atribuição do prémio Nobel de Literatura. Mi Gabriela Mistral

A nossa poetisa recebe o merecido Prémio das mãos do Rei Sueco, o primeiro ao acabar a guerra mudial

Entrega do Prémio Nobel de Literatura pelo Rei Gustavo Adolfo da Suécia, Novembro de 1945, aos 56 anos de idade

Quando se fala de Prémios Nobel de Literatura, há um que é sempre esquecido e sinto o meu dever resgatar.

A notícia de ter ganho el Nobel, a recebeu em Petrópolis, a cidade brasileira onde desempenhava a labor de cônsul desde 1941, cidade de má fama para ela: tinha-se suicidado aos 18 anhos, Yin Yin, alcunha de Juan Miguel Godoy Mendoza, seu sobrinho consanguíneo, conforme a notícia circulava, filho de um hermanastro, quem fora adoptado por ela e a sua amiga e confidente Palma Guillén, com quem vivia pelos menos desde que o garoto tinha quatro anos. Há quem diga que era filho dela, dai a cautela com que transfiro a notícia, especialmente por ser narrada a nós pelo nosso tio Higinio González Nolle de Montjeville, Ministro Conselheiro da Embaixada do Chile em Rio de Janeiro. Tinham convivido juntos, em tempos de guerra, em Portugal, onde o tio era Ministro da Embaixada e Gabriela, consulesa. Habitavam a mesma casa que hoje

é usada como residência do Embaixador. Eis porquê sempre houve uma máscara feita em aço, da nossa poetisa, que o nosso amigo da infância, o Embaixador, Emílio Filippi, em 1995, levara consigo ao retornar ao Chile A notícia foi-lhe comunicada pelo nosso tio, a sua mulher, a tia Rebeca Tornero e a filha, Maria Teresa, todos já falecidos.

Em finais de 1945, regressa aos Estados Unidos por quarta vez, como cônsul en Los Ángeles. Com o dinheiro ganho com o premio, compra uma casa em Santa Bárbara, uma pequena ilha dentro da cidade de Califórnia. Seria ai onde, no ano a seguir da conquista do Nobel, escreveria grande parte do seu livro de poemas Lagar I. Nos seus poemas observa-se a ferida e desolação que causaram na sua alma calma, a segunda guerra mundial, y que será publicado en Chile en 1954. Em 1946, conhece a Doris Dana, escritora estado-unidense. Estabeleceram uma controvertida relação, mas de quem no separaria até o dia da sua morte de quem no se separaria hasta a sua morte. Controvertida, porque no Chile, que querem saber todo, tinham inventado a ideia de serem um casal. Nesses tempos, se for essa a realidade, relações desse tipo eram condenadas quer pela sociedade, quer pela lei, muito atrasada no Chile, até o dia de hoje. Quem se interessa pelas opções emotivas de um vulto da literatura, como elas eram, especialmente a minha Gabriela, só falar da sua prosa, enche horas inteiras de conversa. Aliás, o ofício de escritor é duma grande solidão e silêncio, bem sei eu, como escritor que sou e outras ervas. Elas acompanham-se na distância de essa imensa casa isolada, ainda que não se visitarem rodos os dias: escrever é lindo, mas é fatal…E se o fossem, ainda que não sou um homem de fé, apenas poderia exclamar: Ave Maria, finalmente tem companhia afectiva! Como seria mais tarde o caso de pseudónimo de Marguerite Cleenewerck de Crayencour (anagrama de Yourcenar) (Bruxelas, 8 de Junho de 1903Mount Desert Island, Maine, EUA, 17 de Dezembro de 1987), foi uma escritora belga de língua francesa. Foi a primeira mulher eleita à Academia Francesa de Letras em 1980, após uma campanha e apoio activos de Jean d’Ormesson, que escreveu o discurso de sua admissão. Ou de Simone de Beavoir: Simone Lucie-Ernestine-Marie Bertrand de Beauvoir, mais conhecida como Simone de Beauvoir (Paris, 9 de Janeiro de 1908 — Paris, 14 de Abril de 1986), foi uma escritora, filósofa existencialista e feminista francesa.

Escreveu romances, monografias sobre filosofia, política, sociedade, ensaios, biografias e uma autobiografia.

