amor e doença

 

Estou consciente de ter escrito, de forma abundante, sobre a doença. Não deve ser por nada especial e, no entanto, esse fantasma continua a galgar o meu corpo. Se come o meu corpo, também enreda o meu espírito. Mas, um espírito educado na ética da que falara ontem, é difícil abater. Pelo que é mais simpático falar de amor, do bem-querer, do receber gente em casa, de visitar as casas dos outros como convidado, comer imenso e se divertir, rindo até saltarem as lágrimas da histeria do riso imbatível.

A vida não nem simples nem complicada, é como a fazemos, é como a orientamos. Pode apresentar-se uma doença em frente de nós e nos fazer sofrer. Se nos queixamos dessa doença, ficamos mais enfermos ainda. Pelo que a receita mágica, é ignorar o que é evidente em frente de nós.

Há muitas formas éticas de fugir à dor. Mas, a mais certa não é o médico que pode curar, é o amor que nos dá alegria, tranquilidade e paz. É a presença de uma pessoa querida que toma conta de nós, a que cura. O luto apenas causa mais desespero.

O luto faz parte das dores da vida e deve ser aceite para o ultrapassar… um dia. Esse dia que deve aparecer, quanto antes, melhor. Há quem tenha paz por causa do luto, é uma emotividade muito humana. Nunca esqueço a resposta da minha vizinha, no dia em que o seu marido, após cinquenta anos de casados, foi a enterrar. Um senhor amável, simpático, dava gosto falar com ele. Se era assim amável com os vizinhos, como não serias dentro de casa. Quis apresentar os meus sentimentos à vizinha. A sua resposta foi rápida e directa: senhor doutor, agradeço a sua simpatia, mas não ajuda em nada. Ele me traiu, foi-se embora antes de eu morrer, traiu-me. Eu o quero vivo e ao pé de mim…

É evidente que quem falava era a dor que causava a morte do seu único amor. Nem uma lágrima derramou, nem um fato preto vestiu, tanta era a sua amargura pela morte do seu marido. A culpa, porque havia culpados, não era da doença, era ele quem não tinha sabido esperar por ela. É o que os cineastas denominam amor sem barreiras

A coragem dessa mulher, a ética da sua dor, ensinaram-me a suportar os meus próprios sofrimentos. A dor tem uma ética e ela ensinou-me, sem saber, qual era: apoiar-se na paixão que por ele sentia e que passados dos anos do facto, ainda perduram a tristeza e o luto interno, com calma, serenidade, sem se queixar com ninguém nem perante ninguém.

Apenas uma lição de vida de una analfabeta a um doutor…

Porque Moisés como imagem? Pela sua capacidade de impressionar que a escultura tem Michelangelo, quando acabou o trabalho, afastou-se e disse: fala! Consta nos papiros desse tempo e na narrativa da obra da arte. Bem como, porque, como diz a Bíblia, Moisés teve um ataque da raiva ao receber as tábuas da lei directamente da divindade, por motivos da idolatria dos hebreus durante a sua ausência. A divindade o admoestou, mostrou-lhe a terra prometida que seria para os hebreus viverem em paz e disse-lhe que pela sua arrogância, viveria muitos anos, mas nunca entraria nas terras da hoje Faixa de Gaza, terra dos Ismaelitas antigamente.

A consequência é simples: o entendemos os outros e os aceitamos como são, sendo assim o amor. O amor cura toda doença, se aceitamos dentro de nós o nosso luto e reparamos que a vida é como foi feita: com a alegria do nascimento e com o castigo da morte…

http://www.youtube.com/results?search_query=Mozart%20Cosi%20fan%20tutte&search=Search&sa=X&oi=spell&resnum=0&spell=1

Cosi Fan tutte 1996 – Trio “Soave il vento”

Comments

  1. júlia says:

    Senhor Professor:
    Cumprimento-o, com muito carinho e solidariedade.
    Como habitual, leio os seus escritos, que me enriquecem em conhecimentos,e também enchem a minha alma de ternura.
    Senhor Professor, pelo que tenho lido nos seus posts(vida familiar e profissional),apreendi
    estar perante alguém que está a fazer uma caminhada que o enriqueceu e contribuiu para
    a valorização dos outros cidadãos. Sinto-me feliz, por encontrar um oásis neste deserto
    desumanizado.
    Sinto das suas palavras, que está a ser posto à prova fisicamente, mas quem demonstra a
    sua força de espírito tem as oportunidades de vitória.O ser humano se constrói, por meio das suas decisões.A sabedoria do Senhor Professor concede-lhe viver em Paz com o tempo,
    que sabe gerir muito bem.Se calhar, só disse “disparates”, mas espero a chamada de atenção, do Senhor Professor.
    Até amanhã! Até sempre!
    Júlia Príncipe

    • Raul Iturra says:

      Cara Júlia Príncipe,
      Obrigado por ler os meus textos e pelos seus comentários. Agradeço as suas palavras, não são disparates, como diz, bem ao contrário, som palavra de solidariedade. A história que narro é real e consegui colocar a senhora fora desse luta maligno e está bem melhor fica e psicologicamente. Com prazer e carinho
      Raúl Iturra
      lautaro@netcabo.pt

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