Uma esposa na volta do correio

“Histórias Verdadeiras de Noivas por Correspondência na Fronteira” (“Hearts West: True Stores of Mail-Order Brides on the Frontier”) é o título de um livro lançado em 2005, nos Estados  Unidos, da autoria de Chris Enss. Não o li, nem sequer estive com ele nas mãos, mas descobri-o por acaso na internet e fiquei com vontade de encomendá-lo.  Acontece que estou numa cura de desintoxicação da compra compulsiva de livros, pelo que terei de limitar-me a imaginá-lo. A resenha que li interessou-me: histórias reais de casamentos acordados por correspondência no velho Oeste americano. E, ao que parece, há lá de tudo: casamentos felizes que duraram décadas e desilusões que levaram a moça a regressar ao fim de uma hora com o seu prometido. Imaginem-se, caros leitores masculinos, algures no selvagem Oeste, garimpeiros sujos e solitários, à espera do golpe de sorte que vos vai fazer descobrir o Eldorado. Quando regressam para o vosso pardieiro, já noite escura, encontram quatro paredes frias e manchadas pelo fumo do tabaco, uma caçarola suja, ainda com a crosta da refeição anterior, uma cama gelada na qual nem as ceroulas de lã vos impedirão de tiritar.  E para quê tanto esforço árduo se, ainda que venham a fazer fortuna, não terão com quem partilhá-la? Que fariam, amigos leitores, num cenário destes?

Sentavam-se à luz de um coto de vela e garatujavam um anúncio. “Mineiro solitário e honesto, com boas perspectivas, procura esposa para partilhar fortuna”. E depois era esperar pelas respostas e concertar os encontros que poderiam mudar a vossa vida para sempre. E com a chegada das noivas por correspondência, as cidades enlameadas do Oeste começaram, pouco a pouco, a mudar. Para além dos bares e dos bordéis que já existiam (ninguém disse que não havia mulheres por lá, apenas faltavam “esposas”), construíram-se casas familiares, escolas, teatros, bibliotecas, lojas, igrejas. A civilização, tal como a conhecemos. Para a maioria, o El Dorado nunca apareceu mas a vida dos garimpeiros adoçou-se bastante. Tal método de casamento parece irracional à luz dos nossos valores actuais? Desumano? Um acordo comercial despojado de romantismo? Meus amigos, se dizem isso é porque não assistiram a um divórcio feio. Aposto que nenhum dos casamentos feitos naquelas circunstâncias e que tenha acabado mal teve um final tão feio como os casamentos em que a paixão deu lugar ao ódio. Aqueles em que as pessoas sabem demasiado bem o que fazer e dizer para magoar o outro e não se inibem de fazê-lo até à saciedade. Leio regularmente e com o maior dos interesses a secção dos classificados de jornal normalmente designada como “Outros” e na qual cabem coisas tão díspares como a venda de uma autogrua de lança telescópica ou o anúncio do homem de ciência que procura um sócio capitalista para desenvolver uma tecnologia de leitura das auras que permitirá saber o que aconteceu naquela fatídica noite na Praia da Luz e para onde foi parar a caixa negra do avião da Air France (isto é autêntico, foi publicado no JN há umas duas semanas). É nessas páginas que normalmente se publicam os anúncios que levam por título “Cavalheiro”, e nos quais os ditos cavalheiros, habitualmente maiores de 60 anos e quase invariavelmente “com situação económica estável” procuram senhoras de idade semelhante, sem vícios nem compromissos, para relação séria. São os nossos garimpeiros de hoje, estes a quem talvez as paixões já tenham oferecido uns quantos fracassos amorosos, e que se  resignaram a confiar no acaso,  e a esperar a esposa que lhes toque na rifa e venha, com mão suave e decidida, bater-lhes à porta de solitários empedernidos.

Comments


  1. Sr. Carlos Loures,Obrigada.Li Fetter

  2. Adão Cruz says:

    Muito bem contado Carla, e uma boa machadada nessa coisa a que chamam CASAMENTO, esse mais que podre e institucionalizado acto premonitório de tanta desgraça e sofrimento.

  3. carla romualdo says:

    Obrigada, Adão. Isso é que uma visão negra do casamento, hem?

  4. maria monteiro says:

    o filme “sete noivas para sete irmãos” refere o trágico, o cómico, o romântico duma época onde se vivia no meio do nada… isto de arranjar noivas para seis irmãos era tarefa complicada… só mesmo raptando

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