Santarém, Capital do Gótico (XI)

(primeira parte e explicação do «bodo aos pobres» aqui)

SANTARÉM E O 25 DE ABRIL: DAQUI PARTIU A REVOLUÇÃO

Santarém foi palco de dois acontecimentos importantíssimos na história do Portugal da segunda metade do século XX. Em 1958, a candidatura de Humberto Delgado à presidência da República, que abalou os alicerces do regime ditatorial de Salazar, teve um momento alto na cidade, aquando da presença do General Sem Medo, em plena campanha eleitoral, e durante os comícios que se seguiram.
Em 1974, o 25 de Abril culmina um processo marcado por longos anos de esperanças sem efeito. Tudo aquilo que se esboçara em 1958, mas sem sucesso, tinha agora efectiva concretização. De Santarém partiu a revolução, no dia em que o capitão Salgueiro Maia liderou os seus homens em direcção a Lisboa. O dia de todos os sonhos foi com toda a certeza o mais belo de quantos se viveram em Portugal na centúria ora terminada. Não terá oportunidade de exercer a cidadania plena quem não viveu aquele dia. E Santarém pode estar agradecido, ao seu herói, por ter colocado a cidade na história dos anos de Vinte.
Logo nos inícios do século, o prenúncio do que viria a acontecer. Por ter sido sede do movimento revolucionário contra Sidónio Pais, a partir de Janeiro de 1919, Santarém foi contemplada com o título de Oficial da Ordem de Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérito. No mesmo dia, a par de Santarém, Porto, Coimbra, Évora e Bragança receberam o mesmo título, enquanto que Alcobaça e Caldas da Rainha, por serem apenas vila, foram condecoradas com o grau de cavaleiros da Torre e Espada.

«Obviamente, demito-o!»

A notícia da passagem de Humberto Delgado por Santarém, em 1958, na campanha para a presidência da República, rapidamente se espalhou por toda a região – folhetos clandestinos, autocolantes e mensagens boca a boca comunicavam a todos a presença do General Sem Medo.
O dia histórico aconteceu em 30 de Maio. Pelas onze horas da manhã, já uma multidão convergia para o largo do Seminário. Nem uma palavra, porque as paredes tinham ouvidos; alguns olhares furtivos, que a PIDE estava em todo o lado; sorrisos cúmplices, porque o fim do regime estava aí, à distância de um voto.
Uma fantochada, essas eleições. Sabia-se que não seria de outra forma, mas havia a tal oportunidade. A «luz ao fundo do túnel», frase feita mas RETOMAda em todas as ocasiões. As palavras do General, ditas sem medo, a ressoar em esperançosos ouvidos: «Obviamente, demito-o!»
Obviamente, não iria demiti-lo, porque não lhe iria ser dada a oportunidade para tal. Ganhou as eleições, mas ganhando-as, perdeu-as. Como sempre, o candidato do regime venceu, a «paz podre» do Estado Novo continuou e as sombras, ao virar de uma esquina, por trás de uma parede, dentro da própria empresa, ali se mantiveram. Silenciosas como sempre, traidoras, traiçoeiras, inquietantes.
Pouco depois do meio-dia, chega Humberto Delgado junto à igreja da Piedade. Quando alcança a estátua de Sá da Bandeira, diz: «Saúdo este Homem, também ele amante da liberdade, que sempre lutou pela liberdade, e merece toda a nossa admiração». Esfusiante, o povo aplaudiu. Sempre, todos os dias e até ao fim da campanha. Em Santarém, no Porto (se calhar o maior ajuntamento de pessoas antes do 25 de Abril) e em todos os lugares por onde o General passou.
«Uma estrondosa salva de palmas ecoou então subitamente. A esperança renascera em todos os corações. Havia lágrimas em alguns olhos. Era já difícil calar o entusiasmo de uma população galvanizada pela presença do General, que com a sua coragem fez abalar os alicerces já um tanto apodrecidos do velho regime. Martinho do Rosário que, como eu, presenciou este grandioso evento, dirá: «Para Santarém, o dia 30 de Maio de 1958 e o dia 25 de Abril de 1974 são dois marcos imperecíveis no arranque para a consolidação da democracia». Este terá sido um dos momentos mais inesquecíveis de entre os vários que ocupam lugar de destaque na minha memória. Passaram quarenta anos sobre este acontecimento… e não saberei mesmo como relacionar a presença furtiva de Rosa Casaco, alguns anos depois, numa das ruas de Santarém, com os acontecimentos que levaram ao homicídio covarde e monstruoso do General, em 1965.» (Luís Eugénio Ferreira)
Quatro dias depois da presença do General em Santarém, a 4 de Junho, no teatro Rosa Damasceno, uma espécie de comício eleitoral propagandeava as virtudes da candidatura de Humberto Delgado. Fachada «para inglês ver», que é como quem diz, para a opinião pública internacional. À porta, dois agentes da PIDE tomavam nota de quem entrava.
Chegadas as eleições, Américo Tomás vence com mais de 75% dos votos. Oficialmente, Humberto Delgado tem apenas 23%, o que nos faz pensar que, sem fraudes nem as «manigâncias» de que tanto se falou na época, as posições dos candidatos teriam sido exactamente inversas.
Em Santarém, por exemplo, Delgado venceu em todas as vilas significativas, em certos casos por percentagens esmagadoras. O mesmo aconteceu em grande parte do distrito. Alpiarça é o caso extremo, onde Delgado obteve 83 por cento dos votos contra 17 por cento para Tomás. Em Almeirim as percentagens foram, respectivamente, 77,9 contra 22,1 a favor de Delgado e em Alcanena não estiveram longe: 72,4 por cento contra 27,6. Mesmo em Rio Maior, onde o equilíbrio foi maior, Delgado venceu por 51,2 contra 48,8 por cento.
Depois dos dias quentes de 58, pouco coisa mudou em Portugal. Veio a Guerra Colonial, chegou finalmente a morte de Salazar, faltava agora acabar com o bacoco regime. Só com a força das armas é que tal seria possível. E foi aí, a 25 de Abril de 1974, que Santarém entrou de novo em acção.

