Carta aberta a Mário Ferreira


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© Mário Ferreira

Carlos Almendra Barca Dalva

Vamos por partes? Vamos.

Parte um: o Vale do Tua só não está hoje classificado como Património Mundial (como aliás, o Douro Vinhateiro e o vizinho Vale do Côa) por obra e desgraça da barragem de Foz Tua, da EDP e dos muitos autarcas a quem a empresa chinesa tem agraciado com mimos. Uma vergonha, todos sabemos.

Parte dois: no muito pouco que vai restar de uma das mais impressionantes vias férreas da Europa, numa fracção dos seus originais 130 quilómetros vai surgir um projecto de “aproveitamento turístico“. Assumimos que a locomotiva diesel que está a ser construída em Inglaterra seria uma réplica da realidade ferroviária de Portugal ou até mesmo de Espanha ou até mesmo da Europa.
Mas não.
O “comboio” que o Mário Ferreira pretende colocar a circular ao longo de 36 quilómetros é uma “cena” (à falta de outro nome) a imitar o Faroeste americanos, como nos filmes de índios e cowboys, tal e como como nos filmes de Sábado à tarde da nossa infância.
O “comboio”  [foto acima] que o Mário Ferreira pretende colocar a circular numa região de particular beleza natureza é uma cópia do mesmo comboio-zinho que circula em parques temáticos como a Disneyland de Paris. Ora veja.

Parte três: na Europa não há nem nunca houve comboios americanos com o aspecto piroso do brinquedo que o Mário Ferreira tratou já de encomendar em Inglaterra. Ponto final.

Parte quatro: na Europa, a começar por Espanha, há largas dezenas de projectos de “turismo ferroviário”, a funcionar em linhas também com serviço comercial ou em linhas desactivadas e afectas exclusivamente ao turismo.
Sabe disso, com certeza.
Também saberá que, por exemplo, no Chemin de Fer de Provence, França, circula uma locomotiva a vapor que circulou na linha do Tua. Peça original de que Portugal abdicou há anos. O mesmo acontece na Suiça, no Chemin de Fer do Jura. Outra locomotiva ex-Portugal. Aqui mais perto, basta visitar o Museu Vasco do Caminho de Ferro. Outra locomotiva a vapor ex-Portugal. E também uma automotora diesel ex-Portugal.

Parte cinco, e era aqui que queria chegar: não há na Europa um único projecto de turismo ferroviário puxado por um comboio de parque de diversões, tal como o que o Mário Ferreira parece estar apostado em trazer para uma via férrea monumental como é a linha do Tua.
Tenha por isso a garantia, Mário Ferreira, que toda a gente irá, de facto, reparar na nova Disneyland, no seu novo “Mundo de Descobertas“. Com um sorriso nos lábios.

(ou isso ou este é um tremendo golpe publicitário)

Comments

  1. Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

    O CCB foi levantado para preservar a imagem de um presidente da República de má memória. Li críticas sobre a sua funcionalidade. Li críticas sobre o seu aspecto e dimensões. Li críticas porque a sala mais importante nem janelas tinha. Li críticas por ser um mastodonte na zona em que se levanta.
    Li críticas ainda sobre as sucessivas derrapagens do orçamento, mas tudo o vento levou…
    Foi levantado e ainda hoje se associa a obra ao referido presidente.
    Portanto, até porque os “bons exemplos” existem para ser copiados, não me admira que um qualquer autarca, modelo ou não, vá na onda da pirosice que se destina, no fundo, a perenizar a sua imagem. Não seriam reconhecidos por nada e portanto, escolheram a via da pirosice.
    Eu não vou discutir a obra de lesa-património que foi a barragem do Tua que meia dúzia de iluminados decidiram fazer. Eles têm, gostemos ou não, o nosso voto e no fundo, serão tão incompetentes nas resoluções como nós na hora de votar.
    O que me espanta e o autor do texto di-lo muito bem é que a nossa memória – nomeadamente a industrial – seja divulgada e utilizada aos quatro ventos pela Europa, enquanto nós copiamos modelos do faroeste ou da Disney.
    A conclusão parece evidente: o inimigo, o verdadeiro inimigo, aquele que nos tolhe, que usa a sua influência para decidir aquilo que quer com base num voto que lhe foi dado, não está fora de Portugal. O nosso verdadeiro inimigo, está bem dentro de portas. E trata-nos como miúdos, o que de facto somos se repararmos que eles foram eleitos com o nosso voto.
    Não é exemplo único, mas parece claro que este autarca português é incapaz de ver as potencialidades do que em tempos existiu em Portugal e que fez história e prova no seu país e se limite a copiar qual puto mal educado, o que por lá fora se vê… e tudo isto à nossa custa.
    No fundo, com o operário português passa-se o mesmo: lá fora é louvado pela sua capacidade de trabalho. Cá dentro é um preguiçoso.
    Temos, de facto, uns gestores de merda sendo esta a grande crise de Portugal.

