O circo voador

Escrevo-vos sob o retumbar dos motores. Abrigada da fúria das máquinas que cortam os ares. Daqui até lá em baixo, ao rio, vão descendo os últimos mirones, os que se deixaram atrasar pelo almoço de domingo, e sabem que já não vão encontrar um lugar decente, mas nem por isso se desanimam. De nariz no ar, com os bonés recebidos hoje ou na corrida dos pais natais ou na maratona dos homens com unhas encravadas, aqui estamos a apontar para filhos ou netos a pirueta do avião. Cabe explicar que eu vivo numa cidade que perdeu a esperança de se reassumir como pólo de criação. Vivo numa cidade em que a atribuição de subsídios aos agentes culturais depende da assinatura de uma declaração de compromisso de não fazer comentários críticos a respeito do autarca e da sua gestão. Vivo numa cidade que entregou uma das principais salas de espectáculo – que já foi um dos eixos de uma política de apoio à criação artística – a um senhor produtor que se dedica à reciclagem de espectáculos serôdios, sem deixar espaço a novos criadores ou à experimentação. Vivo numa cidade governada por quem vê os artistas como uma panda de piolhosos, maltrapilhos, sempre ávidos de surripiar mais um subsídio que lhes mate a fome.

Essa gente que produz coisas incompreensíveis para os burocratas, coisas que não possuem, nem de longe, a espectacularidade do rugido dos motores dos aviões, e que ainda para mais não dão lucro. E esmagar essa corja, reduzi-los ao nada a que pertencem, é um serviço que um autarca presta à cidade. E é por isso que esta tarde os aviões nos sobrevoam. Os espectáculos no Rivoli custam dinheiro, mas restam-nos os aviões, esse embriagador circo aéreo, que vem lembrar que quando não há cultura servem-nos espectáculo. E que com pão e circo nos entretemos.

Comments


  1. Tem razão, Carla. Deve ser aos espectáculo dos aviões que a autarquia de que fala chama política cultural (de massas?).

  2. Adão Cruz says:

    Apesar de ser um fã de aviões, e de lá ter estado de nariz no ar, dou inteira razão à Carla Romualdo. Os aviões não têm culpa. Sobem até onde devem subir. Culpa tem quem não enxerga nem de longe nem de perto que há formas de um povo voar bem mais alto do que nos aviões.

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