a República de Portugal nasceu como um país classista

o nosso futuro se as meddidas de austeridade avançam....

Bairro da Grande Lisboa, com prédios novos no fundo e bairros de lata ao pé para se sustentar dos trabalhos que resultam das construções dos prédios.

Queiram desculpar, mas sinto-me perdido. Por acaso moro num sítio de Portugal com imensas e evidentes desigualdades. Por acaso. Não encontrei outra casa no dia em que apareci em Portugal, tantos anos já, que até fui feito português, o que agradeço.

O que não agradeço nada, são as diferenças sociais, esses desencontros entre as pessoas: diferente classe social, diferentes saberes, hábitos de bisbilhotice, outros de solidariedade.

Pobreza e riqueza vivem juntas. Trabalho e falta de postos de trabalhos. Elegância e pobreza impossível de disfarçar. A arquitectura tem uma linguagem que explica que Portugal é um país classista. Há os que podem ter folga monetária, e há os que nada têm; há os que têm a esperança de um dia ter e os que sabem que esse dia nunca pode aparecer.

Há também os que moram em bairros de lata e os que possuem tantas casas, que têm que inventar sítios para se entreter além das contabilidades a que estão obrigados para calcular entradas e gastos, para um melhor gerir da sua riqueza, saber onde ir cobrar rendas e melhorar as suas posses.

Posses das que carecem os liberados pela Carbonara primeiro, e pelo Movimento das Forças Armadas a seguir.

Devo estar certo se digo que Afonso Costa e os outros membros do Partido Republicano, com assento no Parlamento, não era este tipo de República que procuravam. O seu neto, Secretário de Estado para a Educação do Ensino Secundário, disse-me um dia que o seu avô tinha uma casa na Serra da Estrela, para reunir com os que queriam derrubar a Monarquia e instaurar uma República na que todos fossem iguais, esse sonho de Babeuf, que para ele era República e Laicidade, separando a Igreja do Estado e expulsando as ordens religiosas por terem abusado da pobreza do povo para lucro da ordem. Um Afonso Augusto da Costa não ia permitir uma sociedade classista, como foi o seu caso ao propor leis como a Lei da Família, a Lei do Registo Civil, a Lei do Divórcio, a Lei da Separação do Estado e das Igrejas (1911), a Lei do Inquilinato, a Lei da Reorganização Judiciária, a Lei da Reforma Monetária, a Lei da Expulsão das Ordens Religiosas, sendo o primeiro a preparar um Orçamento de Estado. É sabido que o Parlamento durante a Monarquia estava mais interessado nas suas próprias contas, nos empréstimos ao Rei, aos membros da família Bragança e a eles próprios. Uma história melhor conhecida pelos seus biógrafos, que são muitos, e pelos próprios portugueses

Comments

  1. António Carvalho says:

    100 anos depois da implantação da República (5 de Outubro de 1910) ainda existem na área da grande Lisboa bairros degradados onde vivem pessoas!!!

  2. carlos fonseca says:

    Professor, as diferenças sociais têm-se acentuado muito no último triénio. Se a falta de equidade e justiça na distribuição dos rendimentos em Portugal já era acentuada, com uma crise financeira internacional que deixou impunes os responsáveis pela sua eclosão e respectivos efeitos, o nosso país piorou. De resto, Portugal é tradicionalmente uma terra estigmas anti-sociais: a sobranceria e a corrupção dos poderosos são dois dos mais cortantes.

  3. carlos fonseca says:

    Professor, as diferenças sociais têm-se acentuado muito no último triénio. Se a falta de equidade e justiça na distribuição dos rendimentos em Portugal já era acentuada, com uma crise financeira internacional que deixou impunes os responsáveis pela sua eclosão e respectivos efeitos, o nosso país piorou. De resto, Portugal é tradicionalmente uma terra de estigmas anti-sociais: a sobranceria e a corrupção dos poderosos são dois dos mais cortantes.

  4. Raul Iturra says:

    Caro Carlos Fonseca, obrigado pela sua paciência de ler os meus textos. Conheço bem os bairros de lata e sei o motivo pelos que eles aparecem: os Canpalimaud, a SONAE, os Ministros que compram carros novos, a falta de trabalho. Saiba que antes de ser etnopsicólogo, fui advogado e exercia a minha prática nos bairros de lata, onde até dormia imensas vezes. Os piolhos e as pulgas, comiam-me o corpo! Mas, não abandonei, hasta organizei Juntas de Vizinhos para ensinar aos pobres do mundo como era viver do trabalho sem roubar nem esfaquear. Mais do que duas vezes sofria a ameaça de ser esfaqueado, no apenas no Chile, bem como na Escócia. A minha mulher tremia por mim…Mas, já agora, escrevi este texto para salientar aos meus concidadãos a pobreza que nos alimenta. Não fique a pensar que isto não seria consigo, ou comigo. A economia de guerra à qual estamos submetidos, leva a desfechos inesperados, por assim que escrevi.
    Cumprimentos, meu concidadão. RI

  5. Raul Iturra says:

    O comentário é também para António Carvalho. Obrigado!


  6. Professor Raul, por favor, quando ‘pegar’ uma imagem na internet para ilustrar suas matérias, favor consultar se as mesmas estão liberadas para tanto, ou pelo menos tenha a dignidade de dar os créditos do autor, no caso, Samuel Kassapian Junior.

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