POEMAS DO SER E NÃO SER

O Sonho

O sonho
acesso do silêncio
ao dilatado vento da palavra
o direito da sombra
na luz de todas as cores.
O sonho
doce caminho dos lábios
perfumados de alheias maçãs
a voz que há-de voar
quando se calarem as asas.
O sonho
canção intemporal
que dá razão à loucura
a sede de todas as fontes
a água de toda a secura.
O sonho
vento leve e sensual
tocado de algas e maresia
adormecido o pensamento
na doce cama da fantasia.
O sonho
uma flor a sorrir
no outro lado do rio
onde as quebras do silêncio
dão voz ao melro vadio.
O sonho
os barcos que chegam tarde
carregados de vinho amargo
a esperança de todo o tempo
sem outro tempo de esperar.
O sonho
mar derramado na areia fina
beijando o corpo feito casa
a paz da tarde adormecida
sem corpo para morar.
O sonho
mão apertada ao escudo
da liberdade ameaçada
o sonho tempo perdido
tempo de sonho e de nada.
O sonho
flor de orvalho colhida
no seio efémero da madrugada
o silêncio da canção perdida
no beijo da noite atraiçoada.

                               (adão cruz)

(adão cruz)

O debate José Sócrates – Jerónimo de Sousa

Porque ataca o PCP o PS e não ataca a Direita ? Que razões levam o PS a se considerar de Esquerda?

Quando a direita ataca o SNS, a Escola Pública, a Segurança Social, não se ouve o PCP, mas ataca este governo com manifestações de rua, utilizando os professores e outros profissionais. A CGTP e a FRENPOF estão ao serviço de uma política partidária, a do PCP, que não reconhece medidas absolutamente essenciais que foram tomadas por este governo. Colocação dos professores por quatro anos, aulas de substituição, horário prolongado…

O Código laboral é indigno de um governo que se diz de esquerda, profundamente injusto, e quanto ao PCP, inconstituicional. A pobreza, os trabalhadores que mesmo a trabalhar continuam pobres, os pensionistas pobres, são estes que pagam a crise. E, quanto às reformas da Escola, vão no sentido de flexibilizar os horários dos pais para poderem trabalhar mais horas, nada é a favor dos professores. Discriminação salarial, avaliação hostilizada por toda a classe…

O PS fala de um país que não existe! O PCP fala de um país inviável!

UMA TRISTEZA – DINAMARCA 1 – PORTUGAL 1

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SÓ ME INTERESSA O RESULTADO
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E este resultdinamarcaado não me interessa.
A equipa de Portugal, que até nem jogou mal na primeira parte, mudou de estratégia e partiu-se toda.
Só me interessa o resultado e com este treinador (?), os resultados são maus.
A tristeza que se abate sobre todos nós, merece uma atitude. Corram com este treinador (?) de segunda daqui para fora, a ver se conseguimos alguma coisa nos jogos que nos faltam.
Desta forma nem uma equipa mista, de Portugueses e Brasileiros nos safa, apesar do nosso golo. Continuamos a não saber marcar, e não será o penalti, eventual, que o árbitro não viu, que poderá servir-nos de desculpa.
Este resultado não interessa e este treinador também não.

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FUTAventar : Dinamarca, 1 – Medo ,1

Leiam o que escrevi antes do jogo, dois textos abaixo.

Portugal a dar um banho de bola, mas a jogar sem ponta de lança, golos perdidos por quem não é goleador e nós convencidos que este Queiroz, arrumado o meio do campo com quatro jogadores, entregava companheiro ao Ronaldo, o Liedson ou o Nuno a jogar bem dentro da área.

Este Quieroz só tem medo, deu quarente e cinco minutos e um golo de avanço, mas pergunto eu, o que é que este homem tinha a perder, quando só interessava ganhar?

VIGILIA

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SOLIDARIEDADE A MANUELA M GUEDES

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A suspensão do Jornal nacional de Sexta – feira, na TVI, provocou um terramoto político.

Toda a gente tem opinião, uns a favor da suspensão, poucos, e outros, muitos, contra e solidários com MMG.

O Presidente falou, o ex-presidente falou (embora já poucos o ouçam), o ainda nosso Primeiro, explicou-se, os comentadores abordaram o assunto de todas as maneiras e feitios, a administração da Prisa veio dizer nada, a Média Capital também, os partidos políticos gritaram, a liberdade de expressão foi abalada, o zé povinho fala e diz. Não há ninguém que não tenha opinião.

Multiplicam-se os apoios a d Manuela, agora com uma vigília de solidariedade, já se falando em greve dos jornalistas da TVI.

Aparentemente, a suspensão do Jornal, foi um tiro no pé do partido do governo, embora nestes dias que faltam para as eleições, fique a ganhar, pois conta com menos um inimigo figadal.

Na tentativa de dar a volta aos acontecimentos, surge a notícia, absurda, oriunda dos meios governamentais e do partido do governo, de que tudo isto não passa de uma cabala para prejudicar o ainda nosso Primeiro. Mais uma (agora chamam-lhe cilada) que os inimigos do sr Sócrates lhe apontaram, quase faltando dizer que tudo isto não passa de uma manobra da própria d Manuela.

É de loucos. O que o desespero os faz dizer.

Entretanto os vizinhos ibéricos entendem que tudo isto (as reacções ao afastamento de MMG) acaba por provocar uma perseguição involuntária aos espanhóis e a Espanha enquanto País.

E, como a notícia veio do EL PAÍS, que também pertence à Prisa, esta ideia, só servirá para nos distrair, e limpar as acções cometidas.

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Intervalo : Eficácia, 1 – circulação de bola, 0

Só com milagre é que marcamos um golo.Várias hipóteses fáceis de converter em golo, nada, não é ponta de lança quem quer, falta um homem que jogue na área, estes treinadores portugueses quando mudam é para meter jogadores de meio campo, mas os golos é que contam.

Vamos a ver se entra o Nuno ou o Liedson, o Simão já teve dois golos fáceis e não concretizou.

O golo deles é um portento de classe, passar a bola para trás e para o lado é fácil, mas pará-la no peito, no meio de vários jogadores adversários e rematar de primeira, sem hipóteses de defesa, é um grande golo.

Altura de Nossa Senhora fazer alguma coisa pela selecção!

Santarém, Capital do Gótico (Fim)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

Património moderno: Do manuelino ao barroco

A chegada do manuelino decorreu em Santarém com naturalidade. Para além da própria evolução artística, o grande terramoto de 1531 contribuiu largamente para essa situação, ao levar à ruína muitos dos monumentos da cidade. Mais tarde, viria o barroco, sobretudo nas decorações exteriores, e o caminho para o romantismo, já na fase seguinte.
A igreja de Santa Maria de Marvila está classificada como monumento nacional em 27 de Agosto de 1917. Encontra-se no largo de Marvila, no local onde existiu o bairro da antiga medina islâmica. Chamou-se inicialmente Santa Maria de Santarém, o que prova que a sua fundação foi anterior às restantes igrejas da cidade. Aliás, deve ter havido uma transformação directa de templo muçulmano em templo cristão.
Segundo Jorge Custódio, o seu nome deriva do topónimo árabe marvila, território onde existiram outrora algumas mesquitas muçulmanas. Quanto à tradição, diz que a igreja deve o seu nome a uma imagem de Nossa Senhora das Maravilhas oferecida por S. Bernardo ao templo primitivo, corria então o século XII. Outra lenda diz que um touro de fogo, no ar, profetizou que D. Afonso Henriques iria conquistar Santarém. Um sucesso fabuloso, uma maravilha. Diz a tradição que, de maravilha, resultaria o topónimo Marvila.
Os cronistas atribuem a fundação da igreja a D. Afonso Henriques. Em 1244, a igreja passou a integrar uma colegiada com o seu nome, muito beneficiada com rendimentos e privilégios por parte de D. Aires Vasques, bispo de Lisboa. Data dessa época a construção da igreja, em estilo gótico, que apagou todos os vestígios do edifício anterior.
Dessa reconstrução, pouco resta hoje em dia. A igreja foi totalmente reformada nos inícios do século XVI ao longo de dois reinados, o de D. Manuel I e o de D. João III, contando para tal com o patrocínio de D. Francisco de Almeida, vice-rei da Índia, que deixou em testamento mil cruzados. As obras ficariam concluídas cerca de 1530. É deste período o portal manuelino, com elementos naturalistas, os alçados laterais com janelas de arco quebrado ou os arcos de acesso ao coro e à capela baptismal. De resto, os elementos habituais nos monumentos manuelinos abundam: emblemas de D. Manuel I, cruz da ordem de Cristo, esferas armilares, escudo das cinco quinas. No século seguinte, viria a receber o revestimento azulejar dos muros parietais.
De resto, sabe-se muito pouco sobre aquele que projectou e dirigiu a reconstrução manuelina do templo. A ligação a Lisboa ou à «vulgarização e popularização dos modelos eruditos da Batalha» (Pedro Dias) pode ser encarada como muito provável, dada a proximidade geográfica desses dois centros da arte e cultura portuguesa do século XVI.
A partir daqui, a igreja de Santa Maria de Marvila tornou-se o centro espiritual da cidade de Santarém. Para além da localização, junto a uma Praça Nova que recebeu muitas atenções durante a época manuelina, a capacidade económica da sua colegiada e a forte ligação ao padroado real justificaram que assim tivesse acontecido.
Templo de planta longitudinal, composta pelo corpo das naves rectangular e por cabeceira tripartida escalonada, a que se adossam dois corpos rectangulares. A fachada principal é em empena, com dois pisos vazados por portal de arquivoltas trilobadas. Sobre o arco cruzeiro, dois óculos de diâmetro diferente. O portal, também nitidamente manuelino, é ladeado de pilares escalonados. Alguns pormenores zoomórficos da decoração do portal estão relacionados com o processo expansionista então em curso, caso de um pequeno leão presente no lado esquerdo e outros animais e grifos. Contígua à nave lateral esquerda, uma torre sineira que no século XIX substituiu a antiga torre medieval.
Quanto ao interior, é composto por três naves de cinco tramos, sendo que a nave central é mais elevada do que as outras. Dividem as naves arcos plenos clássicos, assentes sobre doze grossas colunas com capitéis jónicos. Todas são cobertas por tecto de madeira de três planos. As capelas, que se ligam às naves por arcos triunfais, são cobertas com abóbadas de cruzaria polinervadas. Tanto na capela-mor como nas capelas laterais, as imagens da época manuelina aparecem com alguma frequência. Na capela-mor, de abóbada polinervada, com o símbolo manuelino como fecho das nervuras, merece destaque retábulo em talha branca e dourada, de estilo nacional. Sobre o sacrário, uma imagem de Cristo crucificado, indo-portuguesa, em marfim, com cruz revestida a tartaruga. O púlpito, em mármore, é de forma quadrada, com colunas compósitas formando as guardas. Na sacristia, o tecto está decorado com ornatos a azul e a vermelho, datados de 1690, e um silhar de azulejos seiscentistas. Na capela-mor, encontra-se uma tela de Fuschini, pintor da Ajuda, alusiva à Assunção da Virgem. Esta pintura substitui o retábulo maneirista que se perdeu durante as Invasões Francesas.
Para além da estrutura e decoração quinhentistas, a igreja conserva um valioso património azulejar seiscentista, executado em 1617, 1620, 1635 e 1639 em enxaquetado azul e branco e em composições de tapete azul e amarelo. O epíteto de «catedral do azulejo» justifica-se bem pelos 1200 metros quadrados de área coberta por azulejos, correspondentes ao espantoso número de 65 mil placas cerâmicas. É na parte superior das paredes da nave que é empregue o maior padrão azulejar – 12 x 12 metros, conhecido pelo nome de padrão rico de Marvila.
A igreja conta ainda com imaginária diversa, entre as quais se destacam quadros de devoção mariana, duas pias de água benta, lajes tumulares com inscrições e ainda mobiliário e paramentos vários. Em termos tumulares, uma palavra para a diversidade de estratos sociais aqui sepultados, que vão de elementos de cavaleiros a licenciados, a homens do e até a uma escrava negra.
No fundo, um dos principais monumentos da cidade, do concelho e do país, no qual Jorge Custódio, no tamanho, nos assentos corridos, no tipo de colunas e seus capitéis, encontra algumas semelhanças com a sinagoga de Amsterdão.
A igreja do Hospital de Jesus Cristo, ou de Nossa Senhora de Jesus do convento do Sítio, encontra-se no largo Cândido dos Reis. É monumento nacional desde 8 de Fevereiro de 1923. Pertenceu inicialmente à ordem franciscana e foi construído no local onde, anteriormente, existira a ermida de Santa Maria Madalena e o paço dos arcebispos de Lisboa.
O arcebispo D. Miguel de Castro doou os paços entre 1582 e 1605 à ordem Terceira de S. Francisco, que anteriormente estava instalada em Vale de Mourol. A construção terá decorrido entre 1615 e cerca de 1730. Pelo meio, um conjunto de obras aos solavancos – primeiro a área conventual, depois a capela-mor e o transepto da igreja e só nos anos 30 do século XVIII o corpo da igreja e o coro. Apesar de prolongado no tempo, o traço primitivo do arquitecto responsável foi respeitado. Depois da extinção das ordens religiosas, em 1834, instalou-se aqui o hospício João Afonso, razão pela qual passou a ser conhecida pelo nome de igreja do Hospital.
É um dos melhores exemplos da arquitectura portuguesa chã, inspirada no figurino maneirista filipino. Fachada maneirista, de modelo semelhante à igreja de S. Vicente de Fora, está dividida em três registos, que se desenvolvem de forma simétrica, e tem duas torres laterais inscritas. No plano central, o pórtico, que revela a simbologia dos franciscanos. Em alguns pormenores desta frontaria, o barroco já se vai fazendo anunciar de forma tímida.
Templo de planta em cruz latina, com uma única nave, transepto e capela-mor rectangular, tão pronunciada como a própria nave. Todo o edifício é coberto de abóbada de berço. No cruzeiro do transepto, curto, assenta uma cúpula. De cada lado da nave, quatro capelas que c
om
unicam entre si. O coro evidencia-se pela pintura do tecto, de 1723, que teve como autor António Simões Ribeiro, discípulo de Baccarelli.
Destaque-se ainda o imponente retábulo da capela-mor. Lavrado em pedra, pertenceu à antiga capela de D. Gil Eanes da Costa. Ao centro, a tela de S. Nicolau de Tolentino, pintada por Diogo Teixeira. Num altar lateral, quatro tábuas maneiristas dos finais do século XVI, vindas do convento de Santa Clara, representando A Apresentação da Virgem Maria no Templo, a Visitação, a Adoração dos Pastores e Cristo Deposto da Cruz.
O edifício conventual, com o seu claustro contemporâneo, foi ampliado em meados do século XIX para albergar o hospital de Jesus Cristo. Anexa à igreja, a capela barroca da ordem Terceira de S. Francisco, totalmente revestida de talha dourada. São catorze as telas alusivas aos irmãos terceiros. Cenas relativas aos franciscanos podem ainda ser vistas no silhar de azulejos azuis e brancos fabricado pelo ceramista Manuel de Oliveira.
A igreja de S. Nicolau, situada no largo Ramiro Nobre, freguesia de S. Nicolau, é monumento nacional desde 7 de Janeiro de 1947. Para além do próprio edifício, há no seu interior outros elementos classificados: os túmulos de Fernão Rodrigues Redondo e de João Afonso são monumentos nacionais desde 16 de Junho de 1910, assim classificados como forma de impedir a sua transferência para Lisboa; o oratório na fachada testeira é valor concelhio desde 12 de Setembro de 1978.
Terá existido um primeiro templo, pré-gótico, e depois um gótico. Sabe-se da sua existência pelo menos a partir de 1261, data em que pregadores e menores dos conventos de Santarém já o visitavam. Destruído parcialmente por um incêndio no ano de 1600, a reconstrução, iniciada em 1613, foi feita sob a direcção de Baltazar Álvares e radicou na transformação do anterior edifício. Foi neste século que se construiu o oratório colocado na fachada nascente – uma caixa envidraçada, sobrepujando uma janela gradeada assente sobre mísulas.
Igreja de planta longitudinal, cuja fachada principal é de cinco panos, separados por pilastras. No pano central, rasga-se uma porta encimada por frontão quebrado, no qual se inseriu um nicho para ali ser colocada a imagem de S. Nicolau, e por um óculo medieval. Um frontão barroco remata a fachada. A torre sineira é encimada por pináculos.
O interior é composto por três naves de cinco tramos, separadas por quatro arcos de volta perfeita sobre colunas toscanas. Cobertura de tecto em madeira de caixotão de três panos. Cabeceira com capela-mor abobadada. De cada lado, foram abertas oito capelas , posteriores à fase maneirista do templo. A pintura de brutescos nas colunas e a decoração de azulejos dos lambris, de padrão pouco vulgar em Santarém, pertence à campanha maneirista das obras, enquanto que o revestimento das paredes de estuque marmoreado e pintado, também pouco comum, pertence aos trabalhos do século XIX.
Na primeira capela lateral do lado sul, está sepultado João Afonso de Santarém, uma das mais importantes figuras do século XVI. Foi conselheiro de D. João I e fundador do Hospital de Jesus Cristo, que dotou com uma importante verba da sua herança. Também por testamento, instituiu uma capela para igreja para ali ser sepultado. Um túmulo manuelino, posterior portanto à morte dos tumulados. Está classificado como monumento nacional.
É constituído por arca rectangular com tampa piramidal e face decorada. Na face da arca, ao centro, o escudo é ladeado por cartelas e tem caracteres góticos inscritos. Imediatamente acima do arco, desenvolve-se um Calvário de excelente qualidade artística – Cristo crucificado, ladeado pela Virgem Maria e por S. João. O conjunto escultórico é ladeado por botaréus, delimitados por colunelos torsos. Tanto o túmulo como as imagens revelam uma policromia acentuada. Aliás, neste túmulo alia-se um requinte técnico notável a uma grande diversidade cromática.
Anexa a esta igreja, está a capela de S. Pedro, que em tempos foi ermida independente. Aqui estão sepultados Fernão Rodrigues Redondo e Marinha Afonso. Natural do norte do país, Fernão Redondo foi meirinho-mor na corte de D. Dinis. Possuía paço em Santarém, onde morreu cerca de 1324. O seu túmulo é constituído por arca rectangular armoriada, datada da primeira metade do século XIV, tampa com estátua jacente e seis leões de suporte. O homenageado encosta a cabeça numa almofada e surge vestido com trajes de corte – uma longa túnica e manto e sapatos com esporas. Nas mãos, a espada. Aos pés, dois cães com a cabeça partida.
O oratório, como se disse antes, tem uma classificação independente. Trata-se de um nicho aberto na parede de uma ampliação da igreja. É uma construção barroca do século XVIII, em cuja parte de cima se encontra um cruzeiro manuelino que terá vindo de outro local. Está decorado com volutas, florões, dois pináculos e fogaréus. Toda a estrutura assenta em duas mísulas.
Em Salvador, na praça do marquês de Sá da Bandeira, temos um outro monumento nacional, a igreja do Seminário de Santarém, ou igreja de Nossa Senhora da Conceição do Colégio dos Jesuítas. Classificado como monumento nacional a 14 de Março de 1917, ergue-se no mesmo local onde antes existiram os antigos paços reais de Santarém. Tudo começou em 1609, quando D. Duarte da Costa, armeiro-mor do reino e padre jesuíta do Colégio de Santo Antão, em Lisboa, se ofereceu para financiar o novo colégio dos Jesuítas em Santarém. O início da construção teria lugar cerca de 1620 sob projecto de Mateus do Couto (tio), arquitecto que aparece ligado a outras obras da cidade. Entretanto, os jesuítas tinham-se instalado sucessivamente na ermida de Santo Antão e na de S. Sebastião. A doação dos velhos paços reais para a fundação do colégio data de 14 de Julho de 1647, enquanto que a instalação dos jesuítas no local ocorreu quatro anos depois, em 6 de Março de 1651.
O projecto de Mateus do Couto viria a ser alterado em 1673, de forma a que o edifício se assemelhasse ao colégio jesuítico de Coimbra, menos austero. A construção da igreja, por sua vez, só terminou em 1711, embora as obras no interior tenham continuado depois daquela data. Em 1759, com a expulsão dos jesuítas do reino, o colégio deixou de ter a serventia inicial e passou a ser, a partir de 1780, a igreja do Seminário Patriarcal, instituição que conheceu o seu período áureo até 1834. Em 1975, o templo foi elevado à categoria de Sé Catedral e Paço Episcopal da diocese de Santarém.
Este edifício integra-se, pela originalidade das suas linhas, no chamado estilo «chão», que dominou a arquitectura portuguesa no século XVII. A sua fachada maneirista é imponente. Assume um aspecto claramente cenográfico, do qual resulta um prospecto sóbrio mas ao mesmo tempo elaborado, tradicionalista mas ao mesmo tempo arrojado. O corpo principal é ladeado por dois corpos simétricos, que formam o conjunto do Seminário.
Com uma largura de mais de vinte e sete metros, a frontaria é composta por quatro andares de cinco corpos segmentados verticalmente por pilastras. Dos três portais que se rasgam no corpo inferior, o central, o maior de todos, é de colunas e empena rusticadas. Acima do andar térreo, abrem-se nos corpos extremos dois nichos com as imagens de Santo Inácio de Loyola e S. Francisco Xavier. No terceiro andar, mais duas imagens, desta vez as de S. Francisco de Borja e S. Luís Gonzaga.
O interior tem um certo sabor a barroco que, de certo modo, contrasta com o da fachada. Onde esse sabor mais se acentua é na qualidade do equipamento ornamental dos altares, com os seus retábulos em mármore ou talha dourada; nas suas colunas torcidas; na pintura cenográfica do tecto do corpo da igreja e nas esculturas sacras de grande qualidade.
É um templo de planta longitudinal, com nave e capela-mor justapostas. Nave única, muito ampla, com mais de quarenta metros de comprimento e quatro capelas de cada lado, O tecto pe

