Voto da OEA sobre Cuba revela fragilidade dos EUA na América Latina

A votação unânime realizada nesta quarta-feira na Organização dos Estados Americanos (OEA), revogando a suspensão de 1947 de Cuba da entidade, é uma clara indicação da fragilidade económica e política dos EUA por toda a região.
A decisão da Assembleia Geral da OEA, realizada em San Pedro Sula, Honduras, resultado de 36 horas de controversas discussões, revelou o isolamento diplomático de Washington – agora o único país no hemisfério que não mantém relações diplomáticas com Havana – em face do apoio unânime da América Latina ao fim da suspensão, que dura quase há meio século.
A suspensão de Cuba da OEA e o veto do seu reingresso à organização foram impostas segundo a exigência de Washington. Após a mal-sucedida invasão da CIA à Baía dos Porcos nove meses antes, a administração Kennedy optou por uma política de isolamento a Cuba, incluindo um embargo económico dos EUA que permanece até hoje. Em Janeiro de 1962, a OEA reuniu-se em Punta Del Este, Uruguai, e adotou a medida de suspensão de Cuba da organização, declarando que “a adesão… ao Marxismo-Leninismo é incompatível com o sistema interamericano”.
Washington resistiu em fazer de Cuba o assunto predominante no encontro da OEA, mas de nada adiantou. Na véspera da secção, a administração Obama anunciou que chegou a um acordo com Havana para iniciar o diálogo em alguns assuntos, incluindo terrorismo, tráfico de drogas e serviço de correio. Anteriormente, Obama anunciou uma flexibilização muito limitada das sanções económicas, tornando mais fácil a visita de cubano-americanos a Cuba e o envio de remessas à ilha.
Nas Honduras, a Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, tentou evitar que a OEA aprovasse a resolução que oferecia a Cuba a reentrada na organização, sem impor condições definidas. Em particular, a delegação dos EUA tentou introduzir uma linguagem que amarrasse a proposta ao comprometimento de Cuba com a Carta Democrática Interamericana de 2001, que definiu “democracia” como um “sistema pluralista de partidos políticos”. Invocou documentos prévios da OEA defendendo a inviolabilidade da propriedade privada.
Os membros da OEA com vínculos mais próximos com Havana – Venezuela, Bolívia, Nicarágua e Equador – categoricamente rejeitaram tais condições e, na terça-feira à noite, parecia que a organização se encontrava num impassse. Alguns ministros das relações exteriores latino-americanos advertiram que o fracasso em alcançar um acordo poderia implicar o fim da organização.
Um grupo menor de ministros das relações exteriores – incluindo Clinton – reuniu-se à porta fechada para trabalhar numa linguagem mutuamente aceitável. N final, um acordo foi alcançado, mas somente após a saída de Clinton. Os EUA concordaram com a linguagem um pouco mais ambígua, enquanto os governos de Hugo Chavez, Evo Morales, Daniel Ortega e Rafael Correa concordaram com a inclusão de uma cláusula que acalmaria Washington.
A decisão das duas partes anunciou a revogação da medida anterior que excluía Cuba da OEA, e acrescentou que a readmissão da ilha surgiria de um “processo de diálogo iniciado com a solicitação do governo de Cuba e em conformidade com as práticas, propósitos e princípios da OEA”.
A medida passou, sem oposição.
Os países que defenderam a oferta incondicional para readmitir Cuba interpretaram esta segunda cláusula como meramente processual, indicando que a readmissão de Cuba seria realizada sob as regras existentes da OEA.
A delegação dos EUA, contudo, tentou apresentá-la como uma justificativa a sua solicitação, para que Cuba primeiramente provasse seu compromisso com a democracia, conforme definido nos documentos anteriores da OEA. Clinton, que voou para o Cairo para juntar-se ao presidente Barack Obama, afirmou a vitória com a declaração: “Estou contente que todos tenham concordado que Cuba não pode simplesmente retomar o seu lugar na OEA.»
O Secretário de Estado para a América Latina, Thomas Shannon, um sobrevivente da Administração Bush, também tentou colocar a melhor face na resolução, dizendo à Assembleia que Washington “não estava interessada em travar velhas batalhas ou viver no passado”. Apelidou a medida de “um acto de estadistas”, enquanto insistia que ela defendia “o nosso profundo compromisso com a democracia e os direitos humanos fundamentais de nossos povos”.
Este discurso inflamado, de qualquer modo, não conseguiu esconder o significado essencial do voto da OEA. Ele representou uma contundente derrota para Washington, que vem tentando administrar cuidadosamente um descongelamento parcial de relações com Cuba, ao mesmo tempo em que continua sua campanha pela mudança no regime em Havana.

MNN – Movimento da Negação da Negação
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Comments

  1. maria monteiro says:

    «Ele tem a convicção quase mística de que a maior realização do ser humano é a boa formação da sua consciência e que os estímulos morais, mais do que os materiais, são capazes de mudar o mundo e de influenciar a história. Penso que ele é um dos maiores idealistas dos nossos tempos e que isso talvez possa ser a sua maior virtude, mesmo que para ele tenha sido também a sua maior ameaça.»É assim que Gabriel Garcia Marquez fala de Fidel numa sua fotobiografia. As mudanças de fora para dentro e de dentro para fora são inevitáveis mas o que é capaz de mudar o mundo e de influenciar a história são… o exemplo das pessoas.


  2. O voto da OEA foi uma vitória de Cuba, claro. Mas não sei se se pode considerar uma derrota para os EUA.