Catequese e a sexualidade infantil.Um Manifesto

os velhos deuses estão mortos, mas o ser humano precisa de rituais-Durkheim-1902

…ritual mapuche para melhorar um doente…

CATEQUESE E SEXUALIDADE INFANTIL. UM MANIFESTO

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para Angélica Espada, que sabe da Infância e inspirou este texto… 

No seu trabalho inédito Pragmatisme et Sociologie, (cópia do manuscrito em minha posse) proferido na Universidade Sorbonne de Paris, durante o ano de 1913-1914, o velho socialista e materialista histórico, Émile Durkheim, comenta que os velhos deuses estão mortos e a religião em vias de mudança. Eu diria, não ser tanto assim, porque todo o ser humano precisa de ritos, ideias, ética, interacção moral, orientação na criação dos seus descendentes. Donde, a Religião, seja ela qual for, pelo menos define as relações entre pais e filhos, voir mães, pais, filhos, filhas. A nossa língua não tem ainda um conceito para designar estas relações, excepção para ascendentes e descendentes, palavras sem música e indefinidas. Max Weber entre 1904 e 1915, ocupou o seu tempo em definir esses conteúdos entre Chiitas, Budistas, Luteranos, Calvinistas, Cristãos Koptos, Cristãos Arménios e Cristãos Romanos. São, exactamente estes últimos, os que nos interessa entender melhor, por sermos, por um lado, um País em debate sobre a educação sexual da infância, e por outro, um País de

Concordata entre o Estado do Vaticano e Estado Português. Os cristãos romanos, contudo, falam pelo seu grupo nos lugares de mando sem separarem o seu dogma dos interesses da população. No ensino oficial, em Portugal, como sabemos, existem duas disciplinas optativas: Educação Cívica ou Estudos Religiosos, como sabemos também que a Igreja Romana tem decidido ensinar as suas ideias conforme são decretadas no Vaticano. Os Cristãos Romanos não podem pensar na forma de serem pais, ou ainda, se querem ou não sê-lo.

Desde 1566, quando o Papa Pio V publicou o Catecismo de Trento, a família passou, a exemplo do que fizeram Martin Luther e o Rei James de Inglaterra, a ser uma regulamentação obrigatória escrita em línguas faladas pelo povo e que lhe é ensinada desde o primeiro dia do seu entendimento. Diz o Código de Direito Canónico de 1983, no cânon 97, # 2, que toda a criança tem uso de razão, a partir dos sete anos de idade, logo, tem deveres. Esse primeiro dever está definido nos artigos 2196 até ao 2246, incluindo – no artigo 2201- os deveres de família, como a base da união da vida social, a semente da interacção, a obediência à autoridade civil, porque à Eclesiástica já está dita no Capítulo II do catecismo da Igreja Católica, artigos 50 a 68, com minúcia e muita história sintética. Estes artigos não permitem muita opção à liberdade individual, tal como ela é definida pelo mesmo texto e pelo Direito Canónico, que define obedecer ao Código Civil e aos outros Códigos que nos governam a vida: artigos 1877 a 1917, com minúcia também.