rspectivado que já se referiu, em falsa abóbada de madeira pintada, foi obra de pintores escalabitanos. A capela-mor é abobadada de tijolo com embutidos de florões lisos nas paredes, enquanto que o seu tecto apresenta uma pintura da autoria de Luís Gonçalves de Sena representando Nossa Senhora da Glória. O retábulo-mor foi executado por entalhadores lisboetas a partir de um projecto de Carlos Garvo.
De entre as várias capelas laterais, uma merece destaque, a de Nossa Senhora da Boa Morte. Obra do arquitecto António de Pádua, da escola de Mafra, é em grande parte construída em mármore de Carrara rosado e preto. Atrás, um retábulo também de mármore apresenta as pinturas de Nossa Senhora na cidade de Jerusalém e a sua Assunção ao Céu.
A nível da pintura, merece destaque um impressionante conjunto de pinturas da primeira metade do século XVIII. Os temas abarcados vão da Imaculada Conceição entre a glória dos anjos a alegorias diversas, cenas bíblicas do Antigo Testamento ou à representação iconográfica de quatro pilares dos Jesuítas. No dizer de Vítor Serrão e Jorge Custódio, «estas pinturas colocam-nos perante um testemunho impressionante da pintura de perspectivas arquitectónicas fingidas do barroco português do século XVII».
Quanto ao edifício do Seminário, dispunha no século XIX de cerca de duzentos quartos, um amplo refeitório, livraria e outras dependências. O seu espólio de pintura (destaque para «Pentecostes», de Diogo Teixeira), escultura, azulejaria e documentação é extremamente valioso.
Incorporados no edifício do Seminário estão os vestígios dos paços medievais, junto à desaparecida muralha e porta de Leiria do castelo. Foram classificados como imóvel de interesse público na mesma data da igreja do Seminário. Subsistem restos dos paços de três épocas diferentes: do período medieval (segunda metade do século XIII), vestígios das portas do Castelo, da Traição e do Paço, a torre dos Presos a antiga carpintaria e celeiro; do período anterior ao século XVII, algumas áreas interiores térreas, vestígios do antigo claustro, do pátio interior com cisterna e de outros elementos arquitectónicos reaproveitados; do período seiscentista, o mui decorado corredor nobre, de onde se rasgaram os quartos de aposentadoria, a escadaria monumental de acesso a essa ala, o refeitório azulejado e os vestígios da antiga cozinha.
«Hoje, o viajante contenta-se com vistas de conjunto, não sente vocação para particularizações. Porém, vai ficar sem tempo na igreja do Seminário Patriarcal, onde entrou por uma porta lateral furtiva, sem que ninguém desse fé. Esta igreja reúne exemplarmente todos os elementos do gosto jesuíta: teatralidade, luxo decorativo, riqueza de materiais, aparato cenográfico. Aqui a religião é uma ópera ao divino, lugar para o sermão de grande instrumental, aula prática de seminário. O viajante olha o magnífico tecto, pintado a fresco e de imponentes dimensões, como se o céu tivesse coberto de arquitectura fingidas e festões de flores, para receber a visita da Imaculada Conceição e da corte dos anjos. O efeito é magnífico, os pintores jesuítas sabiam o que queriam e sabiam executá-los bem. Talhas, mármores alvíssimos de Carrara, mármores embutidos revestem as capelas de cima a baixo.»
A igreja da Misericórdia, na rua 1.º de Dezembro, freguesia de S. Nicolau, é monumento nacional desde 1922. O projecto da sua construção data de 1559 e foi seu autor Miguel de Arruda, arquitecto que por essa época devia estar a terminar o seu trabalho no mosteiro da Batalha. As obras arrastaram-se com lentidão e prolongaram-se por muito tempo. Cinquenta anos depois, ainda a fachada estava a ser concluída.
A Santa Casa da Misericórdia de Santarém fora instituída por alvará de 1503 e por iniciativa de frei Martinho de Santarém. Recebeu os mesmos privilégios da Misericórdia de Lisboa e teve como primeira sede o próprio hospital de Jesus Cristo, que até aí administrava todas as instituições hospitalares da vila.
Quanto ao seu templo, construído no ambiente da Contra-Reforma, é uma igreja em estilo renascentista tardio, no dealbar do maneirismo santareno. Conjuga de forma perfeita elementos clássicos com elementos medievais. Estão entre os primeiros as colunas toscanas e os barretes acima dos capitéis e entre os segundos as nervuras das abóbadas e os bocetes de fecho.
É um templo com planta tipo igreja-salão, cuja fachada exibe uma aparatosa decoração barroca. Já não é a frontaria de origem, visto que a anterior foi destruída pelo terramoto de 1755. Seccionada horizontal e verticalmente, tem no centro o pórtico principal, em cujo lintel aparece o primeiro símbolo heráldico da Santa Casa de Santarém. No piso de cima, três janelões de estilo pombalino.
No interior, três naves de quatro tramos à mesma altura e com presbitério sobrelevado em relação à nave. A cobertura das naves, de abóbadas de nervuras cruzadas, é sustentada por dez colunas toscanas decoradas com ornatos brutescos, que emprestam monumentalidade a todo o conjunto. Na capela-mor, o retábulo, oitocentista, integra uma pintura maneirista de Simão Rodrigues, anterior em dois séculos, representando a Nossa Senhora da Piedade. Na Sala do Consistório, destaque para um silhar de azulejos neoclássicos cuja policromia se limita ao verde azeitona, ao roxo manganés e ao azul. Aqui está sepultado Nuno Velho Pereira, figura dos Descobrimentos portugueses e benemérito da Misericórdia.
A sacristia merece destaque por várias razões: pela talha dourada que apresenta; pelos baixos-relevos em madeira que representam a Anunciação e a Adoração dos Pastores; pelo lavabo «rocaille» e pela pintura do tecto abobadado, em brutescos, de Luís Gonçalves Sena.
Quanto ao edifício da Misericórdia, tem várias dependências importantes, das quais se salienta o Arquivo, um dos mais importantes do país, e o Definitório. Nesta sala, reservada à reunião dos Irmãos da instituição, pode ver-se uma janela de sacada em ângulo tardo-renascentista, um cadeiral que pertenceu ao conselheiro Figueiredo Leal, os retratos dos provedores da Misericórdia desde 1860 e, nas paredes, um lambril de azulejos setecentistas com temas alusivos às obras da Santa Casa.
O pelourinho de Alcanede é monumento nacional desde 1910. Foi construído segundo os cânones românticos e revivalistas. Nele se reúne uma série de elementos, que vai desde a evocação do rei D. Afonso Henriques, que conquistou a vila aos mouros, passando pelas bolas, cordas e motivos vegetalistas, típicos do manuelino. Com um soco de três degraus e um fuste prismático, localiza-se no centro histórico de Alcanede. Evoca o passado municipal da freguesia, da mesma forma que o antigo edifício da câmara, que ostenta na frontaria um brasão em relevo.
A capela de Nossa Senhora do Monte, ou capela de Santa Maria do Monte, encontra-se na freguesia de Salvador. É monumento nacional desde 14 de Março de 1917. Desde 1191, pertenceu à colegiada de Santa Maria de Alcáçova, tendo ficado em meados do século XIII na jurisdição do hospital dos leprosos. A partir do século XVII, tanto a ermida como o hospital passaram a ser administrados pela Santa Casa da Misericórdia, depois da integração do hospital de S. Lázaro no hospital de Jesus Cristo.
Inicialmente gótica, a sua traça foi sendo modificada. No século XIII, terá sido ampliado, o que resultou na alteração do arco triunfal e da abóbada da capela-mor. Da época manuelina é o nicho de recorte mudéjar com imagens da Virgem e, ao que parece, uma porta lateral. Em meados do século XVI, construiu-se o alpendre que ocupa duas fachadas da capela e o portal sul e os assentos do coro, de gosto maneirista. Ocorreu neste século, também, a sepultura de Duarte Sodré, vedor de D. Manuel I, no pavimento do templo.
A sua arquitectura revela uma presença simultânea do gótico ducentista e do estilo renascentista, o segundo dos quais se destaca visualmente. Templo de pla

nta longitudinal, composto por nave única, capela-mor rectangular e cabeceira abobadada em dois tramos. Exterior com alpendre, composto por vinte e uma colunas e meia colunas, com capitéis jónicos, cuja decoração é claramente influenciada por João de Castilho.
Merece referência, no seu interior, para além dos elementos já referidos, o coro, de 1555; o púlpito, de 1623; uma tábua maneirista da Anunciação, atribuída a Ambrósio Dias; e duas esculturas em madeira seiscentistas, representando A Virgem e o Menino e Nossa Senhora da Piedade. Um lambril de azulejos do século XVII revestem o pavimento interior.
O velho pelourinho quinhentista, ou o que resta dele, está hoje conservado no Museu Municipal. É imóvel de interesse público desde 11 de Outubro de 1933. Foi lavrado e erguido na antiga praça do Município, actual praça Visconde da Serra do Pilar, depois da atribuição do foral manuelino. Encontrava-se à direita dos paços do concelho.
Do monumento original, resta apenas a sua terminação, um pináculo em forma de pinha sextavada, encimado por uma esfera armilar em ferro. Apesar da temática manuelina, alguns autores apontam a sua construção para o século XVIII. Quando foi retirado do local, em 1834, ficou praticamente destruído.
A igreja de Santa Iria, no largo do mesmo nome, é imóvel de interesse público desde 12 de Setembro de 1978. O templo primitivo era muito pequeno e foi sendo progressivamente destruído pelas inundações do rio Tejo, até chegar ao ponto de ser substituído, no século XII, por uma nova igreja. Esta viria a ser totalmente reconstruída no século XVI e a receber obras que a alteraram profundamente nos séculos seguintes. Da antiga construção, resta apenas a abóbada gótica de nervuras de uma capela do lado esquerdo.
A fachada, caracterizada por uma grande simplicidade, é de finais do século XVIII. O pórtico, no centro, é sobrepujado por um duplo frontão partido com uma imagem em pedra de Santa Iria. Ostenta a data de 1688, ano de uma campanha tardo-maneirista. Acima, três janelas rectangulares. Do lado esquerdo, um torreão cilíndrico quinhentista e uma torre sineira quadrangular do século XVIII.
É um templo de planta longitudinal, composta pelo corpo de três naves de quatro tramos, formados por quatro pares de colunas toscanas. Na cabeceira, a capela-mor apresenta dois bustos de estuque. Ressalta ainda o altar em talha dourada, que abriga o Cristo de braço caído de Mont’iráz, e os muros laterais em estuques relevados. As naves laterais têm diversas capelas, num total de cinco, e são cobertas por madeira. Os tectos das naves são de caixotões em madeira, sendo que o da nave central é abaulado. O interior dos muros é revestido por azulejos.
Para além do altar-mor, a igreja tem dois altares colaterais e quatro laterais. O transepto é cupulado e a cúpula pintada em trompe l’oeil, mostrando restos do anterior zimbório. No pavimento, cerca de oitenta lápides. Por todo o corpo da igreja, um revestimento de azulejos azuis e amarelos seiscentistas.
A igreja de Nossa Senhora da Piedade está classificada como imóvel de interesse público desde 11 de Agosto de 1934. Foi entregue a frei Manuel da Conceição, em 1668, para que aí se instalasse a ordem dos agostinhos descalços, que estava instalada em Portugal há cinco anos. Nesse mesmo ano de 1663, ocorrem os «sinais milagrosos» que vão conduzir à aceitação generalizada do milagre da Senhora da Piedade. Para os seus habitantes, fora a Virgem a responsável pela vitória, no Ameixial, contra os espanhóis. O cabido de Lisboa, em finais de 1663, proclamou o milagre.
O local onde se encontrava a padroeira foi o escolhido por D. Afonso VI para a construção do novo templo. Iniciadas em 1665, as obras viriam a ser concluídas cerca de 1690 e o edifício entregue à ordem em 1695.
A planta da igreja é em cruz grega. Um templo de sólida construção, cuja cúpula octogonal, rematada por placas em bronze e terminada em 1721, está assente em silharia de pedra modelada no topo. Sobre a porta principal, o escudo real. Acima, uma janela pombalina para iluminação do interior. Sobre as portas laterais, inscrições em latim.
No interior, a capela-mor é coberta por abóbada de caixotões e destaca-se pelo retábulo, que apresenta uma tela joanina de Nossa Senhora da Boa Viagem. Nos outros braços do templo, duas capelas colaterais dedicadas a Santa Mónica e a Santa Rita. Sob a porta de entrada, o coro. O mármore de excelente qualidade aplicado na sacristia, maneirista, é responsável pelos efeitos cromáticos que aquela ostenta.
O palácio de Eugénio Silva, ou dos Meneses, ou dos provedores das Lezírias, situado no antigo largo do Espírito Santo, é imóvel de interesse público desde 6 de Novembro de 1951. Funciona actualmente como Câmara Municipal de Santarém, que comprou o edifício, em 1954, aos herdeiros do industrial Eugénio de Carvalho e Silva.
Terá sido D. Pedro Telles de Meneses, provedor das lezírias, irmão do conde de Unhão, D. António Telles de Meneses, vice-rei da Índia em 1665, o promotor da sua construção. Depois de ter servido como habitação particular, o palácio foi sede do Estado-Maior de D. Miguel, durante as guerras civis dos anos 30 do século XIX, e depois quartel-general de D. Pedro. Foi ainda sede do Gabinete de Regularização e Obras Hidráulicas do Tejo. Em meados do século XX, o industrial Eugénio Silva adquiriu o palácio, que viria a ser comprado em 1954 pela Câmara Municipal. Dois anos depois, eram aqui instalados os Paços do Concelho.
É um edifício de inspiração maneirista, de planta em U, com dois corpos laterais rectangulares e um central. Muito sóbrio e elegante. Os pináculos que coroam os cunhais da fachada principal são claramente barrocos, bem como a relação que se estabelece entre a casa e o jardim envolvente e alguns pormenores azulejares do interior. A meio da fachada norte, encontra-se a porta principal. Acima, a janela central é sobrepujada por um frontão triangular.
No interior, o piso nobre alberga as melhores salas do palácio. As pinturas a fresco, os estuques e os lambris de azulejos merecem destaque. Uma escadaria monumental de dois andares, onde se podem ver azulejos tromp l’oeil, dá acesso ao piso inferior.
Numa casa da praça Sá da Bandeira, antigo Terreiro do Paço, merece referência uma janela manuelina, classificada como imóvel de interesse público desde 14 de Março de 1917 e integrada numa zona de protecção especial. Colocada no segundo piso de um edifício com dois andares, o primeiro dos quais é ocupado por uma loja comercial, a janela data dos inícios do século XV e, tal como é habitual naquele estilo, o lavor é delicado e requintado. É uma janela quadrangular, de cantaria de calcário, dividida ao meio por uma coluna de capitel mudéjar. O capitel é sobrepujado pela representação de uma vieira. De cada lado da janela, as ombreiras são formadas por colunas com capitéis e por pilastras. Terá sido um genovês a construí-la, segundo Rafael Moreira – pelo menos, o estilo é de importação daquela cidade do norte de Itália. Segundo a lenda, sem qualquer fundamento histórico, o rei D.Pedro I teria assistido desta janela à execução dos assassinos de Leonor de Castro.
Na rua de João Afonso, no número 58, encontra-se, num solar de meados do século XVI, uma varanda quinhentista, classificada como imóvel de interesse público desde 14 de Março de 1917. É uma rua onde ainda hoje se podem ver alguns bons exemplares de arquitectura solarenga. Quanto à varanda, de cantaria lavrada, dois resguardos em ângulo definem as suas faces e, dessa forma, o espaço de um alpendre. Uma das faces, esculpida, está voltada para a rua e a outra para um pátio interior. Nas guardas e no friso da base, decoração de brutescos, caso de enrolamentos de folhagem com animais fantásticos e candelabros. É composta de sete blocos de calcário, esculpidos na face exterior, e revela grande simetria a nível de desenho.
O chafar

