Contos Proibidos: Uma reunião em Washington. A criação da UGT

continuação daqui

No dia 16 de Abril de 1977, teria lugar em Amsterdão mais uma cimeira da Internacional Socialista. O único acontecimento de relevo que justificava aquela reunião era exprimir solidariedade ao PSOE, que tinha sido legalizado no mês de Fevereiro e preparava as primeiras eleições livres daquele país para o mês de Junho. Helmut Schmidt era um dos presentes e dado que no dia seguinte Mário Soares partiria para a sua primeira visita oficial aos EUA ficara acordado haver ali mesmo um encontro entre os dois.
Como havia pouco tempo para o realizar, esperávamos resposta do chanceler quando este me fez sinal para ir ter com ele. Disse-me então para levar Soares para fora da sala de reuniões em que nos encontrávamos, acabando o encontro por ter lugar num vão de escada no hall de entrada. O essencial deste breve encontro seria uma análise sobre a maneira como deveria decorrer o «grande empréstimo» e a sua opinião sobre a proposta do presidente Cárter, relativa ao mesmo.
O estilo de reunião era um pouco insólito e um dos fotógrafos presentes não perderia a oportunidade para tirar uma foto que iria ser publicada em jornais de todo o Mundo. Schmidt explicaria então que o seu governo estaria disposto a participar no chamado «grande empréstimo» proposto pelo presidente Cárter, desde que o Governo português estivesse na disposição de se submeter ao rigor de um aval do Fundo Monetário Internacional.
A proposta inicial do presidente norte-americano não previa a negociação com o FMI, mas o chanceler explicaria que a sugestão norte-americana poderia parecer muito generosa mas era irrealista e nunca seria concretizada no seu sentido lato — com uma ampla participação internacional demonstrativa de confiança no Governo de Portugal — dado que sem o aval do FMI, nenhum governo europeu tinha condições de ajudar a cobrir as dificuldades da balança de pagamentos portuguesa. Aliás, segundo Schmidt, isso mesmo ele tinha dito ao primeiro-ministro britânico James Callaghan que estava numa situação semelhante a negociar com o FMI também por seu intermédio e da administração norte-americana.
Além de mim, a comitiva da viagem oficial aos EUA incluía Medeiros Ferreira, Vítor Constâncio e o então assessor diplomático Francisco Knopfli. Houve um encontro com o presidente dos Estados Unidos na Casa Branca, onde seriam discutidas as várias versões sobre as condições do empréstimo e o presidente americano claramente demonstraria a sua simpatia por Portugal. Como nos diria na altura o então vice presidente Walter Mondale, «Portugal estava na moda em Washington», aludindo à vitória das forças democráticas no 25 de Novembro e, simultaneamente, à noção de que finalmente os EUA tinham feito alguma coisa acertada em política externa. Para além do encontro com o presidente, houve encontros com o secretário de Estado Cyrus Vance, com o Conselheiro de Segurança, Zbigniew Brzezinski, com Robert McNamara, presidente do Banco Mundial e com o director-geral do FMI, Johannes Witteveen.
O vice-presidente Walter Mondale era um homem muito ligado às estruturas do Partido Democrático e do Movimento Sindical e, por essa via, sentia forte afinidade com os movimentos sociais-democratas escandinavos. Ele próprio era descendente de emigrantes
noruegueses. Os seus colaboradores mais próximos no Partido Democrático, o seu presidente Charles Mannatt, Robert Hunter, do Conselho Nacional de Segurança, Geraldine Ferraro e o director para as relações internacionais, John Loiello, mantinham
relações estreitas com a Internacional Socialista. Ofereceu um jantar informal na sua residência, com amigos de Portugal, com o objectivo de demonstrar a solidariedade da nova administração para com os socialistas portugueses.
Sempre que penso nesta viagem aos EUA lembro-me de dois episódios pitorescos. 0 primeiro teria lugar em Nova Iorque, no hotel, onde a delegação ficaria hospedada na noite de 18 de Abril. O hotel Barclays. Acometido de certo progressivismo pacóvio, o primeiro-ministro deu instruções ao embaixador Themido para mandar desconvocar o aparato policial que o Governo americano tinha mandado colocar para sua segurança. A explicação para aquela insólita decisão foi a de que se não sentia ameaçado pela população e, pelo contrário, o seu passado habituara-o a desconfiar das polícias.
Depois de negociações embaraçosas para o representante de Portugal, o responsável pela segurança, que estava a obedecer a ordens superiores, foi autorizado de Washington a reduzi-la, tendo para o efeito obrigado Mário Soares a assinar um documento assumindo todas as responsabilidades por essa decisão. Mas a verdadeira razão prendia-se com o facto de ele ter combinado para essa noite um encontro em casa da milionária Victoria Kent, na 5.a Avenida, com o velho grupo de que faziam parte Marvin Howe e Louisa Grant, que lhe promovera contactos com correspondentes estrangeiros no Overseas Press Club, em 1970. Dada a curta distância do hotel, ele pretendia fazer o percuso a pé e não queria chegar àquele encontro privado de velhos amigos com o enorme aparato policial que tinha sido montado para sua segurança.
