Alemanha: a balela do desemprego causado pelo Inverno

Parte significativa dos analistas e jornalistas económicos usa uma semântica pensada para entendidos. Portanto, para a maioria, é hermética e tende a exibir-se como científica.

Em noticiários televisivos de economia, é comum ouvir desconexas justificações do ‘sobe e desce’ das bolsas. As cotações descem em função “de uma correcção técnica”, argumentam umas vezes; no dia seguinte, os mesmos títulos sobem por estímulo dos dados apenas estimados – “os resultados hoje foram melhores do que esperado, graças a…”, acrescentam. Depois, as cotações voltam a descer e a subir; e os estereótipos reproduzem-se.

Tudo isto a propósito de, nas notícias referentes à economia alemã, os mais sábios, da ‘Bloomberg’ por exemplo, terem ficado surpreendidos com o aumento do desemprego para 7,2% em Dezembro de 2010 – mais 85 mil desempregados do que em Novembro, e a primeira subida após 17 meses. Razão invocada pelos analistas: um Inverno duro e implacável. Curiosamente, a Noruega, com clima mais adverso, ficou-se por uma taxa de desemprego de 3,20% em 2010.

Descontadas as diferenças demográficas, a comparação demonstra a falta de racionalidade das justificações climatéricas, alegadas por tecnocratas. Existem, por certo, outros factores decisivos, entre os quais a disponibilidade de recursos naturais e as divergências dos dois modelos sócio-económicos. Mas nunca ter mais ou menos neve, frio, chuva ou vento. A não ser em casos das grandes calamidades naturais – o Haiti de ontem ou a Austrália de hoje. Não é caso germânico.

Será oportuno lembrar que a Alemanha, da prepotente Merkel, registará um sucesso de + 3,7% de crescimento do PIB em 2010, contra a quebra de – 4,7% em 2009 ; porém, para 2011 e 2012 as previsões são bem mais modestas, estimando-se +2,2% e +1,3%, respectivamente (fonte: Instituto de Economia de Berlim).

Ao som de melodias sem harmonia e sob a batuta de Angel Merkel, a Europa, em especial os países periféricos da zona euro, tende a continuar a condenar cidadãos a sacrifícios sociais, infelizmente  próprios do mundo desumanizado que habitamos.

Os investidores e financeiros causadores da crise, os paraísos fiscais e a socialização dos prejuízos correspondem a parte substantiva dos paradigmas de um sistema que a Alemanha de Merkel, a França de Sarkozy e mesmo o Reino Unido de David Cameron teimam facilitar a poderosos, estendo as benesses a acólitos do seu servil séquito.

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