A máquina do tempo: o futebol como ideologia

 

Para não ser acusado de ser mais «um mouro a sair da toca», como aqui foi dito num comentário, quanto a mim infeliz, sobre o entusiasmo que tem grassado entre os aventadores vermelhos, tinha decidido esperar que o Benfica perdesse para publicar este texto. Secretamente, acalentava a esperança de nunca ter de o publicar ou de o vir a publicar mais tarde; mas no sábado o Benfica perdeu – e bem – cá está a prosa. Vou, pois, ocupar-me, mais uma vez, do chamado «desporto-rei».

Continuando na onda de rapinanço de títulos, a minha vítima de hoje é o alemão Gerhard Vinnai, autor de um livro com o título que dei ao texto – «O Futebol como Ideologia». No prefácio da edição portuguesa – datada de 1976 – Vinnai caracterizava Portugal como um país em que «o futebol e Fátima competem ainda no esforço de consolar as massas da miséria da sua vida de todos os dias».

De 1976 para cá, a situação alterou-se substancialmente – para melhor numas coisas, para pior noutras – Fátima e o fado (Vinnai esqueceu-se do fado), perderam terreno, mas o futebol que naqueles anos em que a luta política assumiu um papel importante na vida dos cidadãos, perdeu protagonismo, veio depois a recuperar o seu papel cimeiro nas preocupações mais ingentes de grande número de cidadãos. Mas não vou falar do livro de Vinnai, nem sequer orientar este texto no sentido que ele deu à sua obra – o de escalpelizar a relação desporto/alienação no mundo capitalista. Apenas me apropriei do título.

Ainda me lembro, durante a ditadura, de ver em cafés, bares, em barbearias, em lugares públicos onde se juntavam homens, pequenos cartazes impressos que diziam . «Proibido discutir política e futebol». Não se podia discutir política porque era perigoso, a PIDE tinha olhos e ouvidos onde menos se esperava. Já discutir futebol era uma fonte de zangas e de desordens. Imaginem um bar ou uma taberna – vinho e futebol era uma mistura explosiva. Daí os cartazes. Um cartaz à entrada do Aventar moderando a discussão de futebolices não faria mal nenhum.

Não porque aqui se beba vinho. A Carla até veio num comentário afirmar-se abstémia. Facto que me deixou seriamente preocupado,  tendo eu pedido ao Adão Cruz que lhe receitasse qualquer remédio ou terapia para a abstemia. Mantenho a opinião de que, discutir futebol na óptica clubística, reduz a capacidade de raciocínio, transformando pessoas inteligentes em mentecaptos. Mas vamos al grano, como dizem os nossos amigos e vizinhos.

Já tenho dito aqui – gosto muito de futebol e até tenho uma forte e indeclinável opção clubística. No entanto, nunca atribuí ao futebol, que é só um jogo, a importância que vejo muita gente conceder-lhe. É um jogo e é um negócio. Mas hoje só quero falar do jogo e da sua incidência (negativa) nas mentalidades.

Assisto aqui no Aventar a picardias entre adeptos, sobretudo do FCP e do SLB. Algumas têm graça, outras nem tanto. Por exemplo, já aqui condenei a atitude de misturar no futebol questões políticas ou regionalistas, ou seja, coisas que nada têm a ver com o futebol. Pelo menos não deviam ter. Em certas alturas das últimas semanas, o Aventar pareceu ir transformar-se num blogue especializado em futebol o que seria lamentável. Até porque esse espaço da blogosfera está densamente povoado.

No momento em que escrevo estas linhas, apesar da derrota em Braga, o Benfica parece ter recuperado algum do seu histórico fulgor, a chama imensa que lavrou pelos estádios de Portugal e da Europa nos anos sessenta e setenta. Nessa altura também não ganhava sempre, basta consultar os jornais desportivos da época. Parece, porque, como se viu no sábado, ainda é cedo para diagnósticos optimistas (tal como para os pessimistas). O Porto e, sobretudo, o Sporting atravessam decididamente um período menos bom. Claro, daqui por um mês o panorama pode ser tão diferente que o cenário de hoje seja irreconhecível.

Seja o que for que aconteça, pergunto: que importância tem isto? Tem a importância que tem e que é pouca, equivalente a zero. Nenhum dos problemas que afectam os portugueses ficam mais perto de ser resolvidos – desemprego, subida dos índices de pobreza, o estado do ensino, da cultura e da saúde, o baixo poder de compra, a marginalidade e a corrupção, ou seja, todos as doenças endémicas do País estarão longe de ser erradicadas e não será o futebol que as erradicará. Pode é fazê-las esquecer. Isto, por muito bem que o campeonato corra a uns e mal a outros.

Acho muito engraçado quando ouço dizer a um adepto de qualquer destes clubes grandes que ser benfiquista, portista ou sportinguista é qualquer coisa de especial, de único. Embora eu próprio experimente essa sensação – sobretudo com o estádio cheio e com a águia a voar – de quem basta estender os dedos para tocar o céu (dizem que o ópio provoca uma sensação semelhante). Acho graça, porque somos todos iguais, com reacções iguais. Por exemplo, se o futebol do Benfica anda, como tem andado nas épocas anteriores, na mó de baixo, descubro-me a preferir falar de futsal ou de basquetebol ou de qualquer outra modalidade em que o meu clube esteja a sair-se bem. E se não estiver a sair-se bem em nenhuma, derivo para a música sinfónica ou para a banda desenhada.

