i há espaço para um novo jornal diário?

Sempre gostei de jornais. Do desfolhar das folhas, do papel mais ou menos grosso, mais ou menos aguado, da tinta, mais ou menos suja, das letras a saltitar, das fotografias grandes ou pequenas ou mais ou menos, dos filetes, dos desaparecidos linguados, dos títulos, das gordas, das magras, das colunas, das caixas baixas ou altas, de tudo.

Leio jornais desde pequeno, desde o tempo em que as páginas eram todas a preto e branco e cinzento. Desde a altura das enormes páginas do Jornal de Notícias, que eram quase do meu tamanho. Desde o momento em que colocar as mãos no jornal significava sujar os dedos de tinta.

Eram os dias em que o Expressa chegava ao grande Porto, na maior parte das vezes, ao início da tarde. Era a hora da corrida ao quiosque para o comprar. Algumas vezes vinha de mãos a abanar. Já tinha esgotado. Após umas três ou quatro vezes, tomei uma resolução: reservei o jornal. Foi tiro e queda.

Às bancas chegou hoje um novo jornal: i. Elogie-se a coragem. O i terá de algo muito mais do que apenas mais um. Terá de ser um produto diferente e de qualidade para chegar junto do seu público. A tarefa não é fácil.

Hoje, continuo a gostar de jornais, embora, admito, em grande parte a internet ganhe muito mais tempo na minha consulta de notícias e informação. Apesar disso, as folhas continuam a fazer parte do meu dia a dia. Há mais páginas, há mais informação, mais notícias, mas há menos jornalismo, menos reportagem, menos entrevistas de qualidade. Para compensar, há mais e melhor opinião.

Às bancas chegou hoje (à hora a que escrevo ainda não o li ou sequer toquei) um novo jornal: i. Num momento em que alguns reformulam o seu projecto editorial e outros mexem nas redacções e no estilo, em busca da redução de custos ou obtenção de mais leitores, o grupo Sojormedia investe mais de dez milhões de euros num projecto que, disse o director do novo periódico, Martim Avillez Figueiredo, destina-se a ser rentável num prazo de cinco anos.

Elogie-se a coragem. Em período de crise económica, que afecta a angariação de publicidade, numa etapa do nosso mundo em que a comunicação social é um dos sectores que mais pesados desafios enfrenta para se adaptar ao ‘admirável mundo novo’, é preciso bravura para lançar um projecto deste género. Com uma redacção das mais modernas do país, 74 jornalistas e edições de segunda a sábado (não sai ao domingo), o i terá de algo muito mais do que apenas mais um. Terá de ser um produto diferente e de qualidade para chegar junto do seu público. E, desde já, com a missão de mostrar que não é um veículo de estratégia empresarial de um grupo que ganha cada vez mais espaço no nosso país. A tarefa não é fácil.

P.S. O Boston Globe salvou-se. Pelo menos para já. Fico satisfeito por isso.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    “…veículo de estratégia empresarial…” na mouche caro José!


  2. parece que começa mal, porque eu também não o consegui apanhar. estou curioso para lhe dar uma vista de olhos, mas aqui perto de mim não havia em lado nenhum. como têm uma publicidade estranha fico curioso para ver se de facto é diferente


  3. Eu já li o “i”. O embrulho é bonito. O conteúdo? Vou esperar mais uns dias para ter certezas.

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