Viver acima das possibilidades

Oiço dizer que boa parte da Europa vive acima das suas possibilidades. Olho de soslaio para os meus botões, abano a cabeça e dou por mim a achar que é capaz de ser verdade. Depois, meramente a título de exemplo, pego no caso português -que nem é um referente de boa saúde através dos tempos- e digo aos meus botões:

-Portugal tinha pescas, pescadores e pequenas indústrias em torno delas. Abateram-nas.

-Portugal tinha agricultura, agricultores e alguns mercados em torno disso. Desmantelaram-nos.

-Tinha solos agrícolas classificados. Betonizaram-nos.

-Tinham sobrado algumas produções tradicionais e artesanais. Chamaram a ASAE.

-Tinha indústria, ainda que incipiente. Deslocalizaram-na.

-Tinha técnicos experientes e competentes. Puseram-nos a desenvolver teorias e estudos que não saem do papel mas rendem taco e tachos de gabinete.

-Tinha… (interrompo a conversa com os botões porque, entretanto, chegou o almoço e eu olho para a travessa pronto a atacar)

O peixe, apercebo-me, é importado. As batatas, as cenouras e o feijão verde são importados. O pão, ou aquilo com que é feito, é importado. Os talheres são importados. O prato, o copo e a travessa são importados. A toalha e o guardanapo (de pano) são importados. A mesa e a cadeira já não são de Paços de Ferreira, foram importados pelo IKEA. O vinho e a água, vá lá, são portugueses e estão ao preço da uva mijona porque, lá fora, ninguém sabe que são bons e não os querem. Porra, pergunto eu aos meus botões, foi mesmo o povo, o português comum, que escolheu isto, que decidiu assim, que inventou este caminho, que teve poder para executar? E os que tinham poder para executar onde é que andam? Estão presos? Foram penalizados? Andam por aí? Devem ter empobrecido conjuntamente com o país, coitados…

Os botões respondem-me alto e bom som, mas não entendo o que eles dizem. É que, para mal dos meus pecados, os meus botões também foram importados e eu, lamentavelmente, não falo chinês.

Comments

  1. carlos fonseca says:

    Pedro, em Portugal, praticamente secaram grande parte das possibilidades e alguns cidadãos mergulham no tanque, como este esteja ainda cheio. Muitos já têm fracturas de vida de recuperação difícil ou mesmo impossível. É o país que nos prepararam.

  2. A. Pedro says:

    Carlos, estou longe de ser economista e de perceber alguma coisa de economia, mas tenho andado anos a ouvir iluminados justificarem o injustificável e chamarem-me burro -ou semelhante- por não entender justificadas as justificações. Agora, provadas as faltas de justificação, atiram as culpas uns para cima dos outros e sentem-se justificados.
    E siga, porque a festa continua.

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