Aliás, as histórias mudam com a experiência da vida, o que antes fora condenado, hoje é lei que permita à afectividade e matrimónio de pessoas do mesmo sexo. Apenas que essa injusta lei, como tenho comentado em outros ensaios meus, não é aceite socialmente pelo povo, apesar de praticarem a homossexualidade como tenho estudado nas minhas pesquisas, uma união de segunda categoria em Portugal, por não permitir a adopção, como, em silêncio fez Gabriela Mistral do seu sobrinho Ye Ye .

Suficiente para informar das intimidades de pessoas famosas, que merecem respeito, consideração, silêncio e agradecimentos da nossa parte ao nos endossar a nossa vida com os seus textos, a sua imaginação e sabedoria. Muito obrigado, Minhas Senhoras por fazer da minha vida, um sentimento feliz quando leio as vossas obras!

Conheci a mi Gabriela, em 1954, em Valparaiso, Chile.

O título tem razão de ser, porque a conheci quando eu era pequeno e, desde logo, a admirei. Conhecia a sua poesia, romântica e combativa. Gabriela Mistral[1] era a leitura obrigatória da minha mãe, que gostava mais de ler que de comer. Essa devoção levou-me em curto espaço de tempo a ler a poetisa. Mal se conhecia a sua obra no Chile, apenas os Sonetos da Morte, escritos em 1914, poema com que ganhara os Jogos Florais de Santiago. Não se apresentou a receber o prémio. Tinha escrito esses versos em memória do seu grande amor, Romélio Ureta, homem fino, com quem namorou, abandonando o seu prometido Alfredo Videla, ambos maestros na escola La Cantera, da cidade de Vicuña. Gabriela Mistral era maestra de crianças e foi sobre elas que começou a escrever.

Não esqueço esse soneto que faz pensar, sentir e chorar, publicado originalmente no seu livro Ternura, de 1922, página 278, intitulado Piececitos:

PIECECITOS

Piececitos de niño,

azulosos de frío,

¡cómo os ven y no os cubren,

¡Dios mío!

¡Piececitos heridos

por los guijarros todos,

ultrajados de nieves

y lodos!

El hombre ciego ignora

que por donde pasáis,

una flor de luz viva

dejáis;

que allí donde ponéis

la plantita sangrante,

el nardo nace más

fragante.

Sed, puesto que marcháis

por los caminos rectos,

heroicos como sois

perfectos.

Piececitos de niño,

dos joyitas sufrientes,

¡cómo pasan sin veros

las gentes! [2]

Embora reclamasse não ser uma mulher política, os seus poemas demonstram, rapidamente, a sua luta contra a injustiça e a desigualdade social. Assim como o seu apoio ao Partido Radical do Chile, fundado em 1858 pelos aristocratas dedicados à melhoria de vida dos mais desprezados e pobres do Chile[3].

Como sabemos, Gabriela Mistral nasce em Vicuña, Vale do Elqui, localizado no norte do Chile, contudo, em breve, passam a morar na aldeia de Botafogo, en la villa de La Unión, onde o pai ensina. Mas, irrequieto, passados três anos, abandona a família, que regressa a Vicuña e passa a viver com a avó materna. Em 1909 morre o pai vítima de excessos alcoólicos e de falta de alimentos. Gabriela, maestra em Antofagasta, soube dessa morte somente em 1911. A sua própria mãe falece em 1929 e Lucila fica entregue à sua sorte.

Quando mais nova, corria a voz de ser retardada mental, de não saber ler nem escrever e não entender a realidade. No entanto, a sua mãe a defendia e acabou o último ano do Liceu em Vicuña acompanhada pela mãe e a sua amiga, a Directora, Dona Emelinda.

Se Lucila parecia tonta, havia um motivo de que pouco se fala, apenas Volodia, o seu biógrafo e meu amigo, refere o facto na página 22 do seu livro referido na nota 1. Lucila foi uma criança abusada, foi violada, não se sabe por quem. Da mesma forma que nunca permitia que se falasse mal do seu pai, também nunca contou esta história, excepto ao seu amigo e escritor notável, César Vallejo. Volodia encontrou, na sua pesquisa, a carta e com toda a delicadeza relata o crime tão delicado, que é preciso ler duas ou três vezes essa página 22 e saber como era a vida dos pobres e das meninas abandonadas tal como a vida rural de sítios mesquinhos como Monte Grande.

