É um plágio tosco, rude e grosseiro». E diz outra coisa muito esclarecedora: «Levantar neste momento o espantalho da independência só interessa a quem quer colher dividendos políticos na guerra com Lisboa.» A mesma pergunta – com resposta diferente – a quem se estará a referir?
Pergunta-se: quererão os Madeirenses ser independentes? Vou com alguma frequência ao arquipélago e, de uma forma geral, a população aparece-me tão portuguesa como a de qualquer outra região do País. Os Madeirenses e Porto-santenses, têm as suas especificidades dialectais, culturais, tal como os Beirões ou os Alentejanos, mas nada me faz pensar que queiram ser independentes. É totalmente falaciosa a comparação com a Catalunha, que ouço frequentemente fazer (Alberto João passeou-se na praia de Porto Santo com um boné que dizia Catalunya Lliure ou algo no género). A Catalunha, unida a Aragão, foi uma nação independente durante séculos, tem um idioma próprio, uma História e uma cultura diferenciadas. A ideia da independência madeirense, só a vi defendida por Muammar Kadhafi, por Jardim e pelos seus apaniguados.
Outra pergunta pertinente a colocar é se a independência do arquipélago seria economicamente sustentável. Note-se que a Madeira gasta actualmente mais do que produz e o orçamento nacional suporta o défice. Não que isso me choque, porque a solidariedade nacional obriga a que não discutamos pormenores contabilísticos.
Não compartilho a ideia que já vi defendida por muito boa gente – «se querem ser independentes, que sejam», dizendo isto como quem vê a oportunidade de nos desfazermos de uma fonte de despesa. A Madeira é uma região linda – tal como o Algarve ou o Minho – e é um privilégio dos Portugueses ter um território com tanta beleza espalhada por todas as suas regiões. Portugal sem a Madeira (ou sem o Alentejo), não seria o mesmo. O que é insuportável é que seja o Governo Regional, por vezes em intervenções oficiais, a ameaçar impunemente, perante o silêncio cúmplice de quem chefia o Estado e governa o País, com grande e rude clareza – «ou pagam ou vamo-nos embora». É uma chantagem sem qualquer base democrática, pois duvido que os Madeirenses, na sua generalidade, queiram que as suas maravilhosas jangadas zarpem de Portugal.
Para aportar aonde?
FALANDO SOBRE TRANSPORTES. AS FALÁCIAS DO MOPTC (3ª PARTE) – III
A renovação de um contrato baseada num projecto virtual
No lindo folheto que me foi parar às mãos também se diz, possivelmente para dourar a pílula, que está prevista a construção do terminal de cruzeiros de Sta. Apolónia, para fins de 2010, obra esta que inclui o desenvolvimento e a reabilitação dos cais existentes entre o actua terminal de Cruzeiros de Sta. Apolónia e a Doca da Marinha, numa extensão de 675 m obrigando, por isso, ao fecho da Doca do Terreiro do Trigo. Obra esta que irá concentrar “todo o movimento de navios de cruzeiros” ( o sublinhado é meu).
Francamente é pouco, muito pouco em termos do presente e futuro, quando se sabe que esta actividade de turismo tem um forte potencial de crescimento e já se pode constatar a entrada de 300 mil turistas anuais, por esta via.
Dadas as dimensões do cais acostável parece-nos, pelo contrário, que não se pensou no futuro; com efeito, navios como o “Elizabeth II” ou o “Independence of the Seas” apresentam-se com comprimentos que excedem largamente os 300 m ( o primeiro com cerca de 345 m e o segundo, um pouco menos, com 315m).
Salvo melhor opinião, penso que as dimensões modestas deste cais estão condicionadas, a jusante, pela actual Estação Fluvial (carreiras do Seixal, Montijo, Barreiro, Cacilhas), para não prejudicar ou mesmo impedir a navegação dos barcos que aí acostam; e, a montante, pela implantação da Ponte Chelas-Barreiro que já tive ocasião de criticar em trabalhos anteriores. Situação esta agravada, ainda mais, pela cota muito baixa no banzo inferior do seu tabuleiro – escandalosamente baixa, repito – além de muitos outros inconvenientes também fortemente penalizantes que enumerei oportunamente.
Será que a Câmara Municipal de Lisboa não tem uma palavra a dizer? E já nem faço referência à Junta Metropolitana de Lisboa com funções e meios muito limitados.
Na verdade, a jovem democracia portuguesa ainda não aprendeu a repartir competências e responsabilidades. Faz imensa falta uma Comunidade de Transportes nas grandes cidades, isto é, organismos de planeamento, gestão e controle, dispondo de meios que lhes permitem coordenar acções integradas no campo do Urbanismo/Transportes, a vários níveis.
Ou, de forma mais simplificada, menos elaborada, a existência de uma “holding” de transportes urbanos, ou seja, uma empresa que associa todos os operadores e os municípios envolvidos a qual, sem prejuízo da autonomia de cada uma das empresas componentes, assegura uma gestão coordenada, complementar e não concorrente de todo o sistema de transportes urbanos da cidade e respectiva área suburbana.
Tudo isto já foi experimentado, em maior ou menor grau, em muitas cidades e há várias dezenas de anos. Mas, em Portugal, a norma consiste em centralizar o poder de forma rígida e hierárquica.
No caso vertente, tanto mais fácil porquanto há uma forte dependência entre os Serviços e o Ministério que os tutela. Com os resultados que se conhecem.
Apontamentos & Desapontamentos: Acabar de vez com o trabalho. Uma solução para o desemprego

Um dos aspectos que sempre me seduziu na argumentação do ensaísta francês Albert Jacquard (1925) é a sua consistente defesa de uma sociedade futura menos voltada para o consumo e mais evoluída culturalmente, com uma consciência colectiva que ultrapasse interesses pessoais, de classe, de género, etnia, de religião ou quaisquer outros. Mais pobre materialmente e mais rica humanisticamente., regredindo do ponto de vista da posse de bens individuais e evoluindo no sentimento de pertença a uma comunidade de milhares de milhões de pessoas. Mais voltada para o ser do que para o ter. A sua teoria de um «decrescimento sustentável», radica na tomada de consciência de que o crescimento descontrolado das economias conduzirá, com o aumento exponencial da população, ao caos social e ao extremar das desigualdades, dado que os recursos do planeta são limitados, finitos. Hoje não é dia de desapontamento, mas sim de apontamentos.
Apontamentos tomados durante uma intervenção de Jacquard numa jornada de debate interdisciplinar sobre o desenvolvimento territorial a partir das relações entre educação, acção meio-ambiental e cultural, realizada no Centre d’Estudis i Recursos Cultural de Barcelona e a que assisti há uns anos atrás. O que se segue é fruto das notas que tomei, auxiliadas por uma entrevista que no dia seguinte Jacquard deu, salvo erro, ao La Vanguardia e onde pude colher elementos que me tinham escapado na véspera. Não tenho a pretensão de reproduzir textualmente o que o sábio disse, mas sim de resumir o sentido daquilo que disse. Remeto-vos para a leitura dos seus livros, alguns dos quais estão traduzidos em português.
Começou a sua palestra com uma citação de Valéry – «Le temps du monde fini commence», «agora que fomos à Lua, pudemos ver como a Terra é pequena», disse. Em contrapartida, a população não pára de crescer. Dentro de um século seremos dez mil milhões. Temos de reflectir como poderão essas pessoas viver neste pequeno planeta e, para isso, temos de ser lúcidos. A ciência trar-nos-á essa lucidez, pois permite compreender como se fabrica um indivíduo a partir do património genético. Temos de saber ver a nova realidade do mundo. Somos quatro vezes mais do que éramos no princípio do século XX. Se procedermos sem reflectir, desembocaremos na destruição da humanidade ou, em alternativa, na supressão de toda a liberdade. Temos de administrar criteriosamente os recursos do planeta, não podemos ter tantos filhos. Numa Terra pequena tem de se limitar a natalidade.
Quanto ao envelhecimento da população, isso, segundo Jacquard, não é um mal. A velhice traz mais experiência. Veja-se, cada vez há menos trabalho porque há mais robots. Quando houver mais pessoas com mais de 65 anos do que jovens, terá de haver uma adaptação a essa realidade. O objectivo da vida humana não é trabalhar, mas sim desenvolver-se e isso pode fazer-se em qualquer idade. Isto é uma utopia, mas estamos condenados à utopia, afirmou. Os utópicos mais fantasiosos são os que vêm o mundo daqui a cem anos como uma projecção do actual. Ao contrário, os mais realistas são o que o vêm diferente. E uma vez que assim será, mais vale imaginá-lo.
No que se refere ao preocupante problema do crescente desemprego, Jacquard fez uma afirmação surpreendente – O ideal é que não haja trabalho. O problema do desemprego será resolvido quando ninguém trabalhar. Hoje, para produzir alimentos ou viaturas, precisa-se de cem vezes menos trabalho do que há um século. Portanto, devíamos ter cem vezes mais tempo livre. Não soubemos multiplicar os tempos livres. E os tempos livres são o tempo que se dedica à cultura.
Quanto à manipulação genética, Jacquard fez parte durante quatro anos do Comité Nacional de Ética onde discutiu essa questão. Na sua opinião, a manipulação genética foi até agora benéfica. Permitiu avançar na investigação sobre o ADN e começar a curar mais eficazmente certas doenças. Pode também desembocar em aplicações perigosas. Deve proibir-se determinadas aplicações, sem bloquear a investigação. A clonagem humana, por exemplo, seria dramática; tecnicamente possível, é uma abominação. Muitas vezes um êxito técnico ou científico pode constituir uma catástrofe humana.
Enfim, segundo Jacquard, não estamos inevitavelmente condenados ao caos e à catástrofe. A superpopulação, a escassez de recursos do planeta e temas mais imediatos como o desemprego, têm afinal solução. O nosso futuro depende daquilo que fizermos hoje. Afinal, podemos (poderíamos?) ser os deuses do nosso próprio devir.
Pipi das meias altas
Não tem nada a ver com isso. É apenas publicidade enganosa.
Circula para aí uma publicidade que diz que eu não posso viver sem publicidade. Em parte é verdade. A publicidade não é só a “publicidade”. Um mural “revolucionário“, por exemplo, também é publicidade. Publicidade a um serviço institucional também é publicidade, ainda que não venda nada. A publicidade é de certa forma uma expressão artística humana e abrange ainda muito mais aspectos da vida quotidiana. Por isso mesmo, gosto de publicidade, ou não fosse até uma parte da minha profissão. Mas especificamente, refiro-me à publicidade comercial, aquela que tenta vender coisas. Tal como tudo, tem o lado positivo e o lado negativo. O lado positivo é ser um suporte pequeno em que alguém, com liberdade e capacidade criativa, tenta passar uma mensagem da forma mais eficiente possível a um destinatário final. Às vezes é pura arte. O lado negativo é precisamente a mesma situação, com a diferença que o destinatário não sabe que é de facto publicidade. Neste contexto encaixam-se conceitos como por exemplo, as publireportagens, a propaganda e mais especificamente, a publicidade para crianças. Enganar bem, costuma-se dizer, também é uma arte.
