A máquina do tempo: ainda a palavra – no princípio era o trabalho

Hoje, não vou estar com meias medidas: vamos fazer uma viagem de algumas centenas de milhares de anos. Vamos até aos alvores do Paleolítico inferior. Abordando o interessante tema da origem e evolução da poesia, o filósofo e antropólogo britânico George Derwent Thomson (1903-1987), publicou em 1945 um estudo a que deu o título de «Marxism and Poetry» (com uma edição portuguesa, da Teorema, em 1977 – «Marxismo e Poesia»). O ensaio analisa a questão de uma óptica onde se integram a sociologia, a antropologia e a linguística. Baseia-se, principalmente, em estudos de campo feitos pelo autor e na recolha de testemunhos de sociedades primitivas, já que a poesia produzida por esse tipo de sociedades não pode ser estudada em espécimes escritos; a sua natureza oral antecede em muitos milhares de anos a escrita e o conceito de literatura. Como Thomson diz, a poesia representa um tipo especial de palavra – se queremos estudar a sua origem, temos de a procurar na origem da palavra e isto, em última análise, significa estudar a origem do homem, pois a palavra constitui um dos traços distintivos mais importantes do homem.

Na realidade, ainda que o aparecimento do homem não esteja cabalmente explicado e localizado no tempo, há um ponto em que os investigadores estão de acordo – o homem diferencia-se dos outros primatas através de duas características principais: pelo uso sistemático de utensílios especializados e pela palavra. De uma forma mais geral, os primatas diferem dos vertebrados inferiores por serem capazes de permanecer de pé e de usar as extremidades anteriores como mãos.

Ter-se-ão desenvolvido e evolucionado a partir de condições particulares do meio e que determinaram um progressivo aperfeiçoamento da região do cérebro que comanda os órgãos motores. Animais florestais, a vida nas árvores, exigiu-lhes agilidade, rigorosa coordenação da vista e do tacto (visão binocular e um delicado controlo muscular). Desenvolvidas as mãos, elas colocaram ao cérebro uma gama de novos problemas, recebendo em troca um mundo de novas possibilidades. Desde a origem, portanto, existiu sempre uma total ligação entre a mão e o cérebro.

Por seu turno, o homem difere dos outros primatas evoluídos, por conseguir não só colocar-se de pé, mas andar erecto, usando só os membros inferiores. Há quem defenda que esta aptidão se desenvolveu em consequência de um despovoamento arborícola que o forçou a instalar-se no solo. Seja isto verdade ou não, o importante é ele ter operado uma completa divisão, uma especialização, entre as funções das mãos e as dos pés. Os dedos grandes dos pés perderam a preensabilidade; os dedos das mãos atingiram um elevado grau de destreza, desconhecida entre os demais primatas superiores – gorilas e chimpanzés, por exemplo, podem manipular troncos e pedras e usá-las como armas ou ferramentas, mas só as mãos humanas conseguem transformar esses materiais em utensílios especializados.

Esta terá sido uma etapa decisiva, pois marcou o início de um novo sistema de vida – o homem, agora equipado com utensilagem, lançou-se na produção dos seus meios de subsistência, em vez de pura e simplesmente deles se apropriar – cavou a terra, plantou-a, regou-a, colheu, moeu os grãos, fez o pão. De utente passivo da natureza, passou a controlá-la e, nessa luta por dominá-la, apercebeu-se de que ela se regia por leis próprias, independentes da sua vontade. Apreendendo o sentido dessas leis naturais, deixou de ser escravo da natureza, passou a ser seu amo.

Necessitando de encontrar uma explicação para o universo, concebia-o como coisa que pudesse ser transformada por actos arbitrários da vontade – terá surgido a magia como técnica ilusória compensadora da falência da técnica real; ou digamos antes que é a técnica real apresentada sob um aspecto subjectivo. O acto mágico é a tentativa que os homens fazem para impor a sua vontade ao meio, imitando o processo natural que querem desencadear – se querem chuva, executam uma dança em que imitam o movimento das nuvens adensando-se, o ruído do trovão, o raio que cai…

Nos estádios iniciais, o trabalho de produção era colectivo. As mãos da comunidade trabalhavam em conjunto e, o emprego de utensílios, motivou um novo meio de comunicação. A gama de gritos animais é limitada. No homem, porém, esses gritos tornaram-se articulados, foram elaborados e sistematizados como meios de coordenação dos movimentos do grupo. Por isso, quando inventou os utensílios, o homem inventou a palavra. Mais uma vez se verifica a ligação entre a mão e o cérebro.

