Amar na Galiza e em Portugal. Ensaio de etnopsicologia da infância

Mona Lisa é a imagem de Maria Cheia de Graça:calma, serena, alegre

para o amor dos meus amores, que bem sabe quem é… serena e forte como a imagem e cheia de graça e gracejos…

Parece-me impossível falar dos sentimentos de uma rapariga que amo e me ama, sem compara-los com outra histórias de vida que uso como método de pesquisa, no que diz respeito aos sentimentos. Raparigas que, no seu tempo, eram novas e hoje em dia são senhoras com filhos. O tempo passa sem perdoar um minuto na vida dos seres humanos. No ensaio a seguir a este, vou querer comparar essas formas de emotividade, sob a ideia de que no rasto da sexualidade caminha o amor. Tenho sido amado e amo e estou certo que quem andou comigo na Galiza, ama-me também. Ser amado por uma mulher adulta e madura, é a delícia das delícias. Ainda que tenha por vezes, comportamentos ofuscados, que, por fazer o dia mais brilhante, não nos permite ver.

A. Victoria

Analisando os sentimentos de três raparigas e comparando com os meus e os dela, poso concluir o que é amor. Victoria, por causa do povo a que pertence, tem que se resignar a partilhar o amor do seu homem com outras mulheres, o que deve ser difícil, se já é difícil amar e seduzir apenas uma… Mas, o seu povo é a etnia Picunche, que amam de uma outra maneira. Pelos laços das ideias, vamos considerar Victoria com a letra A, classificando a Pilar e Anabela, com as letras B e C, para colaborar com a leitura de quem tenha a ousadia de entrar por estas linhas…

B-Pilar

Amor entre pais e filhos

Entre os galegos as crianças são também acarinhadas. Quando bebés, com mimos. Ao crescerem, com disciplina. Uma disciplina ligada às horas de trabalho do adulto. Uma disciplina que não pune, mas ensina como optar. A opção, essa lógica de procurar o que é melhor para quem obedece e para quem diz mandar. Pilar aprendeu a optar, uma que a levara desde Lodeirón, sítio da casa dos seus pais en Vilatuxe onde estava já farta de tomar cuidado dos seus irmãos mais novos e dos trabalhos da casa e do campo, para ir a estudar a Universidade de Compostela. Na Galiza dos anos sessenta, ainda sob a mão firme do Governo Central espanhol, que não permitia outra língua que a oficial castelhana. Mas Pilar, como a sua mãe e o seu pai e irmãos, iam falando a língua herdada do lusitano. Aprendiam Castelhano para todo o que fosse oficial e de interacção social, com um Galego lusitano para a casa e o lar, parentes e vizinhos.

Um lusitano misturado de castelhano, um lusitano cheio de castelhanismo ou espanholado, como há o mau hábito de dizer. Dividida a conversa do lar entre o galego persistente da mãe, e o castelhano bem falado pelo pai. E o galego castelhano que os filhos, os irmãos de Pilar e ela própria, iam combinando entre essa obrigação de saber castelhano para a vida social fora da Paróquia obrigatório do aprender na vida social, na escola; e o galego da vida denominada rural pelos professores que eles tinham, que proferiam as suas aulas em na língua oficial do Estado ditatorial – como no Chile e Portugal. Professores ou maestros, como aí são denominados, de origem também rural, mas forçados a saber o saber na língua oficial, que não era o galego. O mundo estava dividido não só em hierarquias, bem como cada hierarquia tinha uma língua diferente. Falar en Castelhano era para os Don o Doñas: maestros, pároco e a pequena aristocracia da família do meu velho amigo Carmelo Louzão, do lugar de Outeiro, irmão do Petrucio da família Jaime Louzão, que o tinha expulsado da família por se ter casado com a filha de um gestor dos bens da família Louzão, Ramona Ferradas, dos insurrectos que tinham-se rebelado contra a Monarquia. Ramona de imediato agarrou para si o Doña, título que adorava e falava apenas na língua oficial, como o seu marido, quem não sabia galego, ou o pretendia quando falava comigo e assim demonstrar a sua prosápia. Essa língua era para os ricos, o galego, para o povo… A classe mais pobre, era galega, a classe com mais recursos, era castelhana. A classe intelectual, um galego antigo feito para lutar contra o castelhano. Esse castelhano que Pilar me falava todos os dias, para evitar o português que eu usava em casa e que ninguém entendia, até eu reaprender o galego rural. Uma Pilar que, em pequena, olhava para o chão quando eu falava para ela, faz 38 anos, e que hoje olhava de olhos nos olhos, mediadas as conversas, com música de Haydn (1787-1809) que ouvíamos no rádio do carro, ou as sonatas de flauta do Teleman (1772-1773) enquanto corríamos de casa em casa e de Bispado em Bispado. Uma Pilar que das cabras e o clarinete, tinha passado a ser mãe e a aprender comigo a escrita dos séculos XVII em frente, com rapidez impressionante.