Por isso fiquei intrigado com o tal ICAP, de que nunca tinha ouvido falar. Fui então ver o site. Ainda mais intrigado fiquei. Porque o que quer que seja o Instituto Civil da Autodisciplina da Comunicação Comercial deu-se ao trabalho de elaborar um muito completo Código de Conduta. Nesse Código, a páginas tantas, fala em crianças e jovens no artigo 23 e um dos parágrafos refere mesmo que: “A publicidade não deve: a) explorar a inexperiência ou credulidade das crianças e dos jovens;(…)“.
Então algo está errado. Não é uma crítica directa ao ICAP. Ainda bem que existe algo que regule a publicidade (nem que seja ela própria), e especialmente a direccionada para crianças. Mas se assim é, não estão a fazer aquilo a que se propõem. Ninguém do ICAP ainda reparou que nos anúncios dos Happy Meals, Danoninhos, Chocapics e afins, exploram a “inexperiência ou credulidade das crianças“, vendendo-lhes hambúrgueres, cereais para pequeno-almoço, iogurtes e todo o género de coisas usando como isco toda uma parafernália de brinquedos e ofertas? No ICAP, ninguém vê os intervalos dos espaços infantis? No ICAP ninguém tem filhos, conhece alguém que tenha filhos ou alguma vez viu um puto aos berros no supermercado por causa de um Kinder Surpresa? Ainda não repararam que existe publicidade MESMO direccionada para os filhos e não para os pais, como deveria ser? No ICAP ninguém vê o Canal Panda?
Pergunto-me ainda: será que estas empresas concebem publicidade propositadamente para crianças, porque têm medo que os adultos deixem de comprar os seus produtos? Ou apenas querem aproveitar a inexistência de crítica e selecção por parte dum “target” mais inocente? Será que estas empresas nunca ouviram falar em estudos sobre como a publicidade influencia directamente as crianças? Será que nunca ouviram falar de nagging? Deveriam saber, porque foram elas que fizeram os estudos…
Custa-me a acreditar que no meio de tantos estudos de mercado e de opinião, tudo isto seja apenas uma enorme, infeliz e inocente coincidência. Para mim, é apenas mais um reflexo perverso de uma economia sem ética que se baseia num consumismo desenfreado e no desperdício constante para se manter em funcionamento. Mais grave ainda, é que isto torna os meios de divulgação de publicidade numa espécie de educadores extra-familiar. E tudo aparentemente promovido apenas com vista ao lucro de uma empresa, porque eu não consigo vislumbrar quais as grandes vantagens para as crianças.
Noutra perspectiva diferente, costuma-se dizer que bons produtos dispensam publicidade. Vendem-se a si próprios. Não sei o que isso quererá dizer dos produtos actuais, tão dependentes de uma boa e hiper-estudada campanha de publicidade. Tanto para adultos como para crianças. Publicidade para crianças não é novidade. Mas é inegável que é um fenómeno em crescendo e cada vez mais agressivo.
Só por curiosidade, eu perguntei ao meu filho se ele sabia o que era publicidade. Com 7 anos, respondeu-me que achava que era um programa para os “grandes“. E anúncios? Anúncios é o que dá no meio dos “programas para os grandes”. E anúncios no meio dos desenhos animados? Não há anúncios no meio dos desenhos animados, senão não eram desenhos animados, mas sim “um programa para grandes”, não é? E é para miúdos com esta inocente mentalidade e que dão este tipo de respostas, que algumas empresas gastam milhões de euros em publicidade para lhes tentarem impingir todo o género de tralhas, iludindo-os e enganando-os com bugigangas e brinquedos de plástico.
Deixo um vídeo ao ICAP, para o caso de nunca terem ouvido falar em “nagging”…
Apontamentos & Desapontamentos: Consumo

Mais uma vez recorri ao dicionário do saudoso amigo José Pedro Machado e, mais uma vez, ele não me deixou ficar mal. Desta feita a consulta foi à palavra Consumir. A entrada diz: «v. tr. (do lat. Consumere). Gastar, destruir, extinguir, corroer até completa destruição. Enfraquecer, abater.» E continua com muitas outras acepções terminando com «Enganar, iludir». Pelo meio, tem as acepções mais comuns – «Dar extracção, procurar géneros alimentícios, artigos fabricados, etc.\\ Despender, gastar ||» e outras menos comuns «Matar, assassinar. || Devorar em silêncio. E entra no foro da liturgia católica:
«Desfazer a hóstia na boca. || Receber (o sacerdote), na missa, o corpo e o sangue de Cristo, sob as espécies do pão e do vinho consagrados.» Está aqui a entrada quase toda, não escamoteei acepções importantes. Não esqueçamos, porém, que a primeira acepção, é sempre a mais importante – «gastar, destruir, extinguir, corroer…» Em épocas de penúria, ansiávamos por poder comprar, consumir. Mas estou desapontado com a abundância da oferta que veio desembocar no consumo.
Corroer até à completa destruição, eis uma boa definição do que é o consumo, quando elevado à categoria de projecto de vida. Vou contar-vos uma história. Um homem, cujo nome é relativamente, conhecido e com o qual privei profissionalmente durante algum tempo, perseguido pela polícia política na sequência do 18 de Janeiro de 1934, a chamada Revolta da Marinha Grande, fugiu para Espanha em cuja Guerra Civil combateu integrado no Exército Republicano (pois casara com uma valenciana). Derrotada a República, esteve num campo de refugiados em França de onde foi evacuado para a União Soviética. Aí viveu e trabalhou até quase ao fim dos anos 60, altura em que foi para Cuba. Por volta de 1970, com mais de cinquenta anos, tendo garantido que não se envolveria em movimentos políticos, foi autorizado a voltar a Portugal com a família. O barco de onde veio de Havana aportou a Valência. Habituado ao rígido racionamento que vigorava, quer na URSS, quer em Cuba, quando entrou pela primeira vez num supermercado, foi por diversas vezes perguntar a uma empregada se podia comprar duas pastas de dentes, depois se podia levar duas ou três latas de feijão, quatro pacotes de lâminas de barbear… até que agastada a empregada lhe disse: – Desde que pague, pode levar o supermercado inteiro – O meu amigo chorou de emoção. Não lhe era fácil conceber tanta abundância à sua disposição. Nesta facilidade de comprar, reside o grande fascínio do consumo – mesmo que não tenhamos dinheiro vivo, podemos sempre utilizar cartões de crédito… Compra-se por impulso, o gesto de tirar os produtos das prateleiras e de os pôr no carrinho é gratuito. Só na caixa nos apercebemos do dinheiro que gastámos. Tem-se a falsa sensação de que as coisas não custam dinheiro.
Ainda há relativamente poucos anos, vivíamos numa economia de poupança – as roupas usavam-se enquanto duravam, os géneros alimentícios não tinham prazo de validade, sendo esta determinada pelo bom ou mau aspecto que os produtos apresentavam, as pastas dentífricas eram gastas até ao fim (havia uns artefactos, primeiro em madeira e depois em plástico, para as espremer), se saíamos de uma sala, apagávamos as luzes… Era, de facto, uma economia e uma cultura de penúria, mesmo para as famílias ditas «remediadas», aquilo a que agora se chama classe média. Hoje, vê-se pessoas com graves problemas económicos, mas que são incapazes de economizar. Não sabem. Nem relacionam o facto de deixarem todas as luzes acesas, de se desfazerem de roupas em bom estado (mas que «já se não usam»), com as dificuldades por que passam e com o facto de a meio do mês já não terem dinheiro e começarem a viver com a conta-ordenado e com o crédito dos cartões levados até ao limite. Nem com o número de chamadas que fazem com o telemóvel, muitas delas (para não dizer a maioria) dispensáveis. Troca-se de carro, embora aquele que se larga possa ser melhor do que o que se adquire. E por aí fora. Consome-se.
Um dos motivos para o aumento do número de divórcios é o facto de ao período (por vezes, prolongado) de namoro, em que os pais continuam a resolver os problemas básicos, se sucede a chamada «vida real» – contas para pagar, coisas para comprar – assuntos «mesquinhos» do dia-a-dia, que dão lugar a discussões mesquinhas e, sobretudo, ao choque de vontades pouco treinadas para serem contrariadas, porque desde o berço foram habituados a não aceitar o não como resposta. E não é uma palavra para ser usada, como qualquer outra. O confronto de vontades, gera discussões e verdadeiros desapontamentos. E aos desapontamentos, seguem-se muitas vezes os divórcios. Habituadas como estão agora as pessoas aos produtos descartáveis, deitam fora uma relação e começam outra. A geração dos famosos anos 60, a minha, tem graves responsabilidades nesta disfunção. Criámos os filhos seguindo o princípio de que era proibido proibir. Essa educação, que quase se traduziu numa ausência de educação, criou estes cidadãos que, generalizando (o que é perigoso) podemos dizer que é uma geração que não luta pelas coisas, não luta inclusive pelo amor – gasta o amor como se fosse um produto descartável.
Em suma, o consumo também consome o amor.
FALANDO SOBRE TRANSPORTES. AS FALÁCIAS DO MOPTC (3ª PARTE) – II
A renovação de um contrato baseada num projecto virtual
Prosseguindo com a leitura do belo impresso recebido fiquei, desde logo, motivado para uma visita à exposição anunciada na Gare Marítima de Alcântara. Tanto mais que, há muitos anos não revia os painéis do Almada Negreiros que fui encontrar impecáveis na sua conservação, ladeando um ecrã onde passava, periodicamente, um filme de propaganda ou seja, a divulgação deste projecto… virtual.
Resumindo fica-se a saber que o projecto Nova Alcântara representa um investimento total de 407 milhões de euros, dos quais 227 milhões da responsabilidade da Liscont e o restante a repartir pela REFER (106 milhões) e pela APL (75 milhões).
Nele está previsto o enterramento das linhas da c.f. na zona, incluindo uma ligação da linha de Cascais à de Cintura, por túnel, dando continuidade aos serviços urbanos de passageiros entre as duas linhas. Contempla, ainda, a construção de uma nova estação subterrânea em Alcântara-Terra, como ponto de passagem entre as duas linhas.
