O debate sobre o futuro da Linha do Douro

Luís Almeida

A Associação Vale d’Ouro e a Câmara Municipal da Régua vão promover no próximo dia 15 de setembro a partir das 16h30 no Auditório Municipal da Régua um debate sobre a Linha do Douro com o objetivo de colocar na agenda nacional a exploração da ligação transfronteiriça e chamar a atenção para as oportunidades que esse investimento poderá ter na região que contará com a presença do Secretário de Estado das Infraestruturas, Guilherme W. d’Oliveira Martins.
Apesar de diversos estudos elaborados ao longo dos anos confirmarem uma vocação estratégica deste eixo ferroviário para o país e para a península ibérica, no contexto transfronteiriço, a situação da Linha do Douro tem-se vindo a deteriorar e o seu contributo para a economia tem vindo a ser negligenciado. O turismo é hoje uma das fortes vocações desta linha ferroviária mas o potencial deste corredor está muito longe de estar esgotado. [Read more…]

A CP e o colapso programado da linha do Douro

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Carlos Almendra Barca Dalva


Uma nota prévia:
a CP deixou de alugar comboios charter às empresas de turismo e excursões no Douro há vários anos. Razão? – não há comboios disponíveis. Há vários anos.

Outra nota prévia: em 2015, e apesar das condições de exploração sofríveis e da vetustez dos comboios disponíveis, as receitas dos bilhetes cobriram as despesas operacionais na linha do Douro. É um caso raro na Europa ter uma linha de cariz regional a pagar a sua própria operação com as receitas. É mesmo o único caso em Portugal.
Explicando melhor: a linha do Douro é única via férrea que “não dá prejuízo”. A linha de Cascais dá prejuízo, a linha de Sintra dá muito prejuízo, só para termos uma ideia do que estamos falar. A linha do Douro cobriu as despesas operacionais num ano em que a CP já não alugava comboios, num ano em que a CP abdicou de transportar 180.000 passageiros em comboios charter. Teria sido uma média de +500 passageiros/dia a um valor nunca inferior a 10 euros/pessoa.

Basta pedir os números à CP.

Mas vamos à situação actual. 
A linha do Douro tem, desde há muitos anos, cinco comboios diários em cada sentido no entre a Régua e o seu terminus, a estação do Pocinho.
Um grupo de amigos pretendia organizar uma viagem no Douro em Agosto. Feita a pesquisa no site da CP, o grupo verifica que, dos actuais 5 comboios, a partir de 5 de Agosto passariam a ser apenas 3. Portanto, um decréscimo de 40% na oferta de comboios, e isto em plena época alta, a mesma época alta em que a GNR é amiúde chamada às estações do Pinhão e Régua para serenar os ânimos dos “clientes” que não conseguem encontrar lugar nos comboios.

Época alta, corte de 40% nos lugares a partir de 5 de Agosto.
No país “melhor destino turístico”. No Douro, “Património da Humanidade”

Mas tudo isto é premeditado.
Se não, atente-se na correspondência trocada com a empresa. O email de resposta, recebido a 12 de Julho, contém um texto que diz que “existiu actualização de horários a partir de 05 de Agosto”. Ora bem, meus senhores, faltam 3 semanas para as alterações!
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É também digno de embaraço o facto de os horários serem alterados no pico do Verão. Não há memória de tal. Será porque as pessoas estão de férias, as empresas estão encerradas, os políticos estão de férias e, como é Verão, ninguém repara?
O problema, meus senhores, é que no Douro repara-se, e muito.

A amigos meus, a CP assegura que o facto de desaparecerem 2 de 5 comboios em cada sentido no Douro e a partir de 5 de Agosto se deve a um “erro de pesquisa”. Então, o email-modelo recebido, já a contar com esse “erro”, é o quê, meus senhores?
Mentir é feio.
Para contextualizar, é de recordar que a linha do Douro padece da falta de comboios há muitos anos. Há mais de 10, há mais de 15, talvez 20.
É, pois, escusado, andarem a empurrar o problema com a barriga.

