A Justiça em Portugal – Os Comediantes de Negro

Les Comédiens

A justiça é um sector de graves ineficiências. Do Ministério Público aos Tribunais de diversos tipos e hierarquias, as regras, as leis e o funcionamento constituem fonte de inaceitáveis passividades e complacências. Os poderosos, grandes empresários ou políticos, são os primeiros beneficiários da ‘Torre de Babel’ do sistema de justiça português.

Além dos autoproclamados brandos costumes, somos o País das inexpugnáveis elites no poder, e na justiça em particular; elites tão inamovíveis, quanto um gigantesco bloco de mármore que, apenas à força de ser retalhado, se converte em peças dispersáveis. Todavia, a nossa incapacidade para retalhar as elites é congénita. Assim, a pesadíssima magistratura, ano após ano, lá vai permanecendo igual a si própria, aqui e acolá semelhante a uma máquina de museu, apetrechada de peças bastante truncadas.

O fenómeno mediático também é ingrediente importante de todo este caldo. De facto, a endémica tentação do exibicionismo dos magistrados em geral, associada ao insaciável apetite da comunicação social por sensacionalismo, favoreceu a transformação justiça em Portugal em espectáculo dos comediantes de negro, dos mais funestos da história das nossas vidas. A arte desses comediantes é tecer complicadas teias de casos com duração a tender para o infinito: ‘Casa Pia’, ‘Freeport’,‘Face Oculta’, ‘BPN’, ‘BPP’, ‘BCP’ e outros. Devem acrescentar-se, ainda, processos envolvendo o poder central e o autárquico, cujos efeitos para o País e populações são, em muitas ocasiões, nocivos.

Todos os réus são presumidos inocentes até que a sentença transite em julgado definitivamente. Mas o pior é que os tais comediantes de negro, com quem tropeço a cada instante em telejornais ou páginas de jornal, formam um complexo aparelho autocrático, burocrático e improdutivo. Causam-me náuseas e repulsa, por sermos milhões a sustentar ineficiências e ineficácias desse anacrónico sistema, que parece seleccionar arbitrariamente quando e sobre quem deve actuar.

Comediantes por comediantes, prefiro os autênticos, os cantados e exaltados, por exemplo, por Charles Aznavour, na companhia de Liza Minnelli.

Comments

  1. Força Emergente says:

    Caro amigo
    Infelizmente os comediantes e verdadeiros animadores do sistema, extendem-se pela classe politica.
    Sobre isso escrevemos:

    EM PASSO ACELERADO
    Até ao estertor final.
    As noticias são estas;
    Portugal está colocado no sexto lugar a nível mundial dos Países com maior risco de incumprimento. Isto é, já só existem 6 países com menos crédito que nós.
    Consta que no largo do Rato, a noticia foi recebida assim;
    Portugal, conseguiu sair dos últimos lugares no que se refere á capacidade de pagamento externo. As medidas tomadas por este governo já colocaram o nosso País no sexto lugar.
    Só aqui é possível assistir a este deslumbramento comunicacional que permite ocultar a verdade por cima da mentira. Está confuso não é ?
    Mas é mesmo assim.
    Para lá das leituras focadas nos já tantas vezes mencionados especuladores e depois de tanta asneira já feita, parece-nos mesmo que estamos a ser beneficiados nesta classificação.
    No entanto já merecíamos estar no primeiro lugar, pois conseguimos no curto espaço de 10 meses, esgotar a “almofada financeira” resultante da catrastófica politica fiscal seguida nos anos anteriores. E não nos esqueçamos que esta nos era apresentada como a ferramenta necessária para enfrentar a crise e conduzir o País a um estado de maior desenvolvimento.
    Acresce ainda que até fomos informados pelo primeiro ministro que tinhamos conseguido atingir a maior taxa de crescimento a nível Europeu.
    Tudo isto, só podiam ser as oscilações delirantes de um louco.
    Mais uma vez, o mentecapto abria a boca e esboçava o sentimento que de novo nos tinha enganado e convencido.
    Por detrás do sorriso trocista, ainda balbuciou para o rafeiro silva que normalmente o acompanha; Vais ver como esta massa bruta e empedernida, me vai agradecer por ter conduzido o País a este estado.
    Como habitualmente, Silva abanou a cabeça três vezes.

    Vamos esclarecer melhor.
    O estado do País não precisava de uma almofada mas sim de um esquife. Com efeito, tinham conseguido destruir o tecido empresarial de base, o desemprego era já galopante e para todos era evidente que grassava a incompetência nos Órgãos de soberania.
    Porque não dizer, a irresponsabilidade. A safadeza. O saque.
    Com efeito, no final de 2009 estavam seriamente comprometidas quaisquer possibilidades de mais agravamentos nas medidas fiscais.
    No entanto insistiram de novo com as medidas do PEC 1, acrescidas rapidamente com um PEC 2.
    A justificação era mais uma vez a necessidade de sossegar investidores e analistas internacionais. Tínhamos que demonstrar-lhes que Portugal não é a Grécia. Dizíamos mesmo que o nosso problema é muito diferente !!??, segundo os nossos esclarecidos políticos e alguns comentadores. Até nos vieram dizer que a própria U.E. reconheceu estas medidas como de grande mérito e arrojo.
    Até Passos Coelho se juntou a sócrates. É verdade que disse depois só ter dado a mão ao País, mas foi pena não ter reparado onde a tinha posto, pois apenas continuava a apertar-nos ainda mais o pescoço.
    É que já estamos nus e apenas a gravata nos compõe a figura.