Quando vemos uma criança a tentar manejar pela primeira vez um pequeno martelo, podemos imaginar o grande esforço mental que as tentativas iniciais para usar um utensílio devem ter custado ao homem. Tal como as crianças na orquestra do infantário, o grupo trabalhava em comum e cada movimento da mão ou do pé, cada golpe sobre uma pedra ou sobre uma vara era ritmado por um recitativo mais ou menos inarticulado que todos cantavam em uníssono. Sem esse acompanhamento vocal o trabalho não poderia ser executado. A palavra terá, pois, surgido como elemento essencial da produção colectiva.

À medida que a habilidade foi evoluindo, o acompanhamento vocal ritmador foi deixando de constituir uma necessidade psíquica. Os elementos do grupo foram sendo capazes de trabalhar individualmente. Mas o aparelho colectivo sobreviveu sob a forma de uma repetição executada antes do início da tarefa concreta – uma dança através da qual os trabalhadores reproduziam os movimentos colectivos que anteriormente eram indissociáveis da tarefa propriamente dita. É aquilo a que os antropólogos chamam «dança mimética» e que ainda hoje se pratica entre as tribos primitivas.

Entretanto, a palavra desenvolveu-se – de acompanhamento directo do emprego de utensílios, na origem, transformou-se em linguagem tal como hoje a conhecemos – um meio de comunicação, consciente e articulado, entre os indivíduos. Sobreviveu na dança mimética e, enquanto parte falada, manteve a função mágica. Assim, em todas as línguas, encontramos dois modos de conceber a palavra – a «palavra corrente», o meio de comunicação quotidiano entre os homens, e a «palavra poética», material mais expressivo e mais apropriado aos actos colectivos do rito fantástico, rítmico e mágico.

Tentei aqui sintetizar, reproduzindo o sentido, o raciocínio de Thomson. Se o seu raciocínio é correcto, isso significa que a linguagem poética é essencialmente mais primitiva do que a palavra corrente, na medida em que preserva em elevado grau as qualidades de ritmo, de melodia, de fantasia, inerentes à palavra enquanto tal. Sendo apenas uma hipótese, apoia-se no que se conhece das sociedades primitivas – verificamos que a diferenciação entre a palavra poética e a palavra corrente é relativamente incompleta.

Thomson estabelece, pois, uma íntima ligação entre colectividade, trabalho e poesia. É uma tese que vem colidir com os que querem que a poesia se situe num plano isolado (e superior) da realidade objectiva; esta teoria vincula a palavra poética, desde a sua mais remota origem, às tarefas concretas do quotidiano, nomeadamente ao trabalho.

Isto permite-nos tirar muitas conclusões e a minha adesão a esta teoria é tudo menos inocente. Como noutras viagens da minha máquina teremos ocasião de comprovar.