iz de Palhais, na Ribeira de Santarém, data da segunda metade do século XVIII. É imóvel de interesse público desde 12 de Setembro de 1978. Situada junto à porta da cerca de Palhais, a sua função era abastecer tanto os viajantes que se dirigiam ao norte pela estrada real ou coimbrã como aqueles que chegavam à vila pelas três estradas rurais existentes. No século XIX, chegou a ser encarado como fonte essencial para o abastecimento de água à cidade.
De estilo barroco tardio, é uma peça de linhas clássicas, apesar da profusa animação «rocaille» do frontão e dos jogos de volutas simétricas que o leiam. É composto por um tanque de água, separado de duas bicas, que brotam de duas carrancas, por uma guarda de ferro forjado, uma das bicas para dar de beber aos animais e a outra às pessoas. Quatro pilastras, duas de cada lado, rodeiam um nicho central com moldura rococó. Na zona superior, um frontão barroco, no qual surge o brasão de Santarém com motivos heráldicos reais.
Junto a este chafariz, subsistem ainda restos da antiga porta e hospital de Palhais, anexo à ermida do mesmo nome, também conhecida por Nossa Senhora de Palhais ou Nossa Senhora da Encarnação de Palhais. Desses vestígios, salientam-se as cantarias da porta, três arcos góticos da estrutura e porta da igreja e um piso com construção dos séculos XVII e XVIII.
A casa e quinta de Nossa Senhora da Saúde é imóvel de interesse público desde 18 de Maio de 1998. Situa-se no Vale de Mourol ou dos Olivais, no local onde, no século XIV, o rei D. Duarte possuía uma quinta, com capela dedicada a Santa Catarina.
Trata-se de um conjunto edificado em que são visíveis ainda as ruínas do antigo convento de Santa Catarina da ordem Terceira de S. Francisco, o primeiro da ordem em Portugal, fundado em 1470, e alguns elementos da igreja do Hospital de S. Lázaro.
A primitiva quinta da Saúde pertenceu aos Coutinhos, família de Santarém, mas situava-se noutro sítio que não o actual. Foi transferida para Val de Mourol, em finais do século XVI, devido a uma epidemia. Quando o convento franciscano foi transferido para o lugar do Sítio, a área monacal continuou a funcionar como um colégio ligado às Artes.
A actual quinta apalaçada é o resultado de uma evolução de séculos, desde que os franciscanos aqui construíram o seu convento de Santa Catarina. Apesar disso, a sua feição actual remete para uma certa recuperação das tradições dos antigos palácios barrocos setecentistas. Passou para as mãos de particulares depois da extinção das ordens religiosas. A parte da quinta, construída em redor do espaço conventual, data dos inícios do século XX. Do antigo convento, resta o claustro de dois pisos, composto por quatro alas de cinco arcos sobre colunas dóricas, a igreja da Senhora da Saúde, a fonte das águas radioactivas e a fonte da cerca azulejada, de 1751, onde se pode ver a Senhora da Piedade rodeada por S. Marçal e por Santo António.
Quanto à igreja, de fachada rectilínea, é de uma nave única, coberta por tecto estucado de três planos e revestida por silhar de azulejos. Tem capela-mor abobadada e quatro capelas revestidas por azulejos seiscentistas e setecentistas e com pinturas a óleo, imaginária dos séculos XVI a XVIII e várias sepulturas com epígrafe dos séculos XV e XVI. Numa daquelas capelas, dedicadas a Nossa Senhora da Saúde, pode ver-se um retábulo em madeira de fundo branco com elementos marmoreados e dourados. O portal, de arquivoltas com arco quebrado, é do século XIV e abre-se em dois colunelos colocados em arcaturas, cuja moldura é composta por rosas e folhagens. Acima, uma janela mainelada.
O antigo hospital de Santa Iria, na freguesia de Santa Iria da Ribeira de Santarém, é valor concelhio desde 12 de Setembro de 1978. O actual edifício, que se encontra na rua João Augusto César de Oliveira, data da segunda metade do século XVIII. Actualmente, pertence ao Centro Social Interparoquial de Santarém João Arruda. Não se conhece muita da sua história, mas o seu passado deve estar ligado ao período de maior autonomia administrativa da freguesia, depois da restauração da independência portuguesa.
É um edifício solarengo sobradado, composto por dois pisos. Fachada principal rasgada por portal de volta perfeita, decorada com uma concha na zona do seu fecho. Acima do frontão, uma janela de moldura recortada que parece evocar Santa Iria. Nas fachadas laterais, há três janelas em cada um dos dois pisos do edifício. Alguns elementos, como as cantarias das portas e das janelas, denotam claramente influências pombalinas. Na ligação dos vãos entre os pavimentos, existe uma decoração a caminho do barroco que empresta ao edifício uma grande noção de movimento. Sob a porta principal, ornatos barrocos.
Na travessa dos Surradores, encontra-se no edifício do número 26 uma varanda quinhentista, classificada como valor concelhio desde 29 de Setembro de 1977. É uma grande varanda com alpendre, nas traseiras do imóvel, de clara influência mudéjar tardia. Abre para o exterior através de cinco arcos abatidos em pedra, assentes em seis colunelos de secção redonda com capitéis de feição islamizante. As superfícies entre os vãos das portas interiores e das arcadas, o intradorso dos arcos e o parapeito estão cobertas por azulejos azuis e brancos.
O conjunto edificado do solar dos Sousa Coutinho, também conhecido como palácio Landal, é imóvel de valor concelhio desde 11 de Outubro de 1979. Trata-se de um edifício de grandes dimensões que se desenvolve ao longo de várias artérias da freguesia. Construído no século XVI, sofreu transformações importantes em inícios de setecentos – uma verdadeira reconstrução – a nível da fachada e do interior. Aqui nasceu Frei Luís de Sousa, um dos grandes nomes da literatura portuguesa e imortalizado na obra de Almeida Garrett. Em meados do século XIX, foi adquirido pelo 1.º Visconde de Landal. Depois de passar por várias mãos, a Câmara Municipal de Santarém adquiriu-o em1980, adaptando-o anos mais tarde para a instalação de serviços administrativos. Parte do quarteirão que é ocupado por este palácio, e que inclui a rua de Serpa Pinto, a travessa do Montalto e a rua Capelo e Ivens, encontra-se já na vizinha freguesia de S. Nicolau.
Com capela privativa, a entrada do solar abre para um pátio interior calcetado, para onde convergem as restantes entradas. Uma escadaria dá acesso ao primeiro e ao segundo piso, sendo que neste último se encontram as habitações e o torreão. Até 1970, teve dois tectos seiscentistas pintados, que representavam a vida de Sansão e cenas humorísticas da «comedia dell’arte». Viriam a ser comprados por um particular e transportados para outro local, embora, mais recentemente, um deles tenha voltado a ser adquirido pelo município.
A igreja e convento das Capuchas da Senhora dos Inocentes, ou Recolhimento das Capuchas Terceiras, encontra-se na freguesia de Marvila. É valor concelhio desde 6 de Março de 1996. Situado no largo de Pedro António Monteiro, foi fundado em finais do século XVII, para acolher as religiosas daquela ordem, que tinham sido autorizadas a instalar-se, por D. Maria Sofia de Sabóia, mulher de D. Pedro II, em 1678.
Até 1732, a intenção vai ser a construção de um convento ligado à primeira regra de Santa Clara, mas as suas intenções vão sair goradas. Em 1753, inicia-se um conjunto de obras, que vai transformar o recolhimento numa casa conventual. Estas obras vão ser responsáveis por uma certa feição barroca e «rocaille» do monumento, que terá o seu expoente máximo no lavabo de pedra datado.
Parte do convento foi demolido em 1835, depois da extinção das ordens religiosas. Quanto ao recolhimento, é encerrado em 1910 e os seus bens vendidos em hasta pública. Actualmente, pouco resta da construção inicial, devido aos factores referidos e também às alterações que sofreu ao longo dos séculos.
É uma igreja que mais parece uma ermida. De arquitectura maneirista e rococó,
de pequenas dimensões, tem uma só nave, iluminada por três janelas, e tecto em madeira. O coro-alto comunica simultaneamente com a igreja e com o espaço conventual através de uma grade de ferro. A sacristia está adossada à cabeceira, seguida da portaria e dos anexos. O altar-mor e os altares laterais estão integrados em triplo arco de volta perfeita. A meio da nave, o púlpito maneirista em pedra. Na nave, um lambril de azulejos enxaquetados. A cabeceira tem três capelas profundas em talha. Sobre o arco da capela-mor, encontra-se uma pintura mural alusiva aos símbolos da ordem Terceira. Do recheio que conserva, uma palavra para uma tela de O Menino Jesus Salvador do Mundo, pintada certamente por um artista castelhano nos inícios do século XVII.
A parede oposta à cabeceira faz a ligação entre a igreja e o convento, de planta rectangular. Em redor do claustro, encontram-se as dependências conventuais, como por exemplo as minúsculas celas das reclusas ou o refeitório, quase intacto, com púlpito e umas alminhas em azulejos de 1756. «Estar ali é entrar, de facto, num retiro espiritual dos mais impressionantes e característicos. Respira-se neste recinto tranquilidade, suavidade e, olhando o céu azul, parece-nos estar mais próximo de Deus. Talvez fosse esta característica espiritual que conferia um certo valor ao recolhimento, cujo claustro seiscentista, rodeado de dependências em dois pisos, era obra singela, com o seu bocal de cisterna e ferros forjados, no meio de um jardim.» (Zeferino Sarmento)

Património contemporâneo

Se grande parte do património que descrevemos até ao momento é de religioso, a época contemporânea vai assistir ao lançamento de grandes obras públicas e infra-estruturas urbanas. A palavra de ordem agora é a utilidade e a necessidade de responder às carências da cidade aos mais diversos níveis, desde o comércio à higiene ou à cultura.
O mercado municipal de Santarém, construído em 1928, é um interessante edifício de traça tradicional, classificado como imóvel de interesse público em 18 de Maio de 1997. Interligam-se aqui diversos modelos arquitectónicos, desde o revivalismo à «arte do ferro», passando pelo modernismo.
Surgiu da necessidade que se sentia de dotar a cidade de um espaço adequado à sua população e da maior sensibilidade para as questões da higiene pública. Ou como se tentou aliar a harmonia estética à funcionalidade e necessidades específicas. A «beleza» que os gregos privilegiavam nas suas obras, a «utilidade» que os romanos preferiam, aqui reunidas em perfeito equilíbrio.
Entre 1890 e 1920, tinha havido várias tentativas de criar em Santarém um mercado diário coberto, mas todas elas fracassaram. A ideia era substituir o mercado ao ar livre que se realizava na Praça Velha, actual praça do Visconde da Serra do Pilar. Projectado em 1928, viria a ser inaugurado dois anos depois, influenciando a partir daí toda a estrutura urbanística das redondezas.
A beleza do edifício e todo o cuidado posto na construção de um «simples» mercado municipal deveu-se ao arquitecto que o projectou, Cassiano Branco, um dos vultos do modernismo da arquitectura portuguesa. Para além da beleza intrínseca do edifício, a sua instalação naquela zona, aberta e desafogada, veio definir a orientação urbanística do local.
Através da utilização de materiais como a alvenaria e a telha portuguesa, o arquitecto procurou, naquela que foi uma das suas primeiras obras, seguir uma linha mais tradicionalista, pouco condizente com a linguagem modernista que viriam a caracterizar as suas obras no futuro.
O ecletismo da construção foi conseguido graças à introdução de elementos neo-barrocos, patentes nos painéis de azulejos azuis e brancos e policromos, cuja temática ribatejana (a lezíria, a vivência mercantil do Chão da Feira, alguns monumentos locais) nos remete de novo para o tradicionalismo. Um dos núcleos mais activos da produção intensiva de azulejos, e que se reflecte no conjunto que enquadra a porta principal, foi a Fábrica Aleluia, que os produziu em 1930. Já os restantes azulejos são de 1936 e foram feitos na Fábrica de Sacavém. No total, são sessenta e três painéis «em que se procura promover o dinamismo regional e mercantil de uma região que se assumia cada vez mais como polo comercial do Ribatejo» (Jorge Custódio)
A fachada principal possui um corpo central mais elevado e é enquadrada por dois torreões, rasgados no topo por pequenos óculos. Ladeiam esta estrutura dois corpos rectangulares, onde se rasgam amplas portas, encimadas por arcos de volta perfeita. No interior, a espacialidade e arejamento do espaço consegue-se através da aplicação das regras formais e funcionais da arquitectura do ferro – estruturas de ferro forjado, colunas aliadas a pilastras hexagonais, cuidada simetria das bancas dos vendedores.
O Teatro Rosa Damasceno, na rua Conselheiro Figueiredo Leal, é imóvel de interesse público desde 2002. O primeiro edifício foi construído entre 1877 e 1884 sob projecto de José Luís Monteiro, que se inspirou no Teatro Ginásio de Lisboa, e por iniciativa do Club de Santarém, que considerava precisar a cidade de Santarém de um espaço próprio e adequado para a prática teatral. Escolhido o local, foi necessário demolir a igreja de S. Martinho, do século XVIII. A escolha do nome, feita em 1894, foi uma forma de homenagear uma grande actriz, muito famosa em Lisboa na segunda metade do século XIX. Antes da sua existência, o teatro em Santarém representava-se na igreja de S. João de Alporão.
Em 1938, a sala seria totalmente remodelada pelo arquitecto Amílcar Pinto, devido ao surgimento do cinema sonoro. Do edifício anterior, foi aproveitada apenas uma parede mestra com cunhais em cantaria, embebida na fachada posterior, onde também são visíveis três janelas em cantaria, não previstas no segundo projecto. Na inauguração do novo espaço, foi representada a peça «A Recompensa», de Ramada Curto, pela Companhia Rey Colaço, com Amélia Rey Colaço no papel principal.
Amílcar Pinto foi o arquitecto de outros edifícios de Santarém, como por exemplo o Café Central (1939), o Hotel Abidis (1942/1944), uma casa no número 29 da Avenida Gago Coutinho e Sacadura Cabral ou a Casa do Campino.
Uma reconstrução, a do teatro, que teve como «musa inspiradora» o Teatro Éden (Lisboa), de Cassiano Branco, embora no final não lhe tenha ficado atrás. Com os trabalhos concluídos, o edifício adquiriu a feição Art Deco que tem hoje. A geometrização linear da decoração da fachada e a relação entre a verticalidade estrutural das linhas e os módulos de vidro comprovam-no. Os cinco janelões que rasgam a fachada, e que transmitem uma espacialidade ímpar, concretizam aquela solução. O modernismo de toda a concepção arquitectónica está patente na uniformização do interior do edifício com o mobiliário existente, na relação espectáculo-espectador ou na iluminação.
A liberdade criativa do arquitecto foi plena e isso nota-se sob os mais variados prismas, desde as questões ligadas à higiene e à segurança, passando pela linguagem «deco» do pavimento em marmorite do seu chão e atingindo o seu ponto máximo na sala de espectáculos, onde o conforto dos espectadores convive em todos os planos com espaços que são verdadeiras obras-primas, caso do 1.º balcão.
É uma obra claramente enquadrável no modernismo, que segundo Jorge Custódio aceita mesmo um modernismo radical e as tendências neoplásticas. Para além das influências de Cassiano Branco, Amílcar Pinto «bebeu» muitas das influências europeias, sobretudo no «De Stijl» do holandês Mallet-Stevcens
Com uma capacidade para 1400 espectadores, o espaço articula-se em três zonas distintas: a zona de acesso e convívio, em três andares sobrepostos – átrio, foyers e zonas de acesso ao primeiro e segundo balcões – articuladas por escada de vários lanços; o espaço cénico, unificado, constituído por ampla plateia, a que se s

obrepõe o primeiro e o segundo balcão; finalmente, a zona de sanitários e serviços, no corpo adjacente do lado direito. O piso do vestíbulo e foyer é constituído por marmorite de várias cores, formando uma composição geométrica marcada por frisos de latão. No foyer do primeiro balcão, a primeira máquina de projectar do cinema, da autoria da firma americana Ashcraft Meg. Co.. Do recheio, fazem parte mesas, cadeiras, vitrines em ferro pintado, desenhadas pelo arquitecto.
O antigo matadouro municipal é também imóvel de interesse municipal, por deliberação camarária de 1997. É um edifício projectado pelo arquitecto Domingos Parente da Silva na década de 80 do século XIX e inaugurado em 1889. Encontra-se na rua Pedro de Santarém. Uma construção que decorreu no período compreendido entre 1886 e 1889 e que foi integrada no plano de expansão urbana do cerco de S. Lázaro. Teve por modelo os matadouros públicos que no mesmo período se desenvolveram na Europa e nos Estados Unidos da América.
Nos primeiros anos da década de 60 do século XX, o corpo lateral direito foi destruído, em parte, para dar lugar a um conjunto de prédios. Em 1983, o matadouro passou a funcionar na quinta do Mocho, freguesia de Várzea. Actualmente, serve de armazém da Câmara Municipal e de sede dos escuteiros.
É um edifício de traça eclética, simples e sólido. De planta longitudinal, articula um corpo central com dois corpos laterais, sendo estes mais austeros a nível decorativo. Na fachada principal, a heráldica de Santarém. Quanto ao interior, nota-se a influência da arquitectura do ferro, embora esta seja assumida de forma tímida. Com uma área de 2,143 metros quadrados, tem uma planta de três corpos, divididos por pátios interiores. O corpo central é ameado e integra o grande recinto da matança propriamente dita dos animais. Um corredor central abre para o recinto, onde uma série de colunas de ferro fundido sustentam uma cobertura de madeira e fazem a divisão do espaço. Em todo o recinto, um silhar de azulejos azuis e brancos.
Mais uma vez, tal como aconteceu com o mercado, na vizinha freguesia de S. Salvador, aqui se alia a beleza do edifício à funcionalidade e objectivos para que foi construído. «Articulando a arquitectura de engenheiros com aspectos formais mais próprios da composição estilística, a gramática do edifício revela o ecletismo do movimento romântico e revivalista, pretendendo esconder para a via pública o local bárbaro da morte do gado.» (Jorge Custódio)
A penitenciária distrital de Santarém constituiu um pólo de desenvolvimento urbanístico da cidade de Santarém ao longo da segunda metade do século XIX e primeiro quartel do século XX. Imóvel de interesse público desde 19 de Fevereiro de 2002, foi construída a partir de 1870 e durante mais de vinte anos, pelos engenheiros Adolfo Loureiro, Alexandre da Conceição e José Cecílio da Costa, que se basearam nos modelos das penitenciárias de Lisboa e Coimbra. A abolição da pena de morte, em 1867, e as novas ideias que chegavam da Europa, acerca do sistema prisional como local de punição mas também de reabilitação do preso, fizeram-se sentir no projecto de construção. Assim, o ponto essencial de todo o edifício é um corpo central em forma de charola, do qual irradiam várias dependências, incluindo as celas individuais dos presos. Com uma área de mais de quinze mil metros quadrados, organiza-se a partir da forma de cruz. A casa da administração está separada do edifício da prisão propriamente dito e evita que este se veja do exterior. O ferro é utilizado como forma estrutural construtiva. De resto, Jorge Custódio considera-a o mais belo exemplar da arquitectura do ferro da cidade.
«Causa admiração nos nossos tempos a grandeza e a magnitude de um espaço público construído em finais do século XIX, numa altura em que a situação financeira do país esteve frequentemente periclitante e a dívida pública aumentava de orçamento para orçamento. A raridade do projecto, o tipo de obra, a base legislativa de onde partiu, raiz do seu significado cultural, a evidência paisagística registada por artistas e fotógrafos e o insólito da situação (não é habitual surgirem imóveis deste tipo e funcionalidade propostos no âmbito do património cultural) foram fundamentos na criatividade do processo de pedido de classificação.» (Jorge Custódio)
Em pleno centro histórico, o edifício onde antigamente funcionou o Banco de Portugal é imóvel de valor concelhio desde 20 de Outubrpo de 1996. Foi inaugurado em 1890, num momento em que o Banco de Portugal alargava a sua rede de dependências para fora de Lisboa. A partir de finais de oitocentos, saliente-se, o Banco de Portugal passou a exercer funções de banco emissor de moeda, abrindo então uma rede de agências, que veio substituir os bancos locais, afectados por várias crises financeiras.
O actual edifício, no entanto, só veria a sua construção iniciada em 1899 e inaugurada no ano seguinte. O projecto esteve a cargo de Júlio Francisco José de Sousa. Funcionou aí, paredes-meias com o Teatro Rosa Damasceno, até 1978, ano em que fechou. Dez anos depois, o imóvel foi adquirido pela Câmara Municipal. Em meados do século XX, chegara a ser pensado para albergar um posto de polícia, mas o projecto nunca se viria a concretizar.
De planta longitudinal, rectangular, é um edifício térreo, com casa-forte, cuja fachada é rasgada por uma porta, ladeada por duas janelas de dupla verga, enquanto que os corpos laterais são rasgados por quatro janelas rectangulares. Por cima da porta principal, um frontão curvo com a seguinte legenda: «Agência do Banco de Portugal». Interiormente, dois espaços bem delimitados, a área de serviços e a de atendimento ao público. Naquele, a presença do cofre forte abobadado da empresa Jotocar/Fichet assume plano de destaque.
Saliente-se, por fim, a feição maneirista e barroca de todo o edifício. Arquitectura muito eclética, como se comprova pelo alçado exterior, em que se imita as fachadas de habitação burguesas.

