Olhar para cima

 Existe, na língua inglesa, a expressão “look up to”, que significa considerar algo ou alguém com admiração, respeito e estima. Ter como norte aqueles que nos fazem querer ser melhores do que somos, superar as misérias, e transcender as limitações. Mas é certo que nem todos sentem necessidade de procurar faróis, por mais espessa que seja a neblina. Há quem consiga navegar sem nunca hesitar no trajecto a seguir, e sem necessitar de mapa ou guia. Não é o meu caso.

 

Eu sou uma dessas pessoas para quem a busca de guias não cessa nunca, mas que, como tantas vezes acontece a quem pede de mais, foi fazendo tombar, um por um, todos os mestres, às vezes por razões impossíveis de ignorar, outras porque a quem muito se quer muito se pede, e nem sempre o sujeito das nossas afeições está disposto a retribuir, e muitas vezes apenas por uma exigência furiosa, com muito de capricho infantil. 

 

Fossem as figuras lendárias a quem já não tive a sorte de conhecer ou os mais prosaicos, porque mais acessíveis, com quem pude cruzar-me, procurei desde a infância ir construindo o meu panteão profano, procurando nuns a força, noutros a arte, noutros a bondade, quando não a soma de todos estes atributos. 

Como por vezes acontece nos anos pouco dados à reflexão sobre si mesmo e à capacidade de não se levar demasiado a sério que correspondem à adolescência e aos primeiros anos da juventude, fui a mais moralista e exigente das discípulas. Fui apontando pés de barro a todos os que alcei ao pedestal e nem por um segundo pensei que a responsabilidade do discípulo não é menor do que a do mestre.  

 

Por cada palavra não medida, por cada acto conduzido pela vaidade ou pelo interesse calculista que lhes reconheci encolheu-se-me um pouco mais o coração e apressei-me a renegar a sua influência e muitas vezes até os seus ensinamentos. Não lamento a queda desses ídolos domésticos mas reconheço que o tempo vai ensinando a olhar com respeito e humildade as pequenas fraquezas alheias, ainda que provenham daqueles de quem não as esperaríamos.

 

E, afinal, dou-me conta agora que reencontrei um desses antigos mestres, bastaram uns poucos anos de frustrações e alegrias, e de tudo o que ambas costumam trazer, para que eu pudesse olhá-los a uma nova luz. E para que os antigos mestres, agora já redimensionados à escala humana, ressurgissem com novos ensinamentos e até, quem diria, capazes de comover com as suas debilidades. 

 

Comments


  1. Bem lúcido, este texto!


  2. Ao longo da minha vida (e, à mísera escala humana, é muito tempo), convivi com algumas grandes personalidades. Em todos descobri debilidades, quando não mesmo deformidades. Depois, como a Carla, cheguei à conclusão de que o mal estava em mim que criava deuses onde só havia homens e mulheres. Bela reflexão a sua.

  3. Daniela Major says:

    Curioso carla. Eu sou exactamente assim. A ideia de alguém que nos guie ou nos inspire para fazer igual, é me muito querida.


  4. Luís e Carlos, obrigada e um abraço (Carlos, acho que já vai sendo tempo me tratar por tu, está bem? Estamos entre amigos)


  5. E não te parece que essa característica se vê pouco em Portugal?


  6. Ora aí está uma área em que os nossos amigos castelhanos são muito mais expeditos. O tratamento por tu é quase obrigatório. Não podia estar mais de acordo, Carla. Obrigado por teres tomado a iniciativa.