Sementes de revolta

O velho teatro Taborda, que abrira ao público nos anos 40, foi um dos espaços que funcionou, em Santarém, como local de movimentações políticas e de revoltas contra o regime do Estado Novo.
Assim aconteceu desde a década de 60, mas há muito que se tinha tornado num importante centro cultural da cidade. Aí estivera sedeado o Clube Literário Guilherme de Azevedo, que promovia conferências e exposições e albergava no seu seio o Coral Infantil Scalabitano e o Grupo Coral Infantil. Aí esteve também, mais tarde, o Círculo Cultural Scalabitano, que tinha como figura de proa Ginestal Machado.
Nos anos 60, como já se disse, passou a funcionar como centro dos opositores ao regime. Adriano Correia de Oliveira e Carlos Paredes, ambos já desaparecidos, eram dois dos nomes que actuavam na sala com a sua música de intervenção, que lentamente ia abalando as estruturas do Estado Novo e as convicções de quem ainda acreditava naquele estado de coisas.
Os cafés também eram espaços onde as sementes de revolta germinavam. O «Quinzena», o «Portugal», o «Brasileira» ou o inevitável «Central». Neste, a reunião dos democratas era mais ou menos declarada, embora sempre com mil cuidados, pois o mínimo pretexto poderia servir os intentos da PIDE. Ali se passaram episódios mais ou menos importantes, que invariavelmente tinham como protagonistas advogados ou funcionários conotados com a oposição. Mas como o café também era poiso de autarcas e abastados membros da sociedade, uns acabam por vigiar os outros e, por isso mesmo, o recinto acabava por servir apenas como ponto de encontro para outras aventuras.
«Nessa tarde, ao entrar no «Central», deparei com dois indivíduos com aspecto de jornalistas, ponto de vista apoiado pela presença de algumas câmaras fotográficas colocadas a seu lado. Pensei: «Aí estão os jornalistas que se encontrarão com Eurico Ferreira. Naturalmente dirigi-me a eles e perguntei: Os senhores são os enviado
s
do «Le Monde» que vêm encontrar-se com o Dr. Eurico Ferreira?
Não me deixaram terminar a pergunta, nem começar outra. Um deles respondeu-nos com um certo enfado.
– Como sabe o senhor que somos jornalistas, ou com quem vamos encontrar-nos?
Achei inútil prosseguirmos o diálogo, que nem sequer se chegou a estabelecer. Concluindo que nada mais tiraria deles, despedi-me, desejando-lhes uma boa viagem. Ao fim da tarde, pelas 19.30 horas, compareci em casa do Dr. Eurico Ferreira que na circunstância me apresentou os aguardados dois jornalistas franceses, que não exactamente por mera coincidência, eram mesmo os dois referidos senhores que eu encontrara horas antes no café Central. Rimo-nos do facto, não sem me explicarem que acabavam de chegar de visita a algumas ditaduras da América do Sul, estando por isso familiarizados com os procedimentos policiais seguidos nesses regimes, em que todo o cuidado era exigido da sua parte. Portugal era então reconhecidamente uma república das bananas. Em Santarém, entrevistariam o bispo residente, o governador civil e por fim, o comandante da Escola Prática, só não lhes tendo sido possível antever que seria daquele quartel que alguns anos mais tarde iria nascer o 25 de Abril e renascer Portugal para o futuro.» (Luís Eugénio Ferreira)

Comments

  1. dalby-o-calmo says:

    AINDA VOU FAZER MAL DE MIM, AINDA VOU ESTRAGAR A MINHA VIDA, AINDA VOU FICAR COM UM NOVO CAMINHAR NA PRISA MAS EU CALO-O AI Eu CALO-O PARA SEMPREEEEE……. ELE ESTÁ A PERDER-ME O MEDO MAS EU VOU-ME DESGRAÇAR….!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! ele vai manjar os capítulos todos mas no túmulo! VOCÊS NÃO ME DIGAM QUE ELE AINDA VAI NO 25 DE ABRIL?? QUE AINDA FALTAM CENTENAS DE GÓTICOS?? AI EU VOU FAZER ALGO ALGO MAU MEAN MEAN MEAN

  2. Ricardo Santos Pinto says:

    O gótico? Ainda nem comecei. Isto é só uma introdução à arte gótica propriamente dita.

  3. dalby-o-calmo says:

    não não por favor povo ajudem-me au secours SOCORROOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO

  4. Luis Moreira says:

    Ricardo, o amigo dalby não é uma espécie de “arco transversal gótico” ?

  5. dalby-o-calmo says:

    Cala-te Luís que o arco dou-te eu!!!!