Em conclusão

Em conclusão, dir-se-á que o património edificado de Santarém é um inestimável conjunto a descobrir. Mal andou a Unesco, até hoje, a não atribuir a classificação de Património Mundial da Humanidade a tão extraordinária monumentalidade.
A mesma monumentalidade que começou a ser construída no tempo dos nossos antepassados. A mesma monumentalidade a que romanos, muçulmanos e cristãos deram o seu cunho muito particular. A mesma monumentalidade que a nossa Monarquia, primeiro, e depois a nossa República, se esforçaram por ampliar.
No fim de contas, uma monumentalidade que Alberto Pimentel, depois de visitar Santarém para acompanhar a exumação das ossadas de Pedro Álvares Cabral da igreja da Graça, conseguiu sintetizar numa dúzia de linhas bem escritas e independentes de todos os estios e de todas as facções políticas que até há pouco tempo haviam estado em confronto.
Diz o referido autor em «A Estremadura Portuguesa», no capítulo dedicado ao Ribatejo e a Santarém: «Procura a gente ali uma cidade antiga, e encontra uma cidade nova. Procura uma cidade nova e tem a memória cheia de tradições de uma cidade antiga. É que em Santarém há hoje reunidas numa só cidade muitas cidades de diversas épocas: há a cidade mitológica do rei Abidis, a quem deve o seu primeiro nome de Scalabis, «alimento ou manjar de Abidis»; há a cidade romana de Júlio César; Praesidium Julim, um dos três conventos jurídicos da Lusitânia; há a cidade gótica do tempo de Receswindo, época em que se diz ter vindo ao Tejo o corpo de Santa Irene, virgem mártir, donde alguns querem derivar o nome Santarém; há a cidade moirisca, em cujo topo escarpado campeava a alcáçova, que Afonso Henriques assaltou pela porta de Atamarma; há a cidade medieval, com algum raro vestígio da sua antiga fortificação, tal é uma guarita de pedra num dos ângulos da muralha, cidade onde a corte portuguesa f

olgou por várias vezes e onde se desenrolaram grandes dramas, alguns deles fúnebres, como foram o suplício de dois assassinos de Inês de Castro e a morte desastrosa do malogrado filho de D. João II, há, finalmente, a cidade moderna, onde o recinto da alcáçova foi convertido no lindo jardim da Porta do Sol e as ruínas do convento de S. Domingos na actual praça de Touros.»
E há, como já vimos, a cidade contemporânea, com os seus equipamentos económicos e sociais virados para as necessidades das populações, caso do mercado, do matadouro ou da agência do Banco de Portugal.
Tão ou mais importante que este património edificado de Santarém é o património humano existente. Preservado e mantido ao longo dos séculos, é um património imorredoiro que a cada dia rejuvenesce e se desenvolve. Basta que nasça uma criança. Basta que uma mãe conta a lenda de Santarém ao seu filho. Ao seu neto. Basta que lhe cante uma modinha tradicional, daquelas antigas que ajudam ao «espírito do lugar» que se sente em Santarém.

FUTAventar – a selecção e o milagre táctico

Estamos no ambiente que é o nosso, trinta por cento das hipóteses estão nas nossas mãos , trinta por cento nas mãos dos Dinamarqueses e os quarenta restantes nas mãos de Nossa Senhora. É assim que funcionamos melhor, hino cantado com o coração na garganta, olhos “marejados” de lágrimas. Por São Jorge, portugal!

Entretanto, o prof. Queiroz sai com o “milagre” do bolso, a táctica, em losango, nós que temos os três melhores extremos do mundo ( Ronaldo, Nani, Simão e ainda, perto, Quaresma) vamos jogar sem extremos. Os Dinamarquese à espera do nosso ataque pelos flancos e nós sem extremos, futebol directo para a dupla de atacantes, Ronaldo e Simão ou Liedson, já estou a ver os Dinamarquese a levarem um banho de bola mas a ganharem o jogo, tal como aconteceu em Alvalade.

Macaco, o prof. a armar que vai jogar ao ataque enche o meio campo com o Pepe, o Raúl, o Tiago e o Deco, artistas no circular da bola, quem vir até vai dizer, 60% de posse de bola para nós, porra grande azar. Vamos jogar com nove jogadores e meio a defender ( eles dizem a controlar) e dois e meio a atacar, pelo menos um avançado de área a chatear os defesas centrais, são logo dois que já não saem dali, como sempre perceberam os ingleses, mas nós não, nós jogamos a “cair ” nas laterias as tais em que temos os melhores do mundo mas que não jogam.

Os nossos laterais, centram para a área para onde não está ninguem, ou no máximo aparece lá o Ronaldo a quem os Dinamarqueses já avisaram que lhe partem uma perna, então não há meias, em vez de darem espaço ao rapaz, metem-no na toca da fera, grande táctica.

É aqui que entra Nossa Senhora, um golo, os Dinamarqueses querem humilhar como os portugueses fizeram no primeiro jogo, a ganhar , estúpidos, continuam a correr .

E deixem, meio milagre para a próxima quarta feira, com sorte vai ser preciso!

Volto no fim do jogo com mais uma crónica FUTAventar!

ETICA E EDUCAÇÃO (3)

ETICA E EDUCAÇÃO (3)

Considerações sobre Educação

Alguém disse que a educação de uma criança começa cem anos antes de ela nascer. Isto dá-nos a ideia de que a educação não é uma conquista individual mas geracional. Ensino e educação são conceitos diferentes. No ensino organiza-se uma série de actividades didácticas para ajudar os alunos a compreender áreas específicas do conhecimento. A educação procura integrar o ensino e a vida, o conhecimento e a ética, a reflexão e a acção. É já um lugar-comum dizer-se que a educação não deve ser entendida como mera transmissão ou aquisição de meios e conhecimentos para qualquer fim, nem pode ser apenas a corrida para atrelar o homem a uma profissão. A educação deve ter como finalidade, para além da profissionalização, todo um processo de consolidação de valores e capacidades intelectuais e afectivas que permitam a cada indivíduo conquistar a sabedoria para lidar correctamente com as diferentes circunstâncias que a vida lhe vai apresentando. Ninguém pode considerar desnecessária a qualificação profissional, mas esta não pode depender, exclusivamente, da rígida exigência de determinadas habilitações específicas, como acontece hoje em variadíssimos campos, uma espécie de visão unidireccional do entendimento, redutora da estruturação do homem e da grandeza de estar na vida. Só a formação global permite, ao desenvolver todas as capacidades intelectuais, humanas e sociais, dar a mais ampla dimensão à sua competência profissional. Já é, também, um lugar-comum a célebre frase de Abel Salazar: quem só sabe de medicina nem medicina sabe. (Continua)

                     (manel cruz)

(manel cruz)

Processo de canonização, já!

Consta que, impressionados com o que se passa em Portugal, os serviços do Vaticano estão a analisar se houve algum milagre no nosso cantinho nos últimos dias. Se houve, será aberto de imediato o processo de canonização de Manuela Moura Guedes. A ter acontecido, o milagre só pode ter tido essa proveniência, uma vez que o país parou para debater este caso.

Consta que há até um DVD secreto, gravado por um dos elementos de uma qualquer reunião, contendo revelações chocantes. O bastonário de uma ordem já terá sido chamado para ser, eventualmente, o advogado do diabo neste potencial processo.

Vasco Pulido Valente não foi chamado para comentar nada mas vai escrever a introdução do processo canónico. Há quem diga que quando a polémica acalmar, acaba a crise, mas não há especialistas suficientes para confirmar isto. Talvez se Marcelo e Vitorino estiverem disponíveis.

Em reacção, alguém da TVI, fonte anónima, disse apenas: “Pois…”

Contos Proibidos: Memórias de um PS desconhecido

(continuação daqui)

«Corriam rumores entre os exilados de que Mário Soares só não aceitara o convite do director de campanha de Marcello Caetano, Guilherme de Mello e Castro, para integrar as listas da ANP, em 1969, porque pretendia a garantia de um lugar no governo.
O fundador da ASP e primeiro líder do movimento, Mário Soares, reconhece para ele próprio a influência do socialismo humanista e cooperativista de António Sérgio e até o pensamento estalinista do seu antigo professor, Álvaro Cunhal. A verdade é que, contrariamente ao que acontecia pelo resto da Europa, e até na vizinha Espanha com o Partido Socialista Operário fundado por Pablo Iglésias, em Portugal, a Acção Socialista, primeiro, e o Partido Socialista, a partir de 1973, para além dos textos de Mário Soares que iriam sendo «oficializados», nada têm que ver com os grandes movimentos socialistas da classe operária do fim do século dezanove.
A precursora do Partido Socialista não tinha qualquer passado histórico. Nascera na década de 60 um pouco como quem regista uma patente por iniciativa de um grupo de conspiradores de «operações»,a sua maioria ligados à Maçonaria, e de alguns teóricos influenciados pelo PCP, como foi o caso de Salgado Zenha e do próprio Vitorino Magalhães Godinho.
A evolução teórica do movimento, mais de três décadas após a sua constituição, é assim essencialmente caracterizada mais por razões empíricas de conveniência dos seus operacionais do que pelasteses dos seus «ideólogos» ou pelos princípios doutrinários que emanam do socialismo democrático. Esta caracterização, que viria a ficar célebre quando o líder da oposição, Francisco Sá Carneiro, acusou o então primeiro-ministro Mário Soares de «metero socialismo na gaveta» com a finalidade de se manter no poder através de uma coligação com o partido democrata-cristão, CDS, verifica-se frequentemente na prática seguida desde 1964. Seria mesmo
motivo de algum desdém por parte dos sociais-democratas norte-europeus que consideravam verdadeiramente ridícula a constante necessidade de demarcação dos socialistas portugueses em relação à social-democracia, a cuja familia queriam pertencer
embora afirmassem ser socialistas democratas e nãosociais-democratas. Era um maneirismo influenciado por François Mitterrand,que a Internacional Socialista considerava uma expressão de retórica e pura hipocrisia, com o objectivo de parecerem mais progessistas aos olhos do mundo.
Era aliás um sintoma típico do Sul da Europa, que um proeminente político norte-americano, anos mais tarde, comentaria com ironia, em termos semelhantes aos de Sá Carneiro.
Mas não obstante a «subtil» distinção e a demarcação progressista dos seusprincipais dirigentes, a verdade é que a adesão dos socialistas portugueses à Internacional Socialista representa o ponto mais alto do movimento no período que antecedeu o 25
de Abril de 1974. Na história do PS, a suafiliação internacional sobressai destacadamente da manifesta «probreza» do seu passado. O PS, «sobrevivente apagado dos anos 30, que não resistiu,como organização autónoma, à repressão e clandestinidade, que
no final da Segunda Grande Guerra era constituído apenas por um pequenogrupo de abencerragens, sem qualquer influência real no País».

POEMAS DO SER E NÃO SER

O Tempo

O Tempo

caminho da razão

no ventre das horas vazias

o sonho de não serem horas

todas as horas sem tempo.

O tempo

uma sinfonia de sonhos

nascidos entre as asas e os dedos

pintando as cores da razão

por entre sombras e medos.

O tempo

a força do abrigo das mãos

dadas com a haste frágil do trigo

caminho incerto sobre abismos

de gestos e palavras sem regresso.

O tempo

prisão de chegadas e partidas

sem horas de liberdade

um poema crucificado

nos labirintos da verdade.

O tempo

uma guitarra chorando

nos dedos da Primavera

um beijo sempre à espera

entre os lábios do Verão.

O tempo

horas de tudo e de nada

na inquietude da mente 

a liberdade acorrentada

entre as velas e o vento.

O tempo

uma paveia de esperanças

nos braços da ilusão

um poema abandonado

entre o sonho e a razão.

 

                   (adão cruz)

(adão cruz)

Há que saber fazer as queimadas…

Metaforicamente e realmente o país está um braseiro, arde em campo aberto e em circuito fechado. Só faltava o incêndio chegar à TVi.

O Ministro vem dizer que a culpa é do excessivo calor, será, mas não haver uma política para a floresta, limpar os terrenos, ajudar os proprietários tambem não ajuda nada. O senhor Ministro já reparou nesta coisa absolutamente excepcional, que as florestas de pinheiro e eucalipto das indústrias de celulose não ardem ? Ano após ano não ardem. Com calor, sem calor, no pino do verão, sem ministros, não ardem. É que as celuloses têm uma política para as suas florestas,desde o plantar, deixando acessos capazes, limpando a floresta, vigiando, com um grupo profissional e privativo de bombeiros, equipamento moderno, não arde!

Por isso senhor Ministro não pode dizer que é do calor, no inverno tambem não arde e é por causa da chuva, se vossa excelência não serve para fazer nada, entre o calor e a chuva, agradecíamos que vá tirar um curso intensivo às celuloses eles não dizem que não. Mas vir dizer que há incêndios por haver calor e tempo seco, obrigado, já sabíamos.

Lembro-me bem nos idos de 90, a floresta a arder, as casas e os lugares aonde vivem pessoas, pasto das chamas, e o Loureiro, que fazia o papel que vossa excelência faz agora, a gritar que estava tudo controlado, era só fumaça. Já naquela altura ardia, aliás ardeu sempre, embora a bem da verdade se tenha melhorado muito no equipamento aéreo e na programação. Mas chateia-me ouvir dizer que é do calor. Quer vossa excelência dizer que não pode controlar o tempo, mas que controla o resto ? Mas o exemplo das celuloses, mostra que não é verdade, é mesmo falta de jeito, de competência. Não pode queixar-se!

Está a ver o que está a acontecer na TVI ? Outro incêndio não controlado, não se pode deitar lume ao restolho sem os devidos cuidados, tem que se ser perito em contrafogos, não se pode ser suspeito de incendiário e depois andar com fósforos no bolso, dá encrenca. E de quem é a culpa ? Do tempo de eleições , já se sabe, brincar ao controle de empresas, primeiro com a PT a querer comprar uma empresa privada e agora isto.

Está a ver senhor ministro, isto está mesmo a arder e não é só por causa do calor. Mas é por culpa do tempo, isso é verdade. Há que saber escolher o tempo para se lançar as queimadas!

QUADRA DO DIA

Rosas daquelas sem espinhos

Suaves como veludo

Com artimanhas mansinhas

Agarram e levam tudo.