Nada se adianta, porém, que nos possa esclarecer acerca da viabilidade deste projecto (pensado há muitos anos, mas nunca concretizado), extraordinariamente complexo e difícil de executar dadas as muitas condicionantes do que resultará um custo fortemente penalizante. Lembro, entre outros:
- A sua implantação numa falha sísmica e em solos de composição pouco favorável e orografia complicada, entre vias urbanas muito solicitadas;
- A existência do chamado caneiro de Alcântara (subterrâneo) que vai desaguar no Tejo e cerca de 60 m a jusante da Gare Marítima de Alcântara carreando, por vezes, muito material sólido à mistura. O local onde desagua no rio, perto do cais, é bem visível pelo constante borbulhar das águas;
- Baixando as cotas do c.f. das linhas Lisboa/Cascais, com uma nova estação subterrânea em Alcântara-Terra, daí resulta que não é possível garantir o gradiente 12 por mil recomendável para uma linha mista (passageiros e mercadorias), no troço de cerca de 3 km entre essa estação e Campolide.
- Por outro lado, o abaixamento das linhas na proximidade da Gare Marítima de Alcântara irá faze-las colidir com o atrás citado caneiro; para que isso não aconteça, seria necessário agravar substancialmente a pendente final do seu percurso para poder passar debaixo das linhas do c.f. (ou vice-versa, o que também seria absurdo).
Permitam-me que aconselhe uma consulta aos arquivos da Sociedade OPCA, empresa prestigiada na época e à qual se devem muitas obras emblemáticas, entre as quais lembro o já referido caneiro de Alcântara, o túnel ferroviário no seguimento da Ponte 25 de Abril, o Cristo-Rei, o Armazém Frigorífico do Bacalhau (hoje Museu do Oriente) e, ainda, muitas outras obras de engenharia relativas ao Plano de Rega do Alentejo, nomeadamente barragens, túneis, reservatórios de água, canais, pontes, habitações, etc. .
Homenagem a um grande resistente antifascista

Não era um amigo íntimo do Hermínio da Palma Inácio, ao contrário do que algumas pessoas pensam, sabendo-se que escrevi um romance inspirado na tentativa de assalto à cidade da Covilhã, em Agosto de 1968 (A Mão Incendiada). Também, ao contrário do que já se tem dito, não participei nessa acção, por duas razões de peso: não pertencia à LUAR e estava preso em Caxias quando a operação foi preparada. Estive reunido com ele por diversas vezes depois do 25 de Abril, mas a única conversa pessoal que tivemos foi quando, festejando os seus 80 anos, um grupo de amigos organizou um jantar num restaurante do Bairro Alto. Fiquei ao seu lado, conversámos sobre muita coisa e, naturalmente, sobre o livro. Teve a amabilidade de me dizer que, apesar de ser uma ficção, as coisas se tinham passado quase como eu as descrevera. Mérito de um participante na acção, o Fernando Pereira Marques, escritor e, actualmente, professor universitário, que entrevistei por diversas vezes, enchendo cassetes com os pormenores da operação.
Não era um amigo íntimo do Palma Inácio, mas admirava-o muito. Penso que ele foi, como alguém disse, um dos últimos heróis românticos protagonizando actos como os que, durante a ditadura, muitos de nós sonhávamos praticar: Participou ao lado de militares, numa tentativa de golpe de Estado; assaltou um banco (sem provocar vítimas – as armas eram réplicas); desviou um avião da TAP obrigando o piloto a sobrevoar a baixa altitude o centro de Lisboa e lançando panfletos revolucionários; tentou tomar de assalto a cidade da Covilhã; fugiu das instalações da PIDE, na Rua do Heroísmo, no Porto…
Enquanto alguns sonhavam afrontar o regime (e éramos presos muitas vezes só por ter esses sonhos) ele desferia-lhe golpes certeiros, uns atrás dos outros. Um herói romântico, parece-me uma boa definição, desde que por «romântico» não se entenda o avesso daquilo que o Palma realmente era – um homem de acção.; um homem para o qual a teoria não era para discutir pelos cafés – era para levar à prática.
Como se dizia no post do Aventar, sem o Palma ficamos todos mais pobres, pois com ele é um pedaço da nossa história recente que desaparece, que se perde. E perde-se um homem muito valente, um resistente e um lutador pela democracia.
A minha sincera e comovida homenagem.
Apontamentos & Desapontamentos: As «Primaveras» de Praga e a Marcelista

Em Agosto de 1968 (no mesmo mês em que Salazar caiu da cadeira), pondo termo às reformas que o governo de Alexandre Dubcek anunciava, tropas do Pacto de Varsóvia ocuparam Praga e esmagaram aquilo a que já se chamava a «Primavera de Praga». Desde que em 5 de Janeiro Dubcek assumira a liderança do P.C., as coisas tinham-se precipitado, com a censura a ser revogada em Março, a lista pública das reformas a ser apresentada ao povo em Abril, com o documento «Duas Mil Palavras», subscrito por gente de todos os quadrantes da vida checoslovaca, exigindo a abertura política do regime. Em Moscovo soaram campainhas de alarme. Quando os líderes checoslovacos recusaram a convocatória soviética para uma conferência em Moscovo, a paciência russa extinguiu-se – em 21 de Agosto, duzentos mil soldados e cinco mil tanques do Pacto de Varsóvia irromperam em Praga. Dubcek, preso, foi levado para Moscovo. Fim de festa. A primavera daquele verão acabara em inverno.
Os ecos invasão da Checoslováquia duraram mais algum tempo. No ano seguinte o assunto não morrera ainda. Logo em Janeiro, o estudante Jan Palach imolou-se pelo fogo na Praça Venceslau, em Praga. Em Abril deu-se a substituição de Dubcek por Gustav Husak à frente do partido. Pelo mundo fora continuavam a circular entre outros, documentos assinados pelo próprio Dubcek, um longo discurso de Fidel Castro sobre o tema, defendendo e justificando a invasão porque «a Checoslováquia se encaminhava para uma situação contra-revolucionária»; Roger Garaudy assinalava a «liberdade adiada». Todos estes testemunhos saíram num livro coordenado por Isabel do Carmo – «Dossier Checoslováquia», publicado em Dezembro de 1968.
Em Portugal, nesse ano de 1969, já com Caetano no poder, era a «primavera marcelista», com algumas promessas de abertura, que se encaminhava para uma liberdade adiada – a «abertura» limitara-se à mudança de nomenclatura – a PIDE, passou a ser DGS, a União Nacional foi crismada de Acção Nacional Popular… maquilhagens. No essencial, tudo ficava na mesma – a guerra colonial, a repressão, a descarada fraude eleitoral logo nas legislativas de Outubro… Outra falsa primavera.
Porém, tentando dar alguns sinais visíveis dessa abertura, nesse Verão de 1969 veio a Portugal uma delegação da União Soviética. Vinha avaliar as potencialidades de Portugal como destino turístico dos soviéticos – eram gente distinta: generais que haviam combatido em Espanha, bailarinas do Teatro Bolshoi, escritores e um jornalista do Izvestia, que vimos logo ser o chefe político da delegação (homem do KGB, pela certa). Só ele tinha autorização para falar.
Eu estava a viver numa cidade do centro do País. Em Lisboa a delegação colhera a informação de que na cidade onde vivia, que estava no itinerário dos soviéticos, deviam contactar-me. Não que eu tivesse alguma coisa a ver com a URSS ou sequer com o PCP – digamos que era um esquerdista assumido e referenciado (com duas prisões políticas no currículo). O homem do Izvestia/KGB quando chegou telefonou-me e combinámos encontrar-nos nessa noite com a delegação soviética, eu e os amigos que quisesse levar, no hotel da cidade, uma unidade hoteleira de luxo (na altura) que Américo Tomás inaugurara, meses antes, com um longo discurso em que se referiu sempre a uma cidade diferente, embora próxima, numa das famosas gaffes que lhe valeram o cognome de «cabeça-de-abóbora».
Uma meia dúzia de antifascistas locais, homens e mulheres, com a curiosidade de conhecer soviéticos (que para nós eram uma espécie de extra-terrestres) a superar o medo da polícia política, lá fomos ter ao hotel onde tivemos de esperar pelo fim do jantar oferecido pelo presidente da câmara (que no livro da Isabel Flunser Pimentel sobre a PIDE vi, sem surpresa, ser referenciado como agente informador daquela polícia), com ranchos folclóricos e tudo. Sergei, o jornalista viera, mal chegáramos, falando um castelhano impecável, receber-nos, convidando-nos amavelmente a tomar tudo o que quiséssemos e teve depois de voltar para o jantar. Fomos bebendo os nossos uísques e a delegação numerosa (cerca de trinta elementos) lá nos veio cumprimentar. Na sua maioria só falava russo – nós, entre os sete, dominávamos o francês, o inglês e o castelhano. Comunicação cortada, portanto, salvo com os generais combatentes na Guerra Civil, que falavam espanhol e com os quais tentei em vão encetar uma conversa. Estavam todos muito fatigados, disseram (e deviam estar mesmo), sorrisos, beijinhos, abraços e recolheram aos seus quartos, ficando só o Sergei a falar connosco.
Tema inevitável: a Checoslováquia. Todos nós, esquerdalhos impenitentes, condenávamos a invasão. Sergei não se atrapalhou, um a um, com grande mestria, foi contestando os nossos argumentos. Em síntese, a sua defesa da invasão baseava-se em que na Checoslováquia, segundo ele, sobrevivera uma ampla burguesia porque não havia tantos judeus como noutros países da região e o holocausto nazi não provocara tantas baixas entre a inteligentzia. Cientistas, médicos, engenheiros, arquitectos, professores, artistas, escritores, haviam sobrevivido, invadindo sindicatos, organizações de trabalhadores e as próprias estruturas do partido. Agora, com o nível de vida em alta, queriam recuperar os seus privilégios de classe, derrubar o socialismo e zarpar rumo ao Ocidente. Não fora para criar ninhos capitalistas que milhões de soviéticos tinham dado a vida durante a Segunda Guerra, rematou. Daí a invasão. Sobre Fidel Castro disse que era um «homem que fazia discursos muito bonitos, mas demasiado extensos».
E entre bebidas e sorrisos, passou ao elogio da sua cidade, Moscovo. Cantarolámos em conjunto a «Nathalie» do Gilbert Bécaud. (La Place Rouge était vide/la neige faisait un tapis…) Ele disse-nos uma coisa de que me havia de lembrar mais tarde, quando mais de vinte anos depois visitei Moscovo na Primavera. «A fina camada de gelo que cobre a Praça Vermelha em Abril, quebrando-se sob as solas dos sapatos, produz uma sensação única, um anúncio de Primavera, o fim do longo Inverno». «Pois, só em Praga é que continua a ser Inverno», disse um de nós mais teimoso. Sergei sorriu com fair play e não quis reacender a controvérsia. No outro dia a delegação partia para outra cidade mais a Norte. Fomos levar-lhes lembranças – louças regionais (de Alcobaça!) para lá, matrioskas para cá, beijinhos abraços – Spassibo, spassibo tovarich, o nosso léxico de russo não ia além de da, net, tovarich…
E partiram, pondo fim àquele encontro imediato do terceiro grau.
