A minha alma aprendeu a voar
«Ainda jovem, de feitio um pouco irascível, a minha experiência ainda era pouca em comunicação e tolerância.
Formei-me em Lisboa e os dois primeiros anos de estágio também os passei por lá. Habituada a trabalhar com outros colegas em equipa, lançada para um meio que não era o meu, ao ver-me sozinha, em trabalho isolado, entregue ao meu saber, julguei-me rainha, dona e senhora do meu nariz.
Naquele primeiro dia no serviço de urgência, tive a minha primeira lição, a qual foi a mais proveitosa de todas as que tivera até ali.
Um homem de meia idade, de dedos atarracados e grossos, tocando a mala a tiracolo, acompanhava a mulher espampanante que trazia uma criança ao colo.
Ela senta-se e diz:
– La petite começou com vomissements e viemos ao hôpital para ter a medicin…
Nunca gostei de estrangeirismos e critiquei:
-Fale-me em português, porque a senhora é portuguesa e aqui não é uma casa parecida com maison, com janelas iguais a fenêtres…
A mulher espampanante levanta-se, toca no braço do homem e pede:
– Vamos embora, que esta médica é maluca!
Ao ouvir este comentário, caí em mim…
Reconsiderei e achei que tinha sido muito incorrecta… Lembrei então do que respondeu um homem, de uma raça que não a minha, que veio para Portugal com a descolonização, quando lhe perguntei o que era para ele um médico – Médico… é gente que tem alma a voar entre o Deus e os homes…
Era isso mesmo – pensei – tinha que ser tolerante, compreensiva e acessível. Ter a sábia humildade daqueles que parecem nada saber, para poder voar um pouco e ser aceite.
Naquele dia a minha alma aprendeu a voar… e a comunicar, porque comunicar, mais do que falar, é ouvir deixando falar, sendo imparcial. É saber ver além, além do gesto de súplica de alguém de corpo irrequieto. É olhar, olhos nos olhos, sem magoar rugas profundas de olhos já tão magoados, de secos tornados molhados na solidão. É ser cego e ver o mudo falar. É tocar o outro, dialogar e ter tempo…»
(«A minha primeira lição», , do livro «Gentes d’Além Montes», de Lurdes Rocha Girão (1996)






A Lurdes era uma grande médica (tive vários testemunhos sobre a sua competência profissional), mas era, sobretudo, uma pessoa de excepção – bonita, corajosa e inteligente. Aprendeu a voar.