A cortesia da adulta Pilar, era convincente, pela sua gentileza, palavras amáveis e directas, explicações do que procurávamos nos arquivos, e paciência na espera, entre café e café. Essa paciência que era difícil manter em casa, quando era preciso arrumar panelas, loiça, comidas, tomar conta do filho. Filho do qual o pai tratava entre as horas de trabalho. É possível dizer de que Pilar tinha ficado saturada de tomar conta de irmãos, adultos e pequenos, dentro do lar paterno. E de que pesquisar comigo, era uma aprendizagem que a distraía dos afazeres domésticos e maternais, junto com dar a ela uma tarefa que nunca pensou ia ter que aprender para aprender da sua família. Pilar tinha sido criada na escola antiga, auto-denominada pelo seu fundador, Barrié de La Maza, o rico bonapartista, que tinha oferecido o dinheiro para o pequeno edifício. Uma sala para diferentes anos, a aprenderem diferentes matérias na mesma aula, com só uma professora. Diferente do edifício feito nos finais dos anos sessenta, uma enorme concentração escolar que trazia crianças de diferentes sítios das varias paróquias vizinhas.

Pilar teve que aprender a ser rapaz e rapariga, para se defender das brincadeiras que os pequenos gostavam de fazer às pequenas. Brincadeiras que não eram contadas em casa, mas eram resolvidas entre eles. Os rapazes, sempre a brincarem juntos e a deixarem as raparigas enredadas nas suas conversas. Pilar gostava, habituada como estava a brincar com irmãos, jogar aos berlindes e ao peão, jogo aprendido do pai e dos colegas da escola. Uma Pilar que aprende a ler no livro de leitura Nuevo Cantón (1958), universal para as escolas públicas do Estado Espanhol, editado pelo monopólio do distribuidor de livros para escolas do país todo. Disciplinada e atenta, é rápida na leitura e na escrita, habilidade útil para o seu entendimento posterior das situações da vida. Pilar é uma colaboradora do ensino da paróquia, essa aliada legal do estado espanhol, pela concordata entre ambas instituições, feita no Vaticano dos anos cinquenta, e pela legalidade imposta pelo Chefe do Estado Espanhol, um outro General, como o de Victoria.

É possível ver nas fotografias que aparecem no livro que inspira estas palavras, o grupo com o qual Pilar cresce. Porque Pilar, como toda outra criança, tem vários níveis de interacção, entre os quais a sua vida privada e pessoal da escola e das brincadeiras feitas na rua, nem sempre contadas em casa. Uma casa á qual o pai tinha voltado depois de trabalhar por largos anos na República da Venezuela, para ganhar e poupar, comprar terra e construir uma casa-a sua casa paterna tinha sido herdada pela Petrucia Marcelina, a irmã mais velha.

Retornado, qualificativo para os emigrantes que volviam a casa com dinheiro, passa a sua vida ocupado a investir, como foi referido em outro ensaio sobre Hermínio, com a colaboração da sua mulher Esperanza. A escola de Pilar era assunto seu, com a colaboração do Cura de Paróquia. A mãe nada sabia, e o pai estava sempre a trabalhar. Era apenas o seu esforço e persistência, normal entre pessoas que orientam o seu corpo aos trabalhos materiais e não as letras. Colegas dela, seriam, mais tarde, estudantes do ensino superior. Esse que Pilar decide tomar, com a sua assistência ao conservatório, estudos que nunca mais acaba, ao encontrar as bases do seu próprio lar na pessoa do seu namorado Alfonso Batán. O lar que tinha aprendido enquanto estava na escola, não era atraente: a sua mãe dedicava o seu tempo as labores de casa e do recentemente nascido, de forma inesperada, bebé, o seu irmão Miguel. A escola e colegas, davam-lhe integridade. A mãe, dedicada ao bebé, muito directamente, essa criança sumiça,  bebé paciente e bom, que ama, mima e beija a sua mãe e é amado, mimado e beijado por ela. Assunto que em um lar de trabalho, de esforço, de investimentos, de separação entre adultos e crianças, não acontece. Nasce em ela uma contradição entre o que lhe é dito na sua vida pública e o que vive na privada.