Nada escapa à gestão da vida social para os teólogos que organizaram este, como outros, catecismos. Então porque será que Françoise Dolto, terapeuta falecida recentemente, escolhe para um dos seus livros, L’ Évangile aux risque de la psychanalyse, Seuil, 1977, a parábola do Filho Pródigo, que Lucas no capítulo XV do seu Evangelho, Versículo 11 a 32 reproduz como imitação de Jesus? O filho mais novo vai embora, pede ao pai a sua parte dos bens, delapida-a, e volta a casa  pobre e ferido; o pai faz uma festa para o receber que o irmão mais velho critica ao dizer que ele trabalhou e nunca desobedeceu nem fugiu e não é comemorado. O pai diz que o ama, mas que o filho regressado é a ovelha recuperada para o redil. De facto, Françoise Dolto analisa com cuidado as semelhanças entre o pai e o filho mais velho, o longo tempo passado juntos, a semelhança nos objectivos de vida e de trabalho e, por ser justo e verdadeiro, reconhece no filho que volta, a sua própria maneira de agir – a responsabilidade -, que o mais velho, ao ser silencioso e subordinado, não demonstrava, nem tão pouco despoletava o debate com o seu adulto. Dolto escolhe Lucas, Wojtila (João Paulo II) e os seus teólogos, escolhem Mateus e Paulo de Tarso para falarem de família, obediência e subordinação. Aliás, Wojtila define o bem como algo comum, sob a visão de Barnabé, de acordo com a Epistola 4, parágrafo 1: não vivais isolados…como se já fosseis justificados; reuni-vos para procurar em conjunto o que é de interesse comum; ou na Encíclica Gaudium et Spes de Paulo VI, dos anos 60 do Século XX: o direito de agir conforma a própria consciência, direito à salvaguarda da vida privada e à justa liberdade, mesmo em matéria religiosa. Donde, um bem comum contraditório, como contraditória é a rejeição ao Socialismo e ao Capitalismo, Artigos 2425 a 2443 do Catecismo de Wojtila, que desdenha formas económicas de mais-valia, embora aprove a propriedade privada, manda aos ricos assistirem aos mais pobres, sem mandar repartir os recursos entre todos. Vida sexual? Até há pouco, o catecismo usado era o de Montini (Paulo VI), porque o de Wojtila admite o amor entre pessoas do mesmo sexo, apesar de definir que a intimidade sexual é para fazer filhos; não pune a masturbação que, durante Séculos, era o pecado mais confessado, e não condena o amancebamento, ou seja, vivência em união sem o Sacramento do Matrimónio.

O que entende a criança deste conjunto de contradições, sem contar com as carícias dos celibatários que lhes ensina o que é mais conveniente para a vida do grupo social que habita? Conveniência na comemoração de Fátima e no esquecimento da Imaculada Conceição, padroeira de Portugal, desde a época da recuperação da Liberdade e da Soberania Portuguesa, simbolizada na dinastia de Bragança, história que poucos parecem conhecer, por Fátima ser um sentimento e a Imaculada, um facto. O meu maior medo é esse: o ensino da lógica da História, que denomino religião, por pessoas entregues a predefinições, dogmas de fé, ideias nunca provadas e ensinadas a crianças cujo dever, dizem os Romanos que nos governam, é a produtividade e o conhecimento para organizar empresas. Que o povo não ouve? Mas, meus senhores, levámos mais de duas semanas com uma Assembleia da República a debater o que se ensina e a quem! Que sabem os senhores deputados, da esquerda e da direita, dos textos a que recorri para escrever este artigo? Como consideram os que devem curar, entender, tratar, argumentar, a religião? Será como essa frase de Feuerbach de 1842 sobre a essência da religião? Ludwig Andreas Feuerbach (Landshut, 28 de Julho de 1804 — Rechenberg, Nuremberg, 13 de Setembro de 1872), filósofo alemão, reconhecido pela sua teologia humanista e pela influência que o seu pensamento exerceu sobre Karl Marx.

Será entregar-se a mãos desconhecidas, mas milagreiras, que fazem das rochas, pão? Frase do criador da psicanálise, que Freud soube usar, como Dolto e outros, e recuperar essa fraternidade e igualdade tão prometidas desde o começo da nossa Era.

As crianças andam em péssimos lençóis se, pessoas como eu, ateias, não se interessam com as bases do pensamento cultural e abandonam o processo de ensino a hierarquias que a Concordata e os nossos poderes hierárquicos mandam. Que não digo mais de sexo? Mas, não está ele dentro disto tudo, por acaso? Haja um Deus que nos proteja destes debates desinformados que a Assembleia promove para nos deixar nas mãos de uma teologia mais velha que o Concílio de Trento de 1542. Aos meus filhos, ensino eu: aprendam a pensar comigo e eu, com eles. É o que se devia discutir dentro dos poderes, antes de se benzerem com a espada ou com a cruz.

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