Pipi das meias altas

Não tem nada a ver com isso. É apenas publicidade enganosa.

Circula para aí uma publicidade que diz que eu não posso viver sem publicidade. Em parte é verdade. A publicidade não é só a “publicidade”. Um mural “revolucionário“, por exemplo, também é publicidade. Publicidade a um serviço institucional também é publicidade, ainda que não venda nada. A publicidade é de certa forma uma expressão artística humana e abrange ainda muito mais aspectos da vida quotidiana. Por isso mesmo, gosto de publicidade, ou não fosse até uma parte da minha profissão. Mas especificamente, refiro-me à publicidade comercial, aquela que tenta vender coisas. Tal como tudo, tem o lado positivo e o lado negativo. O lado positivo é ser um suporte pequeno em que alguém, com liberdade e capacidade criativa, tenta passar uma mensagem da forma mais eficiente possível a um destinatário final. Às vezes é pura arte. O lado negativo é precisamente a mesma situação, com a diferença que o destinatário não sabe que é de facto publicidade. Neste contexto encaixam-se conceitos como por exemplo, as publireportagens, a propaganda e mais especificamente, a publicidade para crianças. Enganar bem, costuma-se dizer, também é uma arte.

Por isso fiquei intrigado com o tal ICAP, de que nunca tinha ouvido falar. Fui então ver o site. Ainda mais intrigado fiquei. Porque o que quer que seja o Instituto Civil da Autodisciplina da Comunicação Comercial deu-se ao trabalho de elaborar um muito completo Código de Conduta. Nesse Código, a páginas tantas, fala em crianças e jovens no artigo 23 e um dos parágrafos refere mesmo que: “A publicidade não deve: a) explorar a inexperiência ou credulidade das crianças e dos jovens;(…)“.

Então algo está errado. Não é uma crítica directa ao ICAP. Ainda bem que existe algo que regule a publicidade (nem que seja ela própria), e especialmente a direccionada para crianças. Mas se assim é, não estão a fazer aquilo a que se propõem. Ninguém do ICAP ainda reparou que nos anúncios dos Happy Meals, Danoninhos, Chocapics e afins, exploram a “inexperiência ou credulidade das crianças“, vendendo-lhes hambúrgueres, cereais para pequeno-almoço, iogurtes e todo o género de coisas usando como isco toda uma parafernália de brinquedos e ofertas? No ICAP, ninguém vê os intervalos dos espaços infantis? No ICAP ninguém tem filhos, conhece alguém que tenha filhos ou alguma vez viu um puto aos berros no supermercado por causa de um Kinder Surpresa? Ainda não repararam que existe publicidade MESMO direccionada para os filhos e não para os pais, como deveria ser? No ICAP ninguém vê o Canal Panda?

Pergunto-me ainda: será que estas empresas concebem publicidade propositadamente para crianças, porque têm medo que os adultos deixem de comprar os seus produtos? Ou apenas querem aproveitar a inexistência de crítica e selecção por parte dum “target” mais inocente? Será que estas empresas nunca ouviram falar em estudos sobre como a publicidade influencia directamente as crianças? Será que nunca ouviram falar de nagging? Deveriam saber, porque foram elas que fizeram os estudos…

Custa-me a acreditar que no meio de tantos estudos de mercado e de opinião, tudo isto seja apenas uma enorme, infeliz e inocente coincidência. Para mim, é apenas mais um reflexo perverso de uma economia sem ética que se baseia num consumismo desenfreado e no desperdício constante para se manter em funcionamento. Mais grave ainda, é que isto torna os meios de divulgação de publicidade numa espécie de educadores extra-familiar. E tudo aparentemente promovido apenas com vista ao lucro de uma empresa, porque eu não consigo vislumbrar quais as grandes vantagens para as crianças.

Noutra perspectiva diferente, costuma-se dizer que bons produtos dispensam publicidade. Vendem-se a si próprios. Não sei o que isso quererá dizer dos produtos actuais, tão dependentes de uma boa e hiper-estudada campanha de publicidade. Tanto para adultos como para crianças. Publicidade para crianças não é novidade. Mas é inegável que é um fenómeno em crescendo e cada vez mais agressivo.

Só por curiosidade, eu perguntei ao meu filho se ele sabia o que era publicidade. Com 7 anos, respondeu-me que achava que era um programa para os “grandes“. E anúncios? Anúncios é o que dá no meio dos “programas para os grandes”. E anúncios no meio dos desenhos animados? Não há anúncios no meio dos desenhos animados, senão não eram desenhos animados, mas sim “um programa para grandes”, não é? E é para miúdos com esta inocente mentalidade e que dão este tipo de respostas, que algumas empresas gastam milhões de euros em publicidade para lhes tentarem impingir todo o género de tralhas, iludindo-os e enganando-os com bugigangas e brinquedos de plástico.

Deixo um vídeo ao ICAP, para o caso de nunca terem ouvido falar em “nagging”…

Comments


  1. O estranho caso do Sr. Aníbal e da coação subliminar de Liberdade de Expressão…Neste blogue praticam-se a Liberdade e o Direito de Expressão próprios das Sociedades Avançadas…

  2. maria monteiro says:

    A publicidade tem os “seus requintes de malvadez”… já se fazem autenticas obras de arte que podemos “admirar” mas também temos que ter o discernimento de não ir em cantigas….

  3. isac says:

    exacto. eu tenho esse discernimento, a maria também… o que me preocupa são os miúdos que nem sabem do que estou a falar. Todos nós nos revoltamos com a publicidade enganosa porque temos capacidade de raciocínio suficiente para isso. Por empatia, não gosto também que os enganem assim. Acho imoral. E depois fomenta um consumismo oco que em nada os beneficia, muito pelo contrário.

  4. maria monteiro says:

    Na altura em que o meu filho era pequeno, apanhou uma vez a publicidade do Toys R us… era vê-lo fazer cruzinhas em tudo que era brinquedo para depois escrever carta ao Pai Natal… lá foi convencido a escolher só um brinquedo….E quando chega Setembro o aliciamento que se faz ao material escolar….Quando era miúda os brindes vinham nos pacotes da Farinha Amparo (geralmente era um elefante pequenino em plástico azul) … agora já nem traz brinde


  5. Além da questão relacionada com a publicidade, que é relevante, há a importância que as crianças assumem no seio da família. Hoje, a maioria das crianças já ‘regula’ o tempo de lazer, descanso e trabalho dos pais, já ‘manda’ nos programas que se vêm na televisão, no local onde se vai comer, quando se janta fora de casa, e, claro, nas compras que se fazem. E o nagging resulta, na maior parte das vezes. Quem são os pais que gostam de ver os filhos aos berros? São poucos os que resistem e ainda bem.Convenhamos que, apesar da importância crescente, a publicidade e os publicitários limitam-se a seguir as tendências da sociedade.

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