Lisboa e Porto – e o Alentejo?

Sou lisboeta, filho de lisboetas, e gosto do Porto. Detesto, por isso, patéticas disputas entre gente das duas cidades; muitas vezes, a meu ver, não passam de manifestações de bacoco provincianismo. Contra tais polémicas, assalta-me a vontade gritar que há mais país, para além de Lisboa e Porto. O imenso Alentejo é um exemplo de região merecedora de estar mais presente na discussão pública, e em acertadas decisões políticas. Se outros valores não existissem, a solidariedade e a coesão nacional seriam suficientes para o justificar.

O Alentejo, como outras regiões, pode ser observado e analisado em diferentes perspectivas. Dos quadros da natureza, retiramos as deslumbrantes paisagens de final de tarde, em dias quentes e límpidos. De modo ascético, contemplo a enorme planície, suavemente dourada pelo Sol, e saboreio o estado do nirvana, como serenidade perpétua. Todavia, à natureza contrapõe-se a paisagem humana e esta causa-me sentimentos antagónicos. O deslumbramento e a serenidade cedem o lugar à tristeza e à compaixão.

Percorro vilas e aldeias do Alentejo. O cenário de uma população envelhecida, e abandonada à sua sorte, é comum. As idosas lá se arrastam nas tarefas de casa. Eles sentados no banco corrido, à porta da tasca ou do café, esperam tranquilos que este e outros tempos passem. O retorcido cajado, para alguns, é também inseparável companheiro, de todas as caminhadas, incluindo as do tempo.

O Alentejo teve quase sempre o desprezo do poder central. É uma história antiga, que o poeta João Vasconcelos e Sá satirizou, num jantar de Carnaval de 1934, na presença do Ministro de Agricultura de Salazar, Leovigildo Queimado Franco de Sousa, precisamosdemerda.

Nos tempos recentes, anos atrás, ofereceram-lhe a Barragem do Alqueva, a grande infra-estrutura que iria impulsionar a agricultura alentejana para um enorme desenvolvimento. Submergiram terras, casas e a Aldeia da Luz, cuja réplica foi traçada e construída a preceito, para que o sofrimento dos habitantes ficasse minimizado. Foi garantido que, depois, desfrutariam dos benefícios de uma terra produtiva e próspera. Mas os políticos, de novo, mentiram. Há pouco tempo o ‘Expresso’ noticiou que a nova Aldeia Luz está a ser abandonada pelos mais jovens. A escola, cada vez com menos alunos, corre o risco de encerrar dentro de algum. Ficarão os idosos, como sempre.

É este o ‘novo Alentejo’ prometido e não cumprido. Julgo criminoso usar avultados montantes de dinheiro público para facilitar a construção de ‘resorts’ e campos de golfe, projectos que só a crise fez questão de parar… e não o bom senso dos nossos políticos.

O Alentejo precisa de contratar um Alberto João qualquer. É o meu palpite de hoje.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Alqueva é bela,tem imensa água que muita falta faz, mas não está a cumprir o sonho de gerações. O regadio está atrazado e em seu lugar avançam os campos de golfe.A esperteza saloia habitual!Poderá ter efeitos ambientais ao ponto de interferir com as caracteŕistica organoléticas do vinho da região, o que seria um desastre.Muitos defenderam uma cadeia de médias e pequenas barragens e albufeiras.Mas como sempre o lobby do betão ganhou.não sei se perdemos todos!Mas o Alentejo está a mudar para melhor.Há verde, há campos cultivados,oliveiras,vinho,pomares,gado…

  2. Pergunto-me se o regadio está atrasado ou se não houve a mínima vontade de o concretizar. Pelo que li recentemente, a resposta estará mais aqui.

  3. maria monteiro says:

    Para os lados de Serpa nasceu uma central fotovoltaica em finais do ano passado.O Alentejo está a mudar para melhor é um facto eu também vejo issoMas chega de hipermercados … o que mesmo faz falta às gentes alentejanas é… assistência na saúde e na doença – melhor dizendo apoio social e médico.-*-*-*-*Mas cá em Lisboa temos a Casa do Alentejowww.casadoalentejo.pt (ouvi dizer que estava para breve)

  4. Carlos Fonseca says:

    Maria Monteiro, trabalhei na área da saúde e, um dia destes, poderei abordar a questão de prestação de cuidados às populações alentejanas. Há experiências positivas de que falarei. Mas o grande mérito pertence a um grupo de médicos do Alto Alentejo e muito pouco ao poder central. O Alentejo, globalmente, ainda é muito esquecido pela governação do país. Como diz o José de Freitas, e bem, ainda há uma grande falta de vontade de concretizar. Quanto à Casa do Alentejo em Lisboa, conheço-a bem, desde os bailaricos de estudante.

  5. Também acredito que esteja a mudar para melhor. Mas também já ouvi dizer que 70% do Alentejo já não é português…

  6. Carlos Fonseca says:

    Isac, pela realidade com que contacto, os espanhois detêm uma larga fatia. Mas também há gente de outras nacionalidades: alemães e holandeses, por exemplo. Por sua vez, o Dr. Roquette é um dos inestidores portugueses em ‘resorts’ e campos de golfe.

  7. maria monteiro says:

    Pois então fico agradecida. Quando olho para aquelas gentes que vivem nos sítios e nas aldeias, por vezes a dezenas de Kms do serviço de saúde, com dificuldades em tudo: saúde, transporte, dinheiro,… gera-se assim uma mistura de tristeza e raiva porque entendo que a grande maioria das vezes é mesmo a falta de vontade em concretizar…O que conheço melhor são as zonas abrangidas por Portalegre e Évora.

  8. Luis Moreira says:

    Espanhóis,Alemães e Holandeses que são e querem continuar a ser agricultores, são todos bem vindos.Na terra deles não há terra à venda, porque lá não se largam os campos para se viver no Estoril Agora descobriram que ali no sudoeste Alentejano há as melhoes condições europeias para fazer floricultura e fruticultura.Está cheio de estrangeiros e meia dúzia de portugueses.Ainda bem!

  9. Luis Moreira says:

    Carlos, os bailaricos na Casa do Alentejo, que saudades…

  10. Não concordo nem discordo da venda do Alentejo a não-portugueses. Apenas demonstra uma realidade: os portugueses não querem a terra ou não têm condições para a manter. Não conheço a lógica local para perceber o porquê. Mas será sempre estranho chegar ao Alentejo e ouvir alguém responder em nerlandês ou alemão. Por mim, desde que o que lá se produza por cá fique, está tudo bem.

  11. Luis Moreira says:

    Claro,Isac, a questão é que ser agricultor é uma profissão digna que passa de pais para filhos nesses países, enquanto aqui sempre nos quiseram fazer crer que bom é ser bancário!É por isso que é justo esses profissionais virem para cá e trabalharem a terra que durante décadas esteve abandonada!

  12. maria monteiro says:

    A jornalista tentava iniciar uma entrevista com um alentejano, que minuciosamente estudava o firmamento, debaixo do chaparro.A Jornalista: Aquele monte além dá trigo?O alentejano: Na dá nada…A Jornalista: E dá batata?O alentejano: Na dá batata não…A Jornalista: Então dá centeio?O alentejano: Na dá nada…A Jornalista: E semeando milho?O alentejano: ÁÁÁHHHHHHH, semeando já é outra conversa….!!!!

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