Assunto pouco comum para as casas do lugar, em que não haviam bebés atrasados: nasciam todos de vez, era mais fácil assim tomar conta de todos ao mesmo tempo. Os seus colegas de classe, iam visita-la a sua casa, fugiam ao mato próximo a brincar e lutar, mas ela tinha rapidamente que votar ao pé da sua família, tinha que ir direito ao seu lar, para tomar conta do seu trabalho. Do seu trabalho de colaboração produtiva, e do seu trabalho de escola, que conseguia fazer a noite, no mesmo quarto que partilhava com o irmão mais novo, Miguel, sob a sua responsabilidade, como uma segunda mãe. A pequena, conta hoje, adormecia de cansaço por cima das folhas do caderno e do livro, só com um pai que, as tantas, dava uma mão para colaborar nos seus estudos. A disciplina de Pilar, a leva a acabar a sua escola primaria de seis anos, para concorrer ao secundário do Liceu de Lalin, em autocarro e no meio dos colegas de estudo. Lalin, que servia para muitos para não assistir as aulas e andar pelas ruas e cafés a se divertirem. Acabou o seu secundário, quase até o fim no Liceu, para passar ao conservatório local.

Pilar estava destinada a ser uma mulher de casa, com filhos e marido a colaborar em trabalhos doméstico. O que não foi feito, pela sua fuga a Compostela. O panorama de Pilar era largo: entre ficar de camponesa a trabalhar com a mãe e o pai no trabalho rural, essa força de trabalho que Hermínio tinha já pensado ao planificar uma família com sempre mais um ser  novo a nascer de dois em dois anos e assim serem a sua força de trabalho. Mas, a abertura que a nível de Estado Espanhol acontece nos anos setenta e o crescimento industrial que o País experimenta com a inserção de sítios como Vilatuxe no mercado internacional do leite, começa a permitir uma escolha em estudos e habilitações, financiada pelo próprio Estado. Outra alternativa pela que poderia optar, era essa de ser mulher casada a morar fora do lar paterno , como as suas irmãs, emigrantes em Venezuela e em Burgos. Mas, as opções fecham-se, quando a casa vai ficando vazia e as tarefas continuam como sempre, com menos pessoal. A sua opção final, acaba por ser o clarinete, depois o matrimónio, rapidamente uma maternidade, especialmente a causa da abertura de Espanha para a então CEE, hoje União Europeia. Essa abertura orienta e torna a orientar vezes sem fim, o uso das terras.

A família de Pilar, já não tem posse da herança familiar de José António Medela, até o ponto de abandonar a pastorícia, para, a seguir, plantar árvores por orientação do sindicato de agricultores. Essa instituição oficial para proprietários que considera como tais, aos capazes de mostrar conhecimento, iniciativa, capacidade empresarial e reprodutiva. A lei do estado espanhol hierarquiza as pessoas entre os que sabem gerir as terras e têm ainda idade suficientes para serem treinados e investir saber na produção. E pelos anos 94, o Convénio de Maastricht, define Galiza como o sitio da produção de ervas ou relva para as vacas, acaba com a internacional Nestlé que tinha sido o objectivo e o salário do trabalho da aldeia (Iturra 1979-1988) o objectivo de vender leite à empresa e muda a criação de vacas, pela fundação de cooperativas de proprietários. Cooperativas que têm auxílio de veterinários e técnicos agrícolas, que ensinam a genética das vacas, dão créditos para a construção de estábulos, muito diferentes das quadras medievais, que serviam para animais e aquecimento das casas. Quadras que desaparecem, como o trabalho manual, que passa a ser feito com tractores. Mas a maquinaria não pode ser parte do uso de uma população habituada ao trabalho em grupo, em carro de bois, em carro de mão, com tempo largo para fazer, com tempo curto para cumprir. E mais curto ainda, para criar uma nova filharada a aprender o uso industrial da agricultura. Diz Pepe de Taboada, o parente de Pilar e o meu amigo por anos, de que é preciso aposentar cedo, para dar lugar aos mais novos ao entendimento do que é agora produzir e fazer as contas. Era mais claro saber a genealogia de uma vaca, do que a da própria família. Por isso é que para Pilar e família, é uma novidade procurar na história dos seus antepassados, quando a estudamos em 1998. Como é para Pepe de Taboada, já nada habituado a gastar tempo em falar da mamã, do papa, dos tios e primos. Estudo que tinha feito na escola quando o professor mandou inquirir a genealogia dos estudantes. Agora, era a genealogia da vaca, para saber raças, cuidados, possíveis doenças, litros que podem dar por dia e qual a época do ano em que esses litros podem ser produzidos. Todo feito, dentro da industria que a cooperativa privada por eles instalada e tributaria da internacional Feiraco de Pontedeume, instala para eles, a conta do que virá a ser produzido a futuro. O industrial leiteiro nasce já com dívidas a serem pagas pela produção. Produção que pode ser assegurada se o dito proprietário assegura a reprodução humana, como garantia da continuidade da empresa. Pelo qual a lei (1994 e 1995) dispõem que em cada casa fique proprietária da industria, a pessoa mais nova, que garanta a continuidade reprodutiva humana, grupo que demonstre saber do trabalho do leite. Pepe declara invalidez, transfere o seguro da propriedade a sua mulher Josefa Cela, e começa a treinar ao seu filho de doze anos, no saber industrial da produção. E a pensar casar a sua filha de oito anos com uma pessoa de fora, ou fazer de ela uma profissional. Como todos os jovens das casas têm passado a ser. Porque, conforme a lei, as terras devem ter um mínimo de três hectares, quatro vacas e terras contíguas a proprietários que as quiserem juntar para a indústria ter crédito para existir, e receber subvenções. Pelo qual o matrimónio endogénico de proprietárias de nacos de poucos ferrados, medida galega, equivalente a meia ou um quarto de hectare por casa, tem todo o interesse de juntar, como em Pencahue, propriedades, casando primos consanguíneos entre eles. Bem como limita à família ao nascimento de dois ou três filhos apenas, porque só um pode ser o gestor e proprietário. E a dita lei manda que um crédito de um milhão e meio de pesetas seja destinado a crédito, para retirar de casa aos irmãos que não ficaram a trabalhar na indústria.