Naturalmente que nada disto é exclusivo dos adeptos portugueses. Em Paris, nos tempos do Racing Paris, do Red Star (fundado pelo mítico Jules Rimet), do Stade de France, o futebol era o desporto-rei. Quando as equipas do Sul, como o Marselha começaram a ganhar os campeonatos, a pouco e pouco, os parisienses foram deixando de ir ao futebol. O Red abandonou o futebol em 1948, o Racing em 1964 e o Stade em 1966. Hoje, com o pífio Paris Saint-Germain a perder jogos, preferem o râguebi. Já, aqui há uns anos, me disse um parisiense «isso do futebol é lá para os marselheses», franzindo o nariz como se estivéssemos perto de peixe estragado.

O futebol transformou-se na ideologia de muitos milhões de portugueses de Norte a Sul. Claro que agarradas ao futebol vêem outras coisas, tais como ancestrais problemas regionalistas. Como já tenho dito, chamar mouro (ou galego) a alguém não constitui objectivamente uma ofensa. Porém, subjectivamente é-o. E é uma agressão sem sentido, pois Portugal, desde as suas origens, sempre foi um vórtice onde se sumiram etnias.

Por exemplo: os judeus que não fugiram e não foram assassinados pela fúria dos gentios e pela Inquisição, misturaram-se com o resto da população. Eram muitos. Outro exemplo, este mais recente – calcula-se em duzentos mil o número de escravos negros que, já no século XIX, abolida a escravatura, desapareceram sem ter regressado a África, fundiram-se com a restante população. Estranhamente, com os árabes que viviam a Sul do Mondego isso parece não ter acontecido. Muito civilizados, muito elitistas, não se misturavam com os cristãos, em geral, culturalmente básicos – a miscigenação foi no caso deles fenómeno raro.

Deixando a questão para quem tenha autoridade científica para o investigar, eu diria
q
ue, segundo me parece, país territorialmente pequeno, estamos de Norte a Sul, muito homogeneizados do ponto de vista étnico. Linguisticamente, as diferenças dialectais são irrelevantes – embora, apesar disso, as utilizemos abundantemente em graçolas nem sempre muito imaginosas. Nada tenho contra a regionalização, porque descentralizar parece-me urgente; mas, na realidade, o nosso País é, no seu conjunto, uma região.

Chamo a atenção de quem aqui no Aventar usa essa «graça», que chamar mouros aos sulistas equivale a defender uma teoria da raça em que o Norte seria povoado por celtas, ou melhor, por puros arianos, e o Sul por semitas. Por tudo o que da História recente sabemos, é uma graça perigosa e de mau gosto. Cuidado! Deixem essas expressões para gente estúpida e boçal como o Manuel Serrão. Não é conveniente sujar o blogue com coisas tão idiotas.

Porque, pensando bem, o futebol não tem qualquer importância. A não ser que o transformemos em ideologia ou em religião. Mas essa não é uma atitude sensata. O nosso clube estar a ganhar ou estar a perder, pode-nos dar alegria, boa-disposição, como disse Vinnai »distrair-nos das misérias das nossas vidas de todos os dias», mas para o que verdadeiramente importa, não conta. É igualzinho a zero.  

Um zero tão redondo como a bola de futebol.

 

 

Comments


  1. Estás óptimo como sempre mas particularmente contundente!


  2. Talvez esteja. Mas não pretendo ofender ninguém. No entanto. acho que todos devemos fazer um esforço nesse sentido – não ofender ninguém.


  3. Ofender, não vale, embora me pareça que quando nos chamam mouros “é só uma figura de estilo”, é atirar o que está à mão.

  4. maria monteiro says:

    acho que não ofendem…  pelo menos a mim que sou um zero à esquerda no que se refere a futebol


  5. Desculpe, Carlos, mas neste caso parece-me que não tem razão. Esse comentário dos «mouros» foi feito pelo Fernando Moreira de Sá a propósito do «post» de um amigo dele, o João Pereira dos Santos. Aliás, foi por intermédio do Fernando que o João entrou para o Aventar. Por isso, foi apenas uma «boca» entre amigos, nada mais. Agora, reparo que o Carlos viu o comentário dos mouros mas não viu o «post» que lhe deu origem e que dizia algo como isto: «o resultado oficial reflecte a 2ª parte das encomendas do sistema para este fim-de-semana: depois do penalty roubado à Académica e ao golo em offside do FCP, seguiu-se, para já, o golo em offside do Nacional e o golo roubado ao SLB. É evidente que ainda só vamos a meio, pelo que o sistema ainda tem algum tempo para ver a sua estratégia para esta jornada dar frutos. Mas é delicioso ver o desespero. É delicioso ver uma equipa que tem uma categoria que obriga o sistema a abandonar a discrição quando se trata de adulterar resultados. No entanto, deixo a pergunta: o fulano do apito vai acabar o jogo em liberdade? A PJ e o Ministério Público vão deixar passar esta jornada em claro?» Comer e calar? Isso não, Carlos.  