    • Anónimo says:

      Gestores de merda, promovidos e eleitos por partidos de gatunos.
      Gestores destituídos de amor pátrio.
      Gestores que desconhecem o valor e utilidade dos bens que lhe compete gerir.
      Gestores ignorantes, “novos ricos” à custa do dinheiro do estado, o qual desbaratam, a tentar imitar os “ricos”.

      Mas, já acabou a moda das “rotundas”?
      Arranjem-lhe umas rotundas, para o homem se entreter, e deixar obra feita.

  2. O importante é que visitem o Tua, falem bem ou mal estou todos a falar…
    Gostava que me mostrassem as máquinas a vapor construídas em Portugal.
    Compreendo a necessidade de alguns admiradores de comboios antigos fazerem alguns comentários pouco fundamentados, mas como eu gosto de um bom desafio aqui deixo uma ideia do que vai acontecer:
    Em primeiro lugar a linha do Tua já tinha morrido antes da barragem…
    A sua nova vida estará ligada a um troço de 36 Km, essa parte de linha estará também ligada a um circuito de barco que vai percorrer a zona da linha que ficará submersa, troço Cais da Barragem até Brunheda. Quanto ao comboio, penso que alguns de vocês gostam de viver numa ilusão e fantasia de viajar num comboio a vapor que já raramente funciona, sim aparece na televisão quando o Rei faz anos na linha do Douro, pois quando um turista compra uma viagem a pensar que vai andar no comboio a Vapor tem um desgosto, pois ou está avariado ou os dias estão muito quentes e o comboio pegava pequenos focos de incêndio, resumindo, nos dias de hoje a bela, espetacular e nostálgica tecnologia não é viável no ponto de vista ecológico, conforto, de segurança e Economico, mesmo assim vou salvar duas dessas antigas máquinas, uma irá funcionar, mas sempre com muitos condicionalismos. É verdade que a linha funcionará num modelo de atração turística a baixa velocidade e como se de um parque de atrações se tratasse, pois o obejectivo é termos um comboio que seja ecológico, confortável e possa funcionar todos os dias sem criar transtorno às populações locais e ao meio ambiente atraindo milhares de turistas para a região, salvo raras excepções a maior parte dos comentadores teria dificuldade em apontar para a zona do vale do Tua se um mapa tivessem à sua frente…
    Termino em paz deixando-vos a informação que o turismo do Vale do Tua vai ter o sucesso que nunca teve, mesmo quando por lá apitavam os velhinhos e espetaculares comboios a vapor que tanto aprecio e viagei…

    Fiquem bem

    Mário Ferreira

    • Só 3 comentários:

      1) a linha do Tua foi premeditadamente morta para permitir a barragem;

      2) ainda este verão, durante 5 meses, a CP proporcionou voagens regulares em comboio a vapor no Douro. No pico da época, Agosto, foram efectuadas 3 viagens por semana;

      3) o problema dos incêndios, muito mais conveniente para certos objectivos do que real, hoje é facilmente ultrapassável: em vez da queima de carvão introduz-se um queimador de gasóleo mantendo-se a tracção a vapor. Aliás, foi o que a CP fez na locomotiva 0186.