Comments

  1. Carlos Ruão says:

    Caro Carlos Loures, li com interesse a sua exposição/síntese sobre a tese supra enumerada.poderia fazer alguns comentários alongados sobre o assunto mas não vou fazê-lo. talvez apenas recordar que o referido texto é de 1945. repito: 1945. no que diz respeito à raiz marxista do dito cujo ela é cristalina como água. o que diz muito do texto em si. como bem sabe, a antropologia e a paleontologia avançaram, e de que maneira, nos últimos anos e de tal forma que mesmo quando nos finais de 80 era um ingénuo estudante universitário, o programa de «origens do homem e da civilização» foi revisto pelo docente três vezes no mesmo ano lectivo (de acordo com as descobertas à época). neste particular lembra-se certamente das notícias da semana passada que poderão dar uma machada final às teses darwinistas que suportam uma linha comum entre o homem e os primatas originais. como se diz, estamos numa de «work-in-progress».não obstante, a base antropológica, encontra-se genericamente de acordo com aquilo que foi fixado depois e de forma bem mais consubstanciada pelo grande Mircea Eliade nos «aspectos do mito» 1963 e em «o mito do eterno retorno» 1969, para citar só dois dos incontornáveis clássicos sobre o assunto. com toda a certeza que os conhece e leu. sobre o papel do signo – e da fala – no mito, as próprias civilizações «arcaicas» actuais – na ásia e america do sul – o comprovam. O meu caro fala de poesia mas poderia substituir a palavra por arte (aliás foram durante séculos e séculos sinónimos). como bem sabe «arte» em grego é «techne» que, em latim, deu a palavra «técnica». a raiz é portanto a mesma. só a partir da idade média se forjou a sua diferenciação entre artes liberais e artes mecânicas (por acaso até foi antes mas vamos pelo convencional).todavia, se a origem é comum, o conceito de poesia evoluiu. quando pessoa diz «o poeta é um fingidor» di-lo de uma forma e num contexto diferente do aborígene australiano que pretende com o seu cântico evocar o período da deflagração universal ou seja, concretizar o «mito do eterno retorno», evocar o momento da criação.do mesmo modo, quando breton defende a poesia/escrita automática, o seu objectivo é bem diferente da oralidade dos poemas homéricos que eram, na altura, a fonte de educação do homem grego, um manual histórico, uma «paideia».eis a questão !camões e milton escrevem para patronos. rilke e yeats não escrevem para nenhum.não estou a fazer hierarquias !!!!permita-me apenas um senão. quando fala nas pessoas que «querem que a poesia se situe num plano isolado (e superior) da realidade objectiva». parece-me haver aqui uma contradição: se a poesia é matéria do sujeito, como tal, esta é em si mesma e está, pela sua natureza, fora do objecto, nesta caso, fora da realidade objectiva. caso alguém o diga, em termos estritamente filosóficos, é uma impossibilidade !mas se quer verdadeiramente dizer que a poesia deve ser vista ao mesmo nível de qualquer outra forma seja ela falada ou escrita então, meu caro, é um verdadeiro marxista, i. e. , defende que a arte tem como único objectivo ser socialmente comprometida e não deve ter qualquer outro papel no mundo. se assim é, que seja :)neste caso, permita-me a liberdade de dizer «não!»: a função da arte não é certamente essa, embora por lá passe pontualmente na sua história. a arte/poesia é acima de tudo uma «necessidade» – no sentido concreto e formalista do termo – é/foi «expressão livre» (mesmo com patronos e espartilhado pelo tema, o poeta consegue sempre encontrar um caminho pessoal e único) e como expressão livre e libertadora encontra formas várias de se ler a si mesma, seja na rima popular ou no soneto: e não me venha dizer que a rima e o soneto são uma e a mesma coisa !um abraço «académico» do carlos ruão ps: pelos vistos, alonguei-me no comentário. diga-me uma só palavra e eu paro.


  2. Meu caro Carlos Ruão, acabo de perder uma extensa resposta ao seu comentário (não tanto como o seu texto). Houve aqui qualquer coisa que falhou e vou tentar de novo. Até já.


  3. Já percebi. Não pus esta treta do «captcha code». Vamos lá ver se desta consigo. Sintetizando o que lhe escrevi antes, dir-lhe-ia que estou, de facto, de acordo em muito do que diz. Porém, situámo-nos em planos diferentes. Há muitos, muitos anos, fui maoísta -deu-me forte, mas passou-me depressa – mas uma das coisas que guardei dessa fase foi um axioma do «grande timoneiro» dirigido a poetas e artistas em geral, qualquer coisa no género «o principal é sabermos a que público dirigimos a nossa arte a nossa poesia». (Continua)


  4. Bem, confirma-se. Fiquei traumatizado com a perda de tanta prosa – não que valesse muito, mas agora fico convencido de que estava muito melhor do que esta versão em folhetins. Em suma, quem quer como eu quero, simplificar, corre riscos de ouvir reprimendas amistosas e justas como a sua. Sim, embora não-alinhado partidariamente, sou marxista (anti leninista, anti maoísta, mas marxista). Obviamente, essa circunstância determina muito da minha orientação estética, literária, filosófica. Não sei se reparou, no fim deste texto, digo que a minha adesão à tese de Thomson não é inoicente. Num texto, que já escrevi e que vou agendar, sobre a poesia de Nazim Hikmet, explicito um pouco mais o que quis dizer neste texto de hoje. Desculpe estas linhas desalinhadas. Um abraço de gratidão pelo seu belo comentário.

  5. Carlos Ruão says:

    Meu caro, é evidente que reparei na sua orientação, aliás bem visível … e foi talvez por isso que decidi contribuir, de alguma maneira, para prolongar a viagem para outros trilhos … !Prevejo que, no que a estas matérias diz respeito, pelo menos eu, o Carlos, o Luís e o Adão ainda vamos nos primeiros metros de uma corrida infinita …


  6. Para percorrer corridas infinitas é que se fizeram as máquinas do tempo – vamos a isso! Um abraço, Carlos Ruão, e obrigado pelos seus comentários e pelo tão bonito, límpido e esclarecedor texto de Sheeley, tão fresco apesar dos seus quase 200 anos.

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