ser pai – ser amante – amar sem condições

pode-se ser pai ou pela paixão, ou por ventre alugado, ou por adopção

As palavras são semelhantes, as pessoas são diferentes. No entanto, uma está amarrada a outra, atada. Não amor de pai sem filho, não há filho sem mulher. Um facto é a condição do outro, como o sol que brilha no inverno e tiras-nos o frio, como as estrelas que cintilam ao longe. Não há filho sem mãe, como não há mãe sem homem nem paixão sem sol ou sem estrelas, que na intimidade da paixão, são capazes de engendrar uma nova criatura. Este triângulo de pai, mãe filho, tem um ponto de partida. A paixão diz aos que querem ser pais que sem o sol da paixão nem o cintilar das estrelas, é impossível dar da sua vida íntima e pessoal, o sopro de vida de um bebé que começa aos gritos primeiro, até o seu desejo de carinho estar calmo e satisfeito e a sua

fome material, também. Como na paixão dos que desejam filhos e, sem darem por isso, os procriam, os ensinam, os agasalham, tomam conta deles, trabalham para eles. Sem perceber, dizia antes, que nesse abraço íntimo de dois, na intimidade da sua paixão, acabam por conceber esse terceiro, que os pais amam e tratam com saber, na base desse abraço público, como vi ontem, 11 de Janeiro, acontecer em público entre dois que já não podem ter filhos, mas o carinho entre eles, sem paixão que engendre outros seres, um e outro se engendram a si próprios sistematicamente, com carinho, com cuidado, com prazer especial na sua atitude.

Estou consciente de ter escrito um texto, cujo título era Sermos Pais, a profissão mais antiga e desprestigiada da História. Um texto com citações, debates, definições, comparações, enfim, um texto de erudito que, sem saber como, vai citando, de forma natural, enquanto escreve. Mas, ser pai também é acordar de noite porque um descendente está a asfixiar e a necessitar de ajuda imediata. É a dor da incerteza, é a dor do amor sem limites, que não tem descanso, é a doçura convertida em desespero, é a luta com escudo e elmo para manter vivo o mais pequeno. Enquanto travamos esta batalha (verdadeiro milagre da vida) não pensamos, não sentimos, apenas nos concentramos na luta que acaba por permitir a continuação da vida desse ser pequeno a quem tanto amamos. Roxo, brônquios fechados por uma teia fabricada por um indecente vírus que apareceu sem se saber de onde. Ou, sabemos, mas não queremos recordar. Existem bactérias e vírus que nos rodeiam sem nos apercebermos. Não somos capazes de ver ou entender que existem, tão intensa é a nossa alegria ao levarmos o nosso pequeno a passear, a alegria de o poder mostrar aos outros membros da família, aos nossos amigos, exibimo-nos com o pequeno ser que, no dizer de Wilfred Bion em 1961: Cogitations e em 1962: Learning from experience, nasce já no nosso pensamento. Tanto desejamos ser pais, que antes de o conceber, o imaginamos, brincamos, beijamos, andamos às cavalitas, vamos juntando berlindes, temos piões classificados para o dia que…somos capazes de o ver tal e qual se pensou dever ser ou virá a ser. Podíamos partilhar esse prazer com a mãe, mas prazer de pai é prazer solitário, calado, imaginário, ternamente, como se esse homem fosse a mulher que traz a criança no seu ventre. Prazer que dinamiza esse não esperado acordar nocturno em que vimos que o fruto do nosso imaginário, está quase a partir, a deixar-nos. Sem pensar mais, aplicamos essa resiliência de Cyrulnik ou inaudita capacidade de construção humana. Sem saber como, nem de que maneira, constrói-o no imaginário e falo ficar vivo e a saltitar. Alguma frase salta de repente da nossa cabeça: ter filhos é um prazer, mas criá-los, pode ser um martírio e a nossa atitude muda do imaginário de berlindes à vigilância permanente, enquanto o pequeno se faz adulto, e entende o desenvolvimento da vida e, assim, acabamos por viver em paz: sabemos que aprendeu do nosso próprio exemplo, das nossas noites acordadas e dos nossos dias de observação silenciosa, que percebe nos seus sentimentos inconscientes, esses que ficam gravados na História do indivíduo. Amor de pai, um Cid Campeador, que nem chora nem tem raiva: vê, ouve, vigia, toma conta, ama e ensina. Com a esperança que os mais novos aprendam o debate com os factos da vida, provem os perigos e se afastem deles, aceitem que as palavras ditas e o gesto autoritário, seja apenas um incentivo para continuarem a aprender e a interagir com outros seres humanos.