      • Antonio Santos says:

        Só para dizer que a linha do Tua estaria encerrada, caso não fosse a barragem.
        Basta ver o caso do Tâmega e Corgo, que sempre tiveram melhor rendimento que o Tua e estão encerradas, mesmo sem influencia da EDP.
        Tentem enganar quem quiser, mas a realidade é esta. Ninguém vai do Porto a Mirandela pelo Tua. Os muito poucos passageiros que aquilo tinha eram de e para Mirandela e 90% entre esta e Cachão.
        Bem sei que os críticos que aqui andam, nunca andaram na linha do Tua. Só criticam porque sim. Mas das vezes que andei, o nº de passageiros a chegar ao Tua ou a sair de lá era muito irrisório. Depois somente São Lourenço metia um ou outro. Tralhariz, Tralhão, Castanheiro, Brunheda e Abreiro, sempre zero passageiros.
        Antes de dizerem disparates que não conhecem, informem-se. É só consultarem os nºs dos bilhetes vendidos na linha do Tua.

        • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

          Caro Sr. António Santos.
          Como se refere aos comentadores e eu sou um deles deixe-me tentar explicar-lhe a diferença entre o entrar para um debate para esclarecer e o entrar para um debate para mandar pedras, que é exactamente o que faz.
          Não está em causa o que o Sr. diz. Está em causa o modo como o faz, tratando a torto e a direito os comentadores ao nível de um bando de ignorantes e imbecis.
          O Sr. diz que sabe, mas não sabe nada. Provavelmente (desconheço a sua idade, mas conheço a minha) ainda o Sr. não era nascido e já eu conhecia muito bem a linha do Tua.
          Fale do que conhece. Não lhe fica bem “criticar porque sim”, como acusa outros de fazer.
          Não venha para aqui acusar as pessoas de querem enganar, porque isso, comigo, não pega. Se quiser ponha o nome das pessoas e dirija-se a elas, mas não meta tudo no mesmo saco.
          Estou aqui para dar uma opinião (é um espaço público) e para aprender com as muitas coisas que aqui são escritas, mesmo colaterais como são as que agora envia.
          Esclareço o Sr. António Santos que o post original, não tem nada a ver com as suas informações, embora lhe reconheça o direito de opinar sobre o que entender.
          O post original refere pura e simplesmente a escolha de um meio de tracção de um comboio numa linha turística, que, no mínimo, face à história do nosso Caminho de Ferro e ao bom senso, é altamente discutível. Foi isto que discuti. E se falei na morte da linha do Tua, foi para opinar sobre a miserável classe política que temos que, manifestamente, defende apenas os seus interesses e se esquecem daqueles que os elegeram.
          Fique bem.

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Começo por dizer que aprecio a sua educação, coisa rara entre políticos.
      Não queria concluir que os Franceses e os Suíços que utilizam máquinas, que nós não quisemos aproveitar, sejam estúpidos ao ponto de, perdoe-me parafraseá-lo, ficarem sujeitos a um meio muitas vezes … ” avariado ou os dias estão muito quentes e o comboio pegava pequenos focos de incêndio, resumindo, nos dias de hoje a bela, espetacular e nostálgica tecnologia não é viável no ponto de vista ecológico, conforto, de segurança e Economico”.
      E acho curioso que o Sr. Mário Ferreira toque na ecologia quando no Tua funciona uma barragem que é um atentado à dita ecologia, mais uma machadada política ao ambiente e à preservação da natureza.
      No que toca ao aproveitamento das máquinas antigas e sua reconversão, assinalo que já chegamos a Marte e há mesmo sondas que passaram, há muito, Plutão. A façanha de transformar, em ecológico, um meio de tracção que tradicionalmente o não é, é coisa de pouca monta quando comparada com as realizações do homem.
      Deve ter sido isso que fizeram os franceses e os suíços…
      Tal como nos aconselha a visitar o Tua – região que bem conheço e aprecio – aconselhar-lhe-ia a visitar as regiões da Suíça e do Jura para constatar que são quentes que chegue no Verão. Portanto a sua argumentação, não me parece sustentável.

