Nós, os piegas de Portugal

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Já nem sei como nem porque escrevo. Custa-me tanto mexer os braços! Estou muito bem sentado no meu sofá, cheio de sono e de preguiça. Está-se tão bem sem nada fazer! É evidente que as minhas entradas deixam de existir, acaba o dinheiro e passo fome. Mas, só pensar  que tenho que sair para comprar e me alimentar e assim sobreviver, eleva a pinha preguiça à raiz cúbica.

Se nunca trabalhei nem fui um produtor, para que vou começar agora que o Estado no me alimenta? Se a soberania que nos governa diz que sou uma mente capto, para que pensar mais? Vivo o sonho dos justos no meu confortável sofá. O Governo diz que assim Portugal não avança e a Merkel o apoia. Avançar para que, se os lucros são parar aos bolsos dos governantes? É uma vergonha ter que ganhar a vida. São Tomás de Aquino e São Agostinho de Hipona, Século XIII o primeiro, Século IV o segundo, já defendiam que era a fé é a que nos salva. Talvez pensar num terço ajude ao meu estômago a ficar cheio e continuar a engordar porque se tenho pecado, esse de trabalhar, a Nossa Senhora de Fátima e o seu beato Wojtila ajudar-me-ão a subsistir. Com Fátima em casa, posso despreguiçar-me a vontade, ela faz os milagres de não ter dinheiro para comprar.

Sou um piegas, como dizem os que mandam. Vamo-los satisfazer e continuar a dormir o sonho dos justos, que Roma criou para nós e a Concordata entre o Estado Vaticano e o nosso, nos salva, na base do novo referendo que Durão Barroso apoia.

Dizem que em breve será carnaval y não podemos festejar, dizem que devemos trabalhar e que a Madeira seja salva pelo milagre de Fátima. Não entendo porque no foi dito antes que éramos piegas. Assim a nossa consciência ficava em paz. Não trabalho porque não me apetece  e o PM nos salva com a sua troika. Coitado! Tanto trabalho a fazer! Mas, ajuda-me a ficar calmo e satisfeito, ele trabalha por mim. Que Fátima lhe perdoe a sua febril atividade e esse esquecimento de Lincoln em 1863: o governo é do povo, pelo povo e com o povo. Falhanço de Lincoln, deve pensar quem  avalia-nos como preguiçosos e nos retira o ordenado ou o diminui.

Cansei-me de tanto pensar. Se sou um piegas, para que pensar? O lucro é do governo e a mais-valia também. Ninguém me anima nem dá exemplo do que Adam Smith falou, mais bem, escreveu em 1775: a proclividade do homem ao trabalho. Mas, como sou piegas, nem as palavras de Smith animam-me.

Adeus Torres Vedras, adeus Viana do Castelo. Descansem! Como os seus investigadores Paulo Raposo e Filipe Reis, aos que dedico este texto, pelo seu valor de amigos e investigadores.

Raúl Iturra, o preguiçoso conforme as regras do Primeiro Ministro

lautaro@netcabo.pt

1 pensamento em “Nós, os piegas de Portugal

  1. escreves, porque NÓS precisamos de ler “coisas” destas!

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