Falando de democracia: Do sonho à realidade – Comentário do autor
São 21.30 e vejo com surpresa que já algumas dezenas de pessoas se deram ao trabalho de ler o meu texto «Do Sonho à Realidade». Resolvi que essas pessoas mereciam uma explicação mais clara e pedi ajuda ao José Mário Branco. Aqui está ela:
FALANDO SOBRE TRANSPORTES. AS FALÁCIAS DO MOPTC (3ª PARTE) – I
A renovação de um contrato baseada num projecto virtual
Tencionava concluir com este texto os outros dois publicados anteriormente. Contudo, ao receber um semanário de leitura habitual, constatei entre as suas folhas a existência de um impresso – aliás com uma boa apresentação gráfica, colorida – onde se falava do projecto da Nova Alcântara a que já tive ocasião de me referir em 9 de Outubro p.pº.
No editorial assinado pelo Presidente do Concelho de Administração da APL, o seu autor procurava justificar este “projecto inadiável” o qual, segundo ele, iria fomentar uma forte aposta na utilização do transporte ferroviário e fluvial e desenvolver as ligações do Porto de Lisboa com as novas plataformas logísticas que irão ser instaladas na região (Bobadela, Castanheira do Ribatejo e Poceirão).
Confesso a minha perplexidade, dado que era do meu conhecimento a existência de um documento do MOPTC, datado de Dezembro de 2006, contendo as “Orientações Estratégicas Para o Sector Marítimo Portuário”, nele constando – o que me parecia mais importante, urgente e indispensável – a elaboração do “Plano de Estratégia e Exploração do porto”, com o horizonte temporal de 2008; suponho eu, na sequência do Plano Nacional Marítimo Portuário, previsto nesse mesmo documento para 2007.
Pelos vistos, o MOPTC resolveu subverter a sua própria estratégia e presentear a APL e os cidadãos de Lisboa com o Projecto (?) virtual, cinematográfico e espampanante do Novo Nó de Lisboa, totalmente omisso nessas “Orientações Estratégicas”.
E a APL, para mostrar o seu acordo e total dependência da Tutela, esclareceu que “… estando, agora, fixados os objectivos e metas claras … importa definir metas temporais para a sua revisão e adaptação”.
Projecto este, repito, que não passa de umas miragem, cheio de dúvidas e problemas esboçados – mas não resolvidos – unicamente para permitir renovar por mais umas três dezenas de anos o contrato de concessão à Liscont (leia-se Mota Engil) a pretexto de uma urgência não devidamente fundamentada (leia-se o meu texto anterior) e com a contrapartida (em que percentagem ?) da comparticipação dessa empresa nas obras a efectuar. E são muitas, caras e não totalmente estimadas.
Posso afirmar, sem qualquer hesitação, que a APL não analisou todas as soluções alternativas possíveis nem, tão pouco, seria possível concluir “com o auxílio de estudos económico-financeiros e jurídicos” a validade da solução que foi ”oferecida” à Mota-Engil.
Até porque ainda não há projecto, ante-projecto ou mesmo estudo que permita elaborar uma estimativa – já não digo orçamento – dos trabalhos a efectuar. Em minha opinião e com algum conhecimento de causa, de tal modo difíceis e complexos que tenho fortes dúvidas quanto à sua exequibilidade, por um preço razoável.
Por isso mesmo darei a conhecer uma solução que julgo digna de estudo, aliás, a juntar a muitas outras sugestões que apresentei na 2ª Parte deste trabalho.
Falando de democracia: Do sonho à realidade
Falemos do sonho e da necessidade do sonho. O poeta António Gedeão garantiu que «o sonho comanda a vida». Por seu turno, Lenine disse no seu «Que Fazer?»: «Se o homem estivesse completamente privado de sonhar, se não pudesse, de vez em quando, adiantar-se e contemplar com a sua imaginação o quadro inteiramente acabado da obra que se esboça entre as suas mãos, não se me afigura que motivos o obrigariam a compreender e levar a cabo vastas e penosas empresas no terreno das artes, da ciência e da vida prática» […] «O desacordo entre os sonhos e a realidade não produz qualquer dano, desde que a pessoa que sonha creia seriamente no seu sonho, se fixe atentamente na vida, compare as suas observações com os seus castelos no ar e, em geral, trabalhe escrupulosamente na concretização das suas fantasias. Quando existe algum contacto entre os sonhos e a vida, tudo vai bem» No mesmo texto dizia ainda: «Ai desses homens mesquinhos que não sabem sonhar!». Durante a ditadura, sonhávamos com a democracia – alguns limitavam-se a sonhar, outros sonhavam e agiam no sentido de tornar o seu sonho realidade, estabelecendo a tal relação entre a utopia e o mundo real de que fala Lenine. Subitamente, em Abril…
Foi numa tarde do Verão Quente de 1975. A uma janela de uma avenida de Lisboa, via passar uma manifestação onde se gritavam palavras de ordem. Ao meu lado estava um democrata que estivera preso e fora perseguido pela polícia política. Antifascista, ex-membro do Partido Comunista, naquela altura mais ligado ao Partido Socialista, mas homem, por aqueles anos setenta, com grande fortuna pessoal e com uma posição importante. Abanou a cabeça e comentou: «- Não foi para isto que se fez o 25 de Abril! Não foi por isto que eu lutei e fui perseguido». «Isto», eram os gritos de «abaixo a exploração capitalista», e os graffiti que os manifestantes iam deixando pelas paredes da avenida, como um rasto ou como um eco da sua ruidosa passagem – e também as greves, os saneamentos, o Copcon… Não respondi, pois não havia resposta possível, tanto mais que eu, que também tive os meus dissabores durante a ditadura, sempre pensei que um dia as pessoas se poderiam manifestar livremente. Tinha sido mesmo por «aquilo» que eu tinha lutado. Por aqui se vê, como o termo antifascista é vago, impreciso e ilusório. Mas cada um podia, e pode, sonhar o que lhe aprouver.
Luigi Pirandello, o dramaturgo italiano escreveu uma peça a que deu o título Para Cada Um Sua Verdade. De facto, quando antes da Revolução, falávamos da «unidade dos antifascistas», verbalizávamos uma utopia dando corpo a uma ideia que só podia ter viabilidade no curto-prazo – a unidade de que se falava era a da acção contra a ditadura. Mal a ditadura caiu, a ilusão da unidade caiu com ela – os interesses individuais, de classe, as opções políticas, fizeram ruir essa ficção. Para cada um havia uma verdade. A sua verdade.
Aquela explosão popular que encheu as ruas e que significou o fim da guerra colonial, a concessão da independência às colónias, a criação de dezenas de novos partidos, o nascimento de assembleias populares nas empresas, nos bairros, nas escolas, apanhou todos de surpresa. Aquela onda de paixão democrática que, como um tsunami varreu o País de Norte a Sul, surpreendeu todos, apanhando desprevenidos, não só os patrões, como também os democratas e antifascistas que tinham conspirado e lutado contra o regime ditatorial (o sujeito que ao meu lado abanava a cabeça em tom de censura, era um deles); surpreendeu até mesmo os partidos e movimentos que, criados na clandestinidade, tinham como razão da sua existência a crença na força dos trabalhadores e a esperança no advento da democracia. A ilusão da democracia, ganhando as ruas e os corações, excedeu o que a nossa capacidade de sonhar, pudera imaginar. Pensávamos que nada seria como até então. Que tudo ia mudar. Porém, lá veio o 25 de Novembro «repor a normalidade» e, como diz o José Mário Branco em «Eu vim de longe», – Foi um sonho lindo que acabou, houve aqui alguém que se enganou…
Passados estes anos, estas décadas, não se imagina sequer o que eram aquelas manifestações espontâneas. O desfile mumificado que comemora o feriado de 25 de Abril, nada tem a ver com as «manifes» de 74 e 75. As «jornadas de luta» organizadas pelas centrais sindicais, obedecendo a interesses corporativos (respeitáveis, em todo o caso) não dão sequer uma pálida ideia do que aconteceu naqueles 21 meses de brasa. As pessoas já não vêm para a rua gritar a sua revolta, a sua esperança e o seu amor à Liberdade. Estão nas suas casas, em frente da televisão e ver telenovelas, concursos tontos, jogos de futebol, ou a assistir ao degradante espectáculo da «democracia real» – políticos fingindo odiar-se, denunciando-se mutuamente de felonias, corrupções… (e com razão na maior parte das vezes) A democracia com que, seguindo o conselho de Lenine, alguns de nós sonhavam, a da solidariedade, a da fraternidade, não tem a mais vaga semelhança com esta «democracia real».
O meu companheiro da varanda no Verão quente já morreu, mas ainda viveu o suficiente para ver cumprido o seu sonho – os administradores a administrar, os corruptos a enriquecer, os trabalhadores a trabalhar, os marginais a aterrorizar, os políticos a politicar… tudo arrumadinho, tal como ele sonhara. Mas agora sou eu quem diz: – e então o meu sonho? – Não foi para isto que se fez a Revolução, não foi por isto que lutei.
Vivemos na ilusão da democracia. A verdadeira (voltemos ao Zé Mário) é um sonho lindo para viver, quando toda a gente assim quiser.
$
Para perder o medo do nuclear…
Stanley Kubrick, George C. Scott e Peter Sellers. Muitas bombas nucleares. Que mais se pode pedir num filme?
“You can’t fight here. This is the war room!”
Lezíria – ponte sem carros e aborto ambiental*

A ponte pura e simplesmente não tem tráfego. Se tráfego é haver carros em movimento para este e aquele sentido, então esta ponte é mais um hino ao desperdício.
Fui lá uma primeira vez para a ver. Quatro/cinco carros nos dois sentidos. Pensei que a população ainda não estava feita àquela ponte e que seria uma questão de tempo. Nada! Tenho um amigo que mora por ali perto e que me diz que é a melhor ponte do mundo, passa por lá e nunca parou uma vez que fosse.
Não tem carros! Uma ponte sem carros. A TVI hoje veio confirmar mais este maravilhoso exemplo do investimento público, exemplo de rentabilidade e utilização.
Na altura houve muita gente que torceu o nariz, mas a máquina montada e ávida de obras de betão, poderoso lobby que nos há-de “enterrar” a todos, ganhou mais uma vez. Tal como agora, é preciso é avançar, fazer circular dinheiro, postos de trabalho, arrastamento de actividades a montante, blá, blá, blá…
Mas claro que agora passam à frente, ninguem foi, ninguem viu, ninguem é responsável!
