As escolas privadas de Coimbra também foram chorar a Lisboa

Como era de esperar a luta dos empresários privados, e confissões religiosas, continua. Vejam o caso de Coimbra. A verde os que, só da zona urbana, foram hoje manifestar-se. A amarelo a rede de ensino pública (2º e 3º ciclo e secundário), com quase todas as escolas subaproveitadas, algumas muito longe do número de alunos que já tiveram.

Escolas-de-Coimbra

Transcrevo também o comunicado do meu Sindicato, o SPRC, que desde sempre denunciou esta situação pregando aos peixes, enquanto o Ministério da Educação continuava a esbanjar o seu orçamento para satisfazer a ganância de alguns empresários e de uma confissão religiosa:

POSIÇÃO DO SPRC FACE AOS PROTESTOS PROMOVIDOS PELOS EMPRESÁRIOS DO SECTOR DA EDUCAÇÃO

Também na região centro, colégios privados com contrato de associação iniciaram hoje alguns dias de protesto com o objectivo de continuarem a pressionar o governo a pagar-lhes um valor superior ao do financiamento das escolas públicas.

Ao longo de muitos anos, o poder político, não só fechou os olhos, como pactuou com a proliferação destes colégios, alguns dos quais construídos ao lado de escolas públicas, mas, mesmo assim, tendo celebrado contrato de associação com o Estado.

Exemplo em Coimbra foi o Colégio de São Martinho que, praticamente, se encostou às EB 2.3 de Taveiro e Inês de Castro, ficando sempre a dúvida (que ainda hoje paira) sobre os expedientes que os proprietários do colégio (ex-dirigentes da DREC) terão utilizado para obterem o que, pela lei vigente, a todos parecia impossível.

Mas não é esse o único problema. As histórias contadas por professores de colégios são muitas e os documentos que as ilustram permitem perceber como enriqueceram empresários que encararam a Educação como um negócio, tendo, alguns, construído verdadeiros impérios.

Confessa um desses empresários que, pela forma como organiza as coisas, põe uma turma a funcionar todo o ano por pouco mais de 50.000 euros. Acima desse valor tem lucro, pretendendo garantir que ele seja o mais elevado possível. Se é assim ou não é, o SPRC desconhece, mas que os sinais exteriores de muito lucro existem, isso está à vista de todos!

O que chega ao Sindicato, relatado por vários professores, chega a surpreender e indignar. São…

… os recibos de vencimento que exibem valores superiores ao que é pago;

… a devolução, em dinheiro, do montante correspondente ao subsídio de refeição;

… os horários que apresentam uma “face oculta”, havendo muitos em que são impostas actividades lectivas na componente não lectiva;

… as (muitas) horas de trabalho “à borla”;

… as professoras que estiveram de licença de maternidade e entregaram ao patrão o cheque da Segurança Social que receberam quando regressaram ao serviço;

… os registos biográficos que não correspondem à assiduidade dos docentes: uns por defeito, outros por excesso;

… as actividades pagas pelo ME que também são pagas pelos pais mas que não são pagas aos professores que as desenvolvem…

São muitas as histórias que chegam ao Sindicato, grande parte seguindo depois o percurso normal da via jurídica, não surpreendendo que professores obtenham indemnizações que, no caso do SPRC, já atingiram os cem mil euros.

É agora num quadro de redução do financiamento público que os colégios ameaçam encerrar as suas portas durante alguns dias. Como? Em lock-out? Não podem! Em greve dos professores? Não há! Por decisão dos pais que impedem as crianças de frequentar a escola? É preciso cuidado, pois, por essa razão, há pais de alunos de escolas públicas que foram abordados pela polícia por não garantirem que os seus filhos frequentassem a escolaridade obrigatória. Como vale mais prevenir do que remediar, aos professores o SPRC aconselha: cumpram, nesses dias, o seu horário na escola, não vá a entidade patronal descontar-lhes o salário do dia de trabalho.