      De resto o que está em causa – e o artigo é claro – é a escolha do design adoptado para a máquina. O que moverá esta máquina poderia ser muito bem algo que movesse uma das máquinas originais da linha do Tua. E neste tema, por aqui me fico, pois entendo – opinião pessoal – que a opção de “económica”, nada terá e de aspecto e respeito pela história da linha, muito menos.
      Tem razão quando diz que a linha do Tua estava morta antes da barragem.
      Fez parte do processo de “lavagem” de muitas linhas deste Portugal provocando desconforto à pouca população – de uma forma geral de avançada idade – que cada vez está mais isolada.
      Este erro POLÍTICO origina a desertificação do interior e a concentração de pessoas na costa, algo que se ouve comentar como um drama e que nós sentimos em particular.
      Portanto, se mataram a linha Tua, mataram agora o rio. A responsabilidade vai inteirinha para esta classe política que, não contente com o que fez, vão desferir, com a referida barragem, um golpe muito duro na mais velha região demarcada do mundo e provavelmente, pelo que leio, na qualidade de um produto único.
      Outro erro político.
      São estes erros, uns atrás dos outros que me levam a dizer que em Portugal os bons gestores contar-se-ão com os dedos de uma só mão, constituindo a sua ineficiência, o grande mal do País.
      Aceite os meus melhores cumprimentos.
      PS: Já agora deixe-me confidenciar-lhe que tinha 25 anos quando se deu o 25 de Abril. Antes e depois, muitas vezes fiz a linha do Tua e apreciei paisagens verdadeiramente fabulosas.

    • Tiago Silveira says:

      Caro Sr Mario Ferreira,

      Permita-me apenas uma correção a um engano, chamemos-lhe assim, que cometeu.

      A CP tem e operou durante 60 edições do comboio histórico do Douro, uma locomotiva a vapor totalmente operacional. Foi reabilitada com o dinheiro de todos nós mas está aí para dignificar esta região e quem a visita. Prova disso são os resultados que este comboio turistico da CP atingiu pela primeira vez na vida, deixando o prejuízo para trás e gerando lucro.

      Mais, a CP anunciou já a recuperação do comboio historico de Via Estreita, que tem duas locomotivas, uma diesel e uma a vapor, para colocar ao serviço na Linha do vouga. Estas cartuagens, locomotivas podiam muito bem ter sidp reabilitadas por si!

      A isto acresce que Ainda na semana passada a CP anunciou a reabilitaçao das carruagens Schindler iguais a algumas das carruagens que ainda hoje servem comboios turisticos de nível superior na Suiça. Não duvido que será um sucesso para o turismo da região!

      A si deixo-lhe um desafio, já que o mal está feito, encomenda de uma locomotiva parecida com aquelas dos comboios da praia, pelo menos reabilite as carruagens Napolitanas que a CP tem…

      Tenho a certeza de que ficará a ganhar, e os turistas ainda mais!

    • Senhor Mário Ferreira, todo o respeito pelo trabalho que tem feito e parabéns pela iniciativa que está a levar a cabo no Tua.

      No entanto, o problema que se passa é uma falha redonda de design desta peça de atração.

      Primeiro de tudo, uma conversa e uma visita ao Museu Nacional Ferroviário no Entroncamento não lhe faria nenhum mal.
      http://www.fmnf.pt/

      Segundo de tudo, uma conversa e uma visita à EMEF no Porto não lhe faria nenhum mal.
      https://www.emef.pt/

      Terceiro de tudo, uma conversa e uma visita à Autalem/ARMF não lhe faria nenhum mal.
      http://www.autalem.com/
      http://www.armf.net/ca/index.php

      Quarto de tudo, uma conversa e uma visita à DampflokWerk não lhe faria nenhum mal.
      https://www.dampflokwerk.de/

      Quinto de tudo, uma conversa e uma visita à APAC não lhe faria nenhum mal.
      https://www.caminhosdeferro.pt/

      Sexto de tudo, uma conversa e uma visita a um designer industrial português não lhe faria nenhum mal.
      http://www.apdesigners.org.pt/

      E Sétimo de tudo, conjugar tudo aquilo que lhe está disponível, ou algumas das partes, ter-lhe-ia beneficiado bastante o desenho da solução que procura, ainda que se mantivesse a mesma tecnologia e os mesmos propósitos financeiros e económicos. Tinha aqui uma excelente oportunidade de se tornar um exemplo nacional de adaptação do desenho de uma máquina ao seu contexto histórico, cultural e nacional, e acabou de se tornar no pior exemplo.