    Esquisito mesmo é não conseguirmos perceber agora, porque razão é que nos atribuem este 6º Lugar ?
    Isto significa, pura e simplesmente, que todos os restantes países são mais credíveis que nós !!!
    E são 136 não é ?
    Se ainda há pouco estávamos na cauda da Europa, conseguimos agora acelerar o passo para chegar mais rapidamente ao fim do Mundo.

    Temos de encarar a realidade a que chegámos e os políticos que temos.
    Não é possível a um País com a estrutura sócio-económica do nosso, conseguir aumentar o esforço de desenvolvimento sem se adoptarem novos modelos e métodos de governação, suportados por agentes políticos inovadores na forma e na abordagem á necessidade de resolução global que se exige. Este País não pode continuar sem um objectivo nacional que mobilize e seja sentido por todos.
    O que é preciso é uma nova classe política de gente séria e com capacidade de entender as necessidades básicas de uma população à tanto tempo remetida e condicionada a nível social e educativo.
    Somos um povo de gente deseducada, maioritariamente subvertida a ideias e conceitos de vida inculcados sistemática e metodicamente com objectivos específicos e por gente de mau porte, que acabam por limitar em grande parte a nossa capacidade de percepção das novas realidades deste mundo contemporâneo.
    Esta estrutura vivencial há tantos séculos imposta e que reflecte a matriz da nossa evolução, tem de ser radicalmente reformulada, mesmo que se tenham de questionar ideias ou sentimentos de há muito prematuramente assumidos.
    A liberdade de escolha é consequência da capacidade de discernir.
    O Discernimento é a grande batalha que será necessário vencer.
    Um povo que se deixa subalternizar de forma tão dramática como aquela em que nos encontramos, será sempre presa fácil para oportunistas ocasionais e aldrabões por natureza.
    É necessária uma Nova Identidade e um Grande Objectivo serem apresentados ao Povo Português.
    É necessário sacudir o pó deixado por 35 anos de desleixos, desvarios e gente de mau porte.
    Estamos convictos que com as pessoas certas, as politicas necessárias e as decisões adequadas, poderemos de novo sentir orgulho naquilo que somos e em breve virmos a retomar o caminho junto dos países mais desenvolvidos e sérios.
    O nosso destino ainda não está traçado.
    Estes políticos que se cuidem.

  2. Carlos Fonseca says:

    Caro amigo, estou absolutamente de acordo, mas, desta vez. o escrito centrava-se no sistema de justiça. É evidente que, então na política, há comediantes de talentos vários e esses são os autores da arte do caos que nos toca. Mas as nossas gentes também partilham de responsabilidades e, sobre isto, lembro-me sempre do Eça em ‘Os Maias’: “Isto não é um País. É um local sujo e mal frequentado”.

  3. Força Emergente says:

    Caro amigo Carlos Fonseca
    Lamento ainda não termos tido a oportunidade de nos conhecermos. O vosso Blog e os vossos escritos são sempre uma referência para nós.
    Obrigado pelo vosso esforço esclarecido e empenhamento vertical.
    Sobre o Eça deixe que lhe diga;
    Então não é que o homem continua a ter razão !!

  4. Carlos Fonseca says:

    O ‘Aventar’ é um blogue nacional e plural. Há aventadores de norte a sul do País, e de diferentes colorações. Eu reparto a minha vida entre Lisboa e o Alto Alentejo. Um dia, quando quiser, podemos conhecer-nos.
    Quanto ao grande Eça, ele e muito da sua obra são intemporais.

  5. Lara Raquel Ferraz says:

    Não gostei NADA de ver ‘Casa Pia’, ‘Freeport’,‘Face Oculta’, à frente do ‘BPN’, ‘BPP’, ‘BCP já que o BPN tem sido MUIIIIIIIIITOOOOO mais lesivo em termos financeiros do que a Face Oculta e o Freeport. É por esta e outras que o BPN fica como caso “menor” e é precisamente o MAIS GRAVE DE TODOS.

  6. Dreyfuss says:

    O que esperam de tribunais onde pontificam e fazem carreira juízes comprometidos com partidos políticos – e por isso nomeados em comissão de serviço para cargos de confiança política – com a maçonaria e com a opus dei?
    E que circulam alegremente entre cargos associativos, Conselho Superior da Magistratura e Centro de Estudos Judiciários.
    Vendo-se aceder àqueles – sobretudo ao CSM e à Associação – juízes que nunca se destacaram, até então, seja em termos de prestígio técnico, seja em termos de classificações.
    Procedendo aquele Conselho a nomeações para integrar júris de exames de acesso ao CEJ, de juízes mais novos, e sem classificações superiores, em prejuízo de outros juízes, assim impossibilitados de mostrar currículo em futuros concursos para promoção ao STJ.
    O que esperam de um STJ cujo presidente faz e desfaz carreiras, ao sabor dos seus…desígnios pessoais?

    O aparelho judiciário português funciona como o sistema espera que funcione.

    Sendo que esse sistema é a emanação do povo que somos e que elege os governantes que temos.

    Dizia alguém da troika, em entrevista publicada na revista do último “Expresso”, que para entender como funcionava o nosso País tinha tido que recuar algumas décadas no tempo…

    E muitas mais décadas serão necessárias para – desde que se aposte numa profunda e persistente revolução cívica e das mentalidades – nos tornarmos um País decente.

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