Um cemitério chamado Vale do Tua

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[Carlos Almendra Barca Dalva]

Não é de hoje ou de ontem. A oferta do vale do Tua à EDP e ao António Mexia não é coisa que se faça de um dia para o outro. Demora seu tempo. Uma década, coisa menos coisa. Pelo meio, houve tempo para encontrar justificações, as vantagens e lugares-prémio para os judas do costume. A seguir, encontrou-se forma de entregar a exploração turística das águas a um empresário amigo, Mário Ferreira que em breve nos brindará com barcos-churrasco redondos e uma espécie de “comboio turístico” a fazer lembrar a Disneyland de Paris ou mesmo a original, na América. Sobre essa peça de mau humor, dediquei a Mário Ferreira duas cartas abertas. Na primeira delas, aqui no Aventar, surge uma fotografia da “locomotiva” (com altifalantes) que o visionário empresário imaginou para o vale do Tua e o que restar de uma via férrea como não há muitas na Europa. Um brinquedo, portanto. No comentário que lhe fez, Mário Ferreira estava obviamente equivocado.
Mas, claro está, porque os tempos são modernos e interactivos, o afogamento de um vale inteiro pela EDP tem que ser celebrado. Há que celebrar o assassinato que acaba de se cometer, como a querer dizer que tudo isto era inevitável, não havia nada que pudéssemos fazer contra este atentado, com esta parede de 90 metros de altura com vista para o vale vinhateiro do Douro, ainda Património da Humanidade.
Matem o Rei! Viva o Rei!
Vai daí, nasceu o “Centro Interpretativo do Vale do Tua” na estação ferroviária homónima que, diz a CP, “é um espaço que desvenda a riqueza natural e histórica de um território”. A sério?

O Douro Internacional

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Deixem o Tua em Paz!

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Filipe Esperança

Se há assunto que tem vindo constantemente para as luzes da ribalta é o recente (ou não) caso da Vale do Tua.
Mas… por onde começar a relatar toda esta patranha de peripécias?
Pelo início, obviamente. Estávamos no final de 1991, e foi já depois de constantes ameaças de encerramento que a CP, mandatada pelo Governo e por uma constante de encerramentos ferroviários desde 1988, decidiu encerrar o troço da Linha do Tua compreendido entre Mirandela e Macedo de Cavaleiros. Basta uma rápida pesquisa no Google para compreender que este infeliz acaso deixou a última porção do troço (Macedo de Cavaleiros – Bragança) completamente isolada da restante rede, sem ligação ferroviária, e com transbordos rodoviários que eram demorados e pouco articulados. Dias depois, um descarrilamento em Sortes viria a ditar “temporariamente” o fim dos comboios na Linha do Tua, entre Mirandela e Bragança. Temporário ou não, a verdade é que foi preciso esperar pelo dia 14 de Outubro de 1992 para que surgisse uma nova “machadada” nesta importante infraestrutura: pela calada da noite, e durante um forte apagão nas comunicações locais, a CP levava (pela via rodoviária) os comboios e carruagens presentes nas Estações de Bragança e Macedo de Cavaleiros, e sob a justificação de que o material precisava de “manutenção”.
Jamais, em tempo algum, os transmontanos duvidariam da palavra da CP ou dos seus responsáveis… mas a verdade é que o comboio não regressou a Bragança. [Read more…]

Carta aberta a Mário Ferreira

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© Mário Ferreira

Carlos Almendra Barca Dalva

Vamos por partes? Vamos.

Parte um: o Vale do Tua só não está hoje classificado como Património Mundial (como aliás, o Douro Vinhateiro e o vizinho Vale do Côa) por obra e desgraça da barragem de Foz Tua, da EDP e dos muitos autarcas a quem a empresa chinesa tem agraciado com mimos. Uma vergonha, todos sabemos.

Parte dois: no muito pouco que vai restar de uma das mais impressionantes vias férreas da Europa, numa fracção dos seus originais 130 quilómetros vai surgir um projecto de “aproveitamento turístico“. Assumimos que a locomotiva diesel que está a ser construída em Inglaterra seria uma réplica da realidade ferroviária de Portugal ou até mesmo de Espanha ou até mesmo da Europa.
Mas não.
O “comboio” que o Mário Ferreira pretende colocar a circular ao longo de 36 quilómetros é uma “cena” (à falta de outro nome) a imitar o Faroeste americanos, como nos filmes de índios e cowboys, tal e como como nos filmes de Sábado à tarde da nossa infância.
O “comboio”  [foto acima] que o Mário Ferreira pretende colocar a circular numa região de particular beleza natureza é uma cópia do mesmo comboio-zinho que circula em parques temáticos como a Disneyland de Paris. Ora veja.

Parte três: na Europa não há nem nunca houve comboios americanos com o aspecto piroso do brinquedo que o Mário Ferreira tratou já de encomendar em Inglaterra. Ponto final.