      Entenda Senhor Mário Ferreira, que aquilo que se passa aqui seria o mesmo se tivesse tido a idea de explorar o negócio dos barcos rabelo no porto com barcos com rodas de pás. Uma coisa não tem NADA a ver com a outra, mesmo que ambas navegam num rio.

    • http://portugalferroviario.net/blog/2016/12/03/investimento-privado-na-linha-do-tua/
      “O investimento privado na linha do Tua”
      Escrito por João Cunha
      ——————————
      Esta semana vagueando pela imensidão do que temos disponível na Internet encontrei o anúncio de Mário Ferreira, o investidor por trás da Douro Azul, sobre o novo comboio para a linha do Tua. A imagem mostra uma locomotiva que pretende evocar a tração a vapor de traços americanos indisfarçáveis. Esperava outra coisa – aliás, para uma locomotiva diesel (suponho que o seja) esperava algo com aspeto de locomotiva diesel.
      A locomotiva que provocou a erupção em muitas caixas de comentários. Foto de Mário Ferreira.
      A locomotiva que provocou a erupção em muitas caixas de comentários. Foto de Mário Ferreira.
      O que me chamou mais à atenção no entanto não foi a particularidade desta escolha estética mas as reações inflamadas de muitos contra a dita locomotiva. De facto, eu assumo que também não acho piada ao dito veículo – mas eu também não tenho de achar piada ao dito veículo. Este é um ponto fundamental quando se fala sobre algo que não é nosso e cujo processo não conhecemos a fundo: ter presente que a nossa opinião pode nem estar fundada nas prerrogativas correctas e que, no limite, também pode nem contar para nada.
      Nada do que aqui foi dito impede uma visão crítica sendo que, como qualquer visão crítica, ela deve na minha óptica estar bem estruturada. O investimento privado na linha do Tua foi sujeito a um concurso internacional que ficou deserto e que foi realizado não só para permitir o aproveitamento turístico do que sobra da linha mas, fundamentalmente, para assegurar uma solução de mobilidade ao longo dos quilómetros que sobram para as populações colocadas junto à mesma. Temos portanto uma prerrogativa: os comboios do Tua devem estar preparados para, ao mesmo tempo, serem capazes de realizar um serviço fiável, de baixo custo e ter alguma atractividade turística.
      Com isto em mente acredito que seja possível pensar em carruagens panorâmicas, perfeitamente aptas aos dois tipos de público, e a locomotivas diesel. Ora, pelos vistos, é exatamente isso que está em causa. A jusante estão as questões estéticas e patrimoniais, questões que me são muito caras e que não desprezo – só acho que não podem ser confundidas.
      A Douro Azul também já comunicou a compra de uma velha e totalmente desfeita locomotiva a vapor que circulou na linha do Tua – a E170 – tendo também anunciado o empréstimo de outra locomotiva a vapor de via estreita, por parte do Museu Nacional Ferroviário. Estas serão as locomotivas fundamentais para a preservação patrimonial e histórica do legado da linha do Tua e, felizmente, o investimento privado garantiu. Podia não ter garantido, mas garantiu.
      O “comboio da Disney” entra por isso na lógica do dia-a-dia. Eu não teria optado por esta locomotiva mas eu nem sequer tenho capital para arriscar numa operação destas e, por isso, nem sequer tive de ponderar prós e contras da opção nomeadamente no que toca a atração de públicos para a oferta turística. Por isso, e como habitual, parece-me que tenho todo o direito de desconsiderar esteticamente a opção e que não tenho direito algum de fazer um juízo de valor relativamente a um investidor que arrisca do seu bolso num modelo de negócio inédito no nosso país e numa zona profundamente ostracizada do nosso território.
      Ao longo dos anos tenho-me sempre batido contra uma visão a preto e branco do mundo. Infelizmente o destino da Linha do Tua não foi tão glorioso como talvez pudesse ter sido. Mas também é verdade que foi muito mais feliz do que o da linha do Corgo, para citar outro exemplo. E no meio da palete de cores de que se tinge o nosso mundo, acredito que a solução já conhecida para a linha do Tua tem certamente tons muito mais vibrantes do que depressivos e, por isso, aguardo com expectativa o lançamento do serviço. Lá estarei para conhecer a nova linha do Tua, visitar o património edificado que teve a sorte de ser preservado e, claro, um dia revisitar as belas locomotivas a vapor de via estreita do nosso país.
      O país precisa é de mais iniciativa da sociedade civil, sejam as escolhas mais ou menos próximas das nossas. Esta crónica parece certamente altamente situacionista mas às vezes é mesmo importante percebermos primeiro o chão que pisamos. Não valerá a pena tolerar uma locomotiva menos fiel à realidade se no pacote estiverem incluídas recuperações de locomotivas abandonadas? Nem de um ponto de vista mais puritano e pragmático entendo esta polémica.
      João Cunha

