Nos 80 anos do nascimento de José Afonso (VII)

(continuação daqui)
G. Catarina Eufémia


Em Dezembro de 1971 é lançado o álbum Cantigas do Maio, gravado em França, num estúdio situado numa quinta dos arredores de Paris. José Mário Branco, também ele grande cantautor da Resistência antifascista, que, como participante, estava presente na gravação, conta que, a certa altura, lhe disse: «`Vamos a isto Zeca´ `Não tens nada para ir metendo?´, respondeu. Não estava ainda pronto; a alma do Zeca, apercebi-me depois estava toda no Alentejo, nos olhos de Catarina Eufémia. Como tantas vezes lhe acontecia, andava pelo estúdio, de cá para lá, como um jovem leão na sua jaula. Até que, já ao fim da tarde, disse: `Vou lá fora ver as vacas´» (…) «Desapareceu durante uma ou duas horas. Quando voltou já era quase noite: `Vamos gravar a Catarina´. Zeca em metade do estúdio, só e às escuras cantou. Uma só vez. E é essa que está no disco. Nós, privilegiados espectadores, estávamos na central técnica todos a chorar, incluindo o técnico francês. `Acham melhor que cante isto outra vez?´ `Não, Zeca, não. Está muito bem assim».

Acrescente-se que Cantar Alentejano, dedicado à ceifeira do Baleizão, Catarina Eufémia, morta a tiro, em 1959, pelo tenente Carrajola (da GNR), é outra das composições de Zeca que rapidamente se difundem entre a população. Hoje, muitas mulheres portuguesas com mais de 30 anos têm o nome de Catarina e algumas delas talvez nem saibam que assim se chamam por que seus pais ou padrinhos quiseram homenagear Zeca e a ceifeira assassinada.

Neste ano de 1971 é, pela terceira vez consecutiva, distinguido com o prémio da Casa da Imprensa. Em 1972, no meio de grande polémica, é eleito por votação dos leitores do Diário de Lisboa, como «Rei da Rádio». Intelectualmente, o concurso estava mais do que desprestigiado, pois a eleição contemplara nos anos anteriores cantores ligados ao chamado «nacional-cançonetismo». Por isso, participa no Festival Internacional da Canção Popular do Rio de Janeiro. Grava em Madrid, com a colaboração do cantor galego Benedicto e dos Aguaviva de Manolo Díaz, Eu Vou Ser Como a Toupeira. É publicado pela editora Paisagem o livro José Afonso. Em Abril de 1973 é detido pela PIDE/DGS: «Bateram à porta» (…) o meu filho Zé Manel foi abrir. O inspector apresentou-lhe o «crachat» da polícia e ele voltou-se displicentemente para a sala a dizer ‘oh pai é a prestimosa’. Fica 20 dias encarcerado na prisão de Caxias. Aproveita, na solidão da cela, para escrever Era Um Redondo Vocábulo. Em Dezembro sai o álbum Venham Mais Cinco, que grava em Paris, sempre com a colaboração de José Mário Branco.

Comments


  1. […] daqui) GRÂNDOLA, SENHA DE ARRANQUE PARA A […]


  2. “O músico poeta”Quando passam 80 anos sobre o nascimento do músico José Afonso, é bom relembrar às actuais gerações quem foi o genial poeta que renovou o conceito de música popular portuguesa.Mais do que um mero activista de esquerda, lutou pelos oprimidos com total desprendimento material. Era um homem simples, dispensava a formalidade do traje académico e o estatuto de vedeta. Adorava o contacto com a natureza, e acima de tudo, o conceito de liberdade, pois só assim se pode explicar a sua não filiação em partidos políticos e a consequente imposição de amarras ideológicas.Nunca esqueceu o grande amor da sua vida – Coimbra. Foi detido várias vezes e impedido de praticar a docência só porque manifestava a sua opinião crítica. Mas como disse o Zeca, “não me arrependo nada do que fiz”.

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