No Liceu houve um roubo, Lucila foi o bode expiatório: a escola inteira, no pátio, julgou-a e acusou-a de ladra. Anos mais tarde, já muito conhecida, perguntarem-lhe se se lembrava da Yaya, essa Directora….Com voz dura e sem um gesto, abriu a boca apenas para dizer Eu nunca esqueço nada

O seu refúgio foi os livros, desde os latino-americanos até Chekov, que muito a impressionara. Era austera, vestia sempre igual, teve o namoro com o jovem antes referido, Alfredo Videla Pineda, que sabia cantar, dançar e tocar piano, era o príncipe azul desta gata borralheira. Mas a sua pobreza não lhe permitia pagar os estudos na Escola Normal Superior e teve de ensinar como assistente numerária, muda de escola todos os anos, percorreu todo o Chile até ao dia em que encontrou dois professores que fizeram mudar a sua vida. Um, o grande amor da sua vida, Romélio Ureta, que se suicida e a deixa só. Foi em sua honra que escreveu Os Sonetos da Morte. Nada se sabe deste amor, não há provas dos seus amores, excepto um cartão com o nome no seu casaco. Conheceu-o nos tempos em que os dois eram docentes em La Cantera. Grande debate se gera em torno desta questão: foi ou não o grande e único amor da sua vida. Ela própria, passados anos, já graduada como professora, após assistir aos convites do Governo Mexicano, diz: essa história é parte da fantasia sobre a minha pessoa. Porquê, porém os versos, porquê esse nicho gelado, porquê estar classificado no seu livro Desolación, página 82, entre os versos da dor?

Há outras explicações que uma dezena de biógrafos como Alone, Anderson ou Imbert colocam. Para estes, a realidade passa por Romélio Ureta e Verdugo ser da aristocracia chilena, sobrinho neto de José Miguel Carrera y Verdugo, Libertador do Chile da Coroa Española. Lucila era pobre. É aos seus vinte e cinco anos que fica só para sempre, dedicada unicamente aos seus livros, à sua fama e à carreira de diplomata. Porque esse segundo homem que colaborara na sua vida, foi o Presidente Radical do Chile, Pedro Aguirre Cerda. Professor Primário, estudou Direito à noite e abriu um escritório na cidade de Los Andes, Centro Norte do Chile, limítrofe com a Argentina, quando a conheceu disse-lhe: Sou Senador, em breve vou ser Presidente da República, serás, pois, a minha representante no México, em Itália, em França…E assim foi. Don Pedro faleceu antes, em 1939, Gabriela procurou refúgio na cidade Brasileira de Brasília, como consulesa. Em 1945, nosso tio direito, Higínio Gonzáles Nolle, irmão do pai da mãe das minhas filhas, recebeu um telegrama anunciando à Embaixada do Chile no Brasil, que Gabriela Mistral tinha sido honrada com o prémio Nobel de Literatura. O tio, que tinha partilhado com ela a Embaixada chilena em Lisboa, sabia as medidas da poetisa: arrotou, e disse: a quem outro se não a mim? E continuou a beber a sua mistela, água com um dedo de vinho e açúcar, um dos dois vícios a que se permitia. O outro, era fumar até 4 maços de tabaco por dia.

Recebeu o prémio, ninguém sabia nada dela no Chile. O Presidente da República Carlos Ibáñez del Campo, por cortesia convidou-a ao Chile, ela aceitou e foi adiando a sua visita até 1955. Tinha eu catorze anos. Ela não falava, eu também não. O Presidente era calado, pelo que iniciei uma conversa sobre a sua obra e confessei como chorava eu com os seus Piececitos, ela sorriu e fez-me um comentário: filho, se gostas de poesia, não é apenas ler-me, é também escrever como eu faço, mas de forma diferente, à tua maneira…E parece que assim foi.

Por ser um estudante com louvores na minha classe, escola privada de padres, voltei a sair com ela e andámos os dois sós a pé pela baixa de Valparaíso. Vimos o mar, não falámos, a sua grandeza para mim era alta como para abrir a boca. Passadas as duas horas combinadas, levei-a de volta ao Paço do Governo Local, deu-me dois beijos, apertou a minha mão e esse sorriso da imagem do texto, apareceu na sua cara.

Porém a minha Gabriela Mistral.

