Rui Neves da Silva – A Comendadora (III)*

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Hospedando-se no Grande Hotel Batalha, João de Almeida Coutinho contactou, na mesma tarde da sua chegada ao Porto, dois amigos de longa data – um antiquário com galeria aberta na Rua Barão de Forrester e o advogado que habitualmente tratava de todos os seus assuntos de natureza legal. A ideia era convidá-los para jantar e pôr as notícias em dia, pois como confidenciou ao Dr. Avelino Salcedo, em cujo escritório se encontrava, “estava a precisar de um banho de civilização”.

Nessa noite, enquanto saboreavam um Porto velho após uma refeição bem regada por um tinto da região do Douro, o Comendador confessou aos seus dois amigos o sentimento de solidão que experimentava e para o qual não via solução.

– Estou a perder com demasiada rapidez a alegria de viver, meus amigos! – E acrescentou, com voz amargada de tristeza: – Custa-me dizê-lo, mas até a satisfação moral que eu obtinha em ajudar os meus conterrâneos a viver melhor está a ceder lugar a um sentimento de tédio… Que Deus me perdoe, mas começo a ficar farto deste papel de Bom Samaritano!

Os outros dois convivas entreolharam-se. Um homem com a fortuna de João de Almeida Coutinho não podia penar de solidão.

Segismundo Pedrosa, que como antiquário ganhara o hábito de datar tudo, incluindo os estados de alma, levou o cálice do Porto aos lábios e deixou que o líquido rubiginoso lhe humedecesse o palato. Só depois de gastar-lhe o sabor indagou:

– Ó João, desde quando começaste a sentir esse apartamento do mundo?

O interpelado franziu o rosto, como se pensasse em datar o evento com todo o rigor. Mas a razão era outra… Receava que os seus amigos duvidassem da sua saúde mental quando lhes dissesse que tinha sido nessa manhã.

– Então? – Insistiu Segismundo.

Viciado na defesa dos seus interesses, Avelino Salcedo interveio em socorro do Comendador:

– Saber “desde quando” é o que menos importa para o caso, Segismundo. Até podia ter sido esta manhã que…

– Pois foi mesmo esta manhã, meus amigos! Não gostei do homem que vi reflectido no espelho… Morreu-me a mulher há seis anos, e a minha única família – um primo casado e com dois filhos – vive no Brasil. Dediquei-me tanto a cuidar dos outros que acabei por esquecer-me de mim. – Deteve-se por momentos, prosseguindo depois no tom de voz que utilizaria num confessionário: – Vivo como um anacoreta. Deito-me só e quando acordo continuo só. Vivo isolado naquele casarão imenso… apesar de ter ao meu serviço uma velha governanta, uma cozinheira, duas criadas, um jardineiro e um motorista.

Os seus dois interlocutores ouviram-no em silêncio. Quando João Coutinho se calou o antiquário assobiou baixinho. No entanto, foi o advogado que se atreveu a opinar sobre o mal de que padecia o seu cliente e amigo.

– Pesa-te a viuvez, o que é natural! Precisas de uma companheira, de uma esposa… Há mulheres livres, com idade entre os quarenta e os cinquenta anos, que são extremamente interessantes!

Segismundo Pedrosa franziu o sobrolho, agastado com a sugestão do causídico.

– Ó Salcedo, quem vende antiguidades sou eu…! Então isso é conselho que se dê? O João é um homem bem parecido, rico que nem Creso, forte como um touro e respira saúde. Se tem que arranjar alguém que lhe acabe com a solidão, que meta em casa coisa que se veja… uma mulher nova e bonita! E se for prendada, melhor! Não de dote, que o nosso amigo não precisa, mas de qualidades que a recomendem como uma boa companheira até ao fim dos seus dias. – Volveu depois o olhar para o Comendador, que o olhava com expressão indolente enquanto deixava que o fumo do “havano” lhe esbraseasse o rosto: – João, se investires numa mulher assim investes na cura de muitos dos teus actuais problemas. Que, a não tomares uma atitude, vão agravar-se com a passagem dos anos. Vais gastar uns tostões a mantê-la bem ataviada de roupas, jóias e perfumes?! É claro que vais! Mas a boa caridade, meu amigo, começa por casa!

Estavam no Renascença, o restaurante do Grande Hotel do Porto, na Rua de Santa Catarina. O tinto da casa Ferreirinha que acompanhara a refeição e o vinho do Porto Taylor em que confiavam para os ajudar a apreciar melhor as trouxas de robalo com estufado de legumes envolto em pão de azeitona que tinham acabado de deglutir estavam a começar a fazer efeito. Não que estivessem a um passo da embriaguês, longe disso!, mas notava-se já nas faces dos três convivas um certo rubor que indiciava a perda de inibição que o álcool normalmente produz. E, à excepção do interessado, vai de abordarem a solidão do Comendador numa óptica de desejo sexual insatisfeito.

– Bem vistas as coisas, o Pedrosa é capaz de ter razão. Por que hás-de tu de comer galinha velha quando podes arranjar franga tenrinha? Porque ao fim e ao cabo a tua solidão tem a ver com falta de pito…!

Se outros fossem os seus convidados, João de Almeida Coutinho torceria o nariz a este tipo de gracejos, mas àqueles dois perdoava-lhes, pois sabia que por detrás daquelas observações brejeiras havia uma genuína intenção de o fazerem abstrair-se dos seus medos. E resolveu entrar na galhofaria.

– Já vi que vossemecês só querem o meu bem. Mas essa de eu ser forte como um touro, ó Pedrosa, tem que se lhe diga… Estamos a falar de um animal galhudo!

Segismundo Pedrosa engoliu em seco. Ao contrário de Avelino Salcedo, que era um indivíduo que já descansava parte do baixo-ventre em cima das coxas, o antiquário era enxuto de carnes. Mas numa coisa eram parecidos: na expressão manhosa dos olhos.

– Cruzes, canhoto! – protestou o antiquário, benzendo-se três vezes para, dizia ele, afastar o chifrudo. – Essas coisas não se dizem, João! Nem a brincar!

A pança do advogado começou a estremecer, antecipando um risinho malandro, quando recordou:

– Tu é que o aconselhaste a “meter em casa coisa que se veja”! É um risco, amigos! É um risco!

* Rui Neves da Silva é escritor e Revisor Oficial de Contas.

Comments

  1. dalby says:

    Está giro sim sr, sobretudo para um homem que vem da área das contabilidades…

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