Este amor de pai, transferido para outros mais novos, em idade ou em saber, trabalha sem descanso a preparar novas ideias para transferir de forma adequada e conveniente, na base do debate, com amplidão de entendimentos, com coordenação com outros saberes, que permita a síntese de uma ideia já provada, com hipóteses de outros autores. É este o processo que dinamiza o saber comparativo, que ensina o amor de pais. Crianças maduras, com estruturas somáticas e espirituais mais fracas em dedicação ao cuidado de si próprias e no respeito a pais que velam o ano inteiro com o objectivo de ensinar apenas um facto: saber precisa de leituras, de paciência, de confronto consigo próprio, de aceitar os erros pessoais, de saber perguntar, corrigir e melhorar o que tem sido indicado como ausente no debate, aprender as regras para não se afogar, para não ficar roxo por falta de ar, mas sim empenhado em aceitar a experiência de quem mais percebe, pela dedicação imensa ao longo do tempo, transmitida com respeito e na altura adequada à capacidade de entendimento.

Ser pai é ser professor. Ser professor, é a vida sem descanso para avançar nas experiências de transmitir saber e pedagogia ou processo estruturado de retirar ideias do pensamento de outros e ganhar as forças e o oxigénio suficientes e necessários que levam a uma aceitação de si próprio e a uma clara, limpa, serena e tranquila disposição na relação com os que comigo aprendem. Se os pais têm confiança nas crianças e permitem entender o contexto, aceitar o olhar da nossa face no espelho da nossa alma, esse pai pensa de mim o que o seu imaginário já experimentado criou. Mãos estendidas que ajudam a não sufocar, por falta de saber ou por falta de técnicas que são retiradas do ser mais experiente, no qual acredito porque permite melhorar o amor à vida. Comigo e com os meus colegas de carteira ou de vida. Aos que oiço e ajudo, tanto quanto aprendi ao saber ser independente por aceitar as técnicas da respiração que o meu pai cota, teve a paciência e o amor de me transferir. Sermos pais, é o trabalho mais benevolente do mundo. Construído para as novas gerações serem adultas no saber e na idade, ao aceitarem a História e a sua lógica. Nem sempre favorável ao indivíduo, mas aprendida ao longo do tempo, mata os vírus que retiram a capacidade de respirar o ar sadio do saber amar os outros e de me respeitar a mim mesmo.

O leitor pode entender que este texto é uma metáfora sobre o amor de filhos que devem aparecer no futuro, ou que é impossível dar à luz pela avançada idade dos pais. Amar os filhos, é respeitar todos os que têm sido criados debaixo da asa dos progenitores, criação que merece respeito, porque resultado da nossa paixão ou pelo desejo inalienável de sermos progenitores. O descendente nada pediu, é resultado do respeito de esse afã de sermos pais, esse anseio de dois que se amam e que resulta na paternidade que ama os seus pequenos e cria o respeito dos progenitores entre si, por existir entre os dois um ou mais descendentes com essa inaudita capacidade de construção humana. Frases de Boris Cyrulnik, 2001, Editions Odile Jacob, Paris, mesmo ano em Lisboa, Instituto Piaget, que exige o respeito dos pais para com as crianças não procuradas, mas que resultam da paixão entre dois… que nem sabem qual será o resultado no decorrer da vida histórica dos pequenos que acabam por ser adultos como os seus pais. Esse facto apenas, orienta o criar, o respeito aos mais novos, bem como usar esse respeito para saber o que lhes ensinar.

Cosi Fan tutte 1996 – Trio “Soave il vento”

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