É preciso acabar de vez com estas obras públicas não necessárias, que não provam no exame do custo/benefício, que só servem para alimentar o “monstro” insaciável” das grandes empresas de construção civil.
Para além disso está construída sobre uma magnífica planície, prenhe de verde, sobre as melhoras terras de agricultura do país. Aquela ponte é uma vergonha para quem a construiu, tal é o impacto visual e sonoro naquela paisagem de sonho.
* directamente da Escócia
Falando de democracia: Ainda o tema do iberismo (I)
Portugal é independente «de facto» desde 1128 (batalha de São Mamede) e «de jure», desde 1143 (Conferência de Zamora). Espanha existe «de facto» desde 1469, quando Isabel de Castela e Leão casou com Fernando de Aragão. Os dois reinos continuaram a existir, com seus foros, privilégios e costumes, mas uma coroa dual passou a ser posta na mesma cabeça a partir de Carlos I. «De jure», Espanha existe «de jure» desde 1812, quando as Cortes de Cádis reconheceram a unidade territorial do estado espanhol e a plasmaram na Constituição. Os reis Católicos começaram a chamar Espanha ao conjunto dos territórios abrangidos pelas duas coroas e D. João II terá escrito aos primos protestando por terem usado o nome da Península para designar uma parte dela. Isto foi-me afirmado pelo meu amigo Ricardo Martin, professor da Universidade de Barcelona. Porém nunca consegui localizar a tal carta. Nem ele.
«Hablad de castellanos y portugueses, porque españoles somos todos!», terá dito Camões. Abro parêntesis – conheço razoavelmente a obra do Luís Vaz. Como todos os da minha geração, usei «Os Lusíadas» para aprender a dividir orações. Na adolescência, li com paixão a sua poesia lírica da qual depois, já com olhos de adulto, apreciei a grandeza. Conheço-lhe os autos. Esta frase, não a encontrei em parte alguma. O que não significa que não exista e se existe é apenas mais uma confirmação da gigantesca enciclopédia do conhecimento que se faria com aquilo que desconheço. Há semanas, circulou uma carta apócrifa da Clara Ferreira Alves atacando Mário Soares, carta que teria publicado no Expresso, mas cuja autoria ela desmentiu. Suponhamos, suponhamos só, que a carta do Príncipe Perfeito, de que me falou o Ricardo Martin, e que a frase do Luís, também nunca existiram. Como é que as criaturas podem vir repor a verdade? A frase viaja pela blogosfera em velocidade de cruzeiro e em castelhano (todos sabemos que Camões era bilingue, como quase todos os poetas da época). Apesar das dúvidas, vou partir do princípio que não se trata de apocrifia. Porque somos, de facto, tão espanhóis como castelhanos, catalães ou galegos. Afinal, «espanhol» é sinónimo de «ibérico».
Volto a este temática porque, segundo pude verificar, está a ser muito agitada, com sites e blogs específicos, onde se trocam opiniões (e alguns insultos). Como vos confessei, há muito tempo atrás fui iberista convicto. Com amigos portugueses, catalães, maiorquinos, um castelhano e alguns latino-americanos, fiz parte de um Centro de Cultura Íbero-Americano. Para nós, peninsulares, amordaçados pelas ditaduras de Franco e de Salazar, a Federação Ibérica, composta pelas cinco nacionalidades existentes na Península, seria uma forma de atingir a democracia. Era uma ingenuidade, porque não estou a ver os ditadores a abandonar as suas cadeiras e a dizer – Façam favor de constituir a vossa Federação. Mas era de uma Federação que falávamos – Países Catalães (Catalunha, Aragão e Baleares), País Basco, Espanha (com o remanescente do território não autonomizado), Galiza e Portugal. A capital sairia de Madrid. O estado seria uma República.
O que eu vejo hoje defender não é nada de semelhante, não se trata de uma federação de cinco estados, nem sequer da união dos dois existentes – trata-se da integração pura e simples de Portugal no estado espanhol, com o estatuto autonómico das demais regiões. Isto não é iberismo, nem união – chama-se anexionismo. Só o meu respeito pelas pessoas que defendem ideia tão disparatada, me impede de as qualificar. Porque além de toda a aberração que constitui tal ideia, do ponto de vista economicista que me parece constituir a parte mais visível da ideia – em Espanha paga-se melhor, a ideia da união ibérica é, nas actuais circunstâncias uma «ideia absurda» (e isto foi Cavaco Silva quem afirmou – não costumo estar de acordo com o que ele diz, mas não há regra sem excepção – esta cavaquiana afirmação é o mínimo que posso citar, num grande esforço de contenção, pois tenho palavras mais vicentinas a ocorrerem-me em catadupa). Sermos absorvidos por Espanha seria, para além dos aspectos que mais me interessam, entrarmos numa jangada que se está a desfazer. Espanha é um estado sem futuro, com uma forma arcaica e kitsch de chefia. Se Catalães, Bascos, Galegos querem ou não sair, é algo em que não nos podemos deter muito tempo. Diria que, na Catalunha, por exemplo, existem patriotas exaltados, monárquicos e republicanos, que não admitem a ideia de estar integrados e outros que entendem que o processo de integração não pode ser revertido. Uma grande parte dos Catalães tem origem noutras regiões, em imigrantes andaluzes principalmente. Pois, encontrei jovens, andaluzes de segunda ou terceira geração, que são catalanistas ferrenhos, profundamente imbuídos do ideal independentista. No País Basco, nem preciso de falar, todos sabemos o que se passa. Na Galiza, as correntes separatistas são menos visíveis, embora existam e se manifestem.
Pessoas que gostavam de «ser espanholas» por que «é bonito ter um rei», ou porque os ordenados são melhores e os espanhóis vivem materialmente melhor do que nós (o que, em termos médios, é inegável), não se deviam esquecer de que Espanha tem uma taxa de desemprego das mais elevadas da União Europeia. Por outro lado, muito do «esplendor» da economia espanhola é feito de multinacionais que instalaram as suas centrais para a Península em Barcelona ou em Madrid – são empresas americanas, alemãs, francesas, britânicas… Os «capatazes» ou executivos (que enxameiam os nossos hotéis) são castelhanos, catalães, galegos… e ajudam a criar a ilusão de que é a Espanha que está a tomar conta da nossa economia (como se tal coisa existisse…). Parte dos defensores da anexação, em grande maioria, iriam engrossar as fileiras do exército de «parados». Se querem deixar de ser independentes, porque não sugerem uma união (ou mesmo uma venda) à Suécia? Os suecos ganham muito melhor do que os espanhóis, há menos desemprego… E, já agora, também têm um rei e a rainha Sílvia até fala muito bem o português.
Sempre houve e continua a haver, por esse mundo fora, pessoas a morrer para que os seus países se tornem independentes. São «pobres idealistas». Entre nós há gente «realista» e com «sentido prático» disposta a vender uma Nação com nove séculos por um prato de lentilhas, que é como quem diz por meia dúzia de euros. Não vou qualificar estas pessoas nascidas no nosso País (mas que pelos vistos não o amam). Nem voltarei a este tema porque, além de ser repugnante, ouvi dizer que há fantasmas que, de tanto falarmos neles, se materializam.
Coimbra é uma lição…*
O prédio estava há venda há anos e ninguem lhe pegava. O preço resulta da oferta e da procura no mercado e o prédio, “aquele prédio”, não tinha procura. O preço baixou e com isso encontrou procura, que procurou e comprou. Nessa tarde vendeu-o por um milhão de contos acima. Ganhou um milhão de contos!
Até aqui tudo bem. O mercado é assim, o problema é que há gente “pública” no processo e pode ter “evitado” a procura” e “incentivá-la” segundo os interesses privados. E parece que há comissões e “comilões” que estão descritos numa agenda de um tipo esperto que se lembrou de escrever algo de muito suspeito.
Gente do PSD e do PS, gestores públicos dos CTT e até o Presidente da Câmara aparece ao barulho. Muito dinheiro a saltar “vivo” em levantamentos e depósitos, com cheques de empreiteiros convertidos em notas.
Cá o pagode ouve e lê isto e percebe porque é que a Justiça está como está. Prescreve no silêncio dos gabinetes, arquiva no pó das gavetas…
Este processo saltou agora, vai ser usado contra o Freeport e contra as pressões de magistrados, numa tentativa de “equilíbrio do terror”. Mas eu já me estou “a cagar” que os senhores importantes descridibilizem a política.
Fumam? A gente leva-lhes lá o tabaco!
* em directo da Escócia.
Falando de democracia: A questão do islamismo e de outros integrismos
A crença islâmica é a mais recente das três religiões de Abraão – judaísmo, cristianismo e islamismo. São três religiões irmãs, baseadas em princípios muito semelhantes, embora a organização do Corão, dividido em 114 capítulos («suras») seja diferente da que orienta quer a Bíblia cristã, quer a Torah hebraica. A primeira perplexidade de um ateu convicto como me prezo de ser, imune até mesmo à prova ontológica da existência de um Ser Supremo como a que Santo Anselmo tão laboriosamente teceu, é a seguinte – como pode haver, desde há séculos, tanto ódio entre três crenças, basicamente tão semelhantes, como puderam os príncipes das três religiões não ter feito um acordo, estabelecido uma plataforma ecuménica, baseada no que é comum (que me parece ser tanto) e secundarizando o que é específico de cada uma delas, que é mais litúrgico do que essencial? Não me vou envolver na análise teológica, por diversas razões, mas principalmente porque é matéria na qual sou profunda e voluntariamente ignorante (razão de peso, não acham?). E cuja essência não me interessa minimamente. O tema só me interessa pelas repercussões históricas, sociais e políticas que assume desde, pelo menos, a época das Cruzadas. Para nos entendermos: neste texto, vou usar o termo «islamitas» para designar os crentes no Islão e de «islamistas» quando me referir aos activistas dos grupos islâmicos (vulgo «terroristas islâmicos»). Roger Garaudy, no seu livro Religiões em Guerra – O debate do século, usa o termo «islamismo» para definir o conceito de fundamentalismo ou integrismo do Islão.