Luiz Pacheco – Um libertino passeia pela vida: Os amigos. Como conheci Pacheco


Eu era assumidamente um amigo de «vintes». As cartas e postais que me mandava, terminavam com frequência assim: «Um abraço (manda vintes!)». Houve um período, na década de setenta, em que fui promovido – passei a mandar «cinquentas» e às vezes «cens». Nos últimos tempos, o Pacheco não precisava já destas ajudas – tinha a reforma, todos os filhos criados e relativamente bem na vida. Tinha colaborações pagas em jornais. E estava mais sereno, menos propenso às loucuras. Só a língua e a prosa continuavam soltas, aceradas e certeiras como setas de zarabatanas. Na minha relação com Pacheco houve três marcos – o Café Gelo, onde nos conhecemos, a revista Pirâmide, de que fui um dos coordenadores e onde eles colaborou activamente e Tomar, onde ele me visitou e onde, com um grupo de amigos, vivemos uma noite épica de copos.
Foi em 1957 ou 1958, quando comecei a frequentar o Café Gelo que o conheci. Ele era na altura funcionário da Inspecção-Geral de Espectáculos, fiscal, segundo julgo saber. È difícil imaginar o Pacheco de fato e gravata, mas naquela altura a função pública implicava manter rígidos padrões de comportamento e de apresentação. Trabalhava no Palácio Foz, ali a dois passos, e aparecia cedo no café. Por ali paravam também, além do Pacheco, o Mário Cesariny de Vasconcelos, o Raul Leal, sobrevivente do «Orpheu» , o Herberto Hélder, o Manuel de Lima, o António José Forte, o Virgílio Martinho, o Ernesto Sampaio, o João Rodrigues, o Manuel de Castro, o Renato Ribeiro, o Pedro Oom e muitos outros, entre os quais eu. O Pacheco aparecia, pouco depois das seis da tarde, estragando o formalismo do vestuário com uns sacos e saquinhos onde transportava as suas edições que se punha imediatamente a vender (ou a oferecer). Maio de 1958 foi uma época escaldante, com o furacão Delgado a incendiar as imaginações daquele grupo de poetas, todos, ou quase todos, antifascistas
piramide
A Pirâmide surgiu nesse clima de entusiasmo e de exaltação política. O Pacheco colaborou no primeiro número, que saiu no começo de 1959, com um texto muito interessante – «Surrealismo e Sátira (de André Tolentino a Nicolau Breton)». No segundo número, que saiu no mesmo ano, dedicou um longo extra-texto a rebater a crítica que se abatera sobre o grupo, após a saída do primeiro numero – «A Pirâmide e a Crítica». No terceiro e último número, não colaborou. Entretanto, em 1962, saí de Lisboa e perdemos um pouco o contacto. Mas através do Forte e do Herberto Hélder, meus colegas na Fundação Gulbenkian, o Pacheco lá me descobriu e reatámos a correspondência. Ele enviava-me as suas edições e eu ia-lhe mandando «vintes» de cada vez que lhe escrevia – uma nota de dólar como ele às vezes também chamava às notas verdes com a imagem do Santo António.
Morava e trabalhava em Tomar. Um fim de tarde, quando cheguei do trabalho, quem estava em minha casa? O Luiz Pacheco. Sobre o tapete da sala, deitado no chão, ele e os meus filhos, na altura com cinco e três anos respectivamente, faziam desenhos com lápis de cores nas páginas de livros novos. Livros que o Luiz Pacheco adquirira com um crédito aberto por Manoel Vinhas numa livraria da baixa lisboeta. Acusado por Eduardo do Prado coelho de não ter ideias, respondera «Pois, só tem ideias quem lê livros». Obtivera assim uma espécie de bolsa para comprar livros. E era nesses livros novos, edições francesas, obras de Sartre, de Malraux, de Breton, de Merleau-Ponty, que os miúdos, incentivados pelo Pacheco desenhavam. «- Que bonito!», dizia ele – «Olha, uma aranha!». Os garotos adoraram-no.
A história desses livros é curiosa: na sua coluna semanal do Diário de Lisboa, Eduardo do Prado Coelho criticara desfavoravelmente o livro de Pacheco «Crítica de Circunstância», elogiando a forma como estava escrito, mas acusando o autor de «não ter ideias». Pacheco retorquiu dizendo que, efectivamente, tendo vendido os seus livros, tinha ficado sem ideias, pois os livros é que nos dão as ideias. Depois, a seta envenenada: dizia que os «Coelhos» eram para ele uma maldição – no liceu fora aluno do António Diogo do Prado Coelho, avô do Eduardo, que o obrigava a recitar a «Balada de Neve». Na Faculdade de Letras tivera como professor Jacinto do Prado Coelho, que só falava nos heterónimos do Pessoa. «Quando pensava que já estava livre dos Coelhos, aparece-me o Eduardinho…». Manoel Vinhas, o seu mecenas, terá achado graça à afirmação de quem não lê, não tem ideias e abriu um crédito de mil escudos (muito dinheiro naquela altura) numa livraria. E ali estava o Pacheco em minha casa com dois enormes sacos de livros que os meus filhos iam enchendo de desenhos – «Ficam muito valorizados», dizia-me o Pacheco, com ar grave, ante o meu olhar desolado ao ver as páginas cobertas de rabiscos.
pacheco
Depois do jantar saímos. Apresentei-o aos amigos tomarenses – o Arnaldo, o Manuel, o Camilo, o Fernando… O Pacheco causou sensação. Ainda há dias, o Manuel Simões me reproduziu o pachequiano discurso (confesso que a minha memória não é tão privilegiada – passaram mais de quarenta anos! – e tomei apontamentos). Num pequeno café, perorou sobre o trauma da «morte do pai». Recordou-se do dia em que o pai morreu. Começou a perguntar-nos, um por um, «Tu tens pai?», mais jovens, todos os cinco tínhamos ainda pai. Pacheco, não desarmou – gritou para o dono do café que atrás do balcão remoía pensamentos inescrutáveis: «O senhor tem pai?» – contou-nos ainda como, no dia em que o pai morrera, mergulhado numa indizível tristeza deitou-se sobre a cama no seu quarto, sozinho com a sua dor. Uma criada veio dar-lhe um beijo na face. E nunca mais esqueceu esse gesto afectuoso. Contou-nos a história dos livros oferecidos pelo Vinhas e a maldição dos Coelhos que o perseguia desde o Liceu Camões. E, entre histórias e copinhos diversos – ginjinha, amêndoa-amarga, eduardino, évora, anis, aguardente de figo… lá fomos percorrendo a via-sacra dos tasquinhos e botequins nabantinos. Os amigos foram-se despedindo. Quando ficou sozinho comigo, deu-me bons conselhos – eu fazia crítica semanal no Jornal de Notícias, crítica de poesia, e dizia mal de quase tudo (ao José Régio, por exemplo, na reedição da «Poemas de Deus e do Diabo», acusei-o de fazer «poesia de sacristia!»). Aconselhou-me moderação. «És um escritor! Há coisas que não se dizem!». Tinha toda a razão, claro. Embora o conselho também se lhe aplicasse – Fernando Namora, Vergílio Ferreira, Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes, Eugénio de Andrade, Lobo Antunes, Saramago, entre muitos, outros que o digam. As quatro da manhã surpreendeu-nos a ambos em frente da estação de caminho de ferro onde ele ia apanhar o comboio que o levaria ao Entroncamento e daí partiria de regresso às Caldas. Os candeeiros de iluminação pública imersos numa neblina densa, típica da cidade do Nabão, criavam uma atmosfera irreal.
-Isto existe mesmo ou estamos bêbedos? – Perguntou-me.
– As duas coisas – respondi.
– Não. Isto é uma invenção tua.
O comboio chegou. Despedimo-nos. Mandou-nos depois um postal muito tocante, agradecendo a recepção que teve.
Outro encontro com o Pacheco, acho que o último, foi na Feira do
Li
vro de Lisboa. Fomos beber uma cerveja a uma das esplanadas do alto do Parque. Mostrou-me, com orgulho, o cartão de militante do Partido Comunista e contou-me o que motivara a (tardia) adesão. Tem sido referido por numerosos «cronistas»: assistiu ao funeral do Ary dos Santos, viu a bandeira do Partido cobrindo-lhe o caixão e pensou que friorento como era, lhe calhava bem aquele agasalho da bandeira. E no dia seguinte mandou um recado ao José Casanova, do Comité Central, para que lhe fizesse chegar um formulário. E ali estava ele, o libertino, duzentos por cento anarca, integrado num partido que primava pela disciplina. Ele que tanto condenara homens como Soeiro Pereira Gomes ou Alves Redol fora dar, por causa do frio onde eles tinham chegado por convicção política.
Por curiosidade incluo aqui o texto de uma carta que Pacheco me escreveu em 1998, uma das últimas que dele recebi – eu tive um grave acidente de automóvel que me deixou quase um ano «fora de jogo» e quando voltei à vida activa, Pacheco tinha mudado de lar e tive dificuldade em reencontrá-lo.
carta
Carta de Luiz Pacheco a Carlos Loures

Palmela, 7 de Outubro de 1998

Caríssimo e Velho Amigo
(do Gelo, da Pirâmide, de Tomar, etc.)

Gostei muito de ler a tua carta. Achei que te devia uma explicação desta minha edição do Dostoievski. Não creio que saibas tudo: em 1995, ainda em Setúbal, num quarto bera como uma tumba, achei que ou fazia mais algum com edições ou estava tramado. Daqui este ressurgimento, canto de cisne final ou de corvo maluco da Contraponto. Não era por gracinha literária: era por «vai, Maria, com as outras», isto é, entrar no jogo de escrever para o mercado (aquele mínimo mercado que há…). Falas dos teus trabalhos de forçado das letras com tradutor. Mal podes imaginar que, aí por 78,79, me tramaste sem querer. Foi assim: eu preparava para a LER, livraria e delirante editora de Campo de Ourique (onde, por então, também morava em casa de uns amigos, «asilava», melhor dizendo, trabalhos de tradução, conselhos literários e dois volumes de compilação de artigalhadas minhas, que foram os «Textos de Guerrilha», I e II (ainda há, eram a 200$00 e 300$00, estão, parece, a 1 conto. Mas eram malta amiga, o Luís. pai e filho, este depois na Gradiva e, agora, com outra editora, parece que a Bizâncio (?). Davam-me todos os dias uma nota de 50$00. A certa altura, recomendei-lhes uma versão de «La bête humaine», do Zola, que eu achava giro traduzir (havia, parece-me, uma edição de 1910 ou 1920, da Guimarães. Compro o francês e caio para o chão quando o Luís pai me mostra uma edição quase recente da Europa-América e em versão tua!
Adiante – a tua versão.
Esta coisinha do Dost, trouxeram-ma da Biblioteca de Santarém (a tua versão), eu apenas tinha a da Inquérito, do José Marinho Mas era esta que me convinha, mas naquele processo do scanner, que fotografa ou filma ou como é? As páginas iguaizinhas. Era mais rápido, mais barato e dispensava a minha revisão (a minha vista está bera). Não foi assim. Tiveram de ir pró computador, 3 provas – a edição saiu caríssima. Tive de rever, tive de comprar a edição da Pleïade, de pedir a versão espanhola. Já te terei contado isto. Mas ficou muita coisa por emendar. É assim: por mais escrúpulos, dúvidas, boas intenções de traduzir pelo melhor, chega aquela data em u o livro tem mesmo de ficar despachado, pronto a vender-se, a recuperar o que já se gastou, pagou.
És editor, estás no meio há que anos, sabes que é assim. E depois nem dá gosto olhar para a edição, saber-lhe os defeitos, o muito que falhou. E eu fiz 73 anos em Maio. E já estou neste lar há 2 anos e dias (Vim a 1 de Outubro de 1996.
E tenho 2 títulos mais. E uma versão do Umberto Eco. E planos que chegavam para outra vida. LOUCURA! Tenho é que parar. Conheces o meu sistema. Com um bom ficheiro, sempre actualizado (repara na informação que me deste hoje sobre a tua nova morada – e como é que eu iria adivinhar, saber?…), consigo recuperar em poucos meses. Mas o livro não tem a expansão que devia – ou podia – ou, até, merecia. Dei uma edição à Audil… Será que pagam? E quando? Perdi, agora, um amigo fixíssimo de há 40 anos, o Fernando Fernandes, da Leitura, do Porto. Não morreu, felizmente! Reformou-se. O Joaquim Machado, de Coimbra, está tão velhadas como eu. São duas pessoas, estas, que me ajudaram muito, in illo tempore, e de 95 para cá.
Próximos títulos: Viva a Alegria: Prazo de Validade, L.P., Isto de Estar Vivo, do mesmo. Talvez a 3ª edição dos Exercícios de Estilo, na Estampa. E o Agostinho de Macêdo, o Padre Lagosta – beberrão, fodilhão, aldrabão, reaccionário. Mais do que o Padre Milícias.

Abraço do

Luiz Pacheco

Bússola Eleitoral

Qual é a sua afinidade partidária? Qual é o partido mais próximo das suas ideias?

bussola

Imaginem a minha sorte: deu-me em cima do PS!

Câmara Municipal de Lisboa – sondagem

Marktest apresenta primeira sondagem, vale o que vale mas aí está.

PS – 43.8

PSD/CDS – 32.7

BE – 9.2

CDU – 7

Lisboa, a maravilhosa Lisboa é de esquerda !

AFINAL HAVIA OUTRO

FAMÍLIA COMPROMETEDORA

Afinal havia e há outro primo. Este, não teFreeport2rá ainda “fugido” para o oriente. E, coincidências das coincidências, também se chama José Pinto de Sousa. O “gordo” ou o “bernardo”, como era conhecido, recebia os pagamentos “azuis”, e era o principal negociador no caso Freeport.
Esta é a notícia de abertura do “Novo Jornal Nacional” da TVI, ainda assinado por MMG.
Com uma família assim, quem quer ter uma família?
Seja como for, este caso Freeport não vai apoquentar muito o ainda nosso Primeiro, pelo menos até às eleições, pois que teve uma enorme “ajuda” com a suspensão do processo por suspeição, e ainda com a saída de MMG do Jornal Nacional de sexta – feira, da TVI.

NOVA CHACINA DA OTAN NO AFEGANISTÃO

Mais um golo no campeonato de sangue. A OTAN promete investigar. OK meu filho, estás perdoado. Vai e o Senhor te acompanhe…até outra.

Não estará em causa o regular funcionamento das instituições?


CONSTITUIÇÃO DA RÉPUBLICA PORTUGUESA
Artigo 120.º
Definição
O Presidente da República representa a República Portuguesa, garante a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas e é, por inerência, Comandante Supremo das Forças Armadas.

Artigo 195.º
Demissão do Governo
2. O Presidente da República só pode demitir o Governo quando tal se torne necessário para assegurar o regular funcionamento das instituições democráticas, ouvido o Conselho de Estado.

RECEBI ESTE TEXTO. VALE A PENA LER

Se ainda tinha dúvidas em quem votar nas legislativas. Leia e veja tudo isto.

Brilhante!!!! Tem tudo o que é preciso para fazer o Socras ganhar.

Ela detesta perder, nem que tenha que fazer BATOTA.

Até o Paulo Rangel irá votar nela, porque ela, como ele, não liga peva à ética!!!!

Viva a Carolina Salgado (perdão, Patrocínio)!!!!

E assim é o PS. E assim é Portugal!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

(Aquela menina que está sempre a mexer nas mãos…no programa da SIC, com o Pedro Miguel Ramos, o ‘TÁ A GRAVAR!)

Uma perfeita tonta imatura e arrogante!

Se isto não bateu no fundo, onde é o fundo???

Leiam estas pérolas…

Mas afinal quem é Carolina Patrocínio???
Mandatária para a Juventude pelo Partido Socialista de José Sócrates

Carolina Patrocínio é uma jovem com uns olhos espertos que gostam de andar sempre muito juntos, uma cara patusca, um sorriso simpático e fácil. É rica, famosa e aparece em tudo o que é programa de televisão e revista cor de rosa. Ninguém sabe se aparece por ser famosa, ou se é famosa porque aparece.

Os portugueses devem gostar muito de a ver em fato de banho, atendendo a que é quase impossível arranjar na net uma fotografia da moça, vestida com outra indumentária. Muitos desses portugueses devem ter, para além disso, um especial prazer em vê-la a “ausentar-se”, tal é a quantidade dessas fotografias em que aparece de costas.

Até há pouco tempo, não se lhe conhecia uma ideia sobre coisa nenhuma. Uma entrevista recente, e onde fala exaustivamente do que gosta e não gosta, embora mantendo o suspense quanto às suas ideias sobre a situação sócio/política nacional e internacional, as eleições que temos aí à porta e a sua importância para a juventude portuguesa, as saídas profissionais (ou a falta delas) para essa mesma juventude, etc, etc, etc… mesmo assim, deu-nos a conhecer outras características da jovem “apresentatriz”. Ficamos a saber que trabalha apenas para se divertir, pois “felizmente não precisa de trabalhar”, que “detesta frutas que tenham que ser descascadas” e a frase que anda toda a gente a discutir, “só como cerejas se a minha empregada lhes tirar os caroços”, aplicando-se o mesmo princípio às grainhas das uvas, que, segundo ela, “são uma grande trabalheira”.

Foi escolhida para Mandatária para a Juventude pelo Partido Socialista de José Sócrates.

Para além de, como quase toda a gente, também não vislumbrar o que é que Sócrates acha que a juventude portuguesa com idade para votar deve ver na jovem e mediática Carolina Patrocínio, que lhe sirva como modelo ou exemplo a seguir, gostaria de chamar a atenção para uma pequena frase da Mandatária, logo a seguir à tal das cerejas e que parece ter escapado aos espectadores, que terão, muito compreensivelmente, ficado apardalados com a problemática dos caroços e grainhas. Diz a Mandatária da Juventude:

“Sou muito competitiva. Detesto perder! Prefiro fazer batota, a ter que perder!”

Ora aí está! Quase que aposto ter sido esta a “qualidade” (para Sócrates um verdadeiro programa eleitoral…) que cativou o Primeiro Ministro e fez de Carolina uma incontornável Mandatária.

Atchim, feriado

gripe-mascara

Hoje encontrei um “plano de contingência” para a nova gripe, a aplicar nas escolas, e que corresponde a um modelo nacional, se bem entendi.

A coisa funciona assim: numa aula um miúdo espirra, aparenta ter febre, o professor pergunta-lhe se tem um de vários sintomas (diarreia, dores de garganta, e outra terminologia clínica que não decorei), e confirmado verbalmente um deles chama um funcionário para o levar para a sala de isolamento, já com máscara, limpa os vestígios do espirro com um toalhete, e a aula continua.

Suponho que isto nasceu no Ministério da Saúde, e foi digerido por um burocrata do da Educação, embora também possa ser uma ideia de qualquer outro ET.

No primeiro dia em que tal plano for descoberto em qualquer escola, portuguesa ou do mundo em geral, a malta vai espirrar, em magote, os termómetros não chegarão para as encomendas, no intervalo seguinte os pais saberão, e no máximo em meia hora uma multidão de pais estará em pânico à porta da escola.

Desde que inventaram as jaulas, perdão, aulas de substituição, que os alunos portugueses aguardavam por um brinde assim.

Ou chega um pouco de bom senso a estas almas diletantes, ou desconfio que este ano lectivo vai ter um começo bem original, e que seria mais sensato adiar o seu início, adiando a expansão da pandemia, tanto mais que o efeito prático  em termos de aulas será o mesmo, mas com esta ingenuidade acrescido de uma confusão que se podia evitar.

Outra mentira : primo de Sócrates e a mala com pés…

Entre vídeos e escutas telefónicas, o primo Bernardo de José Sócrates, torna-se elemento chave nesta fase do processo Freeport.

Telefonema escutado pelas autoridades, entre um dirigente do Freeport e um Presidente de Câmara, indica Bernardo como o “homem de mão” a quem deveriam ser pagos 90 000 euros. Existe uma foto com Bernardo a sair de uma agência do BES, depois da escuta indicar que o pagamento seria feito através desse banco.

Bernardo está em Angola e não presta declarações. Faz bem, não vá dizer inconveniências como seu pai, tio de Sócrates, ou como seu irmão que está, muito convenientemente, na China, e dizer-nos que está a tirar um curso de mergulho em profundidade.

A campanha negra, continua…

Outra mentira: Relvas condicionado pelo Gabinete de Sócrates

O advogado Jorge Bleck , acusa o gabinete do Primeiro Ministro de condicionar o dirigente do PSD e sócio da Logoplaste, Alexandre Relvas. “Cuida do que dizes, se queres negociar” terá sido a mensagem que o gabinete de Sócrates fez chegar ao Presidente do Instituto Sá Carneiro.

O Primeiro Ministro negou a notícia, Relvas “não comento polémicas políticas que envolvam a minha vida profissional” e Jorge Bleck rematou o assunto com um ” não tenho nada a acrescentar, nem a retirar”.

Nuno Ribeiro da Silva, presidente da Endesa, afirma que “já senti. E foi recentemente.” isto é, já com o executivo de Sócrates.

Outros há, empresários e gestores que dizem nunca terem sentido pressões, entre os quais, evidentemente, os que estão em empresas públicas e os que não negoceiam com o Estado.

Enfim, a campanha negra continua…

Eduardo Cintra Torres – O PS de Sócrates é contra a liberdade

Não gosto de reproduzir textos alheios do princípio ao fim, mas neste caso não resisto a publicar aquilo que Eduardo Cintra Torres escreveu hoje no «Público» a propósito da TVI. Com a devida vénia e com muita pena de não ter sido eu a escrevê-lo.

«A decisão de censurar o Jornal Nacional de 6ª (JN6ª) foi tudo menos estúpida. O núcleo político do PS-governo mediu friamente as vantagens e os custos de tomar esta medida protofascista. E terá concluído que era pior para o PS-governo a manutenção do JN6ª do que o ónus de o ter mandado censurar. Trata-se de mais um gravíssimo atentado do PS de Sócrates contra a liberdade de informar e opinar. Talvez o mais grave. O PS já ultrapassou de longe a acção de Santana Lopes, Luís Delgado e Gomes da Silva quando afastaram a direcção do DN e Marcelo da TVI.

A linguagem de Santos Silva e do próprio Sócrates na quinta-feira sobre o assunto não engana: pelo meio da lágrimas de crocodilo, nem um nem outro fizeram qualquer menção à liberdade de imprensa. Falaram apenas dos interesses do PS e do governo. Sócrates, por uma vez, até disse uma verdade: o PS não intervinha no JN6ª. Pois não, foi por isso que varreu o noticiário do espaço público.

O PS-Governo de Sócrates não consegue coexistir com a liberdade dos outros. Criou uma central de propaganda brutal que coage os jornalistas. Intervém nas empresas de comunicação social. Legisla contra a liberdade. Fez da ERC um braço armado contra a liberdade (a condenação oficial do JN6ª pela ERC em Maio serviu de respaldo ao que aconteceu agora). Manda calar os críticos. Segundo notícias publicadas, pressiona e chantageia empresários, procura o controle político da justiça e é envolvido em escutas telefónicas. Cria blogues de assessores com acesso a arquivos suspeitos que existem apenas para destruir os críticos e os adversários políticos. Pressiona órgãos de informação. Coloca directa ou indirectamente “opiniões” e “notícias” nos órgãos de informação. Etc.