Também logo nesse dia eu notaria que, no programa da visita, o meu nome não constava da lista de pessoas que iriam acompanhar o primeiro-ministro à reunião na Casa Branca, com o presidente dos Estados Unidos. Soares disse-me que não tinha nada que ver
com o assunto e o embaixador explicaria então que a Casa Branca é que limitara o número de participantes na reunião ao primeiro-ministro, MNE e embaixador. Embora aborrecido com tal decisão, achei que tendo partido da Casa Branca nada haveria a fazer.
Mas, curiosamente, durante o jantar em casa do vice-presidente Walter Mondale, em conversa com o meu amigo Robert Hunter, na altura membro do team de Brzezinski no Conselho Nacional de Segurança, comentei-lhe ter pena de não poder conhecer o presidente. Apurei então, por mera coincidência, que a decisão não tinha partido da Casa Branca, mas sim do Palácio das Necessidades. Mas, na manhã seguinte, a Casa Branca comunicaria à Embaixada de Portugal que o meu nome passara a integrar a delegação do primeiro-ministro no encontro com o presidente Carter!
O então ministro dos Negócios Estrangeiros, Medeiros Ferreira, era muito sensível a actos do que chamava «diplomacia paralela» mas, aparentemente, ainda mais sensível ao facto de, no PS, ser eu o responsável pelas relações internacionais. E, em 1977, tornara-se evidente que o Departamento Internacional do PS tinha relações mais rápidas e mais estreitas com a Casa Branca e com a maior parte dos governos europeus, do que o Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Mário Soares tinha razão para se sentir feliz com a sua primeira visita oficial aos Estados Unidos. No ano anterior recebera a «bênção» para governar, ao ser declarado persona grata da CIA e ao garantir apoio para o PS e para um eventual movimento sindical alternativo. Desta vez tinha a garantia do empenhamento do Governo americano para a realização do «grande empréstimo» e para avançar com a UGT.
Também a Liga Internacional dos Direitos Humanos, uma organização privada norte-americana então dirigida pelo meu amigo de muitos anos, o advogado Jerome “Jerry” Shestack, atribuiria esse ano o prémio da Liga a Mário Soares. Seria entregue por um prestigiado elemento da equipa do presidente americano, o então embaixador americano nas Nações Unidas, Andrew Young.
Em matéria de relações internacionais tudo corria de vento em popa para o I Governo Constitucional que pôde, igualmente, ter a percepção de que o pedido de adesão de Portugal à Comunidade Europeia, não obstante as dificuldades de adaptação, seria bem recebido pelos dez países membros. Dois meses antes, a 14 de Fevereiro, o primeiro-ministro tinha iniciado um périplo pelas dez capitais da Comunidade Económica Europeia, que começaria por Londres. Eu faria igualmente parte da delegação portuguesa que incluirá também Medeiros Ferreira, Raquel Ferreira, Vítor Constâncio, os embaixadores Siqueira Freire e Lencastre da Veiga.
No jantar oficial dessa noite, oferecido pelo primeiro-ministro James Callaghan em Downing Street, seria dado o sinal verde às pretensões de Portugal. James Callaghan diria então de um modo inequívoco, depois repetido em termos semelhantes pelos chefes de governo dos outros países da Comunidade, que o Governo Português «decidiu colocar Portugal na rota de um grande empreendimento histórico, nada menos do que fazer parte da Comunidade Económica Europeia. Embarcaram neste caminho com entusiasmo e determinação e nós, neste país, damos boas-vindas à vossa decisão acreditando firmemente que terão êxito na vossa missão e assim proporcionarão maior estabilidade à democracia em Portugal e à Europa Ocidental. Sabemos que terão que ser vencidas muitas dificuldades de ordem prática para construir o futuro de Portugal na Comunidade. Mas os vossos esforços terão o total apoio do Governo Britânico e ansiamos pelo dia em que Portugal irá ocupai- o seu lugar de pleno direito na Comunidade da Europa».
A exigência de um voto de confiança da Assembleia da República para concluir um acordo com o Fundo Monetário Internacional não passava de um bluff. O FMI não tinha exigido, nem podia exigir, tal medida. Sete meses antes, o Presidente da República tinha-se demarcado do Governo de uma maneira bastante expressiva. O PCP recusara ofertas de cedências em matéria de Reforma Agrária a troco de um apoio camuflado na Assembleia da República e, finalmente, o PSD recusara igualmente quaisquer acordos pontuais com o PS. Mas o primeiro-ministro Mário Soares nem acreditava que o general Ramalho Eanes tivesse «coragem» para lhe retirar o tapete, nem que houvesse alternativa ao seu Governo. Acreditava, sim, que Eanes lhe devia a ele o facto de ser Presidente da República e que o PSD e o PCP lhe deviam, embora por razões contrárias, a sua existência legal. Assim se explica o inacreditável «memorando» que enviaria aos partidos a 15 de Novembro, esclarecendo que «o PS não aceita entrar em nenhum Governo de coligação.

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