Eis que Vilatuxe está cheio de profissionais, feitos a partir de 1984, quando se previa que uma mudança curta e rápida podia acontecer nas formas da ter terra. Só que se pensava que seria para os próprios agricultores. Mas, como diz o Presidente do Sindicato de Jovens Agricultores, cunhado de Pilar, o Sr Bazán, Galiza tem que mudar séculos de trabalho, em quatro ou cinco anos. E Pepe de Taboada acrescenta de que o mais difícil, é os agricultores velhos, habituados a um investimento de emigração para instalar tecnologia para a venda de leite a Nestlé. E que esse velhos, como ele diz, nada facilitam e não querem trocar terras para concentrar, dificultando assim, o desenvolvimento da indústria, como estava mandado pela lei. As famílias hoje em dia, são convénios económicos também, onde a emotividade é cultivada pela conveniência de terem terras contíguas, como é o caso de Pepe de Taboada e da sua vizinha Carmen Cela, que de duas filhas, destina uma a Pepe, Carmen Cela como ela, e a outra, fica em casa e casa com um rapaz de fora que sabe agricultura. Essa Carmen Cela que, no grupo de trabalho de faz 26 anos antes, brincava com os seus amigos e comigo, quando apanhávamos folhas secas das árvores, no Outono. E que agora destina o seu tempo a gerir a família para formar indústrias do leite. Muito agricultor desesperado suicida-se na época que eu lá estava, e os filhos, a espera de poder aprender deles, matam-se também por falta de orientação. Muitos pais expulsam os filhos inúteis para o trabalho e casam as filhas com potenciais agricultores, como o caso relatado de Carlitos Fernández, cuja irmã Olga e a proprietária da indústria, mas que não sabem, nem ela nem ele, trabalhar. E o meu amigo Eduardo Fernández Ramos, da raça dos Ferradas do José Ferradas alçado contra a monarquia em 1870 como foi relatado, é obrigado a trabalhar com tractor, e aos seus setenta anos começa a guiar. Como tinha feito a sua cunhada Neves, mulher do seu recentemente defunto irmão, nos anos sessenta, quando Vilatuxe era produto da emigração. As contas feitas com Pepe de Taboada, resultam em 40 tractores para os duzentos lares da Paróquia. Pilar sabe todo isto, o vive e vai largando a agricultura junto com a família, como foi já referido. Para ficarem com uma agricultura de brincadeira, à antiga forma de laborar com cavalos, com arado, charrua e grade, como presenciei. Da mesma forma de que o diálogo igual de faz 26 anos, acaba por ser desigual a prática do trabalho, diferenciado. E só para três vizinhos e parentes, futuros agricultores industriais apoiados estatalmente: Pepe de Taboada, que tem terras e sabe de raças de vacas e é novo de 49 anos – aposentado por doença combinada; a casa de González ou Canda, de Gondoriz Grande, os parentes de Hermínio, e Neves Arca, a cunhada de esse Eduardo que tenta desenfreadamente de salvar o seu investimento de quinze anos de emigração, que casa a uma das suas três filhas com um possível agricultor. Sabido e conhecido o facto por Pilar e todos os outros, o hábito faz ao monge e a agricultura de subsistência que eu presenciei faz 26 anos, subsiste também para salvar a vida em objectivos e alimentos, embora todo receba uma pensão estatal. As trocas matrimoniais, são trocas de conveniência, projectadas ao desenvolvimento industrial de uma Galiza que deve ser uma Holanda dentro de dez anos, a partir de 1995. Como diz o Presidente dos agricultores, esse sindicato do Partido Popular, para proprietários novos. Os sindicatos de antes, já não têm razão de ser. Pelo qual a opção de Pilar, é a livre empresa que faz com o marido técnico em electricidade, e ela própria, em música.