No dia do meu aniversário, anos volvidos, fui ao cinema para comemorar os meus 16 anos e vi a Gabriela Mistral vestida a rigor, com o fato preto do prémio, esticada e sem vida, com as suas mãos cruzadas, olhos fechados, prestes a partir, como todo o chileno distinto volta ao Chile: com os pés em frente. O mistral, esse vento do Mediterrâneo ia-nos trazer de volta a Lucila Godoy Alcayaga, com os seus 69 anos bem trabalhados. Confesso que fiz luto. Calei durante uma semana…Mas, essas poucas horas, desde ser apresentado até ao passeis, ao todo 48, viverão para sempre comigo….como a sua poesia…Tala e Chile


[1] Gabriela Mistral, pseudónimo escolhido de Lucila de María del Perpetuo Socorro Godoy Alcayaga (Vicuña, 7 de Abril de 1889Nova Iorque, 10 de Janeiro de 1957), foi poetisa, educadora, diplomata e feminista chilena.

Nasce, no meio de um forte temporal, na madrugada de 7de Abril, no antigo nº 114 (casa já demolida) da rua Lopes Quintas, na Gávea, ao lado da chácara do seu avô materno, Antônio Burlamaqui dos Santos Cruz. São seus pais D. Peta Alcayaga e Jerónimo Godoy Vilanueva.

Se nasceu em Vicuña, foi pura casualidade. Duas semanas mais tarde os pais transferem-se para La Unión, onde viveu, na vila de Botafogo, até regressar a Vicuña, anos mais tarde, para acabar os seus estudos de Liceu e tentar realizar estudos superiores. Mas não tinha dinheiro para pagar a Escola Normal. Foi preciso ensinar como ajudante nas escolas primárias onde fosse colocada.

Em 1916 a família muda-se para a rua Voluntários da Pátria, nº 192, em Botafogo, passando a residir com o aos avós paternos, D. Maria da Conceição de Mello Moraes e Anthero Pereira da Silva Moraes.

Foi agraciada com o Nobel de Literatura de 1945. O seu pai, Jerónimo Godoy Villanueva, tinha estudado para sacerdote, mas rapidamente abandonou a vocação e se dedicou ao ensino. Essa preparação do seu pai influiu a sua poesia, bem como a dedicação de Peta Alcayaga a obras pias, cantante do coro da Igreja, doze anos mais velha que ele, como confessou ao Sacerdote que casá-los-ia, como consta na Acta de Matrimónio, citada por Volodia Teitelbom, esse meu velho amigo, que escrevera a biografia Gabriela Mistral. Pública y Secreta, 1991, Editorial Sudamericana, Santiago, Chile.

[2] Retirado do livro Gabriela Mistral. Poesias completas, Editorial Andrés Bello, Santiago de Chile.

[3] O Partido Radical, partido chileno criado em 1863 por elementos da ala extrema do Partido Liberal, foi fundado oficialmente como partido político em 1888.  Fez parte da Alianza Liberal, da  Frente Popular, da Unidad Popular e, nos últimos anos, da Concertación de Partidos por la Democracia. Foi membro da Internacional Socialista. O seu fundador, em 1858, Manuel António Mattta, viu-se obrigado ao exílio por ser defensor das ideias de Gracchus Babeuf, autor do Manifesto dos Plebeus , escrito em 1795, impulsionador da Revolução Francesa e que deu aço para o de 1796 de Sylvain Marèchai e O Manifesto dos Iguais, dos quais a baronesa Joana von Westphalen, casada com Kart Heinrich Pembroke Marx, e Friedrich Engels, retiram ideias para o Manifesto Comunista de 1848, redigido todo ele, com pontos e vírgulas, pela baronesa prussiana. Em 1994 funde-se com o Partido Social Democracia de Chile, dando origem ao Partido Radical Social Demócrata, que se considera herdeiro da história e da tradição do radicalismo chileno.

Fonte: Sepúlveda R., Julio. 1993. Los radicales ante la história. Editorial Andrés Bello, Santiago de Chile

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  1. […] louro difícil de alcançar e a primeira chilena, antes de Neruda em 1971. Sobre ela já escrevi em http://aventar.eu/2010/10/17/atribuicao-do-premio-nobel-de-literatura-mi-gabriela-mistral/ e outro texto, Mi Gabriela Mistral em Estrolabio, que pode ser acedida em […]

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