Nunca Paguei, Bruna!

Como Se Fora Um Conto

Devo pertencer a um grupo minoritário, creio, que nunca pagou para ver/ter uma revista com fotografias de mulheres nuas, que nunca pagou para ver/ter um filme cuja classificação dada fosse «para adultos», que nunca pagou…

Há dias, estava eu a passar um fim de semana maravilhoso no planalto mirandês, quando uma notícia percorreu o País.

Na zona onde me encontrava, Mogadouro, não se falava em outra coisa. Ali perto, numa cidade vizinha, quase toda a população correu aos quiosques a comprar uma revista, esgotando os espécimens disponíveis. Dentro, em oito páginas coloridas, uma transmontana aparecia despida de roupas e preconceitos. Os ávidos compradores fizeram circular por tudo quanto era gente as páginas imorais. Miúdos e graúdos, homens, mulheres e crianças, viram e reviram, por todos os ângulos imagináveis, os lugares mais recônditos da pequena. Os mandantes da terra e superiores hierárquicos da moçoila, que era professora de música de meninos da terra, decidiram despedi-la.

Foi a notícia mais badalada dos últimos tempos. Nem as notícias da crise, nem dos roubos a que todos os dias estamos sujeitos por quem nos deveria governar, nem da fome ou das cinzas do vulcão, tiveram, juntos, tantos leitores como este despedimento.

Que a notícia não foi, de modo algum, a não ser nas terras transmontanas, a nudez da sirigaita. A notícia foi o despedimento das funções de docente da senhora professora.

E, coitada, até nem foi muito bem paga pelo serviço prestado. Setecentos euros por uma duzia de fotos em poses sensuais. Coisa pouca e barata.

De qualquer forma, o que a menina queria, o propósito que a moveu a tirar as fotos, não foi o dinheiro, foi o ser conhecida por toda a gente. E esse, foi conseguido.

Todo o País passou a falar da professora Bruna, da coelhinha lá do Norte. Mas depressa ela se fartou de tanta publicidade sem nada em troca. Agora, quem quiser falar com ela, quem a quiser entrevistar, paga. E atendendo ao que recebeu pelo trabalho anteriormente feito, até se faz pagar bem. Afinal, agora, é uma pequena conhecida. Por isso, só aceita falar a troca de uma nota de dois mil euros. E isto sem direito a qualquer fotografia.

Se lhe quiserem tirar o retrato, têm de abrir os cordões à bolsa. E, convenhamos, a moça tem muitos e bons ângulos para serem fotografados.

Se pensarmos bem, a senhora professora terá razão. Já agora, feito o que feito foi, já nada custa, para a frente é que é o caminho, e no aproveitar é que está o ganho. A fama já a ganhou, o proveito deseja a raparigota que venha depressa, por um atalho.

Comments

  1. Luís Moreira says:

    Se a revista esgotou é porque foi apreciada, e a rapariga conseguiu os intentos. Ser conhecida.

  2. Nuno Resende says:

    Até que enfim alguém refere o que precisava ser referido. A senhora queria fama. Nada disto tem a ver com ensino, com educação, com hipocrisia, com moralismo. Quem se despe para uma revista não procura o recato. Quer ser visto, quer exibir-se. Quer os 15 minutos de fama. A sr.ª Bruna excedeu em muito esses minutos. As polémicas são óptimos teasers. É só colocar o queijo e esperar o rato.

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