Apanhados neste turbilhão, sobre os professores abate-se uma violenta onda de pressões e ameaças, sendo “convidados” a aceitar cortes nos salários, alterações nos horários e até indemnizações para serem despedidos. É vergonhoso que isto aconteça, pois são situações que têm lugar num clima de grande pressão sobre os docentes! Para o SPRC, não há qualquer justificação para que não se cumpra o clausulado do Contrato Colectivo de Trabalho e não se respeitem as normas das leis laborais, pelo que não pactuará com as ilegalidades praticadas.

É insuficiente a verba que os colégios recebem para promoverem uma resposta que, no caso dos contratos de associação, é pública? Há que fazer contas e saber isso, mas fazê-las também para o público, pois, neste caso, o ensino não pode ter custos diferentes conforme os promotores!

Foi a passividade de vários governos que permitiu chegar ao ponto a que se chegou. Durante quantos anos o poder político fechou os olhos e arquivou processos disciplinares instaurados a colégios? Talvez por isso se sinta hoje refém da sua própria apatia.

Comments

  1. Oportuno mapeamento João José! As cartas educativas devem ser, neste momento, preciosos instrumentos de trabalho, de modo a aferir (e desconstruir quando for o caso) as pretendidas necessidades de “outsourcing”. Para além da rotina em que os apoios ao privado caíram ao longo dos anos (felizmente o Ministério acordou agora para o problema), fica a letargia no esforço de cobertura total – pelo sistema público – das necessidades de educação.

  2. mas porque será que quando há a opção entre uma pública estatal e uma pública privada os pais escolhem a privada?

    • Pedrso Silva says:

      Que pais? Fale por si. Eu não preciso de mostrar ao vizinho do lado que o meu filho anda num colégio privado.

    • Pai exigente com a real educação (e formação para a cidadania) do filho says:

      Não no caso do meu filho. Ponderadas as opções entre escola pública e escola privada, a principal conclusão foi a de que, na minha área de residência, a única vantagem da escola privada era a de “armar ao pingarelho”; as reais insuficiências pedagógicas eram tanto ou mais acentuadas do que na escola pública, o acesso a actividades extra-curriculares era bastante mais restringido, a incidência de casos conhecidos de “bullying” era equivalente em ambos os casos (mas com a agravante, na opção privada, de os níveis de sofisticação dos perpretadores serem bastante mais elevados). Só que, na escola privada, as “vantagens” de a frequentar eram concedidas a troco de muitos maravedis…

      Ah, é verdade! E como na escola pública não há uniforme, o meu filho não se passeia pela vizinhança com toda a cagança de quem paga para fazer publicidade à escola.

      Além disso, vão-me perdoar, mas como tanto eu como a minha mulher, que fizémos toda a nossa aprendizagem na escola pública, acabámos por nos doutorar, apesar do lastro de incompetência de que é supostamente apanágio o ensino público, não consigo deixar de pensar, no caso das escolhas educativas para o meu filho, no lema a que me sujeitei durante o SMO: “Instrução dura; combate fácil”!

  3. mas quem falou aqui de mostrar ao vizinho? o vizinho é aquilo que menos me interessa (sim, eu sei que em Portugal reina a filosofia do parecer e não do ser). quando se opta por uma escola pública privada é porque ela nos dá garantias de uma boa educação cívica e científica. é a minha opinião e a de muitos pais neste país, incluindo muitos professores do ensino estatal. só assim se compreende que as escolas públicas estatais fiquem às moscas, quando na zona há a opção da pública privada. ser´s isto que atormenta o nosso governo? porque se há escolas públucas privadas que não cumprem as regras o que andaram a fazer os sindicatos estes anos todos? a “mamar” no estado, como o senhores gostam de dizer. e o que andaram os nossos serviços de inspecção andaram a fazer? a “mamar” no estado. porque se lembraram aó agora destas coisas? terá algo a ver com a dívida à EP Parque Escolar?