Parte quatro: na Europa, a começar por Espanha, há largas dezenas de projectos de “turismo ferroviário”, a funcionar em linhas também com serviço comercial ou em linhas desactivadas e afectas exclusivamente ao turismo.
Sabe disso, com certeza.
Também saberá que, por exemplo, no Chemin de Fer de Provence, França, circula uma locomotiva a vapor que circulou na linha do Tua. Peça original de que Portugal abdicou há anos. O mesmo acontece na Suiça, no Chemin de Fer do Jura. Outra locomotiva ex-Portugal. Aqui mais perto, basta visitar o Museu Vasco do Caminho de Ferro. Outra locomotiva a vapor ex-Portugal. E também uma automotora diesel ex-Portugal.

Parte cinco, e era aqui que queria chegar: não há na Europa um único projecto de turismo ferroviário puxado por um comboio de parque de diversões, tal como o que o Mário Ferreira parece estar apostado em trazer para uma via férrea monumental como é a linha do Tua.
Tenha por isso a garantia, Mário Ferreira, que toda a gente irá, de facto, reparar na nova Disneyland, no seu novo “Mundo de Descobertas“. Com um sorriso nos lábios.

(ou isso ou este é um tremendo golpe publicitário)

Comboio Porto~Madrid

comboio-internacional-barca-alva-fregeneda-1984Trajecto Barca d’Alva-Fuente de San Esteban, 1984. © Alberto García Alvarez

Minho e Douro

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Ferradosa

ferradosa_1974Antiga estação da Ferradosa, 1974, anos antes da barragem da Valeira.
O comboio cruza hoje o rio num outro local.(© desconhecido)

20 de Abril de 1974

foz-do-tejoFronteira ferroviária de Barca d’Alva, Linha do Douro. © George Woods.

As Famosas Laranjas da Pala

laranjas-da-pala-douroLinha do Douro, 2013.

Aplausos para o Benfica

Por ter feito a viagem até Cinfães (ou lá perto) de comboio. Só por isso? Sim, só por isso.

Na Fronteira de Barca d’Alva

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Dia 20 de Abril de 1974 em Barca d’Alva, PK 200 da Linha do Douro; lado a lado, locomotivas da CP e da Renfe.
© Autor desconhecido.

As Laranjas da Linha do Douro

“Pocinho, Tua ou Rua”

Linha do Douro, 2012.

Estação do Pocinho, 1972

Comboios de via larga e via métrica na estação do Pocinho, por Paul Brysn.

“Canção do Desterro”

Pocinho, Tua, rio Douro, linha do Douro

O 6011

Naquele tempo (1987), os comboios do Douro eram os “seis mil”, os do Minho eram os “cinco mil”. No 6011, cujo horário de maquinista acima se apresenta, devo ter viajado uma ou outra vez, umas quantas vezes, as suficientes para saber que o mundo de agora é diferente daquele. Depois vieram os burocratas a vender-nos um futuro prêt-a-porter, grátis, em prestações sem juros e eis-nos chegado ao sopé dos piores anos das nossas vidas. A folha horária, que podia ser de meu pai, encontrei-a aqui. A página seguinte está aqui.

A Linha do Douro em Agosto (2)

Ferroviários d’um comboio a vapor.

A Linha do Douro em Agosto

A Estação de Porto São Bento Entre as Mais Belas

A estação de comboios de São Bento, no Porto, foi considerada uma das 14 mais belas do mundo pela revista norte-americana Travel+Leisure. Os painéis de azulejos azuis e brancos de Jorge Colaço, que enchem as paredes desta estação da Linha do Norte, colocaram o edifício na mesma lista de outras paragens ferroviárias como a neoclássica Gare du Nord, em Paris, ou Atocha, em Madrid.”

Parabéns a quem a sonhou…

 

 

Um País de Artistas

É o que nós somos. Uns incompreendidos

Ambulância Postal

Eu ainda sou do tempo… em que o correio era distribuido por caminho-de-ferro; não terão ainda passado trinta anos – antes das auto-estradas grátis, do petróleo a jorrar no Beato, das Novas Oportunidades e do Simplex – a grande distribuição postal fazia-se ao ritmo do comboio.

Era um ritmo assim-assim, no máximo, em dois dias, uma carta chegava da serra algarvia a Bragança. Agora são precisos três, a menos que queiras pagar correio azul. Aos comboios portugueses, e da Europa também, acoplava-se uma ou duas ou mais carruagens com gente lá dentro, a trabalhar. Os funcionários dos Correios trabalhavam uns de noite (nos comboios mais extensos ao longo das linhas principais) e os outros pela manhã dentro (nos comboios mais curtos).