Sou um admirador devoto da obra do grande Omar Khayyam, um poeta nascido no actual Irão, no distante século XI. Alguns dos seus maravilhosos rubayat são dedicados ao vinho e ao prazer de beber (Fernando Pessoa, inspirou-se neles para escrever as suas «Canções de Beber»). Rubayat, plural de rubai, constitui uma forma particular de poesia, com uma métrica quantitativa específica. A poesia popular do Irão continua a respeitar os cânones do rubai. Omar Khayyam era crente no Islão. Como conciliava essa crença com o gosto pela bebida, sabendo-se que o Corão proíbe o consumo de álcool. Segundo também me disse um entendido nessas matérias, o profeta apenas pôs reticências ao vinho de tâmara. Tal como aconteceu com a Bíblia, em que os teólogos ligados ao aparelho da Igreja, manipularam os textos e os moldaram às suas seculares conveniências – o Concílio de Trento terá sido um festival de ajustamentos dos textos sagrados à práxis de Roma – Não se terá passado o mesmo com o Corão? Os islamistas encontram no seu livro sagrado todas as justificações para o seu integrismo e para a sua acção fanática. Há mil anos, quando uma grande parte da bacia do Mediterrâneo estava submetida ao Islão, a tolerância era muito maior. E o esplendor cultural muçulmano, também.
Nessa altura, foi o integrismo cristão que espalhou o terror entre os muçulmanos, com base em princípios religiosos de duvidosa limpidez. Como é possível, pelo menos aparentemente e para quem, como eu, quase nada sabe sobre religiões, que quatro ou cinco séculos depois de Maomé ter divulgado a sua palavra, houvesse uma compreensão «do outro» muito mais moderna por parte dos islamitas do que acontece agora, um milénio depois. A nós, ocidentais, a visão do mundo revelada pelos islamitas é semelhante à da nossa Idade Média. O que se terá passado para os muçulmanos terem regredido?
Como disse, não sou adepto nem defensor do terrorismo para resolver questões políticas. Não aceito a violência sobre pessoas inocentes (embora quem defende esse tipo de intervenção política afirme que «ninguém é inocente», o que constitui uma inaceitável falácia), venha essa violência da ETA ou dos grupos islamistas. No entanto, esse tipo de acção deve ser devidamente contextualizado. Podemos não aceitar, mas temos obrigação de compreender. Os Estados Unidos praticam o mais odioso dos terrorismos, arvorando-se em polícia do Mundo, arrogam-se o direito de ir destruir uma ditadura no Iraque, deixando, no entanto, florescer outras ditaduras ou «democracias musculadas», inclusivamente no seu continente. Pelos vistos, para a Casa Branca há «boas ditaduras» e «más ditaduras». O Irão não tem o direito de ter armas nucleares, mas o minúsculo e artificial estado de Israel, inventado pela inépcia da diplomacia britânica, tem esse direito – a França, a Grã-Bretanha, a Índia, podem ter armamento nuclear – a Coreia do Norte, não. Isto cabe dentro de alguma cabeça normal? Ainda nós falamos das arbitragens do nosso futebol!
Não seria muito mais aceitável que os Estados Unidos usassem o seu imenso poderio para acabar de uma vez por todas com um tipo de armas que já se viu ser de consequências incontroláveis e que pode, inclusive, conduzir à destruição da vida sobre o planeta?
Vêm estas considerações a propósito da intolerância islâmica e do fanatismo dos islamistas. O terrorismo é uma espécie de bomba atómica dos pobres. É criminoso e mata inocentes? Claro que é criminoso e mata inocentes. E as trezentas mil pessoas que morreram em Hiroxima e em Nagasáqui eram todas culpadas da arrogância e das ambições imperialistas dos senhores da guerra japoneses? Os muçulmanos têm sido espezinhados, espoliados, humilhados… Cria-se o Estado de Israel em território que tinha donos – os Palestinianos. Estes são acantonados em campos de refugiados. Que povo não ficaria enraivecido? O Sadam Hussein era um ditador? Pois era. Não competiria então aos iraquianos combatê-lo se queriam implantar a democracia? Por que foram os americanos ao Iraque, destruindo as estruturas do poder ditatorial, mas mostrando-se incapazes de as substituir e deixando o país, quando o vierem a abandonar, num estado muito pior do que estava quando o invadiram.
A democracia não se impõe do exterior, o amor por ela nasce no interior das sociedades. Temos, passados todos estes anos sobre a Revolução Francesa, de reconhecer que nem todos os povos querem ser governados de forma democrática. Obrigar africanos e asiáticos, por exemplo, a reger-se por esse sistema, é profundamente antidemocrático. É como a história do escuteiro que tendo de fazer uma boa acção diária, obrigou uma velhinha a atravessar a rua.
Condeno o terrorismo. Não gosto dos talibãs, nem aprovo as acções da Al-Qaeda. O fanatismo dos islamistas é intolerável. Como ousam querer impor a sua crença, por mais verdadeira que entendam que ela é a outros povos? Os clérigos islamitas são uma caricatura carregada dos padres cristãos da Idade Média. Roger Garaudy, na obra que referi na abertura desta crónica, afirma «O islamismo é uma doença do Islão, tal como o integrismo é uma doença de todas as religiões.» «O integrismo é a pretensão de se possuir a verdade absoluta e, por conseguinte, de possuir não só o direito mas também o dever de a impor a todos, sem olhar a meios. O primeiro integrismo é o colonialismo ocidental.» É uma boa e correcta explicação.
Porém, apesar desta visceral antipatia pela religiosidade fanática e tacanha dos islamistas, simpatizo muito menos com o terrorismo levado a cabo pelos governos norte-americanos, que, por exemplo, movem uma guerra económica a um pequeno estado das Caraíbas porque tem um regime ditatorial, mas protegem, por esse mundo fora, ditadores, criminosos de toda a espécie, incluindo barões da droga. Que invadem militarmente um país porque era dirigido por um déspota, mas que deixaram aqui na Península Franco e Salazar sem açaime durante décadas. Que me digam que todos os impérios têm sido assim, ainda vá; que me queiram explicar as razões por que é assim, vá lá. Não me queiram é convencer da razão deste império. A prepotência, o integrismo no conceito de Garaudy, dos Estados Unidos gera monstros como o do terrorismo islâmico. Monstros que morderam aos donos em 11 de Setembro de 2001, mas que mo
rd
em também noutras latitudes – Londres. Madrid… Aviso à navegação: o laboratório do Doutor Frankenstein situa-se em Washington. Está sempre em funcionamento, nunca encerra.
está quase…



Afinal, o mundo natural ainda se pode salvar da destruição total, porque os senhores da economia estão a ficar preocupados. E eu a pensar que o Adam Smith estava errado e o “self-interest” não tinha vantagens nenhumas…
A Cruz do Vítor
Compreendo mal esta obstinação do Governador do Banco de Portugal de se considerar sem qualquer responsabilidade nos casos BCP, BPP e BPN.
Os resultados estão aí, e o BdP existe para que estes casos não aconteçam. Não vale a pena dizer que não cometeram erro nenhum, ou que tudo foi feito como mandam as boas práticas. Todos nós temos que ser avaliados pelos resultados, e os resultados são muito maus. O BdP existe, exactamente, para se antecipar a resultados destes.
Não colhe a argumentação de António Costa e do PS quando diz que a Comissão da AR , persegue o “polícia” e deixa em paz o “ladrão”. O que aconteceu é que o “ladrão” roubou os bancos com a “polícia” a ver. Ora o “polícia” é pago para evitar os roubos, pelos menos os que são efectuados à frente dos seus olhos. Se o BdP considera que não viu nada, então ainda é pior porque um “polícia” não pode ser cego.
O Dr. Constâncio quer dizer com a sua posição neste assunto que tem tanta responsabilidade quanto eu ? Alguem acredita nisso? Nem sequer vale a pena enumerar as razões . Desde logo pelos imensos meios que tem à sua disposição e que não soube utilizar com êxito.
E a questão volta à primeira forma. Perante os resultados ninguem é responsável ? E refiro-me aos resultados da Supervisão, que aos das Administrações dos bancos a Justiça trata (tratará?)
Esta irresponsabilidade de quem ocupa elevados cargos, muito bem remunerados, deixou de estar no “limbo” da vida dos portugas para passar a ser mais um “cruz ” assumida!
Valha-nos São Tomé (ver para crer)!
Poemas com história – Canção para Maria
A receita desta nova série é muito simples: pego num poema meu, já publicado ou inédito, e explico em breves palavras a sua génese, o sentimento ou o acontecimento que o provocou. Uma advertência: alguém me disse que devia chamar à série «poemas com estória». Há empréstimos da norma brasileira e do português falado no Brasil que aceito e outras que não. Essa de estabelecer diferença entre História, para definir a ciência que relata os factos públicos, militares ou políticos de uma nação ou estado, e estória, para qualificar a arte da ficção narrativa, diferença que, grande parte das pessoas (algumas muito respeitáveis) adoptou com o entusiasmo de quem descobriu a pólvora, a mim não me apanha. Uso o termo história nas duas acepções. O facto de em inglês se usar History e story, respectivamente, a mim não me diz nada. A única diferenciação que aceito (desnecessária pois, pelo contexto, logo se percebe do que estamos a falar), é utilizar o H maiúsculo no caso da disciplina científica. Em suma, gosto muito de ouvir falar os brasileiros a falar com o seu sotaque e expressões próprios e não gosto nada de ouvir os portugueses a macaqueá-los. Está explicado – poemas com história.
Francisco Fanhais cantando Canção para Maria (Queria Um País de Sol Para te Dar) na FNAC do Fórum Almada.
O primeiro poema que apresento nesta série, intitula-se Queria um país de Sol para te dar e foi publicado no meu livro A Poesia Deve Ser Feita Por Todos. Escrevi-o no presídio do Reduto Norte de Caxias em 1968, dedicado a minha mulher. O Francisco Fanhais musicou-o e ainda hoje o canta com frequência. Mudou-lhe o título para Canção para Maria. Há uma história interessante relacionada com este poema, para além do facto das circunstâncias em que foi escrito e da forma como, com muitos outros textos, saiu comigo quando fui posto em liberdade, após seis meses de cativeiro – dentro de sapatos, entre a palmilha e a sola: o Francisco Fanhais cantava o poema por muitos lados e antecedia-o sempre da mesma história – o Carlos Loures uma tarde disse para a mulher: – Vou até ao café, venho já! – e o Fanhais fazia uma pausa e rematava – voltou passados seis anos! Isto tinha-se passado assim, eu de facto fui preso no café, mas foram seis longos meses e não seis anos. Quando, finalmente, já depois do 25 de Abril conheci pessoalmente o Fanhais, pedi-lhe para ele fazer a rectificação. Aqui vai o tal poema:
Queria um país de Sol para te dar
Para a Maria Helena
Queria um país de Sol para te dar,
com amantes e crianças nos jardins,
pássaros livres a cantar nas árvores
e a luz em liberdade pelas ruas
– as coisas nos lugares onde as sonhámos
e não nos sítios onde estão,
com armas aperradas a guardá-las.
Um país onde sulcássemos as límpidas manhãs
com sorrisos claros vestindo as faces.