O relato da suspensão do JN6ª, no Jornal de Notícias e no Diário de Notícias e outros jornais de ontem é impressionante, sinistro e muito perigoso. Provir de supostos “socialistas”, portugueses e espanhóis, em nada diminui a gravidade desta censura. Esta suposta “esquerda” dos interesses, negócios e não resolvidos casos de justiça é brutal.

Intervindo na TVI, o PS-Governo atingiu objectivos fundamentais. Como disse Mário Crespo (SICN, 03.09), o essencial resume-se a isto: J.E. Moniz e M. Moura Guedes foram eliminados —e com eles as direcções de Informação e Redacção e um comentador independente como V. Pulido Valente.

Este PS-Governo é muito perigoso para a liberdade. Até o seu fundador está preso nesta teia, por razões que têm sido referidas. Ao reduzir a censura anticonstitucional, ilegal e protofascista do JN6ª a um caso de gestão, Soares desceu ao seu mais baixo nível político. É vergonhoso que seja ele, o da luta pela liberdade, a dizer uma coisa destas. Será que em 1975 o República também foi calado só por “razões de empresa”?

O PS-governo segue o mesmo caminho de Chàvez, ao perseguir paulatinamente, um a um, os seus críticos: e segue o mesmo caminho de Putin, ao construir uma democracia meramente formal, em que se pode dizer que a decisão foi da Prisa não dele, em que se pode dizer que os empresários são livres, que os juízes são livres, que os funcionários públicos são livres, que os professores são livres, que os jornalistas são livres, que a ERC é livre, etc — mas o contrário está mais próximo da verdade. Para todos os efeitos, Portugal é uma democracia formal, mas estas medidas protofascistas vão fazendo o seu caminho. Não dizia Salazar que Portugal era mais livre que a livre Inglaterra? Sócrates e Santos Silva dizem o mesmo.» (Eduardo Cintra Torres)

Recordando o passado no largo do Rato

“Houve uma queixa do Governo que levou ao silêncio de um comentador, uma acção do Governo para reprimir uma livre crítica. Não me lembro de um episódio tão triste e que envergonhe tanto a democracia”.

José Sócrates, referindo-se ao episódio TVI, versão Marcelo R.S.

Mas há muito mais

Santarém, Capital do Gótico (XIII)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

NOTA: As minhas desculpas aos nossos leitores, e em especial ao nosso leitor Balby, grande apreciador desta coluna, pela não publicação deste «post» ontem, mas a actualidade política «falou» mais alto.


Santarém, Capital do Gótico

Resultando da evolução da arte românica, a arte gótica foi essencialmente uma arte de cidade, que permitiu uma posterior evolução para a arte Renascentista. Iniciada na Europa do século XIII, contribuiu para uma nova forma de ver o mundo, para uma nova relação entre o divino e o humano.
Partindo de uma arquitectura renovadora que fora iniciada pela ordem de Cister como contraponto à de Cluny, a arte gótica elegeu como figura de proa o arquitecto. Um sábio, um estudioso da geometria, muito mais do que o simples artesão de formas simples dos tempos do românico.
Toda a arquitectura gótica acabou por representar uma oposição total em relação à arquitectura românica. Se esta se caracterizava pela espessura das paredes, pela quase ausência de janelas ou aberturas para o exterior, pela escuridão e sobriedade, a arte gótica destacou-se pela claridade e abundância de grandes vãos.
Para conseguir aliviar o peso das estruturas, bastou ao arquitecto gótico rasgar um grande número de janelas para o exterior e utilizar a abóbada de cruzaria de ogivas como forma de aliviar o peso que dantes tinham de suportar. Ao mesmo tempo que os edifícios se tornavam mais altos, a fachada era enriquecida com grandes janelas e rosáceas de pedras decoradas, que exponenciavam a iluminação do interior.
Ou seja, apesar de ter partido da tradição românica, o arquitecto gótico soube transformar completamente os principais elementos construtivos e a relação entre esses mesmos elementos. «O reconhecimento social do arquitecto, do «magister operis», talvez por causa dos conhecimentos que se lhes exigiam para realizar essas construções, aumentou de tal maneira que alguns deles eram conhecidos por «doctor lathomorum», título reservado aos mestres universitários, e outros foram chamados «architector et mirificus aedificator»». (História da Arte)
Na arquitectura religiosa, o gótico veio valorizar determinadas zonas do edifício, como os portais. O alargamento das portas permitiu a profusão de arquivoltas e de pequenas figuras esculpidas. Em relação às diferenças regionais, a arte gótica tinha um carácter um pouco arbitrário, pois estava condicionada por particularismos diversos, ou seja, em cada zona da Europa acabou por absorver as influências locais. Alguns autores dizem mesmo que, na Península Ibérica, não há dois monumentos góticos iguais.
No caso de Santarém, foi um gótico primário e funcional aquele que foi aplicado às construções religiosas, sobretudo no século XIII. Era ainda um gótico de expressão mendicante, dado que os seus principais promotores eram precisamente essas ordens. Nos séculos XIV e XV, a renovação dos ideais religiosos e o patrocínio régio foram responsáveis pela evolução do gótico, embora as influências dos arquitectos e dos mestres do mosteiro da Batalha tenham sido decisivas.

Património medieval: O românico e o gótico

A igreja de Santo Agostinho da Graça, do antigo convento dos Agostinhos de Santarém, no largo Pedro Álvares Cabral, é monumento nacional desde 16 de Junho de 1910. É o último grande monumento gótico de Santarém, mas ao mesmo tempo o mais representativo. Uma «obra-prima da corrente gótica nacional», no dizer de Mário Tavares Chicó. Foi construída a partir de 1380 por iniciativa dos Agostinhos de Lisboa, que se tinham fixado na cidade quatro anos antes, e sob o patrocínio de João Afonso Telo, conde de Ourém. Devido à morte do fundador, a dificuldades económicas e a outras causas, as obras foram concluídas apenas no segundo quartel do século XV, facto que provocou uma conjugação de estilos diferentes e soluções arquitectónicas diversas.
É por esse facto que, apesar de a sua construção ter começado antes do mosteiro da Batalha, muitos dos seus elementos são influenciados pelo monumento da vila «em que mais pátria há», nomeadamente os elementos de tradição inglesa.
Do gótico mendicante, é a cabeceira tripartida, o transepto e as naves. Do gótico flamejante, o mesmo que foi aplicado na Batalha, é a fachada principal, com o seu portal cenográfico, e a grande rosácea que o sobrepuja, de fino lavor. O próprio túmulo do fundador da igreja e da sua esposa é muito semelhante ao de D. João I e D. Filipa de Lencastre em Santa Maria da Vitória. Aliás, terão sido os próprios mestres da Batalha a trabalhar nesta igreja de Santarém.
Em 1531, D. Mécia Mendes de Aguiar, mulher do navegador Gonçalo Gil Barbosa, mandou edificar a capela do Senhor Jesus dos Passos. Em finais do mesmo século, foi construído um novo claustro, sob a direcção do arquitecto António Dias.
Depois da extinção das ordens religiosas, o espaço funcionou como o lar de Santo António, sofrendo profundas obras de restauro a partir da década de 40 do século XX.
A sua planta obedece às regras de simplicidade das construções mendicantes. A fachada principal é em três panos definidos por contrafortes. Pórtico de cinco arquivoltas em arco quebrado, com as suas colunas e capitéis de motivos vegetalistas. Em cima, a rosácea, que segundo Jorge Custódio talvez seja uma das mais originais do gótico europeu. Ainda na frontaria, dois brasões da família de Ourém.
Interior constituído por três naves de cinco tramos cada, sendo que a nave central é mais alta do que as outras. Separam as naves seis colunas de pilares cruciformes, ornadas até aos capitéis. O transepto é de dimensões próximas às da nave central. A cobertura é em madeira nas naves e transepto e em abóbada de cruzaria de ogivas na cabeceira, onde se encontram três capelas poligonais. A capela-mor é de maior dimensão e volumetria.
Panteão dos Meneses, esta igreja conserva importantes mausoléus, que enriquecem a tumulária artística de Santarém. É o caso do fundador e sua mulher, Guiomar de Vilalobos, é também o caso de D. Pedro de Meneses e D. Beatriz Coutinho. Salientam-se ainda os de D. Leonor de Meneses; D. Afonso de Vasconcelos e Meneses, conde de Penela; D. João, filho de D. Pedro I; D. Luís de Meneses; Pero Rodrigues Portocarrero; os Sás; e muitos outros nobres de igual importância.
Na antiga capela de S. João Evangelista, no absidíolo direito, encontra-se o túmulo em campa rasa de Pedro Álvares Cabral, o descobridor do Brasil, e sua mulher, D. Isabel de Castro. É uma laje rectangular simples, gravada com uma inscrição em caracteres góticos: «Aqui jaz Pedralvarez Cabral e dona Isabel de Castro dua mulher cuja é esta capela é de todos seus herdeiros a qual depois da morte de seu marido foi camareira mor da infanta Dona Maria filha del-rei Dõ Juan Nosso Sñor o Terceiro deste nome».
Anexo à igreja, o claustro e os vestígios do antigo convento da Graça. Depois da extinção das ordens religiosas, o espaço foi abandonado e acabou por ser comprado em 1847 por Silvério Alves Cunha, que ali fundou o Lar Distrital de Santarém, instituição de assistência a idosos. A partir de 1992, ali funciona também um instituto politécnico, numa adaptação feita com o maior cuidado e que mereceu, inclusivamente, o prémio «Santarém – Cidade a Defender».
O claustro e os vestígios existentes datam dos finais do século XVI e das duas centúrias que se seguiram. Composto por cinco arcadas em cantaria de cada lado, de abóbadas artesoadas, trata-se de um conjunto quadrangular, que ter-se-á iniciado em finais de Quinhentos, embora as obras se tenham prolongado pelo tempo fora. As po
rt
as que davam acesso ao claustro, por exemplo, são maneiristas.
A igreja de Santo Estevão, ou do Santíssimo Milagre, é monumento nacional desde 1917. Encontra-se no largo do Milagre, na freguesia de Marvila, e deve o seu nome «alternativo» ao milagre da hóstia que, roubada do templo no ano de 1266, começou a sangrar no bolso da mulher que a roubara e, depois de escondida, iluminou toda a casa.
É o mais primoroso templo gótico de Santarém. Da primitiva igreja, provavelmente sagrada em 1241, restam apenas dois arcos do transepto. O actual edifício foi construído em meados do século XVI, por causa do terramoto de 1531 e ainda porque as suas dimensões não comportavam todas as pessoas que acorriam a visitar o Santíssimo Milagre. Artistas e mestres formados em Tomar terão participado nestas obras. Da primeira metade do século XVIII, por sua vez, datam praticamente todos os trabalhos de talha, nitidamente barrocos, alguns dos quais desvirtuaram as características iniciais. Os retábulos desse período vieram substituir os anteriores, que deveriam ser em madeira.
A fachada da igreja é formada por três corpos delimitados por pilastras. As exteriores são rematadas por pequenas mísulas encimadas por pináculos. Porta principal encimada por frontão triangular, um friso separa-o da janela. Torre sineira, em pedra, adossada ao lado da Epístola e coroada também por pináculos.
O interior é extremamente equilibrado e harmonioso. A distribuição entre os diferentes espaços – corpo da igreja/transepto, nave central/naves laterais – assim o comprovam. Esta característica, bem como a leveza de todo o traço arquitectónico, é claramente renascentista.
De planta longitudinal, é composto por três naves de igual altura mas de comprimento diferente – a nave central é mais comprida. Separam as naves três colunas toscanas, ligadas por arcos simples de volta inteira. A capela-mor é quadrangular e antecedida por um pouco comum tramo perpendicular às naves, constando de três arcos redondos. Esta estrutura é decorada com pilares lavrados de grotescos e imagens representando S. Pedro e S. Paulo, assentes em mísulas e coroados por baldaquinos. Adossadas às pilastras centrais, pequenas cabeças de anjos e de demónios. Na base, representações em relevo dos quatro Evangelistas. As paredes apresentam silhares de azulejos de padrão azul e amarelo e de axadrezado azul e branco. Do espólio existente, destaquem-se várias tábuas quinhentistas tardias, as imagens estofadas e policromadas de Santo Estevão e de Santo Agostinho e a pia baptismal.
Também em Marvila, no largo Zeferino Sarmento, é a igreja de S. João de Alporão, monumento nacional desde 16 de Junho de 1910 e hoje transformada em museu. Nela coexistem soluções românicas e góticas, numa tão curiosa quão invulgar ligação e experimentalismo dos dois estilos. A elegância austera que a caracteriza é bem o resultado da conjugação daqueles estilos.
O românico está presente na estrutura maciça da nave, no portal principal com arquivoltas em arco de volta perfeita ou no carácter fortificado de todo o conjunto. Quanto ao gótico, com claras influências da ilha de França, revela-se na cabeceira, de planta poligonal e com amplas janelas ogivais, na cobertura original dos três tramos da nave, de abóbada nervurada de cruzaria de ogivas e sobretudo na galeria que se desenvolve para lá da capela-mor. A própria nave é um exemplo da conjugação dos dois estilos, seguindo um modelo de transição definido como a goticização de modelos românicos tardios.
Ao longo dos anos, fantasiou-se muito sobre a sua origem. Chegou a dizer-se que, da sua varanda principal, foi lido à população o édito de Octávio César Augusto «Ut Describertur Universus Orbis».
Foi fundada pela ordem de S. João do Hospital, que se instalou em Santarém entre 1159 e 1185. Datará desse período, que prolongaremos até ao primeiro quartel do século XIII, a sua construção. Em 1207, pelo menos o presbitério já estava concluído, pois serviu de sepultura a D. Afonso de Portugal, filho ilegítimo de D. Afonso Henriques e grão-mestre dos Hospitalários.
Nos séculos XIII e XIV, fazia parte do complexo monacal de S. João do Hospital. A sua localização, junto à porta do Alporão, tinha como principal finalidade proteger o acesso militar à cidade e controlar a entrada de judeus.
Depois de 1834, a igreja passou para a posse do Estado. Foi utilizada como teatro entre 1849 e 1876 e, a partir de 1877, recebeu obras de adaptação para a instalação de um museu, o que viria a acontecer em 1889.
É um templo de planta longitudinal, composta pela nave e cabeceira poligonal mais baixa, de volume paralelepipédico. A fachada principal é em empena triangular de pano único. O pórtico é formado por cinco arquivoltas de volta perfeita. Mais acima, uma grande rosácea de colunelos radiantes. A cabeceira da igreja é de forma poligonal e contrafortada. Interior de nave única de três tramos. A cobertura é em abóbada de cruzaria com arcos de volta perfeita.
Destaque-se, na parede lateral esquerda, o cenotáfio de D. Duarte de Meneses, fronteiro de Alcácer-Seguer falecido em 1464 na serra de Benacofur. Um túmulo onde se realça a estátua do guerreiro, em posição horizontal, segurando na mão direita a espada de combate. Os coruchéus, os baldaquinos e os fogaréus são notáveis trabalhos de pedra. Para Gustavo Matos Sequeira, foram os mestres canteiros da Batalha os seus autores, dadas as semelhanças com alguns dos túmulos do mosteiro de Nossa Senhora da Vitória.
Outros dos túmulos que merecem referência são os de Martim e João de Ocem, que estiveram anteriormente no convento de S. Domingos. Martim Ocem foi embaixador de Portugal em Castela na altura em que, em 1411, se assinou o tratado de paz entre os dois países. João de Ocem, sobrinho daquele, pertenceu ao conselho de D. Duarte e de D. Afonso V. São dois túmulos muito semelhantes, até porque entre a morte do primeiro (1431) e a morte do segundo (1442), mediaram apenas onze anos. A figuração dos sepultados, os peitáfios e as divisas seguem todos na mesma direcção artística.
Da época romana, ali se guardam uma ânfora, três sepulturas, uma estatueta de criança, um marco dedicado ao imperador Marco Aurélio e duas aras funerárias. Do período árabe, apenas dois capitéis.
Anexo à igreja, encontram-se os vestígios da crasta do antigo mosteiro hospitalário, no qual o templo se integrava. Nas traseiras da igreja, pode ver-se ainda a casa dos comendadores da ordem do Hospital, que conserva ainda restos de estruturas antigas, como portas chanfradas em tijoleira e velhas lojas ao nível do piso térreo.
A fonte das Figueiras, ou fonte Mourisca, é um exemplo da arquitectura civil gótica. Está classificada como monumento nacional desde 16 de Junho de 1910. Localiza-se na freguesia de Marvila, junto a uma calçada que liga a cidade ao vale da Atamarma. Terá sido construída nos últimos anos do reinado de D. Dinis, embora Jorge Custódio levante a hipótese de ter sido edificada ainda no reinado anterior, o de D. Afonso IV. Com um ou com outro, simboliza de qualquer das formas a protecção régia às obras municipais, daí a grande qualidade dos materiais utilizados e do mestre canteiro que executou a obra, provavelmente um tal de Ioannis. Deve ter pertencido ao convento de Santa Clara.
Inicialmente, foi construída só com os alpendres góticos, mas no século XIII foi-lhe acrescentada a coroa de merlões pontiagudos. De planta quadrangular, consta de uma estrutura em alpendre, ameada de merlões, com abóbada de cruzaria, que protege uma bica. Os capitéis são profusamente decorados com elementos vegetalistas, sendo um dos mais que mais chama a atenção o «capitel dos três florões». Note-se neste chafariz a grande variedade decorativa em apenas quatro metros quadrados.
«O turista que desce o vale de Mont’Irás ou que toma a estrada que conduz à ponte D. Luis encontra, escondida na vege

