José Ferraz Alves – Empreendedorismo Social no Porto (parte II)

Estamos a viver a construção histórica de um novo modelo de gestão social, que recusa a lógica da filantropia, da caridade e do assistencialismo, que mais serviram para aplacar a consciência dos “ajudadores” do que resolver de facto a vida dos “ajudados”, para incorporar uma lógica empreendedora. Este novo modelo busca a inovação de estilo empresarial na solução de problemas e causas sociais, impactando acções que geram, na prática, mais do que na teoria, a emancipação social, a inclusão social e o envolvimento responsável dos cidadãos por meio do stock de capital social e acções voltadas para o desenvolvimento integrado e sustentável. Verifica-se que esse processo surge da constatação do crescimento das organizações do terceiro sector, da diminuição do investimento público na questão social e da participação crescente das empresas no campo social.

Estamos na era dos fundadores do Google, dos que investem em “start-ups” de energia alternativa, como a eSolar e a Makani Power. Nos tempos, como o refere o “The Economist”, da senhora francesa que montou uma empresa para cuidar de crianças cujos pais trabalham até horas tardias. Ou da senhora checa que gere uma linha de apoio para vítimas de violência doméstica. Ou de um líder social, como Barak Obama, que se está a focalizar nas questões climáticas, no empreendedorismo social e nos direitos humanos.

São os tais empreendedores sociais que até agora se viam a si próprios como alternativa ao Governo, mas que hoje querem ser parceiros e intervir nas decisões. O empreendedorismo social é um conceito. Qualquer iniciativa inovadora para ajudar os outros cabe neste conceito. Exemplos:

  • – A distribuição de medicamentos a doentes pode ser um exemplo de empreendedorismo social.
  • – Como pode ser a construção de um centro de saúde numa aldeia onde não exista nenhum serviço de cuidados médicos.
  • – Pode ser produzida alimentação de qualidade para crianças pobres, eliminando os custos da embalagem de luxo e da publicidade.
  • – Ou podem-se comercializar seguros de doença que permitam aos mais necessitados aceder a cuidados médicos.
  • – Ou dedicarem-se à reciclagem dos lixos e águas residuais que poluem um bairro habitado por excluídos sociais.
  • – Ou imaginar-se um negócio que possa ajudar as famílias atiradas para a rua pela crise dos sub-primes.

Neste sentido, e de forma mais específica, o empreendedorismo social pode ser considerado como:

  • – Um novo paradigma de intervenção social, pois apresenta um novo olhar e leitura da relação e integração entre os vários actores e segmentos da sociedade.
  • – Um processo de gestão social, pois apresenta uma cadeia sucessiva e ordenada de acções, que pode ser resumida em três fases: a) concepção da ideia; b) institucionalização e maturação da ideia; c) multiplicação da ideia. É um processo que se quer semelhante ao da metamorfose da lagarta, que entra no casulo e sai borboleta.
  • – Uma arte e uma ciência. Uma arte porque permite a cada empreendedor aplicar as suas habilidades e aptidões e, por que não, seus dons e talentos, sua intuição e sensibilidade na elaboração do processo do empreendedorismo social. Uma ciência porque utiliza meios técnicos e científicos para ler, elaborar/planear e agir sobre e na realidade humana e social.
  • – Uma nova tecnologia social, pois sua capacidade de inovação e de empreender novas estratégias de acção faz com que a sua dinâmica gere outras acções que afectam profundamente o processo de gestão social, já não mais assistencialista e estático, mas empreendedor, emancipador e transformador.
  • – Um indutor de auto-organização social, pois:

    • . Não é uma acção isolada, mas, ao contrário, necessita da articulação e participação da sociedade para se institucionalizar e apresentar resultados que atendam às reais necessidades da população, tendo de ser duradouro e de alto impacto social.
    • . Não é privativo, pois a principal característica e a possível multiplicação da ideia/acção partem de acções locais, mas sua expansão é para o impacto global. Dessa forma, é um sistema dentro de um maior, que é a sociedade, gerando mudanças significativas a partir do processo de interacção, cooperação e stock elevado de capital social.

  • – O processo de empreendedorismo social exige, principalmente, o redesenho de relações entre comunidade, governo e sector privado, que se baseia no modelo de parcerias, tendo como principal objectivo “[…] retirar pessoas da situação de risco social e […] o foco é nos problemas sociais, e o objectivo a ser alcançado é a solução a curto, médio e longo prazos destas questões […] buscando propiciar-lhes plena inclusão social”.

O que motiva? David Green, um dos maiores exemplos de inteligência empreendedora aplicada à criação de modelos financeiros que oferecem tecnologias de saúde de qualidade aos mais pobres do mundo: “Meus motivos são puramente egoístas. Penso que fui colocado na Terra por um período muito breve. Poderia usar os meus talentos para ganhar muito dinheiro, mas onde estaria no final de vida? Prefiro ser lembrado por ter dado uma contribuição significativa para melhorar o mundo para o qual eu vim, a ter ganho milhões”.

Intelectuais, políticos, empresários e pesquisadores sociais apontam distorções, culpam o governo, criticam as políticas públicas e identificam gestores e instituições corruptas, ineficientes e ineficazes. Muito se fala e pouco se faz de concreto e efectivo. Muitas vezes, o que se fala esconde a inércia, o conformismo, a visão banalizada dos problemas, o cepticismo diante das questões sociais. No próximo post, pretendo fazer uma sugestão para o Porto.

Nota: citações de John Elkington, “The Power of Unreasonable People: How Social Entrepreneurs Create Markets and Change the World”