  6. Não me é possível escrever um texto destes, tão claro e pedagógico. Tenho pena, mas nãp sou capaz. Por um lado não sei escrever tão bem e por outro nada entendo de futebol nem quero entender. Sou um zero tão redondo como a bola de futebol. Outro assunto bem mais importante: a Carla Romualdo abstemia? Estou para a minha vida! Não sei se abstemia é uma palavra grave (no norte dizem glicemia e no sul dizem glicémia). Se for grave, muito mais grave se torna a abstemia da Carla: Como é que uma pessoa tão inteligente, se priva de um copito, um dos mais importantes elementos do nosso bem-estar, um dos mais evidentes estímulos da nossa criatividade e um dos mais eficazes catalisadores dos nossos sonhos? Para além de conter muitos flavonóides, antioxidantes e protectores do sistema cardiovascular, motor principal da manutenção da vida. Que devo receitar à Carla? Não há receita possível. Apenas começar com umas colherinhas (uma de 12 em 12 horas, por exemplo, poderá ser uma boa posologia para adaptação) de Cortes de Cima 2006, Mouchão 2003, ou outros xaropes, que os há muito bons e de muita confiança, bem tolerados e sem efeitos secundários. 


  7. Pois, no meio das considerações à volta dos «mouros» do Carlos, esqueci-me de falar da pobre da Carla Romualdo, uma abstémia. Amiga Carla, conheço-te há algum tempo e nunca te julguei capaz de tal. Cá por mim, como dizia o meu avô, que não conheci, não posso beber água – podia constipar-me e era uma pena, tenho uma filhinha para criar e vem outra a caminho. Continuarei a beber… por mim e por ti.


  8. Caríssimo Ricardo. Não tenho a pretensão de ter sempre razão, basta-me tê-la algumas vezes. Não me refiro a esse comentário, pois deve-me ter passado despercebido. refiro-me a uma expressão que tem sido aqui recorrentemente utilizada. Basta procurar que  logo se encontra. Não discuto a sua razão no caso que invoca. Quanto ao FMSá (não recordo se é só ele que usa a expressão, mas acho que não), diria que os textos deles são interessantíssimos desde que não se refiram a futebol. Para não irmos mais longe, é excelente o texto dele sobre  o falecimento do António Sérgio; continuo a achar que a minha teoria da obnubilição provocada pelo tema, está certa.


  9. Eu digo glicemia, leucemia, abstemia… embora já tenha ouvido médicos dizer leucémia. glicémia , etc. O caso da Carla é, de facto, preocupante, uma rapariga tão nova… Vejam lá se a curam.


  10. Tomei nota da receita para a Carla. Obrigado, Adão – essa prescrição pode salvar muitas vidas.


  11. Não fui claro na questão gramatical: «abstémia, s.f., a que se abstém de bebidas alcoólicas»; «abstemia, s.f., qualidade da abstémia», na opinião aqui mais defendida, não é uma qualidade, é uma patologia.


  12. Eu também digo glicemia, leucemia etc. e não vou em lisboetices. Um dia pus a questão a um professor conceituado, já falecido, por acaso tio de Marques Mendes, e ele deu-me razão, argumentando lá com umas razões de grego de que já não me recordo.


  13. Felizmente que o meu médico e tambem meu amigo e tambem meu conterrâneo, é um médico que me prescreve receitas da qualidade desta do Adão…


  14. A vossa preocupação comove-me, meus amigos, mas não se preocupem,  que estou muito bem assim. Pode ser que o álcool estimule a criatividade a alguns (serão poucos, parece-me) mas não é o meu caso. 


  15. Essa ausência de sentimento de culpa torna o caso ainda mais grave. Agora ainda fico mais preocupado, Carla.


  16. isto da ausência de sentimento de culpa deve ser um benefício de não ter tido educação religiosa e andar para aqui sem baptismo nem nada. 


  17. Sua herege, Carla. Só os bichos é que não são baptizados.


  18. O sentimento de culpa nada tem a ver com o sacramento do baptismo. E o caso vai-se agravando. Sem pretender meter a foice em seara alheia, sugeria ao Adão em vez das tais colherinhas , uma garrafa inteira da Quinta da Pellada (2001), uma coisa divinal que fazem nas encostas do Dão. Ia para sugerir um Herdade do Esporão, mas produzido em plena Arábia Saudita, reconduziria este debate para o seu tema inicial. Coisa que não queremos. Agora que o caso é grave, lá isso é. Uma abstemia aguda – está bem, está…


  19. “O sentimento de culpa nada tem a ver com o sacramento do baptismo. “Mas tem a ver com a doutrinação que costuma seguir-se-lhe


  20. não chego a ser herege, Ricardo, porque nunca professei a fé. é ainda melhor, é nunca chegar a entrar no matrix


  21. Assim o entendo

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