tação, a fonte das Figueiras que é uma das mais preciosas jóias que o estilo gótico deixou em Santarém. Fazendo parte das terras que pertenciam ao convento das Clarrissas, em local que a natureza fadou, quantos cantares de amor não se teriam entoado à sombra dessas musgosas pedras, quando os troveiros medievais dirigiam galanteios às donas dos seus encantos! Certo é que, durante séculos, esse curioso monumento esteve desprezado, não se lhe referindo mesmo qualquer dos cronistas do burgo.» (Joaquim Veríssimo Serrão)
A igreja do antigo convento de Santa Clara, na freguesia de Salvador, está classificada como monumento nacional por decreto de 14 de Março de 1917. É o maior templo gótico da cidade. A sua dimensão justifica-se pelos apoios que sempre aquela instituição monacal recebeu da parte da família real.
Uma construção que se integrou, no dizer de Jorge Custódio, «num movimento ascético de feição franciscana e clarissa em Portugal, o qual se organizou tendo como referência a Regra seráfica.» As freiras clarissas começaram por se fixar em Lamego em 1258, passando para Santarém em 1265, por autorização do papa Alexandre IV.
As obras decorreram entre 1259, ainda antes, como se vê, do estabelecimento das clarissas, e ter-se-ão prolongado, sempre com donativos régios, pelo menos até 1327. D. Afonso III, D. Dinis e a sua esposa, a Rainha Santa Isabel, apadrinharam sempre a edificação. Especialmente importante nesta situação foi D. Leonor Afonso, filha de D. Afonso III que foi freira neste convento. O seu túmulo, de influência coimbrã, segundo Reynaldo dos Santos, é muito semelhante ao de D. Dinis no mosteiro de Odivelas. Anterior na sua execução aos túmulos de Alcobaça, a sua autoria deve ser endereçada, muito provavelmente, a pedreiros santarenos.
Era um complexo monacal de grandes dimensões, um dos maiores do país, com capacidade para oitenta freiras. No período de maior esplendor, tinha dois claustros e inúmeras dependências. Ao longo dos anos, foi sofrendo profundas remodelações, em parte pelos acidentes que o atingiram, dos quais se destacam o terramoto de 1531 e os incêndios de 1668 e 1669. As obras então realizadas transformaram a fisionomia do edifício, que passou a assemelhar-se a um imóvel setecentista.
Encerrado em 1902, depois da morte da última freira, o convento e a igreja entraram em ruína até 1934, ano em que a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais iniciou a sua recuperação e o retorno à sua pureza original. Nessas obras de restauro, perdeu-se o retábulo quinhentista de Diogo de Contreiras (1554), o cadeiral do coro (1600), os azulejos, os elementos barrocos e o claustro quinhentista.
É um dos templos do ciclo mendicante da cidade. Muito semelhante à igreja do convento de S. Francisco, também em Santarém. A cabeceira composta por cinco capelas escalonadas, a feição geral das arcadas e dos suportes e a contemporaneidade das duas construções comprovam as similitudes entre os dois templos.
Templo de planta longitudinal, composta por nave, torre e cabeceira. Na fachada principal, ressalta de imediato a grande rosácea, sobrepujada pelas armas reais. Uma rosácea octogonal sobrepujada pelas armas reais que, coadjuvada pelas janelas maineladas rasgadas nas paredes, inunda o interior de uma luz homogénea. De colunelos radiantes, que seguram um centro de arcaria trilobada, é um elemento de grandes dimensões.
Outros elementos a registar no exterior são a torre sineira, semelhante a algumas igrejas italianas de finais do século XIV; e a fachada principal, sem pórtico, típica dos edifícios de clausura.
O interior é de três naves, iluminadas por janelas geminadas e pela já referida rosácea. As naves são extremamente compridas, de oito tramos cada, marcados por colunas muito altas revestidas de colunelos e capitéis lavrados. O comprimento é de cerca de oitenta metros, quase tantos como os da igreja do mosteiro da Batalha. As naves laterais são mais baixas, permitindo dessa forma clerestório. Naves e transepto de grande volumetria apresentam cobertura em madeira, a abside abóbada de nervuras, os absidíolos abóbada de nervura. A cabeceira tem cinco capelas. A capela-mor, encimada por abóbada gótica de nervuras cruzadas, é poligonal e as restantes, ladeadas por absidíolos, são rectangulares. Em nichos renascentistas, algumas pinturas a fresco de personalidades franciscanas.
A igreja e o claustro do extinto convento de S. Francisco, freguesia de Salvador, encontra-se na rua 31 de Janeiro. É monumento nacional desde 17 de Março de 1917. A construção do edifício monacal iniciou-se em 1242, no mesmo ano em que os franciscanos se instalaram em Santarém (Frei Manuel da Esperança). Quanto à igreja, de grandes dimensões, terá sido concluída em 1260 ou 1282, consoante as teorias chegadas até nós. É o mais antigo exemplar da arquitectura franciscana em Portugal, a par da igreja de Estremoz, e o mais antigo testemunho do gótico em Santarém.
Tipologia construtiva muito semelhante ao ciclo mendicante do resto da Europa no mesmo período, nomeadamente no que diz respeito à severidade dos volumes, à preponderância das dominantes horizontais e rectas em detrimento da verticalidade, aos elementos vegetalistas dos capitéis e à ausência de qualquer tipo de decoração. Aliás, terão sido os próprios franciscanos a trazer a planta do edifício e as regras de medição do centro do «velho continente», pois a unidade de medida aplicada foi a de «pied de roi».
Ao longo dos séculos, igreja e convento foram sendo engrandecidos, caso do claustro, construído em duas ou três fases. O complexo chegou a dispor, para além dos dois claustros, de três dormitórios, um refeitório e uma biblioteca. À primitiva fase do gótico mendicante do século XIII, sucedeu-se uma fase de acrescentos da primeira metade do século XIV, uma outra gótica nos reinados de D. Fernando e D. João I, uma fase manuelina, uma renascentista e, por último, uma campanha setecentista. Assim, o gótico do templo foi mesclado com a arte renascentista e barroca.
Nos primeiros séculos da sua existência, muitos foram aqueles que quiseram ser aqui enterrados. Algo de normal, afinal, se tivermos em conta o quadro de costumes e de mentalidades da sociedade europeia da Baixa Idade Média. O exemplo mais paradigmático foi o do rei D. Fernando, que decidiu ser aqui sepultado e para tal patrocinou a construção de um coro-alto, nos três tramos médios da nave central. Em 1447, D. João II foi aqui aclamado. No século XVI, aqui discursou Gil Vicente, fazendo um apelo para que os cristãos-novos não fossem perseguidos. Em 1579-1580, reuniu-se aqui o povo para impedir que o poder fosse entregue a D. Filipe II, que acabaria por ser coroado nas cortes de Tomar.
No século XVIII, a quantidade e qualidade dos túmulos e das inscrições existentes ainda era notável. No entanto, o terramoto de 1755, as Invasões Francesas, as guerras civis, a extinção das ordens religiosas e um grande incêndio, em 1940, levaram à destruição de quase toda a parte conventual. O estado de ruína do claustro mantém-se ainda hoje. A recuperação de todo o complexo, para a instalação de um espaço museológico, é um projecto a ser desenvolvido a curto prazo.
Templo de planta longitudinal. A fachada principal é de dois registos, definidos pelo pórtico de arquivoltas decoradas com motivos geométricos, ladeado por quatro colunelos, e pelo grande vão quadrangular destinado a receber a rosácea. É muito semelhante ao pórtico do mosteiro da Batalha. À fachada nascente, está adossada a casa do Capítulo; à parte norte, está adossado o claustro e os corpos do antigo convento. O claustro, gótico, é composto por colunas duplas, com capitéis foliáceos e abóbada de nervuras com fecho heráldico. Foi mandado construir por D. Duarte de Meneses e pelos condes de Vila Real.
O interior é composto por três naves de cinco tramos, com cobertura de madeira, um cruzeiro alto e cabeceir

a com cinco capelas. Vários escudos, entre os quais o do rei D. Fernando, fecham as nervuras das abóbadas. As naves laterais são mais baixas do que a central. Colunas poligonais sustentam os arcos góticos, que terminam em capitéis de ornatos vegetalistas, embora alguns desses capitéis tenham perdido a decoração por causa das obras do coro-alto. Na cabeceira, as cinco capelas estão escalonadas em relação à capela-mor.
Ainda em relação ao coro-alto, Mário Tavares Chicó considera-o «a mais bela manifestação de arte gótica do país, antes da construção do mosteiro da Batalha». O construtor seguiu todas as regras do estilo então vigente, como se percebe pela decoração, pelos curtos pilares cruciformes, pelas nervuras que sobre eles assentam, pelos capitéis lavrados ou pelos fechos heráldicos das abóbadas e das frontarias. Para além de albergar o túmulo de D. Constança, mãe de D. Fernando, este tinha ainda a intenção de se tumular a si, como se viu antes, e à sua mulher, D. Leonor Telles.
A igreja de Almoster, juntamente com as ruínas do claustro do antigo mosteiro de freiras bernardas, é monumento nacional por decreto de 1920. Situada no largo do Convento, foi fundado por D. Berengária Aires, aia da Rainha Santa Isabel e mulher de D. Rodrigo Garcia.
É um templo de planta longitudinal, constituído por três naves de cinco tramos cada. A capela-mor é de dois tramos, com coberturas em ábobada de ogivas com pinturas de grotescos. As capelas absidais são de tramo único, com cobertura em abóbada de berço quebrado, abrindo para as naves colaterais por arcos quebrados em ressalto de moldura facetada.
Quanto ao claustro do antigo convento, dele restam dois lanços e a fonte da castra. As alas maiores possuíam quatro tramos, tendo os dois primeiros quatro vãos e os restantes cinco, de arcos quebrados geminados sobre colunas emparelhadas. A Sala do Capítulo é revestida de azulejos azuis e brancos e várias lajes sepulcrais.
A torre das Cabaças, no largo Zeferino Sarmento, é monumento nacional desde 3 de Fevereiro de 1928. Foi construída no local onde antes existia uma torre de recinto muralhado do antigo complexo defensivo de Alporão, que tinha o seu centro na porta do mesmo nome. Servia como torre do relógio do senado da Câmara, numa época em que a «medição» do tempo começava a ser objecto de interesse por parte da sociedade.
Assim, em meados do século XV Santarém foi uma das primeiras localidades a receber uma importante inovação: o relógio mecânico. Accionado por pesos e com mostrador das horas, surgiu em Itália entre 1277 e 1300 e começou a ser instalado nas torres das principais cidades. Era um invento fundamental, porque media o tempo e servia de instrumento para diversas profissões, como os mercadores. No dizer de J. Gimpel, foi o primeiro invento «decididamente moderno». E moderno foi Santarém, que recebeu o relógio pouco tempo depois do Porto e Lisboa.
Terá sido construída em meados do século XV – o primeiro documento conhecido que lhe diz respeito data de 1462. Foi alterado sucessivamente ao longo dos séculos, como no reinado de D. Manuel I, D. João III ou D. Filipe II. Este facto acabou por desequilibrar esteticamente todo o monumento. As obras realizadas no século XVII colocaram-lhe uma cimalha maneirista. A partir dos anos 30 do século XX, a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais levou a cabo obras de reabilitação do monumento, como foi o caso da demolição do edifício anexo, conhecido como a casa do Relojoeiro. Essas obras prolongaram-se no tempo até à actualidade, embora nos últimos anos tenha sido a Câmara Municipal de Santarém a responsável pelas mesmas.
A tradição popular refere que o nome de Cabaças foi dado em «homenagem» às «cabeças ocas» dos vereadores que decidiram a sua construção, de tão feio que o edifício era considerado. Na verdade, o nome deve-se a oito cabaças de barro colocadas na estrutura de ferro que suporta o sino e que têm como função ampliar o som emitido.
«Quando de uma visita de D. Manuel a Santarém, os edis solicitaram do monarca um subsídio para se erguer a torre do relógio e do sino de correr, necessidade quotidiana da população, sobretudo dos trabalhadores rurais que desejavam conhecer a hora de começo e fim dos seus trabalhos. Concedida a desejada quantia, os membros camarários, em número de oito, teriam mandado colocar no alto da torre um sino assente em quatro varões de ferro. Voltou o Venturoso a Santarém, poucos anos mais tarde, e ao contemplar a fealdade do conjunto arquitectónico da torre do Relógio, esbajada que fora a dádiva régia em obra tão desprovida de elegância, ordenou que, a rodear o sino, fossem colocados oito púcaros de barro – a que chamam cabaças – que passariam a representar as oito cabeças ocas dos senadores locais. Umas e outras, desprovidas de inteligência. E ao senado santareno caberia o epíteto de senado cabaceiro.» (Joaquim Veríssimo Serrão)
Segundo Vítor Serrão, o edifício apresenta características tardo-góticas. É uma estrutura com a forma de um paralelepípedo de vinte e dois metros, coroada por uma armação de barras de ferro, para apoio das vasilhas de barro, ou cabaças, que lhe dão o nome. Torre de secção quadrangular, em cujo topo se rasgam, nos quatro lados, oito janelões em arco de volta perfeita. Acima, os oito púcaros de barro que já referimos e que servem como caixa de ressonância do sino do relógio. No interior, entre o primeiro e o segundo piso, todo o seu volume, exceptuando o volume da escada em caracol, encontra-se atulhado.
Um dos projectos existentes para o aproveitamento desta estrutura, que lembra, «mais do que nenhuma inventada pelos arquitectos, a origem árabe, a vida nómada, a tradição pastoril da região onde surgiu» (Ramalho Ortigão), é a sua transformação no Núcleo Museológico do Tempo – um verdadeiro museu vivo da relojoaria.
Aliás, são muito elogiosas as palavras que Ramalho Ortigão lhe dedicou em «A Arte em Portugal»: «A torre das Cabaças não será talvez o mais monumental, o mais nobre, o mais rico, mas é decerto o mais sugestivo, o mais anedótico, o mais interessante, o mais carinhoso, o mais familiar, o mais lindo campanário de toda essa formosa campina ribatejana, o mais aberto sorriso agrário da terra portuguesa. Tudo envolve de penetrante poesia local essa velha torre. O seu mesmo nome de relógio das cabaças ou de cabaceiro se alia harmonicamente no ouvido à lembrança das lezírias, das hortas, dos pauis, das courelas e dos olivedos, que o circundam, e fazem dele como que uma parte integrante da paisagem, um natural rebento da terra… A torre das Cabaças fez-se para ser olhada do vasto campo da Golegã ou do campo de Almeirim, vindo do Vale, vindo de Coruche, de Benavente ou da Barquinha, através dos olivais, das terras de semeadura e das eiras do termo de Santarém, de jaqueta e sapatos de prateleira, mostrando uma égua de maioral, de cabeçada de esparto, almatrixa de peles e estribos chapeados.»
As muralhas do antigo castelo, em Marvila, estão classificadas como imóvel de interesse público desde 14 de Março de 1917. Foi edificado em 1147 no local onde anteriormente se situou um castro proto-histórico, sucessivamente ocupado por fenícios, gregos, romanos, visigodos e árabes. Originalmente, era constituído pelo recinto da Alcáçova, com quatro hectares, e pelo perímetro muralhado da vila, de trinta e três hectares. Era parcialmente defendido por uma barbaça e pela cerca dos bairros da Ribeira e de Alfange.
Das diversas intervenções que sofreram ao longo dos anos, destaque-se a ampliação fernandina, a adaptação da Torre de Alpram no século XV e o reforço de toda a estrutura muralhada no século XVII. O século XIX, por sua vez, assistiu à destruição de grande parte das muralhas e das portas de acesso. Várias razões estiveram na base desta sanha demolidora, desde razões urbanísticas à construção do caminho-de-ferro. Entre 1936 e 1954, a Di

recção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais procedeu a obras de consolidação de vários troços de muralhas, como tem vindo a acontecer, de resto, até hoje.
«Em qualquer das dominantes alturas de Santarém captam-se imagens visuais de rica tonalidade. Do alto panorama das Portas do Sol pode-se admirar um magnífico espectáculo no quadro que se nos apresenta. Disse-o Afrânio Peixoto: «um dos mais belos panoramas do mundo». Em baixo, o rio no seu curso pela terra portuguesa dá a nota de frescura com os seus areais e ilhotas, os verdes mouchões que o limitam, beijando na sua margem direita a povoação da Ribeira (antiga Seserigo) e o bairro piscatório do Alfange. Quase a pique, dominando uma encosta cavada, o roqueiro castelo é como acrópole que senhoreia os horizontes, e dele pode o forasteiro admirar o curso sinuoso do rio, o acidentado das colinas do norte e as férteis planícies da Borda d’Água. Encanto profundo que leva o visitante a recolher-se, admirando a obra da natureza em belas imagens que a retina passa a guardar.» (Joaquim Veríssimo Serrão)
Ainda sobre as Portas do Sol, mais das paisagens que dali se alcançam do que do banal jardim existente, referia João Barreira, na primeira metade do século, no «Guia de Portugal»: «É o mais belo varandim de Santarém (ajardinado em 1895), com um miradouro feito na porta que olhava o sol levante e dá sobre os vastíssimos e planturosos campos ribatejanos com o rio derivando em preguiçosos meandros laivados de ilhotas de areia fulva, as quadrículas da cultura ubérrima em que o verde esmeraldino é pintalgado de preto pela silhueta nervosa dos touros e a linha esbelta dos campinos, vendo-se no limite das pastagens branquejarem as vilas da Chamusca, Almeirim e Alpiarça. Ao norte Alcanhões e no extremo do horizonte Monte de Trigo. À direita, para o sul, o Outeiro da Forca, plantado de oliveiras. É indubitavelmente, diz F. F. Palgrave, que acompanhou o grande poeta inglês Tennyson na sua viagem a Portugal, «one of the great panoramic landscapes of Europe.»
Castelo de montanha, de planta irregular, era rasgado por várias portas e postigos. As antigas muralhas cobriam o perímetro da povoação. Na época muçulmana, as muralhas iam das Portas do Sol à Porta de Atamarma e daí ao «colar muralhado» que vinha do vale de Alfange. Nessa altura, existiam as portas de Atamarma, de Alcáçovas e do Alporão. Depois da conquista aos mouros, D. Afonso Henriques mandou alargar o perímetro da zona ameada. Fê-lo porque o burgo estava a crescer mas também porque era necessário prevenir futuros ataques. Com as guerras fernandinas, grande parte das muralhas ficou destruída. Cerca de 1380, D. Fernando restaurou-as e ampliou a periferia defensiva de Santarém.
Assim, havia três zonas dentro das muralhas: a zona da Alcáçova, fechada pelas portas da Atamarma, do Alporão e da Alcáçova; o perímetro muralhado da época de D. Afonso Henriques, que ocupava o planalto de Marvila; e a zona muralhada de D. Fernando, com a sua dupla linha defensiva. As muralhas originais, as da Alcáçova, ainda existiam em parte no século XVI, segundo relato de Erich Lassota de Steblovo. Actualmente, restam apenas alguns trechos.
Das antigas portas e postigos da cidade, também resta pouco hoje em dia. As portas de Santiago e do Sol estavam no perímetro da cidadela principal. A porta de Santiago estava ligada à calçada de Santiago, que a punha em contacto com a Ribeira de Santarém. Na porta, pode ver-se um brasão real do reinado de D. Fernando e a data de 1375. A porta de Alcáçova ficava junto da estrada que vai para Alfange. A porta do Alporão, demolida no século XVI, estava ligada à igreja de S. João de Alporão. A porta de Atamarma localizava-se no alto da calçada do mesmo nome. Foi por aí que D. Afonso Henriques entrou em Santarém. Destruída em 1865. A porta de Leiria encontrava-se no local da actual capela de Nossa Senhora da Piedade. A porta de Manços, que devia o seu nome a S. Manços, primeiro bispo de Évora, encontrava-se perto da antiga casa da Relação. A porta de Palhais, localizada à entrada da Ribeira de Santarém, desapareceu entre 1838 e 1840. A porta de Valada, por fim, encontrava-se no extremo do lugar de Pereiro. Desapareceu em 1838.
Quanto aos postigos, o de D. Margarida, como era conhecido no século XVIII, na rua Pedro Canavarro. Era também conhecido como postigo de S. Domingos, por dar acesso ao convento desse nome. O postigo das Figueiras ficava do lado da porta de Leiria e devia o seu nome ao chafariz do mesmo nome. O postigo de S. Gens ficava encravado na muralha, em frente da igreja do Milagre. Segundo a tradição, S. Gens andou por ali a pregar o Evangelho. Um outro postigo encontrava-se no bairro de Alfange, entre duas torres fronteiras à igreja de S. João. O postigo do Pão existiu até ao século XVIII, na Ribeira, perto do penedo de Santa Iria. O postigo da Carreira foi destruído algures entre o século XIX e o século XX.
Actualmente, subsistem panos de muralhas da época românica e gótica e, sobretudo, do momento do restauro da Alcáçova levado a cabo durante o reinado de D. Dinis. As portas de acesso de vão em arco quebrado são típicas desse período, enquanto que da época maneirista é o revelim triangular constituído por panos em talude e a guarita cupulada localizada no seu vértice. Em 1896, chegou a pensar-se na demolição do monumento, mas a forte oposição por parte da população evitou que a medida se consumasse.
As ruínas do castelo de Alcanede são imóvel de interesse público desde 1943. Terá sido fundado, muito provavelmente, pelos romanos, sobre um antigo castro, e reconstruído já durante a Idade Média, devido às guerras da Reconquista Cristã. Depois de estar definitivamente na posse dos portugueses, foi completamente reedificado e actualizado.
Durante o reinado de D. Dinis, altura em que passou a ser propriedade da ordem de Avis, fizeram-se as obras mais importantes, das quais avulta a construção da torre de menagem. O terramoto de 1531 provocou a sua destruição e só uma campanha de obras liderada pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, entre 1941 e 1950, permitiu dar novo alento à estrutura, com o levantamento de alguns panos de muralhas derruídos e a reconstrução de torres e alguns espaços interiores.
Em alguns pontos, ainda se podem ver os muros exteriores que antecediam as muralhas. Cubelo de planta elíptica adossado à fachada exterior da torre de menagem, de planta quadrangular, pela qual se tem acesso ao monumento através de porta em arco de volta perfeita. Acima deste, uma cartela heráldica. Na torre de menagem, cubelo e em alguns dos panos de muralhas que ainda restam, podem ver-se merlões rectangulares. Possui ainda adarve e uma cisterna.
Localizadas na encosta de S. Mateus, freguesia de Marvila, atrás do Cine-Teatro Rosa Damasceno, as ruínas da Albergaria de S. Martinho são imóvel de interesse público, por despacho de 6 de Novembro de 1978. Poderão ser ainda, segundo alguns autores, as ruínas de uma capela, provavelmente do século XII. Não se sabe quando foi fundada inicialmente, mas Maria Ângela Beirante vai até ao século II d. C. e ao culto esotérico dedicado a Mitra, ou ao culto de Cibele, que de resto estava associado àquele, para localizar a origem das ruínas.
A sua existência está documentada desde a primeira metade do século XV. Era então um dos hospitais de Santarém que, desde 1426, passaram a estar sob a alçada do Hospital de Jesus Cristo. Um terramoto, em 1531, veio destruir grande parte do edifício original. A reconstrução, por sua vez, alterou completamente a feição quatrocentista que possuía.
As mudanças verificadas nos últimos séculos alteraram completamente a geomorfologia do local. Assim, só é possível ter uma visão mínima de conjunto a partir da Ribeira de Santarém – uma parede, que parece muralha, uns contrafortes, uma porta e uma janela.
Hoje, apresenta no interior um carácter maneirista. A sua planta compre