A União Europeia tinha formalmente mudado Vilatuxe em poucos anos. Embora fiquem ainda os rituais, os parentescos, mas não o tempo livre para as trocas de amizade e conversa. Pilar vê que há a Vilatuxe antiga, bem como e a que começa a emergir, e fica pelo meio de transição enquanto os seus pais forem activos e vivos. Porque, ao que pensa, cabe a ela tomar conta deles, a causa dos irmãos serem comerciantes a andarem de um sítio para outro. E os amigos, como a seu antigo colega de Escola, Carlos Varela, que é Técnico em Engenheira nos seus 29 anos, enquanto o seu irmão Jorge é Arquitecto em Barcelona e a sua irmã Blanca, Maestra ou professora primaria, filhos do pedreiro e construtor Amalio Varela e de Rita Ramos filha de Celestino Ramos Ferradas, e Luís Ramos, esse filho de Guilhermo Arca morto aos 45 anos, que é o apoio da sua mãe solteira Rosa Ramos, Mecânico, e Berta e Pedro Tomé, os sobrinhos de o Xastre Novo, Pepe Fernández e Aurora Santomé, filho e nora dos meus amigos alfaiates e lavradores Pedro Fernández O Xastre Velho e Esperanza Bernárdez já defuntos, Maestra e Desenhador em Compostela, e Carmen Montoto Pichel a sua prima filha de António o Ferreirinho sobrinho de Hermínio, Modista, e Mariquinha Fernández, neta do Pedro do Cabo que aos seus trinta anos é medico, e Maria Ferreiroa López, advogado aos seus trinta e um anos, e Florentino Rodríguez, que aos seus vinte e nove é Construtor Civil em Compostela, esse filho segundo dos meus amigos Florentino e Avelina, enquanto o filho mais velho Eládio, é Agricultor, e Fina, filha dos meus antigos vizinhos e amigos Ismael e Saladina Ferreiroa, proprietária e enfermeira, e Luís o filho do meu vizinho contíguo Pepe Gil o Ferreiro, mecânico de profissão e trabalho, e o seu primo José Gregório, esse irmão de Carmen a Modista, que soube casar com Beatriz Ramos, a sobrinha dos irmãos proprietários sem filhos, José e Celso Ramos, cuja herança ela aprendeu a gerir e possuir. Em essa casa grande, elegante, antiga, restaurada á cor dos pergaminhos da família Ramos, que seu estudara 26 anos antes como um café, esse José Gregório comerciante em máquinas de computação para jogos. E tantos, que só posso detalhar em anexo para arrumar o meu pensamento e a leitura do leitor. Esses todos que vão e vêm. Esses todos que são a velha e a antiga Vilatuxe. Uma Vilatuxe que avança para a agricultura industrial e de fim-de-semana, como faz o Engenheiro de Aguas Luís, filho de Luís Iglesias e de Luz Taboada Medela, a descendente de Ramón Taboada e Maria Medela, comerciantes de ultramarinos y netos de Manuel Medela, o irmão de José António, pai do Hermínio, pai de Pilar. Uma voragem de dados e mudanças em curtos anos, uma voragem de lembranças e de passagem do tempo, de idades que avançam e fazem pensar, de objectivos diferentes a conviver, de classes sociais removidas e alteradas, de crianças que cresceram não apenas no tempo, bem como em sabedoria. Donde, a sua epistemologia retirada da de seus pais permite-lhes serem fruto do experimento da União Europeia, enquanto os seus valores são fruto da experiência. Donde, a ciência entrou a causa das opções feitas por bisavós, avós, pais e eles, num crescendo Haydiniano de Strum und drung (1790-1792). Como Benson (1981) estuda para um bairro de Londres e Gough (1981), para a Índia. Aí onde eu pensava que só Pierre Bourdieu revelava no seu Homo Academicus (1984) e Godelier no seu Meurtre du père. Sacrifice de la paternitè (1994), a sua origem rural e operária. Como fez Richard Hoggart em 33 Newport Street (1988), a sua raça proletária, como a de Anthony Giddens, ao longo da sua obra. Essa análise que Ricardo Vieira faz entre trânsfugas e oblatas (1997). É o que são os intelectuais como seres humanos, a combinarem a cultura de experiência, com a cultura da experimentação, como os meus novos da antiga Vilatuxe, que fazem de ela um sítio em transformação. É o que Pilar é. É o que Pilar percebe. É o que Pilar sabe dos ciclos, a traves do tempo por ela vivido e, agora, estudados comigo no meu reestudo de 1998. O que Victoria é, como já debateram em dados, e o que deve ser Anabela. A qual de novo visitamos, para fechar o entendimento de como a experiência quotidiana não retira a aceitação da Ciência experimental, do entendimento.