Um país sem muros, sem medo
nem carimbos nas cartas que escrevemos
e ouvidos nas palavras que dizemos,
em segredo.
Mas, meu amor, nascemos cedo,
chegámos ainda a tempo de viver
este tempo que vivemos
com lágrimas ocultas no sorriso,
a raiva escondida nas carícias
e uma secreta esperança aprisionada
nos nossos corações aprisionados.
Viemos ainda a tempo de sofrer
Este tempo que sofremos
dia a dia e que sulcamos,
com os beijos vigiados,
com os nossos segredos desvendados,
com este amor amputado e prisioneiro
com que amamos.
Meu amor, não desertemos
Do tempo e do país em que nascemos
(e viver outro tempo dentro deste
ou estar fora do país
dele não saindo,
também é desertar).
Já que foi este o tempo que nos coube,
já que foi este o país que nos deixaram,
temos de conquistar o Sol que os ilumine,
roubando-o ao silêncio e à mordaça
que nos sufoca a voz – Não desertamos
– o ódio, o medo, a morte
que fujam, que desertem
se o amor os insulta e ameaça.
– Nós ficamos!
Com ao companheiros
e o amor dos companheiros,
o amor será mais forte
do que o ódio, do que o medo, do que a morte.
A luz também se constrói com os nossos beijos,
com as palavras clandestinas que escrevemos,
aquelas que a opressão não vê nem ouve.
A luz também se constrói com os nossos filhos,
eles tingem de luz nova
as sombras que com ódio vêm pôr
entre as carícias, os beijos e as palavras.
Neles se erguerá a luz para amanhã
e a liberdade prisioneira nos nossos corações
inundará de Sol as ruas,
meu amor.
Nota final: Este poema também ficaria bem na minha outra série Apontamentos & Desapontamentos. A democracia, esta «democracia», desapontou-me. Em todo o caso, não alimento saudosismos estúpidos por esse tempo de odiosa e criminosa repressão. Desse período negro, só invejo nostalgicamente a «mocidade perdida», como diz o faduncho.
À boca de cena
Hoje, na véspera da minha viagem, estou a recordar-me de algumas estórias que se contavam na minha cidade.
O mesmo grupo de teatro do “Cheira-me a papel rasgado” estava afadigado em ensaios para a “premiére”. Um dos rapazes, por evidente falta de jeito, não entrava na peça, era uma espécie de “moço para todo o serviço”. Mas aquilo magoava-o, nem que fosse um pequeno papel, ele gostaria de uma vez que fosse pisar o palco.
Insistia junto do Director que no meio da confusão geral lá se lembrou de uma oportunidade. Pá, levas isto, decoras muito bem decorado e aparece cá no dia da estreia, não precisas de vir aos ensaios.
E o pobre do rapaz, actor sem ensaios, lá foi para casa convicto de ir mostrar que podia fazer tão bem como os outros.
Chega o grande dia. A peça desenrola-se no meio de grande nervosismo. Sala cheia de familiares e amigos. O nosso jovem já arrependido, vai entrar pela primeira vez num palco perante uma sala cheia.
No momento, na sua deixa, é empurrado pelo Director para o palco.
Entra vestido de empregado de mesa com uma bandeja e com um serviço de chá. Dirige-se para a boca de cena e diz trémulo. “Entra, põe a chavena em cima da mesa e sai.”
O que estava escrito no papel que o Director lhe dera para decorar, o que devia fazer que era entrar, pôr a chávena em cima da mesa e sair, sem dizer peva!
Lá se foi um talento!
O melhor amigo da mulher…
…é o Photoshop. Tenho noção que poucas pessoas conhecem o Photoshop. Menos ainda as que sabem utilizar o programa. No entanto, ele “anda” por aí. Pelo que conheço, posso garantir que mais 90% das imagens impressas em publicações, passam pelo Photoshop. Como conhecedor e utilizador regular, vejo com um profundo sentido de “deformação profissional” tudo o que é impresso. E fico sempre na dúvida: isto será verdadeiro? Eu bem sei a quantidade de postes, fios de electricidade e gruas que “retirei” de fotografias, apenas porque eram ruído visual. Perdi a conta ao número de manipulações que tive de executar, desde colorações, apagar objectos indesejados e “colar” elementos novos para tornar aquela imagem, numa imagem melhor. Atenção! O Photoshop não é uma arma terrorista! Mas se for preciso, consigo “sentar” o Bin Laden ao meu lado numa bela fotografia tirada em Madagáscar em 1936. O limite é praticamente a minha imaginação. Já o programa em si, desde há anos que o venho confirmando, não tem mesmo limites. Não conheço ninguém que o domine totalmente e acredito que nem sequer os seus brilhantes programadores o conheçam totalmente, tal é a sua complexidade e variedade de ferramentas. E nesta altura, eu pergunto-me quanto tempo continuarei a ter capacidade de reaprendizagem para trabalhar com ele. Se a minha imaginação não terá limites, já a minha capacidade de aprendizagem terá certamente…
Tenho de lidar com coisas tão estranhas como layers, masks, saturation, image size, resample, cmyk, profiles, sharpens, blurs, histogram, clipping masks, hue, crop, etc, etc, etc… e isto apenas no Photoshop. Ainda faltam o Freehand, o Illustrator, o Acrobat, o Quark, o InDesign e o Corel Draw, já para não falar numa parafernália de programas complementares. Tanta tralha!
Como é que terei algum tempo para, como alguns homens, desfolhar a FHM, a Playboy e afins e apreciar aquelas esbeltas mulheres, quando estou tão ocupado a manter-me actualizado informaticamente? Pior ainda! Como é que poderei apreciar aquelas belas imagens de belas mulheres quando sei que provavelmente foram manipuladas, muito provavelmente por um outro geek como eu, alterando aqui e acolá, tapando aquele mamilo destemido que salta fora do soutien, ou retirando aquelas gordurinhas extra?
Como exemplo, apresento aqui algumas imagens. Tudo pode ser manipulado e na maior parte das vezes é mesmo manipulado. É muito mais fácil, retocar, alterar, cortar ou tirar um pouco de luz no Photoshop, do que estar a fazê-lo em set. Não se pode dizer: “Olhe, encolha um pouco mais a barriguinha!” ou “Não pode esconder essas rugas?”. Com o rubber stamp e o healing brush tira-se a barriguinha, a flacidez e a celulite e faz-se uma cura milagrosa anti-rugas mais rápida que a Corporacion Dermoestetica e nem sequer se abre a boca!



Cheira-me a papel rasgado!
A Manuela Ferreira Leite quis dar uma nota acima do seu registo e saíu-lhe um “rasga” que tem sido mote para muita conversa.
O Engº Sócrates já tirou a conclusão que o PSD vai retirar os apoios sociais aos mais pobres e aos desempregados. Como se isso fosse possível!
Mas isto recorda-me uma deliciosa estória que se contava na minha juventude, acerca de uns bravos que se tinham enredado nos prazeres do teatro. Numa das cenas a D. Inês de Castro, rodeada pelas suas aias esperava pelo seu amor D. Pedro. Nisto entra um fogoso paio com uma carta, que dá a ler a D. Inês, que muito exaltada, a manda destruir.
Aqui, o nosso paio devia queimar a carta mas, para grande desespero de todos, tinha-se esquecido da tocha para lhe pegar o fogo. A D. Inês percebe o problema e tem uma saída genial para a situação. E grita, rasga-a antes que D. Pedro saiba do que seu pai, El-Rei de Portugal, é capaz!
Rasgada a carta, entra em cena D. Pedro que furibundo, grita:
Cheira-me a papel rasgado!
Enfim, o espectáculo, que era um drama, deu numa gargalhada geral.
Falando de democracia: Indios e cowboys
Pelo menos os da minha geração, lembram-se de uma das brincadeiras favoritas dos miúdos – os índios e cowboys (cóbois, no nosso inglês simplificado). Nascido no centro de Lisboa, não podia brincar na rua. Mas nas férias grandes desforrava-me. Numa vila de praia da margem Sul, hoje transformada num caos urbanístico, mas na altura pacata e tranquila, reunia-me a um grupo de amigos certos, todas as tardes, depois do almoço, antes de uma última ida à praia, quando o sol já não «fizesse mal». Dividíamo-nos em dois grupos, os maus e os bons, os índios e os cóbois. Não havia lugares fixos, a divisão era aleatória. Mas quem se atrasasse na chegada já nem tinha direito a escolher. Ninguém discutia as regras.
*
Antonio Gramsci (1891-1937), filósofo e político italiano, perseguido pelo regime fascista de Benito Mussolini, dizia na sua obra Os Intelectuais e a Organização da Cultura: «Cada grupo social essencial» (…) «surgindo na história a partir da estrutura económica anterior e como expressão do desenvolvimento desta estrutura, encontrou – pelo menos na história que se desenvolveu até aos nossos dias – categorias intelectuais pré-existentes, as quais apareciam, aliás, como representantes de uma continuidade histórica que não fora interrompida nem mesmo pelas mais complicadas e radicais modificações das formas sociais e políticas.» Ao recordar estas palavras de Gramsci, sou levado a reflectir sobre o facto de a realidade histórica dos últimos dois séculos nos permitir verificar que são oriundos da burguesia quando não mesmo da aristocracia, os intelectuais que surgem à superfície das grandes e pequenas perturbações sociais e que construíram, não só os suportes teóricos do sistema capitalista, como também os pressupostos ideológicos de quantas revoluções se produziram.
A Revolução Industrial, ao mesmo tempo que veio criar um novo modo de produção – o que, pode dizer-se, não acontecia desde o Neolítico – provocou o aparecimento de uma estrutura intelectual adequada, do mesmo modo que a aristocracia fundiária, no sistema feudal, criou a sua própria categoria intelectual – a dos sacerdotes. Estes monopolizaram, durante um longo período da história, a ideologia religiosa que, para todos os efeitos, constituía a ciência da época. Em contrapartida, poder-se-ia afirmar que a classe operária, nasceu, sobreviveu e, provavelmente, extinguir-se-á sem ter organizado (ainda que a partir de categorias intelectuais «pré-existentes» uma intelectualidade própria, acabando o marxismo, numa análise superficial, fria e pragmática, por surgir como uma ruptura interna na superstrutura da burguesia, não ultrapassando na prática a concepção hegeliana que atribuía aos intelectuais o papel de «aristocracia do Estado».
