Campanha eleitoral maniqueísta e desemprego

A campanha eleitoral para as europeias, com maior responsabilidade dos chamados partidos do poder – e do proveito, acrescento eu – tem-se nivelado por baixo. PS e PSD agridem-se mutuamente, de forma maniqueísta. Se é Vital Moreira a intervir, é o Bem a expressar as virtudes do PS, em oposição às ignomínias do Mal que o PSD incorpora. Se é Paulo Rangel a pronunciar-se, acontece o inverso: o PSD encarna o Bem, ficando para o PS os horrores do Mal.

Na dianteira da citada caminhada, estes dois homens públicos colocam-se como académicos de prestígio. Ao usar o tom maniqueísta descrito, não se comportam, porém, como pessoas inteligentes. Utilizam uma linguagem inadequada ao estatuto que detêm, lançando para a discussão pública casos e temas que a maioria dos eleitores identifica como um ajuste de contas que, lá mais para diante, se resolverá nos ‘gabinetes do centrão’. Os desafios económicos, sociais e financeiros lançados à Europa, e necessárias soluções, são esquecidos, em vez de constituírem matéria nuclear das agendas de chefes-de-fila de candidatos ao Parlamento Europeu.

No debate das europeias entre PS e PSD acontece, de facto, muito pouca Europa. Em mais de 30 anos de democracia, estes dois partidos, em coligação ou alternadamente, detiveram o poder, em praticamente 100% do tempo, e foram as suas políticas, e os oportunismos individuais permitidos pelos respectivos aparelhos, que se transformaram na rampa de lançamento dos Isaltinos, Loureiros (mais valentes ou quotidianos), Fátimas, Coelhones, Pinas Mouras e tantos outros. PS e PSD não têm de queixar-se ou acusar-se mutuamente, a propósito das europeias ou de outras eleições quaisquer. Ambos petiscaram do mesmo.

Sobre a derradeira tese do Portugal positivo de VM, é bom reconhecer que, ainda hoje, foram divulgadas as estatísticas do desemprego na UE. É indicada uma taxa de desemprego de 9,3% em Portugal em Abril de 2009, contra 7,6% no período homólogo de 2008. A taxa na zona euro foi de 9,2% – Eurostat. Pese embora este panorama, os políticos dos dois maiores partidos entretêm-se com ataques gratuitos, desprezando os superiores interesses do eleitorado, e sobretudo o impacto social que a presente crise está a causar no País. Assim, não parece surpreendente vir a atingir-se uma taxa de abstenção elevada, em simultâneo com a transferência de votos para partidos de esquerda. PS e PSD deveriam reflectir sobre a crise e avaliar como foram funestas as políticas que desenvolveram em 30 anos, em que, além do mais, utilizaram abundantes dinheiros europeus de forma nem sempre racional, e muitas vezes lesiva do interesse público. Porém, recusam a humildade de aprender.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Carlos, e o pior sinal, é que ninguem se mostra capaz de mudar nem deixar mudar-se!Olhe-se para os cartazes do PS. Tudo gente com grande potencial…

  2. Carlos Fonseca says:

    Tudo gente do aparelho e do mais refinado “tachismo”.