    • Daniel Conde says:

      Interrompo a minha “licença sabática” sobre matérias ferroviárias para deixar aqui algumas palavras, as primeiras de apreço ao meu amigo Daniel Nogueira, por ter sido o único a lembrar que o Turismo Ferroviário na Linha do Tua já poderia ter acontecido em 2010, quando o meu projecto ficou em 3º lugar num concurso nacional de empreendedorismo, e um Vogal do CA da CP nem me quis receber para se inteirar do mesmo. O mesmo Vogal que anos depois dizia na estação da Régua ter pena de não haver iniciativas privadas no Douro para o Turismo Ferroviário… Desengane-se quem pensar que foi caso único, pois houve iniciativas privadas igualmente goradas no Tâmega (Graham Garnell) e no Corgo (João Morais).
      Não vou tecer comentários sobre a parte turística que há-de vir para o Tua, base desta longa discussão à qual chego atrasado. Quem me conheça sabe que a minha preocupação central foi e continua a ser o transporte regular de passageiros (e mercadorias) na Linha do Tua, e vejo que sobre esta matéria continua a reinar um inquietante silêncio, quase 9 anos depois do acidente da Brunheda.
      A Linha do Tua morre de pé, com toda a pouca dignidade que lhe resta. Mas uma coisa é um serviço deixar de ser necessário, outra é corrompê-lo até ao desastre. Transforme-se a Rede de Expressos numa frota de autocarros urbanos com 40 anos de uso, com poucos e maus horários, a circular em estradas esburacadas, e utilizando paragens sem o mínimo de conforto, e depois vejamos a evolução da procura de passageiros. Penso que a ponte entre este exemplo e os últimos 30 anos de exploração da Linha do Tua é óbvia, mas ainda assim acrescento duas condicionantes que pesaram decisivamente no desempenho do Metro de Mirandela, e que nunca vejo ninguém referir: 1) os horários Tua – Mirandela estavam subordinados a ligações à Linha do Douro, as quais em termos Regionais não interessavam; 2) a frota só permitia o uso de 1 automotora de cada vez, obrigando assim a realizar 1 ou 2 péssimos horários, para cada 1 horário com procura.
      Sim, também vi muitas vezes os comboios na Linha do Tua vazios; mas para além da explicação dada acima, pesa também o dia da semana e a hora do dia. É diferente falar do ruinoso horário de saída de Mirandela das duas da tarde para o Tua (inutilizável por trabalhadores e estudantes, principal grupo de procura de transportes públicos) ou do horário de regresso de Carvalhais para Mirandela às 6 da tarde, onde diversas vezes testemunhei enchentes de 80 a 90 passageiros – seriam necessários 2 autocarros para transportar igual número, multiplicando as despesas com veículos e sua manutenção, combustível e pessoal. Aliás, dos meus anos de faculdade em Lisboa, foram inúmeras as vezes em que viajei, no horário de almoço, entre Entrecampos e Sete Rios (devo frisar o volume médio de passageiros destas estações?) em comboios de 8 carruagens… vazios.
      Disse o Plano de Mobilidade do Vale do Tua, assinado por uma equipa que mede a procura de passageiros com um critério tão inovador quanto contabilizar quem mora a 500 ou a 1000 metros de uma estação, e disse agora a Resolução do Conselho de Ministros de Agosto último, que às populações do Vale do Tua basta um autocarro a substituir o comboio. Foi o mesmo que disseram às populações de entre Mirandela e Bragança em 1992, e em 3 anos dessa pretensamente mais eficiente solução a procura caiu mais de 50 mil passageiros, com os mesmos horários e tarifário do comboio.
      Não bastando o evidente exemplo histórico sobre a atractividade nesta região do autocarro sobre o comboio, ainda há relatos dos passageiros à data – vide “Pare, Escute, Olhe” – sobre o assunto. Mais, recentemente, a procura de passageiros em 2010 – que eu próprio contabilizei a analisei, enquanto Assessor do Metro de Mirandela – que se cifrou em quase 70 mil, teve um número absolutamente incipiente no troço Tua – Cachão, assegurado por táxi.