ende um compartimento circular arruinado, bem como um outro compartimento ao qual se tem acesso a partir da porta de entrada, um corredor e uma sala coberta por uma cúpula. O interior é todo abobadado em tijoleira. Na primeira sala, a abóbada é de caixotões e faz a ligação à sala seguinte. O local onde está a cúpula parece ter sido o centro do edifício. Na frontaria, um portal de ombreiras rusticadas e frontão triangular.
A igreja de Santa Maria de Alcáçova, imóvel de interesse público desde 25 de Junho de 1984, encontra-se no largo fronteiro ao jardim das Portas do Sol, no local em que, segundo alguns autores, terá existido um templo romano. A invocação de Santa Maria, que recebeu desde o início, significou a santificação imediata de um lugar que era pagão.
Foi fundada nos primeiros anos da segunda metade do século XII, provavelmente 1154, depois da conquista da cidade aos mouros. A sua construção deveu-se à iniciativa de D. Anjo Martins, mestre da ordem dos Templários, a crer na inscrição sob a porta principal, e decorreu sob a orientação de D. Frei Pedro Arnaldo, membro daquela ordem e comendador de Santarém. Entre 1157 e 1159, aqui esteve Gualdim Pais, mestre dos Templários, antes de se fixar definitivamente em Tomar. Após a extinção dos Templários, tanto na Europa como em Portugal, foi entregue aos cónegos regrantes de Santo Agostinho.
Em 1192 a igreja da Alcáçova já era uma colegiada composta por vinte cónegos, pelos quais o rei D. Sancho I distribuiu as suas rendas. Entre meados do século XIII e 1834, funcionou como capela real. Foi ainda sede de uma escola que se prolongou até Setecentos e de uma comunidade de clérigos pobres. Os seus priores e cónegos atingiram grande notoriedade nas áreas da teologia, direito, música e letras. Foi, no fim de contas, uma ubérrima colegiada, porque os bens de que foi proprietária atingiram valores altíssimos e chegaram a incluir, entre outras, as igrejas de Santa Cruz, Santa Iria e S. João de Alfange. Os seus privilégios equivaliam aos de uma sé catedral e os do prior ao de um bispo.
Sofreu muitas alterações ao longo dos anos, sobretudo nos séculos XVI, XVII e XVIII, facto que descaracterizou completamente a traça primitiva. A reconstrução do século XVIII foi devida a D. Rodrigo Teles de Menezes, conde de Unhão. A reforma de 1724 foi a mais devastadora. Depois dessa data, da primitiva feição gótica ficaram apenas vestígios nas lápides e nalguns túmulos. Os retábulos laterais de cunho maneirista são os elementos arquitectónicos mais antigos. Tudo o resto insere-se já na reforma setecentista realizada dentro do espírito neoclássico.
Assim, se é verdade que o actual edifício tem uma aparência romântico-oitocentista, também é verdade que os elementos de outras eras que chegaram até nós dão ao conjunto uma unidade espacial de grande valor estético e artístico.
O seu plano de construção obedeceu a uma orientação nascente-poente, embora o tempo e o Homem, mais este do que aquele, se tenha encarregado de colocar a frontaria a sudoeste. Na fachada principal, a já referida lápide em mármore, em caracteres carolinos, recorda a edificação da igreja.
Templo de planta longitudinal, em cruz latina, com três naves separadas por dez colunas revestidas a estuque e com transepto. A nave central é mais alta do que as laterais. Todas elas têm cobertura em madeira apainelada. Arcos de volta perfeita sob colunas toscanas dividem os tramos. Junto ao arco triunfal, as paredes são revestidas por azulejos do século XVIII. Para além do lambril de azulejos setecentistas, com temas marianos alusivos às ladainhas da Virgem, o revestimento interior é em estuque. De resto, a cabeceira tem três capelas, sendo que a do meio é mais profunda e corresponde à capela-mor. Rectangular, é coberta por abóbada de caixotões de cantaria e está ladeada pelos absidíolos. No altar-mor, uma tela de excelente qualidade, da autoria do pintor e escritor Cyrillo Volkmar Machado. Representa o rei D. Afonso Henriques a entregar o eclesiástico de Santarém à ordem dos Templários.
Segundo a tradição, o túmulo adossado à entrada da igreja alberga o corpo de um cristão e de uma moura que se apaixonou por ele. A este propósito, dir-se-á que o património epigráfico do templo é muito valioso. É composto por quarenta lápides, essenciais para reconstituir a história da colegiada, da capela real e da escola. Da sua tumularia, salienta-se o cofre que guarda os restos mortais de Rodrigo Afonso, filho bastardo do rei D. Afonso III.
A igreja de Santa Cruz, em Santa Iria da Ribeira de Santarém, é imóvel de interesse público desde 2 de Maio de1950. Implantada numa plataforma rasgada na encosta, em posição de destaque sobre a Ribeira, estaria concluída em 1280, data em que D. Dinis concedeu o padroado da igreja à colegiada de Santa Maria de Alcáçova. No entanto, a sua fundação deve datar do reinado anterior, o de D. Afonso III, ou até do de D. Sancho II. De acordo com a documentação, já existia em 1261, pois nesse ano já fazia parte do plano anual da pregação dos dominicanos e franciscanos de Santarém.
Foi construída por iniciativa de Lourenço Domingues Minatos, conde estrangeiro radicado em Portugal, e sua nulher, Eiria Afonso Caeira. Terá substituído um outro templo, mais modesto, construído após a Reconquista da cidade, em meados do século XII. Funcionou como sede paroquial até 1851, data em que a paróquia de Santa Cruz foi extinta. Ao longo dos anos, foi objecto de várias remodelações, a maior das quais ocorreu em 1681, com a construção de um novo portal barroco na frontaria, o acrescento de uma torre sineira quadrangular e o alargamento do corpo do edifício para o lado da sacristia.
É a única igreja gótica trecentista da cidade que não está ligada ao patrocínio das ordens religiosas. Segue o modelo das igrejas paroquiais da época, ao mesmo tempo que conserva algumas características do gótico mendicante de Santarém.
O portal gótico, anterior ao da época barroca, é composto por quatro arquivoltas e capitéis florais, de reentrância em gablete e com arcos de ponto subido. A elegância deste elemento é pouco habitual em monumentos do gótico inicial, de carácter tão utilitário como é este.
O interior, plenamente barroco devido às reconstruções de vários séculos, é dividido em três naves relativamente altas, divididas por arcos ogivias, sendo que a nave central é maior do que as laterais. Os tramos dividem-se por arcos quebrados em cantaria. A cobertura é em madeira. Os capitéis das colunas que as dividem têm uma feição arcaizante e aproximam-se daquela que terá sido uma evolução natural das oficinas românticas santarenas.
A capela-mor, com dois tramos, é poligonal, com altas janelas abertas em panos delimitados por contrafortes. É iluminada por cinco janelas góticas. Virada a nascente e com um volume que se salienta do corpo da igreja, é abobadada. O presbitério é amplo e marcado por sinais de modernidade. Junto a uma coluna do lado do Evangelho, um púlpito renascentista em pedra.
A ponte de Alcourse, imóvel de interesse público desde 29 de Setembro de 1977, cruza a vala de Alcourse, no sentido norte/sul, à saída da povoação da Ribeira, no alinhamento com a fonte de Palhais, servindo a estrada para Vale de Figueira. Construída no século XIV, segundo o escudo da vila nela localizado, fez parte da estrada real que ligava Santarém a Coimbra, pela Golegã, Tomar e Pombal. Provavelmente, terá substituído a velha ponte romana que ligava Scallabis a Sellium (Tomar). Ainda hoje faz parte do percurso entre Santarém e Vale de Figueira.
É uma ponte de feição gótica, constituída por um tabuleiro rampeado de um dos seus lados e ladeado por guardas em pedra. Está assente em quatro arcos redondos de volta inteira. No centro da ponte, entre o segundo e o terceiro vão, encontra-se o brasão de D. Afonso III, que contém as armas do concelho e de Portugal, facto que parece
indiciar a divisão das despesas da construção.

Sócrates : o que parece é!

Não é possível alguem ser Primeiro Ministro e ter uma imagem pouco transparente com a verdade. Ou que a população e a sociedade tenha essa percepção, em relação ao caracter de quem exerce funções que têm uma influência decisiva nas nossas vidas.

A actual notícia e factos relacionados com o processo Freeport, Moniz e Moura Guedes não teria a importância que está a ter se outro fosse o Primeiro Ministro. Sócrates tem passado e tem história neste tipo de coisas, suspeitas, casos mal explicados, militantes ou simpatizantes do PS colocados em funções que podem seguir de perto ou mesmo influenciar os processos que têm a ver com o próprio.

Por mais que se negue, a maior força de um governante é estar acima de suspeitas, ser-lhe reconhecida ética pessoal e política, não basta ser sério, é preciso parecê-lo. E em política o que parece é!

Neste caso uma voz incómoda foi calada, e parece que numa altura em que uns documentos sobre o Freeport iam ser publicados. Metem medo a quem para haver esta precipitação? Porque nesta altura calar uma voz incómoda, a vinte e três dias das eleições, parece que é uma decisão motivada por razões políticas.

Quem se apressou a apontar o dedo a Sócrates fê-lo com a legitimidade de quem pensa que o Primeiro Ministro é capaz de fazer isto e mais alguma coisa, que tambem aqui está a ter dificuldade em ter uma relação sádia com a verdade.

Esta questão vem provar que para o cidadão comum prevalece o plano do Estado de Direito, uma pessoa só é culpada depois de um tribunal a considerar como tal, mas para um político tal não é suficiente, há outro plano, o plano político que é essencial à sua eficácia nas funções que exerce.

Uma coisa é certa. Não parece possível termos um Primeiro Ministro que esteja permanentemente sob suspeita!

Luiz Pacheco – Um libertino passeia pela vida – Alguns casos

O caso da quadrilha dos selos

Em Fevereiro de 1959 dera-se o caso do sobretudo – usara, sem autorização do proprietário, um opulento sobretudo do Chefe da Secretaria da Inspecção-Geral de Espectáculos – processo disciplinar e condenação a cinco dias de multa. No final de 1959, Pacheco pede a demissão do seu cargo de fiscal da Inspecção-Geral de Espectáculos. Antes disso houve uma nova bronca – a da falsificação dos selos. Luiz explica: «Um gajo está numa repartição a lidar com requerimentos e selos fiscais de duzentos, trezentos paus, um conto de réis – na altura era muito dinheiro. Ora não se põe um gajo a ganhar seiscentos paus por mês quando lhe passam diariamente pela mão dezenas de contos de réis pela mão sem a mínima fiscalização. Aliás, não era um gajo, eram dez.»
E conta como um filho de família numa atmosfera de corrécios adere a uma quadrilha – um inspector dos mercados, um colega, foi quem teve a luminosa ideia – não havia controlo dos selos que entravam Então eram limpos com lixívia e novamente vendidos. Alguns tinham de ser reformados porque começavam a ficar amarelados. A matéria-prima era abundantíssima. Um deles especializara-se a imitar a assinatura do director. Havia um outro especialista em falsificar passaportes – um novo ramo do negócio, que ia de vento em popa: «Arranja aí um passaporte dos nossos!». «Passa-me aí uns selos dos nossos!» «Aquilo tinha-se tornado uma instituição paralela ao Estado português!», diz Pacheco resumindo a situação. Funcionários com ordenados miseráveis compravam automóveis, tinham amantes, faziam uma vida de ostentação. Pacheco apenas fez duas extravagâncias – comprou uma mota e foi jogar ao Casino Estoril – saiu a ganhar na roleta e nunca mais lá voltou com medo de apanhar o vício (mais um). Mas os membros da quadrilha estavam a desleixar-se. Não havia cuidado. Pacheco apercebeu-se de que, mais tarde ou mais cedo, tudo iria desabar. Foi então que entrou um novo inspector… Damos de novo a palavra ao Luiz: «Até era um gajo giro, e perguntou-me: -“Então como vai isso?” – E eu mandei uns bitaites. Ele ficou fodido: – “Eu não preciso dos seus conselhos para nada, era o que faltava!” – Ora este cabrão! Apanhei o gajo sozinho e disse-lhe: “- O senhor inspector não precisa dos meus conselhos, mas vou dar-lhe alguns». E descreveu por alto o que se passava. «Você também pertence à quadrilha? – Pertenço, mas isto não pode continuar, senão vai tudo parar à cadeia.». O homem começou a ficar roxo, com as veias a inchar. «Ai que este gajo vai-me ter aqui uma congestão e eu fico com a morte dele na consciência», pensa Pacheco. Mas não. O inspector começa de imediato a pôr em prática os conselhos de Pacheco. A mama acaba-se, mas ninguém é preso. O chamado crime perfeito.

Os casos da gravata escocesa e do sobretudo do director

Como já disse, Pacheco trabalhava na Inspecção-Geral de Espectáculos, organismo estatal que fazia parte do dispositivo de repressão, a par do Secretariado Nacional da Informação e da Comissão de Censura, entre outros apêndices institucionais orquestrados pela polícia política e dirigidos pelo parido único. Era, pois, um departamento do Estado com funções repressivas embora actuasse a níveis modestos, inspeccionando salas de espectáculos, teatros e cinemas, zelando porque as directivas superiores, de carácter político e de carácter burocrático, fossem cumpridas. Funcionava no Palácio Foz, onde funcionava também o Secretariado Nacional da Informação. Quando em Abril de 1951morreu o marechal Carmona, presidente da República, foram decretado os regulamentares dias de luto nacional. Aos funcionários públicos era exigido que usassem gravata preta e roupas de tons escuros. Era algo que talvez não estivesse escrito em nenhuma ordem de serviço, mas que toda gente sabia.
Pois Luiz Pacheco apresentou-se ao serviço no dia seguinte ao da morte do marechal com uma gravata colorida, de padrão escocês em cores vermelha e castanha. Tal enormidade foi objecto de movimentações e de indignação a nível das chefias. O caso foi mesmo enviado ao ministro da Presidência! Veja-se o ofício abaixo:
gravata
O Caso do sonâmbulo chupista logo seguido pelo dos «Clandestinos»

Sobre o meio literário, Pacheco disse: «O meio literário é de cortar à faca, mas muito fácil de penetrar. Eu, que nasci em Lisboa, via-os chegar da província, os Namoras, os Amândios César, os Paço d’Arcos, etc. andavam por aí a borbulhar, a deslizar, a ver quem chega primeiro. É como os espermatozóides.» Houvera uma controvérsia lançada por Pacheco que acusou Fernando Namora de ter plagiado no seu romance «Domingo à Tarde», o livro de Vergílio Ferreira «Aparição». «Eu apenas fiz a divulgação da vigarice do Namora… O Namora era um vigarista, o gajo que mais plágios fez em toda a história da literatura», diz numa entrevista a Guilherme Pereira. Em 1972, Namora lança um romance, «Os Clandestinos», editado pelas Publicações Europa-América. Uma tarde, na livraria da editora na Avenida Marquês de Tomar, o editor Francisco Lyon de Castro repara num sujeito, alto, magro, semi-calvo e de óculos que folheia livros com ar interessado. Lyon de Castro aproxima-se e vê que o homem está a ler passagens do recém lançado romance de Namora.
– Gosta dos livros de Namora? – o sujeito faz um gesto passível de ser interpretado como um sim (ou como um não). Tagarela e gabarola Lyon de Castro continua: «- Sabe? Esse livro foi praticamente escrito por mim… » – por detrás das grossas lentes os olhos do cliente abrem-se de espanto «– Ah sim?» Castro não se faz rogado e explica com grande cópia de pormenores como descreveu a Namora as suas aventuras quando, nos anos trinta, fugindo à polícia política, se escapou para França. Namora tomou apontamentos, gravou cassetes, em suma, colheu a história de Lyon de Castro e transformou-a num romance. Foi uma coisa normalíssima, muito comum – os escritores não podem viver as vidas de todas as suas personagens. Porém o exagero de Lyon de Castro sobrevalorizando a história (que nunca foi capaz de escrever) e subestimando o trabalho do escritor que efabulou algo que, de outro modo, ficaria para sempre sepultado na cabeça do editor, e a aversão de Pacheco (pois era ele o cliente) a Namora, transformaram uma coisa normal num escândalo. No dia seguinte o Diário Popular, no seu suplemento cultural, trazia a toda a largura das páginas centrais a afirmação de que Namora roubara a trama do seu novo romance a Lyon de Castro. Resultado – Namora zangou-se com o editor e passou para a Bertrand.

QUADRA DO DIA

Foi um covil de ladrões

Marcinkus e muitos mais

Porventura ainda o é

A avaliar p’los jornais.