C-Anabela

Hoje é professora primária em Sinfâes, Viseu. Em pequena estudou nos textos pós 25 de Abril. Novos ainda. Nos seus 35 anos de hoje, casada e mãe, aos seis começou ir a escola local de Vila Ruiva, com uma professora de Mangualde, Dona Isilda, até que no seu quarto ano de primária, o Professor Messias foi o seu mestre. Os pais longe, na Alemanha, eram a avô Conceição Vidigueira que tomava conta da sua pessoa e dos seus estudos. Esses que continuou no ciclo preparatório desses anos, na Vila de Nelas, no ano 83, vila onde fez os seus estudos secundários entre os anos 84 e 92. Levou mais um ano do que é habitual, devido a que tinha, como já sabemos, que tomar conta do trabalho do café do pai, do café da família. Durante o dia. Sempre estava sentada em uma mesa do café a fazer os seus trabalhos, entre serviço e serviço a clientes que o que queriam, era serem despachados. Clientes que não entendiam de estudos. Só do seu trabalho e presa era que entendiam. Como o seu próprio pai, esse que estudou até a Quarta classe, e a sua mãe, até a Terceira. Porque tinham que trabalhar. Como tenho dito já em outro texto (1990 b)), casa que não tem experiência com livros, é casa que não respeita os ditos livros. Nem o seu valor. Mais do que uma vez, o pai disse que era possível ir em frente, sem tanto estudo. Porque o estudo matava a cabeça. Eis que os seus filhos tiveram que construir sós a sua academia, até serem professora ela e gestor, ele. A pequena podia estudar em quanto nova, porque não tinha mais obrigações do que ajudar a avô em casa. Carácter afável, calmo, sereno, ia transitando pela vida em uma altura que a vida era conturbada fora da aldeia. Até um certo ponto. Porque, a queda do regime ditatorial, muitos dos que em Vila Ruiva tinham sido os seus apoiantes, ficaram postos de parte pela maioria republicana que aí morava. Anabela não entendia nada de isto, não havia quem for capaz de explicar. E quando pai e mãe voltaram, o seu tempo fora do País tinha-os colocado também fora do dia-a-dia da política nacional. Vilaruiva tinha estratos, como foi já referido, estratos em mudança. E entre as mudanças, aconteceu a do um povo subordinado a um governo unipessoal, para um ou vários governos, multipessoais. A nova democracia. Uma democracia que teve que ser disputada entre grupos políticos, individualidades, ideologias, civis e militares. Um debate sem vingança, sem presos nem desaparecidos, nem outro conflito no nível local, que não fosse o debate de pontos de vista quentes, entre pessoas amigas e parentes, por anos. Vilaruiva tem a característica de correlacionar no convívio, a  seres da Monarquia, das primeiras repúblicas, da ditadura, e das varias orientações a seguir a Revolução dos Cravos. Mas Vilaruiva, por cima de todo, era um local de ideias e comportamentos católicos, comandados pelo corpo católico do magistério, os novos-ricos que, da ruralidade pobre, tinham aparecido. Esses filhos de jornaleiros, que não aceitavam o seu saber, bem como a sua riqueza derivada do ensino e do ordenado em dinheiro, para um sítio onde nada deviam pagar para consumir. O magistério atingido no meio dos seus, dá uma hierarquia quase que equivalente a um título aristocrata. Pelo respeito que inspira a possibilidade de sair da pobreza para ser elevado ao trabalho pago pelo Estado. É essa a escola de Anabela, a arrogância de uma professora do lugar, ao pé da serenidade do professor de Anabela, que nunca teve uma palavra a mais e era forte apoiante dos filhos dos emigrantes. Esses, para imitar Caroline Brettel (1988) e transpô-la de cravo a piano, órfãos de pais vivos e activos. Mas, faltos do seu carinho. Até o ponto que, durante os 14 anos de ausência dos progenitores, Anabela desenvolveu uma epilepsia que fez retornar à mãe a correr. Uma epilepsia que era apenas a tristeza da falta do que todos pareciam ter, pais em casa. Preocupada por essa ausência, os seus estudos eram lentos, embora bem qualificados. E muito disciplinados, pelo horário do transporte escolar que levava á criançada á Vila de Nelas. Uma melhoria conquistada pelos vizinhos após Abril. Porque até essa data, era a pé que se andava. E por andarem a pé, era que muitos não continuaram os seus estudos. Como vários dos colegas de turma de Anabela, que dedicaram o seu tempo e habilidades, a trabalhos mais sedentários.

