Natal-imaginário infantil, imaginário adulto ou troca social

Natal costumava ser festa da alegria, mas a crise económica de hoje...

Para o meu próximo descendente, essa criança, filha de uma das nossas filhas

1. Natal

Os leitores devem estar habituados a ler nos meus textos, uma ideia em que sempre teimo: qualquer grupo social tem, pelo menos, duas formas de ser ou duas culturas: a dos adultos e a das crianças. A do adulto, esse imaginário para calcular e decidir; a da criança, essa fantasia à espera. A do adulto, para calcular e decidir, porque vive no meio das finanças, dos orçamentos. Fantasia à espera, por viver no meio dos mimos, recebidos ou esperados. Duas lógicas de ideias que andam, ora entrelaçadas ora paralelas – umas no lar, outras, à distância. É na altura da noite e do frio, que começamos a pensar nesta brincadeira das duas culturas.
Por causa de se aproximar essa que dizem ser a festa das festas, o natal. Palavra própria que deve levar letra maiúscula, letra grande: o Natal. Letra grande porque é um ritual, é nascimento duma criança que nos tem permitido morrer um dia e depois ressuscitar. Da forma que éramos antes, com corpo e alma. Ideia que começa no Natal e contínua pela Páscoa, passa pelo Pentecostes e volta à memória no Natal seguinte.

O leitor sabe qual parte de mundo a que me refiro: o ocidente tradicional, o Ocidente dos três mil anos. O Oriente tem outras festas para comemorar o nascimento de quem devolve a vida; os povos conquistados, têm festas ao longo do ano, conforme o seu pensar ou a sua necessidade de agir para continuar dentro de História.

Porque, senhor leitor, esse parece ser o Natal. A lembrança de que o nosso grupo vai continuar da forma e maneira que o quotidiano nos habitua. Como a menina que perguntava ao pai, e depois de mortos, vamos viver? Porque eu gostava sempre de falar contigo, de termos festas e termos Natal. Perante a resposta do pai, não o Natal acaba na vida, a menina chora. Chora por não imaginar a falta dos dias passados juntos, ao pé da lareira, com o colo da mãe e da avó, com os braços e os ombros quentes do pai que ela podia tocar e acarinhar. A fantasia estava prestes desfazer-se, se as palavras dos dois adultos não tivessem mudado e dito: minha pequena, claro que vamos sempre ter Natal. É evidente que vamos todos juntos, sempre, tomar chá. Comer bolo. Comer peru. Ou consoada. Os presentes, continua a pequena, vão aparecer logo de manhã? Sempre, segurou a voz grave do pai. No lar que dá presentes.

Para o imaginário da criança, o presente é o Natal. Nada entende de como é um rito, só vê os preparativos que andam pela casa, e os murmúrios dos adultos, a embrulhar mistérios. Mistérios que deseja conhecer, mas sabe esperar, com o seu imaginário a crescer…

2. Troca social.

 Em pequeno, murmúrios e pacotes chamavam a minha atenção. Eu queria presentes para mim, e fabricar presentes para os adultos, para os grandalhões, que pensava que tinham também fantasia. Porém, quererem ter uma surpresa. Com os meus dedos, desenhava folhas sem fim para entregar aos mais velhos. Ou recortava outros papéis, para fazer figuras. Todas elas tiradas da minha própria fantasia derivada da ideia de vida do natal. No entanto, os adultos falavam à mesa e faziam cálculos sobre o que oferecer aos outros: para este senhor, o quê? Não será que é preciso dar também a este outro? O quê? Não esqueças que nos emprestou dinheiro para comprar a quinta. Também a madrinha do nosso mais novo. Ouve, não esqueças, há o Sr. Reitor da Paróquia e o chefe da Guarda Policial. Sabe-se lá se um dia não precisamos de um favor deles. É melhor estarmos certos e seguros. E o professor da miúda, que é capaz de a chumbar? Se lhe dermos um presente, vai ficar comprometida e vai ajudar. Para o teu chefe? Uma garrafa de vinho será suficiente? Ou convidamo-lo para lanchar. Ou é melhor a um almoço antes do Natal? Ouve lá, os vizinhos vão logo reparar se temos  dinheiro ou não, para oferecer presentes aos que devemos.

Os que devemos, nós os que devemos, frase fatal para o imaginário da criança, que anda a pensar no carinho dos seus próximos e do seu melhor amigo. Esse que ele gosta de acarinhar e só tem um meio, dar um presente para manter a sua amizade. Para aumentar a amizade que já têm, faz anos. Os que devemos, começa já entrar na cabeça da criança. Mas, por enquanto, com amor, com carinho. Como essa velhinha toda branca e de preto que é a mãe da mãe e me conta histórias para eu dormir, ou passar a tarde. Ou me lembra os tios e os primos, que moram longe. Os que devemos, é na fantasia da infância, um imaginário ligado á emoção. Os que devemos, é, no imaginário dos seus adultos, a segurança da relação social. A mais poder, mais presentes. A mais hierarquia, melhores presentes. Endividados para o resto do ano.

Assunto que a criança não faz. Nem tem os meios. Só tem os afectos. Como o amor pelo pai do pai, ainda forte e cheio de ideias, a ensinar truques para brincar com os amigos. Esse que ensinou o jogo dos berlindes, a atirar o pião, a traçar círculos para atirar moedas, até ter força o puto e lançar a telha de metal para a areia. O pequeno ama quem lhe diz, por palavras o por gestos, como andar no meio dos seus. O pai não lhe diz, só pergunta e corrige. Ai! Natal da Infância, que não trava a disciplina que os adultos de casa querem dar.