      Se estes números e testemunhos não chegam, gostaria que quem tão pressurosamente continua a defender autocarros a substituir comboios no Tua me apresentasse os seus cálculos de suporte a tal afirmação. É que eu já calculei e já apresentei números que contrariam totalmente esta tese absurda. Exemplos? Primeiro é preciso mais uma vez olhar para a Linha do Tua pelo que ela PODE ser, e não naquilo em que a deixaram tornar-se: nos horários de 2008 um comboio levava 1:46 para ir do Tua a Mirandela; se a linha tivesse a sua manutenção em ordem, permitindo os seus originais 50 km/h de velocidade máxima admissível (VMA), a viagem levaria 1:18.
      Mas isto é ainda assim demasiado redutor: ao analisar exaustivamente o perfil longitudinal da Linha do Tua, cheguei à conclusão que, do Tua a Mirandela, existe a possibilidade de elevar a VMA para 60 km/h, bastando para tal corrigir o raio de apenas 1 a 3 curvas entre cada paragem, exceptuando Cachão – Frechas e Latadas – Mirandela, que não necessitam de correcções nenhumas para essa VMA. A diferença? Ir do Tua a Mirandela em 1:07. Cingindo-nos a Brunheda – Mirandela, nos horários de 2008 levava-se 1:03 duma estação à outra; 0:46 se a 50 km/h; 0:40 se a 60 km/h. Mas esperem pela melhor parte: um autocarro a percorrer todas as estações da Brunheda a Mirandela demora… segurem-se… isso, 2:00! Vão-me desculpar, mas a parte onde um transporte público demorar mais 1:20 minutos que outro a fazer o mesmo serviço ser melhor, ultrapassa-me completamente. Mesmo um autocarro a ir directo da Brunheda a Mirandela leva 0:41, ainda assim mais lento que um comboio “pára em todas”. E a isto deve-se somar o consumo de um autocarro, contra o consumo de uma automotora como as 9500: consumo semelhante, mas leva o dobro dos passageiros.
      Faltaria ainda falar sobre os transbordos que não interessou assegurar entre o comboio e o autocarro, em pontos-chave como Mirandela (para Valpaços, Chaves, Vinhais), Abreiro (para Vila Flor) e Brunheda (para Carrazeda), ou as inúmeras iniciativas que apresentei à REFER, CP, EMEF, e até à autarquia de Mirandela, que caíram no oblívio: recuperação das estações do Cachão, Frechas, Latadas e Carvalhais (salas de espera, espaços ajardinados, informação turística, exploração comercial), aproveitamento de um vagão RE para as 9500 rebocarem bicicletas e material de desporto de águas bravas, ou o aproveitamento das 9500 paradas na Livração e no Corgo.
      Para concluir esta minha diatribe, tantas vezes repetida ao longo dos últimos anos, e sempre a cair em saco roto, eu olho para a Linha do Tua e vejo o que ela pode ser, com uma gestão minimamente digna desse nome. E garanto-lhes, essa Linha do Tua está nos antípodas daquilo que é agora.
      Um abraço ferroviário;
      DC

  3. Tudo mentira a CP não operou a máquina a vapor nem uma vez por semana em média, quanto mais 3… operou uma coisa chamada de comboio historico que é diferente. Quanto à absurda história de dizer que a linha morreu para ser construída a barragem, é tão ridículo que me fez compreender que não devo continuar a perder o meu Latim por aqui, só lhe falta dizer que a linha mais bela de Portugal entre Pocinho e. Arca D’alva também morreu para construírem outra barragem, tanta demagogia e falta de bom senso, já para não dizer falta de seriedade…

    • Quer provar o que disse em relação à locomotiva a vapor com dados oficiais? Está a chamar mentirosa à empresa pública CP? O chamado “comboio histórico” foi no ano de 2016 operado com a locomotiva a vapor 0186.