É o que eu tenho denominado o fracasso escolar. Porque o fracasso não é apenas o não saber na turma, é escolher outros caminhos não académicos. E, embora a União Europeia está a tentar fazer de Portugal um país letrado e a obrigar de que a Licenciatura seja parte da escolaridade, anos deveram passar antes que a criançada adulta seja também licenciada. Como na Grã-bretanha, na Alemanha, outros Países da Europa do Norte, onde ser licenciado não é ser doutor como em Portugal, é apenas ser mais um cidadão preparado para trabalhar em escritórios, bancos, outros sítios. Uma época larga deverá passar, como na Galiza, para viver a mudança do comportamento intelectual. Anabela é testemunha de como o Portugal rural tem sido fonte de trabalho, depois da dura libertação demorada das enfiteuses e da lenta morte da aristocracia e da inexistência da burguesia, que só agora começa a ser formada, pelas pessoas que, do campo, viviam. Os colegas de Anabela, o Paulo Ferreira, a Ana Maria Figueiredo, a Isabel Fernandes, o António Roque, outros, são todos operários ou domésticas. Só Anabela escolheu o caminho que era possível em novas condições. Também há a velha Vila Ruiva, mas a velha só, nada se altera ainda, para o interior do País, todo é como no Chile, acontece em Lisboa ou Porto. A província, é província, sem dinheiro nem vida intelectual, nem intelectuais de nota que queiram lá viver, visitar, ir falar. Anabela sabe, e empurra para continuar no sítio, como a igualitária cidadã que, no seu trabalho, sabe. Mas que, na sua aldeia, é a filha do Sr. Lopes e da Dona Fernanda. É assim que amam, à forma dita antes. Com a diferença de que há mais dinheiro para organizar um lar e mais caminho aberto a empresa individual e privada. Anabela sabe que vivemos em um país pobre e de que os proprietários do capital, estão a desenvolver e não a educar ao povo. Que é o que Anabela faz. Como Victoria faz, e Pilar não precisa faze-lo: uma lei apoderou -se da Galiza, lei que a todo minuto virá a ser imposta em Portugal: dividir o País por regiões produtivas. Como na Espanha é, como na França e a Holanda deixou de ser. País onde há políticas agraria e não um correr para se salvar quem puder. O quem amigos tiver. Amigos que são os que Anabela tem, mas no sentido de transferência afectiva, de terem crescido juntos. Porque, para além de lar e escola, há toda uma vida pública que as pessoas fazem. E essa vida pública de Anabela, é de simpatia e amizade. E de ritual. Tanto é assim que casa em 2008, com Miguel Abrantes de Mangualde, tem uma filha, Maria.