Nos anos 80, se não depois, o “correio” vindo de Lisboa passava três “Ambulâncias Postais” (assim se chamava este posto dos correios sobre carris) para as costas de uma locomotiva a diesel, uma 1400, e partia, veloz em direcção à Linha do Douro. Era o comboio mais importante do dia e subordinava a si a marcha de todos os restantes… (continua)

Comboio Internacional Porto-Madrid

Entre finais do séc. XIX e meados da década dos Beatles, existiu um comboio regular entre o Porto e Madrid via Linha do Douro (acredito que com interrupções durante as guerras mundiais e a guerra civil de Espanha); esta fotografia terá mais de 100 anos e mostra um desses comboios, descarrilado, na estação de (Caldas de) Moledo, poucos quilómetros a jusante da Régua. Por exemplo, em 1968 o horário em vigor era este.

Estação do Pocinho

Primeiros momentos da década de 70, no actual terminus da Linha do Douro; à esquerda, duas locomotivas de via larga são abastecidas, à direita, dentro da via métrica, a locomotiva da CP E41 prepara-se para outra viagem até Duas Igrejas-Miranda, ao longo de 105 km num Portugal nos confins do Império.

E o Comboio, Pá?…

“CAMARADAS PÁ!

Em jeito de homenagem aos Homens da Luta pá! Os Pantomineiros criaram os PANTOMINEIROS DA LUTA e juntaram-se ao movimento pela reabertura da Linha do Douro do Pocinho à Barca D’Alva pá!”E o Povo pá?! E o Povo pá?! E o Povo pá?! Quer o Comboio nesta linha de novo pá!”

Estação do Tua

Com 64 anos de idade, a locomotiva E112 parte da estação do Tua para uma viagem de 133 km em direcção a Bragança; à direita, a Linha do Douro, na altura ligando ainda o Porto a Salamanca e Madrid em comboio directo com restaurante a bordo.

Natureza by EDP…

A “natureza” no vale do Tua na visão da EDP (com o alto patrocínio dos ministérios da  Cultura e Ambiente, várias autarquias locais e alguns deputedos eleitos por Bragança e outros) e na visão da… Natureza.

Nota: as imagens foram obtidas sensivelmente no mesmo localfoto da esquerda e da direita. Sim, sim, aquele paredão, sim, avista-se, sim, do rio Douro – ainda classificado como Património da Humanidade. Resta saber se a única região turística que tem crescido nos útlimos anos estará disposta a abdicar daquele título. Os seus autarcas estão! As suas populações… também! Os deputedos… também!… os governantes também… ansiosamente!

Eu às voltas

Como era bela e única a Linha do Tua…

Estou às voltas com a infantil e deliciosa inocência dos filhos, a prepará-los para uma noite reparadora que amanhã há trabalho. Silencioso, enquanto faço isto e aquilo, penso que eles têm a sorte de ter um pai que lhes vai poder contar na primeira pessoa o que eram aquelas gargantas, aquele serpenteado que vêem na foto antiga de um comboio que mete medo.

Talvez até se interessem por saber mais sobre aquela água vermelha pútrida que estaciona no colo de uma amarra de betão, enquanto nada por lá acontece. Vou poder contar-lhes, fingindo-me culto, que em Portugal há muitos casos singulares de projectos nunca acabados. Vou-lhes referir a ponte (rodoviária) da Régua, aquela que levaria o comboio a Lamego. Vou-lhes mostrar a foto da ponte seguinte sobre o rio Varosa, uma ponte integralmente construída para ficar de testemunho. Vou-lhes referir que Coimbra teve eléctricos e que também acabou com um comboio que trazia, na época, um milhão de pessoas no vai-vem pendular das gentes de Lousã e que também sucumbiu quando se quis travestir de metro de superfície, e os meus filhos decerto nem entenderão que estou a falar de quase cem anos de diferença, como não quererão enquadrar, na inércia de uma noite de tertúlia, que as linhas estreitas nem nunca chegaram ao seu destino, e, quando já amputadas lhes quiseram dar mais segurança, afinal desligaram as máquinas, deixando-as morrer, não cumprindo uma promessa solene. [Read more…]

Todavia, o Comboio

“Conservar y rehabilitar el ramal de la línea férrea entre La Fuente de San Esteban-Barca d´Alva-Pocinho, como recurso patrimonial, motor cultural y de desarrollo socio-económico que debe ser conservado y transmitido a las generaciones futuras”

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