    • Lia Ribeiro says:

      Meu caro, sou professora da escola pública porque a classificicação que obtive na minha licenciatura me permitiu escolher o sistema que me dava mais garantias em termos de carreira e remuneratórios. Mas quantos meus colegas não conseguiram colocação na escola pública? Eles bem tentaram, mas a sua nota, logo a sua qualidade científica e pedagógica, não lhes permitiu. Nem na Madeira, nem no Açores. Então para onde vão? Para os colégios privados, onde sujeitam ao despotismo de alguns directores. E os pais continuam com este preconceito pequeno burguês de que o ensino privado é melhor. Eu própria fui convidada para leccionar num desses colégios a 1 km de casa e preferi ir para uma escola pública a 50km. Só lamento ter que escrever estas afirmações tão pouco deontológicas, mas absolutamente verdadeiras

      • bertold says:

        Eu fui professor do privado…. no alentejo…. profundo…. onde colegas do público acumulavam… eram eles que diziam que o nosso ambiente escolar, o nível pedagógio, o relacionamento com a direcção da escola, a camaradagem entre professores…. eram, de facto, muito mais exigentes mas também muito mais gratificantes. Era curioso que muitos dos nossos alunos eram filhos de professores… Não ministrávamos, efectivamente, um ensino inodoro, insípido e incolor… Mais a mais e permitam-me este comentário “a latere”, considero esta geração de professores bem preparada do ponto de vista pedagógico e, profissionalmente, competente, contudo, sabendo muitas coisas de ordem técnica, tenho para mim, que é muito pouco culta.
        Veritatem facientes

      • filipa martins says:

        caríssima, a escola pública não distingue entre notas dos professores. se assim fosse não estaria a abarrotar… nas escolas privadas, quem lá entra apresenta currículo, que é avaliado.
        sou docente numa escola privada, tenho mestrado e estou a fazer o doutoramento. sabe porque não quis ficar na escola privada perto de sua casa? porque sabia que teria de trabalhar o dobro pelo mesmo preço.

  4. paulo says:

    Estes senhores, não os entendo! Porque é que as escolas privadas estão cheias?! E pq é q as vossas estão vazias?! Só os srs é que são inteligentes e os outros pais todos são destituídos!
    Irra, que não há paciência para ouvir estas ladainhas! Coitadinhos, não tem autocarro, não tem estabilidade docente, não tem Projecto educativo que interessa, não respondem em termos de horários, não se preocupam com os rankings, nem querem ser avaliados….. é só direitos! Deveres? Poucos como convém à fama do “funcionário público” que os srs ajudaram a construir!

  5. As escolas prrivadas estão cheias, fundamentalmente, porque os miudos podem lá ficar das 8 as 19 para os pais terem tempo para se desresponsabilizarem de os acompanhar…

    Há uns anos fui a uma reunião para perceber se havia alguma vantagem em colocar o meu filho num colégio e percebi que para a maior parte dos pais o horário era a maior preocupação, antes do projecto educativo….algo que muitos nem percebem bem o que é

  6. Torquemada says:

    “Escolas públicas privadas”? Que mais faltará engendrar para lançar a confusão no debate…

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  1. […] This post was mentioned on Twitter by Blogue Aventar, Pedro Sales. Pedro Sales said: é favor ver este mapa c localização colégios c contratos de associação em Coimbra RT @aventar: As escolas privadas… http://bit.ly/hwxR3j” […]

  2. […] sublinhado é meu) sabe que está a mentir. O mapa  da rede escolar pública e privada que publiquei ontem demonstra como isso não é verdade em Coimbra cidade, e na esmagadora maioria […]

  3. […] post do João José Cardoso sobre a manifestação das escolas privadas em Lisboa fez-me querer saber quais são as 93 escolas […]

  4. […] roubarem descaradamente alunos à rede pública, criando um gueto social absurdo, conforme tenho escrito e repetido. Destaco estes […]

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