A aldeia toda está dividida entre o que é a vida social e política, que acaba por condicionar as suas vidas pessoais. Há o acreditar político, que é diferenciado, mas há também o acreditar da fé e a prática do ritual. E Anabela pratica esse ritual, não só nos domingos, quando vai a Missa com sua avó materna, Conceição Vidigueira, bem como na festa anual da aldeia, a 15 de Agosto. Participa na preparação dos andores e em levar algum deles, ajudar especialmente no da padroeira, um andor pesado. Porque o ritual, como diz Van Gennep (1909), Godelier (1982) e Levi-Strauss (1962b ) e Paulo Raposo (1998 ) e eu próprio (1992 ), não é só a passagem de um estado social a outro, é também a exibição  do pessoal com que a aldeia conta, da sua força, das possibilidades de troca, de festejar em conjunto o grupo, de se alimentar calmamente um dia, de solicitar tudo aquilo que não é possível as pessoas fazerem. É o drama do povo, como diz Raposo (1998), no sentido de teatralizar a vida. Como o dito dia da Páscoa e a bênção da casa, quando cada lar gosta de mostrar o alimento que tem e a comida que gasta, e os parentes que visitam a casa. Quando se mostra a mobília, a riqueza, o bem que se sabe preparar alimentos. Rituais nos quais participa Anabela como membro do grupo. Muito da sua infância ela empregou em andar nos rituais públicos, quer porque a sua avó materna é crente, quer porque era a maneira de dar alguma liberdade ao seu espírito abatido pela ausência da mãe, á qual estava habituada a ter sempre com ela. Sem ser mais do que um membro do grupo que pratica o cristianismo como todo membro da cultura ocidental, sem ter pretensões de ser católica. Alias, tem um claro pensamento sobre os católicos: filha de enfiteutas, da terra de outros na sua aldeia, e da Igreja principalmente, que hasta 1853 foi proprietária de muita extensão, acaba por lhe parecer que a fé católica é dos que, enquanto são ricos, exploram aos outros, o trabalho dos outros. Como os proprietários grandes que ainda ficam em Vila Ruiva. Diferente é o caso de pessoas como a sua avó materna, que medita, pensa, fica serena pelo facto de ter fé. São muitos anos de pensamento cristão ritual, o que lhe permite ser calma e bondosa. Como tanto membro da sua geração. E não ter que recorrer a alternativas diferentes a ela própria para decidir. Anabela vê três tipos de católicos em esta antiga aldeia: os ricos que exploram e são fieis devotos de padres, os pobres enriquecidos que cumprem o ritual de forma rígida e fazem homilias ao resto para parecer ricos antigos, e os católicos calmos como os da sua família, que estão a pensar em eles próprios e no seu interior, enquanto andam nos ritos, sem pedir favor especial a santo nenhum. A opção, Anabela sabe pelo pai, pela mãe, pela família, é nossa, é pessoal, é a pratica da inteligência que aprende os valores que a pessoa pode apreciar e escolher. Donde, o ritual maior, é a calma consigo própria e com as pessoas com as quais interage. Vila Ruiva tem guardado esse tipo de afirmação. E, embora os mais velhos se sintam a envelhecer porque o mundo está a mudar, o que está a mudar é o abandono do trabalho das terras, não o trabalho em outros sítios. Anabela é, na medida de que faz como a maior parte dos membros jovens da sua geração: trabalhar fora por um salário e comer do que trabalha em épocas específicas do ano. Alan Macfarlane tem razão (1986): camponeses já não há. Houve. Ao mudar a relação com a terra, mudou a interacção e a relação consigo próprio, como afirmo eu próprio ao ler este dados. E depois de ter estudado o ritual durante muitos anos. Como Anabela. Que é assim e assim é que cresce. E ensina. E pratica o processo educativo com a calma e segurança, que essa maturidade dá. Como Victoria e Pilar, Anabela produto da sua cultura e da sua memória social contextualizada pelo tempo, é. E é assim que ama, como os seus ancestrais. Em diferente tempo do saber cronológico, que a história nos fornece.

Victoria, Pilar, Anabela, em procura de opções de amar, em diferentes partes do mundo, amáveis, sábias, calmas, a reinar a partis do conceito emotivo do amor. Três amigas, de longa datam, que têm colaborado comigo em todos os livros escritos e publicados sobre suas histórias de vida… como a minha Maria Cheia de Graça…

Comments


  1. Não tive tempo para ler todo o texto, mas cito esta parte :
    ” B-Pilar
    Amor entre pais e filhos
    Entre os galegos as crianças são também acarinhadas. Quando bebés, com mimos. ”

    Convém sempre frisar, pelos vistos, que esse amor que fala, é interrompido e um terço da vezes para sempre, em caso de divórcio ou separação.
    Apesar de mudanças positivas nas leis, a praxis continua a reinar, e não mudou.
    O mesmo acontece na Galiza, e sem dúvida alguma por cá. Por isso, o carinho, desculpe a franquesa, é acabado.
    Falo essencialmente no lado masculino, e sobre esse lado tão esquecido pode-se ir lendo no meu blogue já agora

    PauloQ

  2. Anabela says:

    Meu querido Dr Raul, entre mamadas e mudas de fralda, só agora tive tempo de ler os seus últimos textos. Comento este em especial pelo óbvio! É sempre com muito orgulho que me vejo retratada neles. É e será sempre o grande impulsionador da antropologia em Portugal. Um abraço muito apertado do fundo do coração. Com muito carinho, Anabela Lopes

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