Esboça-se um quadro de luta de classes em que, a nível superestrutural, um dos contendores estaria numa total dependência dos quadros formados pelo adversário, aparecendo a luta, no campo das ideias, como uma dissensão no campo de burguesia – a clivagem entre intelectuais «burgueses» e intelectuais «proletários» seria determinada por um jogo de opções pessoais baseado na pressão moral que a natureza cruel e desumana da exploração sempre tem exercido sobre camadas sensíveis da classe dominante, nomeadamente entre a juventude. O campo revolucionário, nessa luta que, embora tão anunciada nunca chegou a travar-se, dependeria das deserções que essa pressão ontológica provocasse. Não falarei aqui do papel desempenhado nessas deserções do campo burguês motivadas por ilusões românticas e a esperança no advento de uma sociedade justa. Não falarei também de apressadas «opções de classe» feitas em ordem a objectivos obscuros de oportunismo, carreirismo, servidas por consabidos artifícios de demagogia. Desde o século XIX até ao século XX, organizações operárias fizeram esforços no sentido de criar estruturas culturais autónomas do tipo das universidades livres. Porém, salvo uma ou outra excepção, todas elas desembocaram em arremedos do ensino burguês.
No fundo, toda esta problemática radica num ponto – o socialismo não criou um modo de produção alternativo ao do capitalismo. Procurou pôr o modo de produção capitalista ao serviço do proletariado. Porém, tal como o carro não consegue puxar os bois, é o modo de produção que determina a estrutura cultural e não o contrário. Entrou-se num labirinto sem saída. Melhor, num labirinto cuja única saída deita para o depósito das revoluções abortadas. O «socialismo real» tinha falido muito antes da queda do muro de Berlim. Quando na União Soviética se chamou stakanovismo à mesma coisa a que os capitalistas chamavam taylorismo, a revolução acabara já. Porque o problema não era uma questão de nomenclatura. Nessa altura, em que os operários se emulavam para ver quem ganhava o título de «trabalhador do mês», nascera uma nova forma de exploração – o capitalismo de Estado, com a economia posta ao serviço de uma nova classe dominante. As pessoas mudaram, a exploração capitalista manteve-se. A bem dizer, não houve revolução.
*
Nesta era pós-industrial em que vivemos, observando a classe política que temos em Portugal, verifico que ainda há muita gente do «meu tempo». Na grande vaga de prisões que se verificou em meados dos anos 60 – o controleiro do sector universitário do Partido Comunista deu de mão-beijada à PIDE toda a estrutura do sector, nomes, pseudónimos, moradas, ligações – tudo. Ao mesmo tempo, um acidente com uma bomba artesanal desencadeou a prisão de muita gente da Frente de Acção Popular, um movimento proveniente de uma cisão no PCP. As prisões regurgitavam de jovens estudantes. Naquela altura, há mais de quarenta anos, estavam concentrados em duas organizações de esquerda (muitos mais no PCP). Eram jovens da classe média na sua generalidade, «filhos da burguesia», usando o linguarejar politiqueiro da época.
No começo dos anos 70, tinham começado a constituir-se outras formações políticas – a LUAR, as BR, o MRPP e, em 1973, a ASP, que daria lugar ao PS. No seio do partido único, a ANP, nascia uma ala liberal. O leque político que durante as décadas anteriores se resumira ao PCP, aos republicanos históricos (que só se organizavam em vésperas de eleições) e à Causa Monárquica, diversificava-se. Muitos dos militantes destas organizações, geralmente estudantes, provinham da geração seguinte à minha. Porém, os dos anos 60, formados na sua grande maioria no PCP, espalharam-se pelos novos movimentos (alguns em lugares de liderança) nomeadamente pelo PS, um ou outro pelo PSD. Não digo nomes, mas quem viveu aqueles tempos, sabe que foi como digo. Ministros e secretários de Estado do PS, foram e são, gente desse tempo, provenientes das hostes do PC. O que não tem mal nenhum – embora para 0o PC quem sai para o PS ou para o PSD seja um traidor, mas ache normal que se faça a viagem em sentido contrário (o que raramente acontece, diga-se). Onde quero chegar é à conclusão de que, tal como nos jogos infantis de índios e cóbois, a escolha do campo político em que se actua, não sendo aleatória por corresponder, na melhor das hipóteses, a convicções políticas (há casos em que corresponde a interesses da mais variada espécie, mas não vou por aí), nada tem a ver com a chamada origem de classe. Toda a gente, da extrema-esquerda mais extra parlamentar à direita mais conservadora, pertence, grosso modo, à mesma classe, bebeu a sua formação nas mesmas fontes. Assumindo uns, em diversos graus, o papel de defensores da classe a que pertencem e outros, em diversos graus também, o de revolucionários. Não explicará esta circunstância a falência sucessiva de quantas experiências de derrube da sociedade burguesa que têm sido empreendidas? Através dos intelectuais, dos quadros herdados, como sapatos de defunto, do capitalismo e introduzidos, mercê das tais opções de classe, sub-repticiamente no cerne do
te
cido revolucionário, a burguesia ressurge, mais cedo ou mais tarde, metamorfoseada em casta dirigente proletária, como erva daninha agarrada às estruturas de Estado, revestida da sacrossanta autoridade das altas hierarquias do Partido, montada solidamente no cavalo do poder. Cóbois disfarçados de índios. Ou vice-versa, se preferirem.
Falando de democracia: A era americana
Os Estados Unidos da América, pela límpida voz dos próceres da sua independência, nomeadamente a de Thomas Jefferson, principal autor do texto da Declaração da Independência, proclamada em 4 de Julho de 1776, foram no final do século das luzes um farol de liberdade que ofuscou as candeiazinhas do iluminismo. Diz a Declaração em certo passo – «a prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros.» (…) «Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objecto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assiste-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos Guardiães para sua futura segurança». Palavras que os revolucionários franceses beberam, seguindo o exemplo americano treze anos depois. Porém, em pouco mais de dois séculos, esse capital de esperança foi dissipado, a luz radiosa do american ‘dream transformou-se no buraco negro onde a liberdade e a democracia se precipitam e desaparecem, passando para uma realidade paralela – «a realidade americana».
Nos Estados Unidos existe uma quase ilimitada liberdade de expressão. Centrais de inteligência, como a CIA e o FBI, são em livros, em filmes, em séries televisivas, acusados das mais torpes felonias de uma forma que não sei se a PJ ou o CIS aguentariam. Não se pode deixar de apreciar aquilo que aparece como uma transbordante capacidade de autocrítica. Porém, essa facilidade de denunciar ficcionando, banaliza o crime e as prepotências dessas centrais. Até porque, geralmente, não são as centrais ou as instituições propriamente ditas que são acusadas, mas indivíduos corruptos ao seu serviço. Nesta ânsia de efabular a perversão, nem o Presidente escapa. Estou a lembrar-me de um filme, Poder Absoluto (Absolute Power, 1997), realizado por Clint Eastwood, em que o criminoso é precisamente o presidente dos Estados Unidos, interpretado por Gene Hackman. É a teoria da conspiração em todo o seu esplendor.
Quando as coisas acontecem fora dos ecrãs ou das páginas dos romances de aeroporto, em Guantánamo, no Iraque ou no Afeganistão, a maioria dos cidadãos norte-americanos acha normal. Em suma, tudo o que de negativo existe na sociedade norte-americana pode ser denunciado e criticado – do racismo à tortura. As maiores felonias e as mais sinistras conspirações são antecipadas. O efeito é perverso. Se amanhã os Estados Unidos decidirem lançar bombas nucleares sobre o Irão, muitos americanos acharão normal – encolherão os ombros e dirão – já vi este filme.
Naturalmente que esta acefalia colectiva não traça um retrato de corpo inteiro da sociedade norte-americana – há uma percentagem elevada de americanos inteligentes, cultos, bem informados e preocupados com o rumo que as coisas estão a tomar. Porém, na sua maioria, os norte-americanos confundem o seu mundo com o Mundo. É vulgar o vencedor da final de qualquer desporto que só ali se pratica ser designado por «campeão do mundo». Para a maioria dos norte-americanos, o «mundo» são eles; os outros continentes e países, arredores insignificantes. É assim desde a Segunda Guerra Mundial, quando após a grande depressão de 1929 e que se prolongou pelos anos 30, os Estados Unidos emergiram com grande potência. O colapso da União Soviética que dividia com eles a tarefa de dirigir e policiar o planeta, deixou-os sozinhos e entregues ao seu grande poder que é, também a sua maior fraqueza – a invasão do Iraque, para falar numa das mais recentes demonstrações da sua «omnipotência», foi, pode dizer-se, decidida unilateralmente pelo gabinete de George W. Bush. A União Europeia foi um mero figurante (com a Grã-Bretanha a assumir o papel de embaixadora de «deus» aqui na terra…).
O realizador cinematográfico francês Alain Resnais, o director de «Hiroshima, mon amour» (1959) e de «Mon oncle d’Amérique» (1980), disse numa entrevista que era doloroso «viver na era americana e não ser americano». Isto foi dito há quarenta anos, talvez, quando ainda nós, europeus, não nos tínhamos apercebido totalmente da carga de perversa prepotência existente na democracia americana, embora tivéssemos já elementos históricos para tal (o lançamento de duas bombas nucleares sobre o Japão, por exemplo). Hoje em dia, o inglês impôs-se como língua franca e não foi por mérito ou pressão da Grã-Bretanha que isso aconteceu, pois enquanto a Grã-Bretanha, no século XIX, foi a principal potência mundial, o francês era a língua internacional por excelência. A american way of life constitui um modelo implantado à escala global, desde os cereais do pequeno-almoço até às séries televisivas e aos programas com que preenchemos os serões. Sentimo-nos como se deviam sentir os nossos ancestrais depois da ocupação romana da Península – obrigados a arranhar o latim e a adoptar hábitos e leis impostos desde Roma. Viviam na era romana e não eram romanos – dissolveram-se no decurso do processo de romanização. Mas o Império Romano também não durou eternamente, dissolvendo-se na corrosão do tempo, da sua degenerescência, do seu próprio poder. Não há impérios eternos. Porém, sempre duram mais do que aqueles que lhes profetizam o fim.
Duram sempre demais.
Tiananmen foi há 20 anos
Praça de Tiananmen, lembram-se? Fez no Sábado 20 anos. Milhares de jovens prosseguiam os seus protestos, exigindo a abertura do regime à democracia. Construíram eles próprios um monumento à Democracia. Em 4 de Julho de 1989, o governo da China ordenou às Forças Armadas que pusessem fim aos protestos. E foi o que fizeram. Segundo os dados oficiais, morreram 241 pessoas. Mas fala-se num número que oscila entre os 2600 e os 3000 mortos. Jovens na sua maioria. Desse massacre fica-nos a imagem de um homem sozinho enfrentando os tanques. Tiananmen, em mandarim, significa Paz Celestial.
![cornos[3] cornos[3]](https://i0.wp.com/aventadores.wpcomstaging.com/wp-content/uploads/2009/07/cornos3.jpg?resize=384%2C244)







Recent Comments