Contos Proibidos: Memórias de um PS Desconhecido. A queda do I Governo Constitucional

continuação daqui

Na madrugada de 7 para 8 de Dezembro cairia o I Governo. O Presidente da República, general Ramalho Eanes, iria fazer tudo ao seu alcance para que este governo que agora acabava e a «alternativa parlamentarmente exequível» fossem os Governos do nosso descontentamento, que iniciariam um longo processo de descaracterização dos ideais de altruísmo e solidariedade que tinham estado na origem do jovem movimento socialista democrático português.
A tentativa do «PS sozinho» caíra por terra, assim como as esperanças dos que pensaram que o I Governo seria imbatível na sua configuração PS/Eanes. Mas o receio de Sá Carneiro era tão grande, que o PS continuaria a contar com Ramalho Eanes para o bem e para o mal, apesar das suas constantes demarcações. Mesmo depois de se ter pressentido que Eanes mantinha uma velada ambição de substituir Soares na liderança do PS.
A questão formal que estivera na base da queda do I Governo, a exigência de um amplo apoio parlamentar para as negociações com o FMI, não passaria de uma falsa questão. A questão de fundo era, pelo contrário, uma que tinha que ver com as matrizes do próprio regime democrático. A direcção socialista era absolutamente avessa a qualquer acordo com o PSD, parcial ou global. A proposta que o primeiro-ministro Mário Soares faria a Sá Carneiro, aludindo aos seus deveres de patriotismo para um acordo parlamentar, não passaria de uma mera tentativa de «coagir», sem quaisquer contrapartidas, os sociais-democratas na co-responsabilização das negociações que os socialistas tinham iniciado com o Fundo Monetário Internacional.
E também revelando que no íntimo, apesar de ser regime sui-generis, algo no PS alimentava o chamado «sonho mexicano». No pensamento dos socialistas, o PSD deveria compartilhar com o PS a impopularidade política que adviria de uma política económica restritiva e de grande austeridade, por razões meramente «patrióticas». Mas Sá Carneiro, por seu lado, só aceitaria a co-responsabilização e assumiria a impopularidade se pudesse compartilhar das responsabilidades governativas. Responsabilidades que Mário Soares não queria assumir sozinho, apesar de querer continuar a ser primeiro-ministro de Portugal, sem ter que dividir o poder com mais ninguém. Beneficiar sozinho das benesses do Governo partilhando a impopularidade com os outros.

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