Até o puto, crescido e adulto e a trabalhar, sabe que sem luvas simpáticas, não há desenvolvimento da carreira, ascensão na profissão, bênção de afazeres, conversa íntima entre pessoas que contam os seus segredos, na esperança de eles não serem repetidos. Enquanto pequeno, não sabe e ouve. As palavras do natal ficam nos seus ouvidos. Ficam na sua memória. Memória activada mais à frente. Por enquanto, os seus quereres, os seus carinhos, fazem do dia de Natal, uma festa que farta a fantasia e o quarto, de prendas. Para os que podem dar. Para os que sabem fazer. Para os que conseguem comemorar. Com a consoada, a comida dos pobres, hoje tão cara. Essa troca social a manter as relações simpáticas, dentro e fora do lar. Um imaginário cheio: como essa criança que um dia não sai com os seus aos ritos que, por serem à noite, lhes são interditos. Fica olhar para os pacotes da árvore de Natal, esse pinheiro num vaso, e a pensar: esse é meu, esse é da mãe para mim. Esse do avô, esse do padrinho…até abrirem as prendas e a realidade ficar bem mais curta do que andou, durante horas, a fantasiar

3. Dorme meu pequeno, dorme o meu amor.

Dorme-te pedaço do meu coração. Eis o verso completo que se canta à criança própria, no colo e com beijinhos. Canções sem palavras que as crianças de casa, só aceitam dos seus, não de que qualquer um que viva, de passagem, em casa. Para a criança a sua casa é o seu lar, para si e os da família consanguínea, é o que tem aprendido desde novo. Ou que vivem juntos, mas não se tocam. Dorme o meu pequeno. É a canção do natal do ano inteiro, que no dia de Natal se canta com mais carinho. Quando esse adulto recorda a sua própria infância e transfere ao seu próprio pequeno as carícias que a sua afectividade guardam. Afectividade que tem memória nos sentimentos, memória nos odores, memória no coração. A canção que a mãe cantava à filha que canta ao seu bebé. Essa canção de embalar que à mãe já cantara a mãe dela. Como aos pai, mas que o pai não sabe dizer porque se os homens não choram, também não cantam.

A troca social do Natal apaga o pai, hoje no final do século, também a mãe. Até há pouco tempo, só a mãe cozinhava com as mulheres de casa, enquanto os pais e amigos iam bebendo os seus vinhos, até chegarem a um Natal sem balanço, com brincadeiras pouco simpáticas. Brincadeiras nunca ditas no portal de Belém, onde o Natal é sempre uma cerimónia cansativa pela solenidade de acreditar e respeitar o que os outros acreditam, que é o dia do nascimento do filho da divindade que é doto por aí, protege às nossas vidas. Rituais solenizados na estrita companhia dos membros do lar. Através dos ciclos da vida. Quanto mais novo o lar, mais fechada a festa. Quanto mais distante do começo do lar, mais pessoas de fora para acompanhar e guardar a saudade do dia quando a pequena chorava por querer ter sempre um sítio para comemorar o Natal com esses pãezinhos queridos que enchiam o caudal de afectividade do qual a criança estava à espera. Criança que hoje, prepara o seu próprio Natal no começo do seu lar restrito, enquanto os paizinhos  procuram os seus amigos para encher as vagas que ficam por causa da ausência da crescida pequenada.

A troca social tem ciclos. Nos afeitos e nos presente que se trocam. O dia advém, antes do Advento, para quem dava, só receber. Sem pensar em procurar a protecção que eles agora, têm a obrigação de dar.

Senhor leitor, não é simples. O Natal é uma festa de luzes. É o dia do deus romano Júpiter, transformado no Século IV, com Constantino Imperador de Roma, no dia do Nascimento de Cristo. O profeta que os muçulmanos aguardam, que os Palestinos aguardam, que os Judeus de Israel e do mundo, comemoram nas suas vésperas antes de irem ao seio de Abraham. O Natal é o que as Igrejas cristãs diversas, comemoram em datas diversas, ou no frio ou no calor, com o símbolo do pinheiro que Martinho Lutero introduziu como símbolo da festa. Festividade que muitos, nos climas quentes, revestem de algodão para parecer neve, enquanto nos climas frios, com velas, para ter luminosidade na noite cumprida do equinócio do inverno. Festas que muitos celebram, em épocas diferentes, combinando pinheiro e presépio. Ou comemoram em datas de dias distantes do equinócio, para marcar a memória de lutas ganhas ou perdidas no definir o que é que o Natal significa.

Por enquanto, e estou certo, o será também para o meu neto durante o tempo que me restar na História, o Natal é uma festa do lar original que junta, sempre que possível, progenitores e descendentes, ainda que vivam ou morram com outras pessoas ao longo do Advento, da Páscoa e do Pentecostes. Para o Ocidente e as suas extensões no meio de outros continentes.

Não calcule. Opte por ter uma feliz quadra até o fim do ciclo do equinócio, quando os dias recomeçam, outra vez, a ser maiores.

Paz e esperança para nossa humanidade que vive as guerras ou está a ser reconstruída. Como acontece em todos os séculos da história do mundo, com ou sem Natal no meio.

Bibliografia.

•Diários de Campo de Vilatuxe, Pencahue e Vila Ruiva, 1970-1999-11-13

•Schubert, Franz, 1822-1823, LIEDER Ohne Worde (Romances sem palavras), Versão Misha Maisky.

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