      • Que me recorde, apenas falhou um fim de semana por motivo de uma questão técnica que obrigou a máquina a regressar a Contumil para reparação. Questões técnicas contra as quais, obviamente, ninguém está imune!

    • Tiago Silveira says:

      Mário Ferreira,

      Não caia em descrédito p.f.
      Tenho-o em muito boa conta mas estou desiludido consigo.

      Para não estar a ter trabalho a pedir dados oficiais à CP pergunte apenas aos comandantes dos seus barcos se não viram a locomotiva durante todos os Sábados entre 1 de Junho e 31 de Outubro, aos Domingos em Julho e Agosto, às quartas-feiras em Agosto e ainda em mais uma ou outra viagem extra de aluguer charter do comboio histórico do Douro.

      Como é que alguém tão conhecedor do turismo do Douro deixa passar esta ao lado?

  4. Ex. mo Senhor Carlos Almendra Barca Dalva,

    Serve este texto, para rebater o seu primeiro texto, denominado “Carta aberta a Mário Ferreira”.

    Caro Senhor,
    Vi com atenção o seu texto, no entanto devo informar que está
    errado em termos históricos, quando escreve, e transcrevo:

    “(…)
    Disneyland de Paris. Ora veja.
    Parte três: na Europa não há nem nunca houve comboios americanos com o aspecto piroso do brinquedo que o Mário Ferreira tratou já de encomendar em Inglaterra. Ponto final.
    (…)”

    Regresso ao meu texto, o Dr. Mário Ferreira neste assunto tem razão, confirmo em termos históricos, que o “desenho norte americano” funcionou aqui mesmo ao lado, mas também na Finlândia (dados na Wikipedia, que ainda não consegui apurar se são verdadeiros ou não!), no entanto, podemos confirmar que em Espanha, o desenho norte-americano existiu durante muitos anos, aliás, a famosa revista Via Libre até tem este interessante artigo, que anexo:

    http://www.vialibre-ffe.com/noticias.asp?not=11647

    Muito, mais tenho a dizer, mas fica para outras participações.

    Com os melhores cumprimentos

    Pedro Rodrigues Costa

  5. Mário Ferreira, quando teve a visão visionária de iniciar o turismo fluvial no Douro poucos acreditaram. Hoje está provado que tinha visão de futuro. Não se deixe “aburguesar”. Não ceda às soluções fáceis. Depois de já ter um lugar garantido na História do Turismo Fluvial em Portugal, marque também um no Turismo Ferroviário a sério. Seja de novo pioneiro. Rejeite as imitações 😉

  6. Tiago Dilveira says:

    Caro Sr. Mário Ferreira,

    Para quem tem negócios tão importantes no Douro considero no mínimo estranho, para não dizer propositado, que não tenha visto a locomotiva a vapor que a CP restaurou a puxar o comboio histórico durante 5 meses. Tive oportunidade de a ver e viajar em Junho e em Setembro e recordo-me bem dos seus barcos apitarem aempre que a viam!

    Quanto ao seu projecto, gostava, enquanto contribuinte de conhecer o “caderno de encargos”, quais as obrigações, quanto vai receber da fundaçao EDP, da Associação do Vale do Tua, do Turismo de Portugal, do Turismo do Porto e Norte, da CCDR, dos fundos comunitários etc.

    Ou será que qualquer diga ficamos milionários a gerir o comboio da praia da Costa da Caparica?

Trackbacks

  1. […] com dois minutos do seu tempo o empresário da área do Turismo Mário Ferreira, num comentário deixado à carta aberta que ontem lhe dirigi. Li-o com atenção, com muita atenção. E permita-me dizer-lhe: está equivocado em quase tudo […]

  2. […] falada “epopeia vaporosa”, pois, de acordo com o já visto e com a justificação de ser “para ganhar dinheiro”, a Linha do Tua vai receber um comboio de plástico retirado de um misto de sabores: ora sabe a […]

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