António Vitorino aceita voto em branco

Em artigo de hoje no DN, António Vitorino (AV) manifesta abertura ao voto em branco, condenando, em contrapartida, a abstenção. Se a autoria do artigo não fosse de um destacado membro do “establishement” do Partido Socialista, que de forma pública e semanal exprime, na RTP, louvores à governação de José Sócrates, eu acharia estar diante de uma tomada de posição isenta e natural. Porém, é justamente a contradição entre aquilo que AV sempre tem afirmado e o texto que agora escreve que me causa uma grande interrogação.

Efectivamente, parece-me legítimo duvidar tanto da sinceridade da declaração como do estado de alma que leva o ex-comissário europeu, nesta fase, a defender o menor dos males. Imagino que Vitorino prefira intimamente o voto em branco ao voto em qualquer partido adversário do PS nas europeias; e nesta lógica, argumenta: “o voto em branco exprime com maior clareza a vontade de participar, mas a rejeição das alternativas”.

AV, provavelmente, terá motivos para desconfiança nas projecções do socialista e socrático Rui Oliveira e Costa. Eu também desconfio, sobretudo depois de ter sido sistematicamente ludibriado pela Eurosondagem nas presidenciais. Publicitou sempre percentagens muito divergentes dos resultados efectivos de Manuel Alegre e Mário Soares – Oliveira e Costa era apoiante deste último.

A confiança nas pessoas e nas instituições é um sentimento de enorme fragilidade. Uma vez quebrado, é difícil recuperá-lo. E, melhor do que eu, AV disporá de informação conducente a cepticismos. Vamos esperar para ver. Como no desporto, fico-me pela verdade de La Palisse: ‘no fim do jogo, direi o resultado’.

Comments


  1. Apesar das segundas intenções de António Vitorino, tendo a concordar com ele: “o voto em branco exprime com maior clareza a vontade de participar, mas a rejeição das alternativas”. Ou branco ou nulo. Significa uma rejeição dos concorrentes. O eleitor teve a maçada de se deslocar ao posto de voto, não foi preguiçoso, mas preferiu não depositar a sua confiança em ninguém.

  2. Luis Moreira says:

    Até porque a segunda frase é sempre .Com grande abstenção, as elições…

  3. carlos fonseca says:

    José de Freitas, com o que diz também eu concordo. O estranho, neste caso, é um alto e mediático dirigente socialista, indefectível apoiante de Sócrates, mostrar-se tão tolerante com o voto em branco, quando se sabe da sua vontade intíma, até por ter sido um empenhado co-autor do programa do PS, que prevê o referendo ao Tratado de Lisboa, não realizado. Acho que o 1.º parágrafo do meu texto explica basicamente a contradicção que me surpreende.

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